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Ciro Sanches Zibordi: O pastor assembleiano que ensina os pregadores a evitar erros

Diego Gonçalves16 min de leitura3.108 palavras

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Neste texto

Um rapaz de 18 anos ouviu uma pregação do pastor Valdir Nunes Bícego, numa Assembleia de Deus de São Paulo, e saiu dali convencido de que Deus o chamava para pregar. Durante quase vinte anos, Ciro Sanches Zibordi levou esse chamado em paralelo a uma carreira em informática, que incluiu o trabalho de analista de sistemas na Credicard. Quando trocou os computadores pelos livros, tornou-se um dos autores mais lidos da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), com uma série de títulos que começam do mesmo modo: Erros que os Pregadores Devem Evitar, Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar, Erros que os Adoradores Devem Evitar, Erros Escatológicos que os Pregadores Devem Evitar. O fio que une esses livros é a convicção de que o púlpito precisa voltar à Bíblia, e foi com essa convicção que ele entrou no debate entre calvinistas e arminianos.

Vida

Conversão e chamado em São Paulo

Ciro Sanches Zibordi nasceu em 16 de março de 1970, na cidade de São Paulo. Converteu-se em 1985 na Assembleia de Deus de Vila Míriam, no bairro de Pirituba. Foi batizado nas águas em setembro de 1987, na Assembleia de Deus do Belenzinho, e na mesma época recebeu o batismo no Espírito Santo, a experiência que os pentecostais entendem como um revestimento de poder posterior à conversão. Naquele ano começou a trabalhar com tecnologia da informação, área em que ficaria até 2005.

Estudou teologia na Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP), a antiga Escola Teológica Pastor Cícero Canuto de Lima. Casou-se com Luciana em dezembro de 1991 e, no ano seguinte, foi separado diácono, em maio, e presbítero, em setembro. Em 1992 começou a lecionar na FAESP, onde ensinou de Homilética a Teologia Sistemática por dez anos. Em 1993 publicou o primeiro texto no Mensageiro da Paz, o jornal oficial das Assembleias de Deus no Brasil.

Em 1995, ainda presbítero, assumiu uma congregação na Vila Zatt, em Pirituba. Em 1997 foi consagrado pastor pela Assembleia de Deus do Belenzinho e dirigiu por alguns meses a congregação do Parque São Domingos. Em 1998 passou a assessorar o pastor regional do setor da Lapa, onde acumulou a superintendência da Escola Dominical, a coordenação do ensino teológico e a mocidade, e em 1999 assumiu o núcleo da FAESP na Lapa. Desde 1997 escreveu também sete comentários das Lições Bíblicas de juvenis e adolescentes, as revistas trimestrais da Escola Dominical.

A CPAD e os livros

Em 2001 foi contratado pela CPAD, no Rio de Janeiro, como gerente de informática, e logo passou ao departamento de publicações como editor de obras nacionais, cargo em que ficou até 2005. Nesses anos saíram os primeiros livros, Perguntas Intrigantes que os Jovens Costumam Fazer (2003) e Adolescentes S/A (2004).

O livro que o tornou conhecido foi Erros que os Pregadores Devem Evitar (2005). Em tom bem-humorado, ele recolhe clichês de púlpito, versículos citados fora do lugar e os chamados “versículos novos”, frases que circulam como se estivessem na Bíblia, e propõe Jesus como o modelo do pregador. O livro se tornou um dos mais vendidos da editora. Vieram depois Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria (2006), em que o apóstolo aparece como personagem diante das mensagens pregadas hoje em seu nome, como o “evangelho do entretenimento”, e Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar (2007). Em janeiro de 2007 abriu o Blog do Ciro, que se tornou o principal espaço dos seus artigos de doutrina. Em 2010 passou a escrever para o jornal americano The Christian Post, e foi também colunista do portal CPAD News e da revista Seara.

A Teologia Sistemática Pentecostal

Em setembro de 2008 a CPAD lançou a Teologia Sistemática Pentecostal, obra coletiva editada por Antonio Gilberto, com unidades de Claudionor de Andrade, Esequias Soares, Elienai Cabral, Geremias do Couto e outros. Zibordi escreveu a unidade de Escatologia, “a doutrina das últimas coisas”, e Gilberto lhe agradeceu na apresentação por ter trabalhado todo o texto da obra como editor antes dele. Zibordi também foi pastor auxiliar na Assembleia de Deus de Cordovil, no Rio de Janeiro, a igreja em que Gilberto congregava.

O capítulo se tornou referência. Em 2014, o pesquisador Fernando Albano, num artigo da revista Caminhos, da PUC Goiás, tomou Zibordi como representante da escatologia assembleiana e reproduziu a ordem dos acontecimentos finais que ele propõe: o arrebatamento da Igreja, o tribunal de Cristo, a grande tribulação, a vinda de Jesus à terra, o fim do império do Anticristo, o julgamento das nações, o milênio, a revolta e o julgamento do Diabo, o juízo final e os novos céus e a nova terra.

