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Altair Germano: O pastor de Abreu e Lima que cobrou das Assembleias de Deus uma salvação arminiana declarada

Diego Gonçalves15 min de leitura3.060 palavras

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Neste texto

Em julho de 2016, uma palestra marcada na livraria CPAD Megastore, no Rio de Janeiro, foi cancelada antes de acontecer. O palestrante seria o presbiteriano Augustus Nicodemus Lopes. A pressão veio de pastores assembleianos, e o primeiro a reclamar em público foi o vice-presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), o pastor pernambucano Altair Germano. “Se não tomarem uma providência junto a CPAD, teremos em breve calvinistas comentando lição bíblica sobre a doutrina da salvação”, escreveu ele no Facebook. Seis meses antes, o mesmo Germano tinha assinado com Nicodemus uma nota pública contra os ataques pessoais entre calvinistas e arminianos. As duas atitudes ajudam a entender o homem: ele defende a conversa cordial entre as tradições, mas não aceita que a editora da sua denominação ensine aos assembleianos uma doutrina da salvação que não é a deles.

Vida

Pedagogo, pastor e blogueiro em Pernambuco

Altair Germano da Silva fez a sua formação em Pernambuco. Licenciou-se em Pedagogia pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (FUNESO) e especializou-se em Psicopedagogia. Fez especialização em Educação Cristã no Seminário Presbiteriano do Norte, no Recife, e o mestrado em Teologia, com especialização em Ministério, no Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste (STPN). É casado com Elizabeth e pai de dois filhos, Álvaro e Paulo.

O ministério dele está ligado à Assembleia de Deus em Abreu e Lima (IEADALPE), na região metropolitana do Recife, onde é pastor auxiliar. Em 2010 acumulava a coordenação pedagógica e uma cadeira de professor na Faculdade Teológica da Assembleia de Deus em Abreu e Lima (FATEADAL), a relatoria do Conselho de Doutrina da União de Ministros das Assembleias de Deus no Nordeste (UMADENE) e a segunda vice-presidência do diretório da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) em Pernambuco. Mais tarde chegou à diretoria da Assembleia Administrativa da SBB. Na CGADB foi vice-presidente do Conselho de Educação e Cultura, e em 2015 era também primeiro vice-presidente da convenção de Abreu e Lima (COMADALPE).

Desde 2007 ele escreve no Blog do Pr. Altair Germano, onde trata de doutrina, educação cristã e da vida das convenções assembleianas. Os livros vieram ao lado do blog, a partir de O Líder Cristão e o Hábito da Leitura (CPAD, 2011). Em maio de 2013, na Escola Bíblica para Obreiros e Esposas da Assembleia de Deus no Rio Grande do Norte, em Natal, lançou Pedagogia Transformadora (CPAD) e Uma Liderança com Saúde (Arte Editorial).

A campanha por uma confissão de fé

Em 2 de novembro de 2010, Germano começou no blog uma série de cinco textos com o título “Por um Concílio das Assembleias de Deus no Brasil”. A denominação, argumentava, tinha divergências da cristologia à eclesiologia e precisava rediscutir os seus fundamentos. Em outubro de 2011 contou a história do “Cremos”, a declaração curta que o Mensageiro da Paz publicava desde junho de 1969 e que tinha raiz num artigo do missionário Theodoro Stohr, de 1938. A resistência antiga a um credo, para ele, vinha da mesma desconfiança que a denominação teve por décadas diante da educação teológica formal. A posição dele era clara: “sou a favor não apenas de um Credo nas Assembleias de Deus no Brasil, mas, de um documento mais amplo (Confissão de Fé)”.

Em julho de 2012 ele registrou que a CGADB tinha criado uma Comissão Especial para tratar do assunto, presidida depois por Esequias Soares. Em abril de 2017, às vésperas da 43ª Assembleia Geral Ordinária, escreveu o que esperava do documento: consolidar “os fundamentos soteriológicos de linha arminiana e wesleyana”, a atualidade de todos os dons espirituais, os requisitos para a ordenação de obreiros e a recusa de ordenar mulheres como pastoras, evangelistas e presbíteras. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus foi aprovada em 26 de abril de 2017, com Douglas Baptista como relator e Claudionor de Andrade como sub-relator.

Missionário na Itália

Em 2 de dezembro de 2015, Germano desembarcou em Milão, por Lisboa, para servir como missionário da IEADALPE na Europa. Em fevereiro de 2016 abriu as reuniões em Dossobuono, perto de Verona, num salão de hotel, e em março publicou a lista das congregações da missão: Verona e Mantova, na Itália, e Braga, em Portugal, todas sob a sua supervisão. Na revista Teologia Brasileira escreveu nesse período sobre “Missões no poder e na direção do Espírito Santo”, com a tese de que “qualquer tentativa de cumprir a missão sem a cooperação de Deus resultará em fracasso e frustração”.

