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Wagner Gaby: O policial e capelão do Exército que preside a Assembleia de Deus em Curitiba

Diego Gonçalves15 min de leitura2.938 palavras

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Neste texto

Numa hora de almoço no centro de São Paulo, um office boy parou na Praça do Patriarca para ouvir um culto ao ar livre. O pregador, conhecido como Araújo, falava à multidão quando policiais chegaram e interromperam a reunião. Anos mais tarde, o rapaz contou ao Mensageiro da Paz que naquele dia sentiu uma voz interior dizer que um dia ele também pregaria numa praça pública. O office boy era Wagner Tadeu dos Santos Gaby. Ele passou pela Polícia Militar e pela Polícia Civil do Paraná, foi major capelão do Exército e, desde 2011, preside a Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Curitiba, que tinha 33 mil membros ativos quando ele foi eleito. Pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) escreveu cinco revistas trimestrais de Lições Bíblicas para adultos, estudadas nas Escolas Dominicais assembleianas de todo o Brasil.

Vida

De São Paulo ao norte do Paraná

Wagner Gaby nasceu na cidade de São Paulo, filho de Herculano Gaby e Aurora Marques dos Santos Gaby. Ao lado do episódio da praça, ele guarda a lembrança de uma tia, Emília, que vivia afastada da igreja havia mais de quarenta anos e lhe disse que ainda o veria pastor. A conversão veio em 23 de fevereiro de 1969. Em setembro do mesmo ano foi batizado nas águas na Assembleia de Deus em Arapongas, no norte do Paraná. Em 30 de julho de 1975 recebeu o batismo no Espírito Santo, a experiência que os pentecostais esperam depois da conversão, acompanhada do falar em línguas.

Polícia, Direito e capelania

Entre 1972 e 1976 Gaby serviu na Polícia Militar do Paraná, onde foi soldado, cabo e sargento. Em agosto de 2023 o Batalhão de Polícia de Trânsito do Paraná o recebeu em solenidade e lhe entregou uma foto histórica e um dossiê sobre aquele tempo de farda. Depois da PM, passou à Polícia Civil, onde foi escrivão, perito criminal (formado pela Escola de Polícia Civil em 1984) e assessor da Secretaria de Segurança Pública. Nesse período estudou Direito na Universidade Católica do Paraná, de 1979 a 1983, e se tornou advogado.

Em 1989 entrou para a capelania militar do Exército Brasileiro, com formação na Academia Militar das Agulhas Negras, na Escola de Sargentos das Armas e no Comando da 1ª Região Militar. A CPAD o apresenta como o primeiro capelão pentecostal das Forças Armadas. Serviu no Rio de Janeiro, no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul, e foi para a reserva como major capelão. No mesmo período fez pós-graduação em Docência Superior no Rio de Janeiro (1993) e mestrado em Educação pela Université Libre des Sciences de l’Homme, de Paris (2003). É também mestre em Teologia. Ensinou na Faculdade Evangélica do Paraná (FEPAR) e dirigiu a Faculdade de Administração, Ciências e Letras (FACEL), em Curitiba.

Ao lado de Pimentel

A formação teológica começou no Instituto Bíblico das Assembleias de Deus no Estado do Paraná (IBADEP), em Curitiba, onde fez o curso básico de Teologia de três anos na primeira turma, chamada “Pioneiros”. Em 1973 passou a trabalhar na Assembleia de Deus em Curitiba sob a liderança de José Pimentel de Carvalho, que presidia a igreja desde 1962. Cooperou na congregação do Prado Velho, assumiu em 1976 a direção da primeira congregação da Vila Isabel, foi consagrado presbítero em 18 de dezembro de 1977 e ordenado pastor em 14 de fevereiro de 1985. Dirigiu seminários em Curitiba, no Rio de Janeiro e em Brasília e ensinou Teologia em seis estados.

Na igreja de Curitiba foi assessor da presidência e depois vice-presidente, dirigindo o Templo Central ao lado de Pimentel. Ele descreve esses 38 anos como um tempo de aprendizado aos pés do mestre, à maneira de Paulo diante de Gamaliel: “Sou eternamente grato ao Senhor pela vida do pastor Pimentel”.

A presidência da igreja

Pimentel morreu em 24 de fevereiro de 2011, aos 95 anos. Em 27 de março, no Templo Central, cerca de nove mil dos 33 mil membros ativos votaram para escolher o sucessor entre quatro candidatos, entre eles o evangelista e deputado federal Hidekazu Takayama. Gaby recebeu 3.805 votos, 788 a mais que o segundo colocado, o pastor Mirislan Douglas Scheffel, e tomou posse no mesmo dia.

Na entrevista que deu logo depois, apresentou um programa amplo. No campo espiritual, prometeu a Santa Convocação, o Dia com Deus, um dia mensal de oração e jejum com os obreiros, cultos de vigília e o incentivo ao batismo no Espírito Santo: “Entendo que é urgente a necessidade de resgatar os valores espirituais, em primeiro lugar”. Na evangelização, retomou o projeto “Uma congregação em cada bairro”, porque 23 bairros de Curitiba não tinham congregação da igreja. Na área social, falou em orfanato, albergue, um departamento para a terceira idade e mais atendimento médico e odontológico pelo Instituto Betânia de Ação Social.

