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Jorge Pinheiro: O militante trotskista que se tornou teólogo batista
Neste texto
- Vida
- Rio de Janeiro e o exílio
- Versus, Convergência Socialista e a anistia
- A conversão e o pastorado batista
- O professor e o pesquisador
- Pensamento
- A salvação: um batista de quatro pontos
- A imagem de Deus e a liberdade de consciência
- Tillich, Dussel e a fé diante da política
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No dia 1º de fevereiro de 1979, um jornalista procurado pela Justiça Militar entrou por conta própria na 2ª Auditoria do Exército, em São Paulo, para depor. Jorge Pinheiro dos Santos era editor-chefe do jornal Versus e o único réu revel do processo contra o clandestino Partido Socialista dos Trabalhadores. Depois do interrogatório, o tribunal revogou a prisão preventiva decretada em outubro do ano anterior. Vinte anos depois, o mesmo homem dava aulas de teologia sistemática numa faculdade batista e pastoreava a Igreja Batista em Perdizes. O dossiê que o Serviço Nacional de Informações guardava sobre ele, ele mesmo o publicou, com humor, no fim do seu livro de memórias.
Vida
Rio de Janeiro e o exílio
Jorge Pinheiro dos Santos nasceu no Rio de Janeiro, em 5 de março de 1945. Desde o tempo de secundarista teve intensa atividade política, e começou no Rio o curso de Jornalismo, que não terminou. No fim dos anos 1960 militava no Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), um dos grupos que enfrentavam a ditadura militar. O período de 1969 a 1973 é o centro das memórias que escreveu em 2008: o MNR, o primeiro exílio, o Chile de Salvador Allende e a prisão depois do golpe de Augusto Pinochet.
O exílio durou de 1971 a 1974, no Chile e na Argentina. Em Santiago, Pinheiro tentou retomar o Jornalismo na Universidade do Chile, mas o golpe de setembro de 1973 interrompeu os planos. Entre os exilados brasileiros formou-se o grupo Ponto de Partida, de orientação trotskista, e quando o grupo se dividiu ele ficou com a ala que defendia a participação dos exilados no processo revolucionário chileno. Nas memórias, conta que foi preso depois do golpe, condenado e levado ao paredão de fuzilamento, e que sobreviveu para contar a história.
Em Buenos Aires, no fim de 1973, quatro militantes brasileiros vindos do Chile fundaram a Liga Operária, organização trotskista que publicaria no Brasil o jornal Independência Operária: Pinheiro, Maria José Lourenço, Valderez Duarte e Waldo Mermelstein. Mermelstein lembra que Pinheiro e Maria José eram os mais experientes e foram os principais condutores políticos e organizativos do grupo até 1979. Em 1974, Pinheiro voltou ao Brasil por Curitiba, onde um advogado lhe dera garantias para entrar no país.
Versus, Convergência Socialista e a anistia
Nos anos seguintes, Pinheiro foi editor do Versus e diretor dos jornais Ponto de Partida e Convergência Socialista, em São Paulo. Em 1977 teve de sair outra vez, para a Espanha e Portugal. Em 1978 a Liga Operária passou a se chamar Partido Socialista dos Trabalhadores, e Pinheiro entrou para a coordenação nacional da Convergência Socialista, movimento que propunha a construção de um partido socialista legal. Em outubro de 1978 a Justiça Militar decretou a prisão preventiva de onze militantes do PST com base na Lei de Segurança Nacional, e ele ficou foragido até o depoimento de fevereiro de 1979.
Em dezembro de 1979 a anistia extinguiu a punibilidade, e Pinheiro participou dos debates que levaram à fundação do Partido dos Trabalhadores. Foi um dos autores de “Um primeiro borrador”, texto de junho de 1979 que propunha aos militantes da Convergência a construção de um partido dos trabalhadores, e em março de 1980 assinou no jornal O Trabalho o artigo “Convergência: queremos um PT sem patrões”. Essa experiência voltaria, vinte anos depois, como objeto das suas pesquisas acadêmicas.
A conversão e o pastorado batista
Nos anos 1990, Pinheiro passou a tratar a questão social a partir da fé cristã, mudança que, segundo ele, “aumentou e não diminuiu meu compromisso com os deserdados da terra”. Ele descreve a conversão como um encontro com o protestantismo reformado, “um ato de fé no sacrifício vicário do Cristo”, que não o fez abandonar a consciência política. Cursou Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo entre 1995 e 2001, com bolsa da Igreja Batista em Perdizes.
Durante 21 anos foi pastor em São Paulo, primeiro na Missão Batista Memorial da América Latina e depois na Igreja Batista em Perdizes, fundada em 1942 e pastoreada no passado por Enéas Tognini. Na lista de pastores de Perdizes, o nome dele vem entre os de João Marcos Barreto Soares e José Januário da Silva Filho.