Em setembro de 2008 entrou para a Casa de Letras Emílio Conde, e em março de 2009, para a Academia Evangélica de Letras do Brasil. Em 2010 completou a trilogia dos “erros” com Erros que os Adoradores Devem Evitar, sobre estilos musicais, dança e, sobretudo, as letras de canções evangélicas conhecidas, e publicou pela Editora Candeia Autoajuda ou Ajuda do Alto. Em 2012 saiu Erros Escatológicos que os Pregadores Devem Evitar, sobre as profecias do Apocalipse e as teorias de conspiração que circulam nos púlpitos.

Niterói e o ensino pela internet

Zibordi estudou Letras (português e francês) na Universidade Federal Fluminense e se formou em Relações Internacionais pela Universidade La Salle, em Niterói. Tornou-se pastor da Assembleia de Deus da Ilha da Conceição, em Niterói, e professor do CETADEB. Em 2015 lançou Procuram-se Pregadores como Paulo, e entre 2018 e 2020 escreveu a série Pregadores da Bíblia, em sete volumes, cada um dedicado a um pregador do Novo Testamento, de João Batista a Paulo, fechando com Jesus.

Na última década boa parte do seu ensino passou para o vídeo. O canal “Ciro Zibordi - EBD e Escatologia”, no YouTube, traz aulas semanais sobre as Lições Bíblicas da CPAD e estudos do Apocalipse “perícope por perícope”, e em 2024 passou dos cem mil inscritos. Em 2023 foi um dos entrevistados do Encontro com os Autores da CPAD na 46ª Assembleia Geral Ordinária da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), em Novo Hamburgo (RS).

Pensamento

Um pentecostal arminiano que desconfia de rótulos

Ciro Sanches Zibordi é um pentecostal arminiano. A classificação se apoia no artigo “Para um pentecostal, o que é o arminianismo?”, publicado no seu blog em 11 de fevereiro de 2016. Ali ele expõe a soteriologia arminiana pelo resumo FACTS, a resposta arminiana aos cinco pontos do calvinismo, e se inclui em uma das escolas: ao tratar da segurança da salvação, separa a posição dos “calvinistas moderados”, como Norman Geisler, da posição “dos wesleyanos”, “da qual este articulista faz parte”. No mesmo texto afirma que os pentecostais “que se prezam” são, em geral, arminianos clássicos, e cita Stanley Horton, Antonio Gilberto e Esequias Soares como exemplos.

O caminho até essa definição foi gradual. Em 2011 ele escreveu: “Sou grande apreciador da Soteriologia (Doutrina da Salvação). Mas não sou calvinista ou arminiano”. Na série “Calvinismo, arminianismo ou a Bíblia?” (2007), insistia que só a Escritura responde às perguntas sobre a salvação e advertia contra depender da teologia de “homens falíveis”. Em 2016 manteve a ressalva com uma brincadeira: a um amigo calvinista que lhe perguntou de que lado estava, respondeu “Nenhum dos dois. Sou pentecostal”. E explicou que ser pentecostal “é mais que ser arminiano”, porque a soteriologia arminiana já está contida no pentecostalismo genuíno. No mesmo dia publicou “O perigo da arminiolatria”, contra jovens arminianos que zombavam de pastores nas redes sociais: “Estou cansado dessa arminiolatria! E também da calvinolatria!”.

Graça, expiação e eleição

Zibordi define o arminianismo como “a teologia dos seguidores de Armínio” e o separa do arminianismo liberal de Philip van Limborch e de seus sucessores, que ele acusa de se aproximar do pelagianismo e do semipelagianismo. Sustenta que a salvação ocorre “exclusivamente pela graça”, e descreve a graça preveniente, a graça que vem antes da fé, como “a graça preparatória do Espírito Santo exercida no homem abandonado em pecado”: convincente, convidativa, iluminadora e capacitadora. Ela persuade e não coage; Deus oferece a salvação sem a impor. Ele admite que ideias semipelagianas, em que o homem dá o primeiro passo, “em parte prevalecem” em alguns círculos pentecostais, e diz que os arminianos foram acusados disso “com certa justiça” por causa de Charles Finney e dos remonstrantes liberais. A sua referência é Jacó Armínio e, sobretudo, John Wesley, a quem chama de a maior fonte do arminianismo clássico.

A expiação ilimitada, a convicção de que Cristo morreu por todos, ele a defendeu em 2009 num debate com um leitor calvinista: “Ele morreu pelos pecadores, mas nem todos os pecadores creem nEle para a vida eterna”. A cruz basta para todos, e a redenção se torna eficaz em quem crê (1 Timóteo 2:4-6; Hebreus 2:9; 1 João 2:2). O site trata do tema em Arminianismo: expiação para todos.