O trabalho público lhe rendeu o título de Cidadão Honorário de Curitiba, a Ordem Estadual do Pinheiro (dezembro de 2015), o título de Cidadão Honorário do Paraná, entregue em sessão solene da Assembleia Legislativa em 23 de fevereiro de 2016, e a comenda Ordem da Luz dos Pinhais, da Prefeitura de Curitiba, em 2023. Ocupa a cadeira 29 da Academia Evangélica de Letras do Brasil e é membro fundador da Casa de Letras Emílio Conde.

O comentarista da CPAD

Gaby escreve há décadas para as publicações da CPAD: artigos no jornal Mensageiro da Paz e nas revistas Manual do Obreiro e Ensinador Cristão. Como comentarista das Lições Bíblicas de adultos, assinou cinco trimestres: As doenças do nosso século (3º trimestre de 2008), A Missão Integral da Igreja (3º de 2011), As parábolas de Jesus (4º de 2018), Até os Confins da Terra (4º de 2023) e A Igreja dos Gentios (3º de 2026). Em 2008 escreveu o capítulo sobre os anjos da Teologia Sistemática Pentecostal, obra coletiva editada por Antonio Gilberto, com Claudionor de Andrade, Esequias Soares, Elinaldo Renovato, Elienai Cabral, Severino Pedro da Silva, Ciro Sanches Zibordi e outros. Com Eliel Gaby publicou Planejamento e Gestão Eclesiástica (CPAD, 2012), um manual de administração para líderes de igreja.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Wagner Gaby é um pentecostal arminiano. Não escreve como polemista de escola teológica; a sua posição aparece no modo como comenta os textos que dividem arminianos e calvinistas. O caso mais claro é Atos 13:48, o versículo em que Lucas diz que, em Antioquia da Pisídia, “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”. Na revista de 2026, Gaby adota a leitura da Bíblia de Estudo Pentecostal: “todos os que estavam dispostos para a vida eterna”. E explica por que os judeus da sinagoga ficaram de fora: “não por um decreto arbitrário, mas pela resistência voluntária ao Evangelho”. A conclusão é a fórmula arminiana da eleição condicional e da graça que pode ser recusada: “A salvação é oferecida a todos (1Tm 2.4; Tt 2.11; 2Pe 3.9), mas acolhida apenas pelos que creem” (Lições Bíblicas, 3º trimestre de 2026, lição 2).

Na lição seguinte, sobre o Concílio de Jerusalém, ele sugere ao professor uma “comparação respeitosa com correntes que restringem a salvação a um grupo previamente determinado”, isto é, com o calvinismo. A mesma posição está na confissão da sua igreja: a Declaração de Fé das Assembleias de Deus (2017) ensina a predestinação condicionada à fé em Cristo e afirma que a graça não é irresistível.

A graça vem primeiro

O arminianismo de Gaby não põe o ser humano no centro. Em todas as revistas, a iniciativa é de Deus. Sobre a conversão de Lídia, em Filipos, ele escreve que o episódio revela “que a conversão é obra da graça divina”; sobre o procônsul Sérgio Paulo, que “a Palavra de Deus é poderosa para transformar todo pecador em uma pessoa regenerada, alcançada pela graça”. Graça, explica, é cháris, palavra grega que “significa favor, bondade e dom imerecido”. O evangelho que chega a Roma no fim de Atos é “graça oferecida a todos, sem distinção”.

É o que a tradição arminiana chama de graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todas as pessoas, convence do pecado e torna possível crer, sem forçar ninguém (o site explica a doutrina em a graça preveniente em Armínio, e Armínio a expõe na Declaração de Sentimentos). A fé, por sua vez, não acrescenta mérito. Ao comentar o bom samaritano, Gaby é direto: “fazer obras de caridade não leva ninguém à salvação”. As boas obras são fruto da fé, e não a causa da salvação. O arrependimento é a porta: sem ele, escreve na lição sobre a ovelha perdida, “será impossível salvar-nos”.

Anjos, demônios e modismos

O capítulo “Angelologia: a doutrina dos anjos”, na Teologia Sistemática Pentecostal, é o texto mais longo de Gaby sobre doutrina. Começa com um alerta contra a moda dos anjos explorada pela Nova Era e contra a Confissão Positiva: cita Kenneth Copeland, para quem os anjos “estão obrigados a seguir” as ordens de quem declara a Palavra, e Gloria Copeland, que imagina quarenta mil anjos designados para cada crente e prontos a torná-lo rico. Contra isso, Gaby ensina que os anjos são criaturas, servos de Deus, e não podem receber adoração (Colossenses 2:18; Apocalipse 22:8-9).