A Europa marcou a leitura que ele fazia do Brasil. Em março de 2017, ainda na Itália, escreveu que, se o calvinismo, sobretudo o cessacionista, entrasse como desejava no pentecostalismo clássico brasileiro, os templos acabariam transformados “em cinemas, boates, museus e shoppings como aqui na Europa”. Em 2019 já estava de volta a Pernambuco, como pastor auxiliar e presidente do Conselho de Doutrina da IEADALPE e membro do Conselho de Doutrina da UMADENE. É professor da Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD) e autor das Edições Bernhard Johnson.

A disputa com a CPAD

Entre 2015 e 2018, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) foi o alvo das críticas mais duras de Germano. Em abril de 2015 mostrou que o Dicionário Bíblico Wycliffe, publicado pela editora, ensinava nos verbetes “eleição” e “salvação” a eleição incondicional, a graça irresistível e a perseverança dos santos. Em setembro de 2017, quando uma Lição Bíblica da CPAD resumiu de modo impreciso o pensamento de Armínio, ele escreveu ao comentarista, Claiton Pommerening, e publicou o seu reparo. Terminou com uma frase que resume o seu método: “Teologia sem discussão é mera imposição argumentativa, ou reprodução acrítica de ideias”.

Em junho de 2018 a crítica subiu de tom. Ele anunciou uma série sobre as obras de linha calvinista do catálogo da CPAD e apontou um erro na tradução das Obras de Armínio, em que “batismo por aspersão” saíra como “batismo por imersão”, erro que a editora se comprometeu a corrigir na edição seguinte. Escreveu que, enquanto a liderança nacional não se posicionasse sobre essa política editorial, “não podemos mais afirmar que a Casa é nossa”. No mesmo mês, um blogueiro reformado o chamou de “paladino da ‘herança arminiana’” e lembrou que Armínio aceitava o batismo de crianças e não cria na atualidade dos dons espirituais. Em 2021, já presidente do Conselho de Doutrina da IEADALPE, contestou de novo posições de Pommerening, depois que a igreja de Abreu e Lima suspendeu a Lição Bíblica do terceiro trimestre daquele ano. No mesmo ano atacou o que chamou de “pentecostalismo ecumênico, sincrético e inclusivo”.

Nos anos seguintes vieram livros sobre educação teológica, música no culto e manuscritos do Novo Testamento. O mais ambicioso, A Sã Doutrina (2025), se apresenta como introdução às principais doutrinas e práticas cristãs “a partir de uma perspectiva pentecostal clássica e assembleiana brasileira”.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Germano é um pentecostal arminiano, e a classificação sai dos textos dele. Em 2015 escreveu que a doutrina da salvação das Assembleias de Deus “é basicamente arminiana”, e em 2017 pediu que a Declaração de Fé consolidasse “os fundamentos soteriológicos de linha arminiana e wesleyana”. A fórmula põe a igreja entre Jacó Armínio e John Wesley. No mesmo ano de 2015, perguntou se a teologia da salvação que se ouve nas igrejas “é arminianista clássica” e respondeu: “Vivenciamos um arminianismo não-clássico.” Gutierres Siqueira usou esse diagnóstico para mostrar que a denominação é “basicamente”, mas não “plenamente”, arminiana.

A graça preveniente no centro

O texto mais completo dele sobre o tema saiu na revista Teologia Brasileira em outubro de 2015: “Graça preveniente: a influência da soteriologia arminiana e wesleyana no pentecostalismo clássico brasileiro”. O ponto de partida é a depravação total. Arminianos clássicos e calvinistas concordam que o pecado atingiu todas as partes da pessoa e que estamos “mortos em nossos delitos e pecados” (Efésios 2.1). A diferença está no modo como Deus age sobre esse pecador.

A resposta arminiana é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Germano cita a Declaração de Sentimentos, em que Armínio atribui à graça “o começo, a continuidade e a consumação de todo bem”, e os artigos III e IV da Remonstrância, que afirmam a incapacidade humana e a possibilidade de resistir à graça. De Wesley, lido pela mão de Kenneth J. Collins, tira a ideia de que a graça restaura as faculdades humanas sem anular a personalidade. E mostra que o pentecostalismo brasileiro aprendeu isso de Myer Pearlman, cujo Conhecendo as Doutrinas da Bíblia foi livro-texto nos institutos bíblicos da denominação. A conclusão é dele: “Toda salvação pessoal é resultado da iniciativa graciosa de Deus”, que ilumina o entendimento e “afrouxa as rédeas do poder do pecado”. Só essa graça torna a pessoa capaz de crer ou de recusar, e responsável pela escolha.