O professor e o pesquisador
De 1996 a 2017, Pinheiro foi professor de tempo integral da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, responsável pela área de Teologia e História, com as disciplinas de Teologia Contemporânea e Teologia Sistemática, na graduação e no mestrado.
Na pós-graduação, voltou à própria história com as ferramentas da teologia. O mestrado em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo (2000-2001), orientado por Etienne Higuet, estudou o pensamento da Convergência Socialista no Versus à luz dos escritos socialistas de Paul Tillich, teólogo luterano alemão. O doutorado (2002-2006), com bolsa do CNPq e um período na Faculdade de Teologia Protestante de Montpellier, na França, resultou na tese O espectro do vermelho, uma leitura teológica do socialismo no Partido dos Trabalhadores a partir de Tillich e do filósofo argentino Enrique Dussel. Seguiram-se pós-doutorados na Universidade Presbiteriana Mackenzie (2006-2008) e na Metodista (2009-2011).
Pinheiro participou com frequência dos seminários da Sociedade Paul Tillich do Brasil e organizou com Higuet o de 2007. Escreveu para as revistas Teológica e Correlatio e para os portais Via Política e Terapia Política. A partir de 2006 publicou uma série de livros pela Fonte Editorial, de São Paulo, e mantém um blog com estudos, sermões e textos em francês.
Pensamento
A salvação: um batista de quatro pontos
Pinheiro pertence à classe dos simpatizantes do arminianismo, na forma do batista de “quatro pontos”: ensina a graça, a eleição e a expiação como Armínio, mas guarda a segurança eterna da confissão batista brasileira, e não se apresenta como arminiano.
Nos pontos de Teologia Sistemática que publicou para os alunos em 2009, “A graça e a salvação”, a sequência segue de perto os artigos da Remonstrância de 1610. Deus elegeu em Cristo os que pela graça creem em Jesus; Cristo morreu por todas as pessoas; e a pessoa “não pode obter a fé salvadora por si mesmo ou pela força do seu livre-arbítrio”, mas precisa da graça para ter a vontade e o pensamento renovados. A graça é a causa do começo, do progresso e da completude da salvação, mas a sua operação “não é irresistível” (Atos 7:51).
O centro dessas aulas é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Lendo 1 Timóteo 4:10, Pinheiro distingue uma salvação universal e outra especial, a dos que creem. A primeira é a graça preveniente, dada a todos porque Deus é amor, e é ela que restaura ao ser humano a capacidade de aceitar o chamado: “Sem a atuação da graça, nenhuma pessoa teria livre-arbítrio”. A liberdade é o arbítrio libertado pela graça que convence, ilumina e capacita, e a responsabilidade humana consiste em não resistir ao Espírito Santo. É o caminho da Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio: a vontade caída não pode nada para o bem, e a fé nasce da graça que a liberta.
No artigo “A doutrina da eleição: calvinismo, arminianismo e o equilíbrio da doutrina batista” (Teológica, 2008), Pinheiro diz que o calvinismo olha a eleição “de cima”, a partir da soberania de Deus, e o arminianismo “de baixo”, a partir da liberdade humana, e apresenta a doutrina batista como síntese das duas perspectivas. Ele lembra que Armínio “acreditava no pecado original” e via a vontade caída “incapacitada para produzir qualquer bem espiritual”, e por isso o separa de Pelágio. A síntese é a da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira: Deus elegeu, “à luz de sua presciência”, os que aceitariam livremente a salvação, e “a salvação do crente é eterna”.
Aqui está a diferença com o arminianismo clássico e com a declaração de fé deste site, que ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a apostasia é possível (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). Pinheiro fica com a segurança eterna. Entre os batistas, há quem tenha chegado à perseverança condicional, como Robert Shank, e quem se declare arminiano sem reservas, como Jamierson Oliveira. Ver também Arminianismo: a segurança da salvação.
A imagem de Deus e a liberdade de consciência
O ser humano como imagem de Deus atravessa a obra de Pinheiro, de Somos a imagem de Deus (2000) a Imago Dei: a teologia do ser humano (2016). A antropologia cristã, para ele, começa na revelação: “Não se trata de conhecer o ser humano para conhecer a Deus, porque o homem não é Deus, mas o contrário”. Por isso recusa a analogia de Tomás de Aquino como caminho para conhecer Deus a partir do homem. A revelação é um diálogo de Deus com o ser humano, em Cristo, e a criatura decaída continua responsável por aceitar ou recusar esse diálogo.
A liberdade de consciência é, para ele, herança batista: lembra que John Smyth, um dos fundadores do movimento batista, levantou a bandeira da liberdade de consciência. No prefácio das memórias, a mesma ideia explica por que a conversão não apagou a política: os protestantes consideram “inalienável a liberdade de consciência”.