O capítulo traz também um ponto de soteriologia. Os anjos, diz Gaby, foram criados perfeitos e, “como o homem, dotados de livre escolha”. A ideia de que os anjos caídos foram criados nesse estado ou se rebelaram porque Deus assim quis é, para ele, blasfema: “Deus nem os criou nem preordenou que os tais se rebelassem”. Os “anjos eleitos” de 1 Timóteo 5:21 são, com Myer Pearlman, os que permaneceram fiéis no tempo de prova. Deus não é autor do pecado, e a queda nasce do mau uso de uma liberdade real.

Outras posições do capítulo mostram um leitor cuidadoso da Bíblia. Os “filhos de Deus” de Gênesis 6:2 não são anjos, porque Jesus ensinou que os anjos não se casam (Mateus 22:30). Os “anjos das sete igrejas” do Apocalipse são os pastores, como lê Stanley Horton. Deus envia anjos para guardar os seus (Salmos 91:11), mas Mateus 18:10 não garante a cada criança um anjo da guarda particular. Nenhum crente em quem o Espírito Santo habita pode ficar endemoninhado. E Gaby critica, em segmentos pentecostais e sobretudo neopentecostais, os que trabalham com libertação de endemoninhados e “divulgam mais a atuação dos demônios do que a Palavra de Deus”.

Missão integral e Grande Comissão

O trimestre de 2011, A Missão Integral da Igreja, levou para as Escolas Dominicais assembleianas um termo nascido no evangelicalismo latino-americano. Para Gaby, “a Missão Integral é consequência da manifestação do Reino de Deus em nossas vidas”, vai além da evangelização e pede “uma visão integral do homem (corpo, alma e espírito)”; o cuidado com a criação também faz parte dela. O Reino já está presente e se completa na volta de Cristo.

A missão aos povos é o tema dos trimestres de 2023 e 2026. “A Grande Comissão não é uma opção a ser considerada. É um mandamento a ser obedecido.” As “nações” de Mateus 28:19 traduzem ethnos, grupos étnicos e não apenas países, e por isso a missão exige atravessar barreiras de língua, cultura e religião. Como bom pentecostal, Gaby insiste que essa obra só se faz por pessoas cheias do poder do Espírito Santo, o mesmo Espírito que convence do pecado e regenera. O modelo é a igreja de Antioquia, que jejuou, orou e enviou Paulo e Barnabé (Atos 13:1-3); o site trata do tema em a Grande Comissão no dia a dia.

As doenças do século

Na revista de 2008, Gaby leu 2 Timóteo 3 como diagnóstico da pós-modernidade. As “doenças do nosso século” são intrapessoais (orgulho, egoísmo, avareza), sociais (desobediência aos pais, ingratidão, crueldade, calúnia, abuso de poder) e religiosas (irreverência, amor aos prazeres). Entre elas estão o medo, a ansiedade, a depressão, o consumismo e as drogas. Na lição sobre a ansiedade, aponta a fé vacilante como causa principal, ao lado do excesso de trabalho e de perdas como o divórcio e o desemprego. O remédio que propõe é anunciar a salvação em Cristo e firmar a vida nos princípios da Palavra.

Diferenças com a declaração de fé deste site

A declaração de fé do site concorda com Gaby no essencial da salvação: Deus quer salvar todos, a graça vem antes e pode ser resistida, a fé recebe e não merece. As diferenças estão em dois pontos. Na escatologia, Gaby segue o pré-milenismo das Assembleias de Deus, com arrebatamento da Igreja, Grande Tribulação e reino de mil anos depois da volta de Cristo; o site é amilenista. Na santificação, as Assembleias de Deus ensinam um processo e o batismo no Espírito Santo como experiência posterior à conversão, enquanto a tradição wesleyana do site afirma também a inteira santificação, obra da graça recebida pela fé que enche o coração de amor perfeito.

Obras principais

  • Relações Públicas e Humanas para Líderes Cristãos (CPAD).
  • Manual Cívico-Jurídico do Cristão (Centro de Evangelismo Luz da Palavra, Curitiba).
  • As doenças do nosso século: as curas que a Bíblia oferece, Lições Bíblicas, 3º trimestre (CPAD, 2008); em livro, As Doenças do Século (CPAD).
  • “Angelologia: a doutrina dos anjos”, capítulo 9 de Teologia Sistemática Pentecostal, editada por Antonio Gilberto (CPAD, 2008).
  • A Missão Integral da Igreja: porque o Reino de Deus está entre vós, Lições Bíblicas, 3º trimestre (CPAD, 2011).
  • Planejamento e Gestão Eclesiástica, com Eliel Gaby (CPAD, 2012).
  • As parábolas de Jesus: as verdades e princípios divinos para uma vida abundante, Lições Bíblicas, 4º trimestre (CPAD, 2018), e o livro de mesmo título (CPAD).
  • Até os Confins da Terra: pregando o evangelho a todos os povos até a volta de Cristo, Lições Bíblicas, 4º trimestre, e livro de 160 páginas (CPAD, 2023).
  • A Igreja dos Gentios: da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos, Lições Bíblicas, 3º trimestre (CPAD, 2026), e o livro de mesmo título (CPAD).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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