Daí a crítica ao chavão das campanhas evangelísticas: “dê um passo para Deus que Ele dará dois em sua direção”. Para Germano, a frase não se sustenta no arminianismo clássico, em Wesley ou na teologia pentecostal clássica. Com Roger Olson, ele a chama de “arminianismo de cabeça”, essencialmente semipelagiano, porque supõe que o ser humano possa tomar a iniciativa de buscar a Deus.

Do “arminista ou calviniano” ao arminianismo declarado

O vocabulário dele amadureceu. Em fevereiro de 2010, depois de ler um autor reformado sobre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, Germano se descreveu como “arminista ou calviniano”: alguém que afirma as duas verdades bíblicas sem conseguir reconciliá-las logicamente. Em janeiro de 2015, numa introdução ao calvinismo e ao arminianismo, falava de “sinergismo”, a cooperação entre Deus e o ser humano, e de uma “graça cooperativa”, embora concluísse que a salvação é “integralmente obra da graça de Deus, não merecida nem obtida por meio das obras”.

Em 2017, na correção à Lição Bíblica, a formulação ficou mais precisa. O centro de Armínio, escreveu, é a graça, e não o livre-arbítrio. “Em Armínio o livre-arbítrio humano é incapaz de iniciar ou aperfeiçoar qualquer ação que busque obedecer ou agradar a Deus.” A vontade precisa ser liberta e restaurada pela graça preveniente, e só então a pessoa pode responder com arrependimento e fé. O livre-arbítrio, resumiu, “não é ignorado, nem tampouco exaltado”. É exatamente o arminianismo clássico: Deus começa a obra, e a fé recebe o que a graça oferece, sem acrescentar mérito.

Eleição, perseverança e o argumento contra o calvinismo

O argumento de Germano contra a eleição incondicional é o caráter de Deus. Ele reúne Ezequiel 33.11, João 3.16, 1 Timóteo 2.3-6 e 2 Pedro 3.9 para mostrar que Deus deseja a salvação de todos e que Cristo morreu por todos. Escolher incondicionalmente alguns e deixar a maioria na perdição daria a Deus “duas maneiras de amar”, uma geral e outra especial, e isso, escreve, “não condiz com o caráter de Deus”. Romanos 9, com Jerry Walls e Joseph Dongell, trata da liberdade de Deus de estender a misericórdia para além de Israel, e não da eleição de indivíduos para a salvação.

Na perseverança, segue a linha arminiana: a fé inicial não garante a salvação final, e a pessoa pode se afastar de Deus de modo definitivo. Cita Pearlman, para quem “a perseverança é condicional dependendo de manter-se em contato com Deus” (ver o estudo sobre a apostasia na Bíblia).

O pentecostalismo clássico e a santificação

A outra metade do pensamento dele é pentecostal. Em “O Pentecostalismo Clássico” (2019), Germano mostra que o termo nasceu para separar as igrejas pentecostais do começo do século XX do movimento carismático. Com Donald Johns e Stanley Horton, apresenta as duas marcas doutrinárias da tradição: o batismo no Espírito Santo como experiência posterior à conversão e o falar em línguas como evidência inicial. Lembra também que William Durham rompeu com a herança wesleyana das três obras da graça e ensinou que a santificação acontece na conversão, linha que as Assembleias de Deus adotaram desde a fundação, em 1914. A tradição que Germano defende fica, nesse ponto, longe da declaração de fé deste site, que afirma, com Wesley, a inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração. Contra o “pentecostalismo pragmático”, que mede a verdade pelo templo cheio, ele pede “um pentecostalismo que concilie poder e saber, experiência e teologia”.

Obras principais

  • O Líder Cristão e o Hábito da Leitura (CPAD, 2011).
  • Uma Igreja com Saúde (Arte Editorial, 2011).
  • Pedagogia Transformadora (CPAD, 2013).
  • Uma Liderança com Saúde (Arte Editorial, 2013).
  • A Educação Teológica nas Assembleias de Deus no Brasil (2019).
  • Batismo no Espírito Santo (Palavra Fiel, 2019).
  • Teologia da Música (Edições Bernhard Johnson, 2024).
  • A Sã Doutrina (Edições Bernhard Johnson, 2025).
  • Manuscritos do Novo Testamento (Edições Bernhard Johnson, 2025).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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