Tillich, Dussel e a fé diante da política
A obra acadêmica de Pinheiro é uma leitura teológica do socialismo brasileiro. De Tillich ele toma o método da correlação (a teologia responde às perguntas que a situação humana levanta), o “princípio protestante” (nenhuma instituição humana pode ocupar o lugar de Deus) e o par utopia e kairós: a utopia quer fixar a eternidade no tempo e termina em decepção; o kairós é o tempo oportuno em que algo absolutamente significativo irrompe na história e pede decisão. De Dussel toma a atenção aos excluídos e a religião vista como parte da base da vida social latino-americana.
Na tese, Pinheiro sustenta que o socialismo do PT nasceu de um amálgama de correntes soldadas a um núcleo sindical e às Comunidades Eclesiais de Base, e que nele havia uma “religiosidade cristã invisível”, presente como consciência religiosa mais do que como discurso cristão. Conclui que o PT, ao fazer da democracia o seu projeto central, afastou-se da utopia original.
O mesmo olhar se volta para a cultura brasileira. Em Deus é brasileiro: as brasilidades e o Reino de Deus (2008) ele pergunta por que o protestantismo tem dificuldade de dialogar com as culturas do país e defende que esse diálogo é possível; em O Paraíso Protestante (2013) volta aos huguenotes franceses que conviveram com os tupinambás no século XVI, a partir de Jean de Léry.
Numa entrevista à revista Defesa da Fé, quando fazia o doutorado, lembrou que igrejas evangélicas apoiaram a ditadura militar, enquanto outros crentes foram torturados, e disse que o papel político da religião é a defesa da justiça. Sobre a apologética, respondeu: “Concordo com Tillich, mas defendo uma apologética do amor”; sem testemunho e sem a plenitude do Espírito, a defesa da fé vira arma de guerra.
A linguagem vem de Tillich: o pecado aparece como “alienação”, Deus é chamado de “o Eterno” e a teologia é construção “sempre passageira e precária”, distinta da doutrina, que se apoia na revelação. Mas a soteriologia das suas aulas é a de um batista evangélico: salvação pela graça, mediante o arrependimento e a fé em Cristo, que morreu por todos.
Obras principais
- Somos a imagem de Deus: ensaios de antropologia teológica (Ágape, 2000)
- Ética e Espírito Profético (2002)
- Teologia e Política: Paul Tillich, Enrique Dussel e a experiência brasileira (Fonte Editorial, 2006)
- “A doutrina da eleição: calvinismo, arminianismo e o equilíbrio da doutrina batista”, Teológica, v. 5 (2008)
- Deus é brasileiro: as brasilidades e o Reino de Deus (Fonte Editorial, 2008)
- Teologia da Vida (Fonte Editorial, 2009)
- Teologia Bíblica e Sistemática: o ultimato da práxis protestante (Fonte Editorial, 2012)
- O Paraíso Protestante: Jean de Léry, notas antropofágicas sobre a questão huguenote-tupinambá (Fonte Editorial, 2013)
- Imago Dei: a teologia do ser humano (Fonte Editorial, 2016)
- Teologia socialista: os caminhos humanos no pensamento de Tillich e Dussel (Fonte Editorial, 2017)
- Kadish: vida, morte e reino (Fonte Editorial, 2018)
Livros em português
- Teologia e Política: Paul Tillich, Enrique Dussel e a experiência brasileira (Fonte Editorial, 2006). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Deus é brasileiro: as brasilidades e o Reino de Deus (Fonte Editorial, 2008). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Teologia da Vida (Fonte Editorial, 2009). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Teologia Bíblica e Sistemática: o ultimato da práxis protestante (Fonte Editorial, 2012). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Imago Dei: a teologia do ser humano (Fonte Editorial, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Teologia socialista: os caminhos humanos no pensamento de Tillich e Dussel (Fonte Editorial, 2017). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Jorge Pinheiro, Memórias de um coração louco (prefácio de 2008, com a nota “O autor” e o dossiê do SNI), blog Jorge Pinheiro.
- Jorge Pinheiro, A doutrina da eleição: calvinismo, arminianismo e o equilíbrio da doutrina batista, publicado na Teológica, v. 5, 2008.
- Jorge Pinheiro, A graça e a salvação e Maravilhosa graça (Teologia Sistemática, 2009), blog Jorge Pinheiro.
- Jorge Pinheiro dos Santos, O espectro do vermelho, tese de doutorado, Universidade Metodista de São Paulo, 2006.
- Currículo de Jorge Pinheiro (dados do Lattes), Escavador.
- Alvaro Bianchi, Do Ponto de Partida à fundação da Liga Operária (1970-1974), Esquerda Online, 2014.
- Waldo Mermelstein, Dos fundadores da Liga Operária ao início dos anos 80, 2009.
- Jorge Pinheiro: A religião é o ópio do povo, entrevista à revista Defesa da Fé, Instituto Cristão de Pesquisas.
- Igreja Batista em Perdizes, Sobre nós (história e lista de pastores).
- Fonte Editorial, Deus é Brasileiro: as brasilidades e o Reino de Deus.
- Terapia Política, página do autor Jorge Pinheiro.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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