Na eleição condicional, ele distingue duas escolas arminianas: a que liga a eleição à presciência, o conhecimento antecipado que Deus tem de quem vai crer, e a da eleição corporativa, em que Deus elegeu a Igreja “nEle”, em Cristo, e não indivíduos isolados. Zibordi fica com a segunda, e a leitura aparece na sua exegese de Romanos 9 (2008), tema que o site trata em Presciência, eleição e predestinação. Jacó e Esaú representam dois povos, Israel e Edom (Gênesis 25:23; Malaquias 1:2-3), e “aborreci” é um modo hebraico de dizer “amei menos” (Lucas 14:26): “Não há, pois, apoio a uma eleição individual, e sim a uma eleição de povos e nações”. Faraó endureceu primeiro o próprio coração, e Deus confirmou essa disposição. Romanos 9:16 fala da fonte da salvação, a misericórdia de Deus, e não do modo de recebê-la. Quando ele voltou ao tema em 2015, o blog calvinista Bereianos respondeu com a réplica “Erros que o Ciro Sanches Zibordi e os arminianos devem evitar”, que já o tratava como porta-voz do lado arminiano entre os assembleianos.

Depravação, perseverança e santificação

Na depravação total, a formulação de Zibordi é a que mais se afasta do arminianismo clássico. Ele escreve que a depravação é “extensiva e corruptora, e não intensiva e destruidora”, e que “a vontade do homem foi diminuída, e não destruída”: o ser humano nasce com propensão ao pecado, e não com a necessidade de pecar. Armínio foi mais longe. Nas Disputas públicas (XI), diz que o livre-arbítrio do homem para o verdadeiro bem não está só ferido e enfraquecido, mas “aprisionado, destruído e perdido”, e só a graça o liberta. A declaração de fé do site segue Armínio: todos nascemos “incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar”. Zibordi, porém, não tira da graça o começo da salvação. Afirma que o Espírito capacita o pecador antes da fé e do arrependimento e que o homem caído não inicia a salvação pela própria boa vontade, o que o mantém longe do semipelagianismo que ele mesmo critica. O assunto está desenvolvido em A graça preveniente em Armínio.

Na perseverança, adota a posição wesleyana da perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo, e a fé pode ser abandonada. “A salvação pode ser perdida, mas não por qualquer motivo”, resume. Em 2008 argumentou, com Êxodo 32:33 e Apocalipse 3:5, que a promessa de não ter o nome riscado do livro da vida é feita a quem vencer, e que quem abandona conscientemente a fé abre mão da salvação, sem que Deus a tire à força. O site segue a mesma linha em Arminianismo: a segurança da salvação e em Apostasia na Bíblia.

A santificação, para ele, é progressiva (Efésios 2:8-10; Hebreus 12:14). Ele cita a doutrina wesleyana da perfeição cristã na forma de H. Orton Wiley, mas descreve a santificação pentecostal como um processo contínuo. A declaração de fé do site vai além e afirma também a inteira santificação, uma obra da graça, posterior à regeneração e recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor perfeito.

Pentecostalismo com a Bíblia no centro

Numa entrevista ao portal Guiame, em março de 2021, Zibordi resumiu a sua posição: “Valorizamos a experiência, mas priorizamos as Escrituras”. Defendeu a doutrina da subsequência, segundo a qual o batismo no Espírito Santo vem depois da salvação, como revestimento de poder para testemunhar, e chamou o neopentecostalismo de movimento pseudopentecostal, marcado pela teologia da prosperidade. Num texto de 2014 sobre o culto pentecostal, apontou como marcas a edificação, o uso da razão, a ordem, o discernimento e a submissão à Palavra: “O verdadeiro avivamento só ocorre quando há submissão à Palavra de Deus e ao Deus da Palavra”.

Na escatologia, Zibordi é pré-tribulacionista e pré-milenista: espera o arrebatamento da Igreja antes de uma grande tribulação de sete anos, a volta visível de Cristo depois dela e um reino de mil anos na terra. Em 2021 disse que talvez já estejamos no “princípio das dores” (Mateus 24:8), período que, segundo ele, começa um pouco antes do arrebatamento. Aqui a diferença com a declaração de fé do site é clara: ela é amilenista, lê os mil anos de Apocalipse 20 como o tempo atual, entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, e espera uma só segunda vinda, seguida da ressurreição de todos e do juízo final.

Obras principais

  • Perguntas Intrigantes que os Jovens Costumam Fazer (CPAD, 2003).
  • Adolescentes S/A (CPAD, 2004).
  • Erros que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2005).
  • Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria (CPAD, 2006).
  • Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2007).
  • “Escatologia: a doutrina das últimas coisas”, em Antonio Gilberto (ed.), Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD, 2008).
  • Erros que os Adoradores Devem Evitar (CPAD, 2010).
  • Autoajuda ou Ajuda do Alto (Candeia, 2010).
  • Erros Escatológicos que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2012).
  • Procuram-se Pregadores como Paulo (CPAD, 2015).
  • Série Pregadores da Bíblia (CPAD, 2018-2020), em sete volumes: João Batista, Estêvão, Pedro, Filipe, Barnabé, Paulo e Jesus.
  • “Para um pentecostal, o que é o arminianismo?”, Blog do Ciro, 11 de fevereiro de 2016.

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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