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Gutierres Siqueira: O jornalista assembleiano que pôs arminianos e calvinistas para conversar

Diego Gonçalves15 min de leitura2.970 palavras

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Neste texto

Em 28 de janeiro de 2015, o blog Teologia Pentecostal publicou uma entrevista com o pastor Silas Daniel, chefe de Jornalismo da CPAD, com o título “Arminiano de coração e intelecto”. Dois dias depois, saiu no mesmo espaço uma entrevista com Geremias do Couto, “assembleiano e calvinista convicto”. Na semana seguinte, o editor do blog escreveu que o debate entre calvinistas e arminianos não era briga de teólogos desocupados, porque “a soteriologia é a alma da teologia cristã”, e fez um diagnóstico que incomodou muita gente: “O que domina os nossos púlpitos desde 1911 é o semipelagianismo.” O editor era Gutierres Fernandes Siqueira, jornalista de São Paulo, membro da Assembleia de Deus do Ministério do Belém, que nos anos seguintes publicaria livros de teologia pentecostal pela CPAD e pela Thomas Nelson Brasil e ensaios sobre a igreja e a vida pública pela Mundo Cristão.

Vida

Conversão e Escola Dominical

Gutierres converteu-se em 2001, no começo da adolescência, numa reunião de sábado à noite. O primeiro culto que frequentou já como crente foi a Escola Bíblica Dominical da manhã seguinte, e a ideia de uma “escola de Bíblia” o conquistou. O interesse pela teologia pentecostal veio logo depois, quando a classe estudou os dons espirituais. Ele passou a ler os periódicos da CPAD, a editora das Assembleias de Deus, como o Mensageiro da Paz e a Resposta Fiel.

Formou-se em Comunicação Social pela Faculdade Paulus (FAPCOM), em São Paulo, e fez pós-graduação em Mercado Financeiro e de Capitais pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Trabalhou em bancos de investimento. Fez também pós-graduação em Teologia pela Faculdade Batista do Paraná e se especializou em interpretação bíblica.

O blog Teologia Pentecostal

Em 2007, Gutierres criou o blog Teologia Pentecostal. Ali ele defende, há quase vinte anos, que o pentecostalismo tem teologia e que ela pode ser estudada com seriedade. Para ele, a acusação mais injusta contra o movimento é a de que lhe falta uma teologia sólida, quando a pesquisa pentecostal tem peso na academia de língua inglesa. Em 2011, por exemplo, escreveu para recomendar a Teologia sistemática de J. Rodman Williams, publicada pela Editora Vida, como uma obra pentecostal de fôlego disponível em português. Os autores que indica aos leitores são sempre os mesmos: Robert Menzies, William Menzies, Stanley Horton, Roger Stronstad, Anthony Palma e Antonio Gilberto.

O blog virou também lugar de conversa. Em março de 2015, Gutierres entrevistou o pastor Antonio Gilberto, que lhe disse que “Calvino exagerou, especialmente na questão da predestinação”. Na série sobre a soteriologia, deu espaço aos dois lados e pediu aos leitores um “debate de cavalheiros e não uma discussão de baderneiros”. Em 2017, resenhou Arminianismo: a mecânica da salvação, de Silas Daniel, e registrou que o interesse pelo arminianismo entre os assembleianos “não é uma moda passageira”. Em 2020, ofereceu pela internet cursos de introdução à teologia pentecostal, de teologia de C. S. Lewis e “Os Fundamentos da Teologia Arminiana”, este em quatro aulas ao vivo entre setembro e outubro.

Os livros e a igreja

O primeiro livro saiu pela CPAD em 2018: Revestidos de Poder: uma introdução à teologia pentecostal, com textos de abertura do pastor José Gonçalves e de César Moisés Carvalho. Em nove capítulos, trata da evangelização, da relação entre a fé pentecostal e o racionalismo moderno, da experiência religiosa, do culto, da profecia, da história da Harpa Cristã, do batismo no Espírito Santo, do falar em línguas e do lugar do pentecostalismo diante da Reforma Protestante. Em 2019 veio, também pela CPAD, O Espírito e a Palavra, com 306 páginas, sobre a maneira como os pentecostais leem a Bíblia. Em 2020, publicou pela Thomas Nelson Brasil, com o teólogo Kenner Terra, Autoridade bíblica e experiência no Espírito, com textos de Craig S. Keener, Kenneth Archer, Robert Menzies e Veli-Matti Kärkkäinen. Pneumatologia: uma perspectiva pentecostal saiu pela mesma editora em 2023.

Ao lado da teologia, Gutierres passou a escrever sobre a igreja e a vida pública. Reino dividido (GodBooks) trata do sectarismo entre os evangélicos. Quem tem medo dos evangélicos? (Mundo Cristão, 2022) discute a imagem dos evangélicos na imprensa e na universidade, e Igreja polarizada (Mundo Cristão, 2025) trata da guerra cultural nas igrejas. Escreveu artigos e ensaios para a Folha de S.Paulo e para a Christianity Today, deu aulas como professor convidado na Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP) e na Faculdade Latino-Americana (FLAM) e viaja pelo Brasil para pregar e ensinar sobre o pentecostalismo.

Na igreja, foi primeiro professor da Escola Dominical na Assembleia de Deus do Ministério do Belém, em São Paulo, e hoje é presbítero no setor de Pinheiros.

Pensamento

Um arminiano clássico de linha pentecostal

Gutierres é um pentecostal arminiano, e a posição é dele mesmo. Em 2017, numa carta aberta a um jovem assembleiano que tinha abraçado o calvinismo, escreveu que admira a tradição calvinista e lê os seus autores, mas que está “mais próximo do arminianismo clássico não-wesleyano”. Explicou de onde vem: “sou um típico assembleiano formado nas leituras de Stanley M. Horton e William Menzies”, os dois teólogos das Assembleias de Deus americanas que ele descreve como arminianos clássicos não wesleyanos. “Não wesleyano”, aqui, quer dizer que ele segue a linha de Jacó Armínio sem adotar a doutrina metodista da inteira santificação como segunda obra da graça. Na mesma carta, ele diz que a Declaração de Fé das Assembleias de Deus é um documento “claramente arminiano clássico, embora não seja intransigente e nem militante”, e afirma que, na posição oficial, a denominação “não é nem semipelagiana e nem calvinista”.

Contra o semipelagianismo dos púlpitos

O texto de 2015 mostra onde ele põe o problema. O semipelagianismo, condenado no Concílio de Orange em 529, ensina que o ser humano dá o primeiro passo em direção a Deus e a graça vem depois para ajudar. Para Gutierres, essa é a teologia que se ouve de fato em muitos púlpitos: a ideia de que “você precisa dar um passo para Deus para que Ele dê outro a você”. Ele deixa claro que não acusa os pioneiros de ensinar pelagianismo e cita o teólogo assembleiano Altair Germano, para quem a Assembleia de Deus é “basicamente” arminiana, mas não “plenamente” arminiana clássica. A pergunta que deixa é qual dos dois sistemas clássicos ajuda melhor a corrigir esse desvio. Nos textos dos anos seguintes, a resposta dele foi o arminianismo de Armínio.

O ponto importa porque o arminianismo clássico afirma a depravação total: o ser humano caído não pode, por si mesmo, querer o bem nem crer. A iniciativa é da graça, a graça preveniente, que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade para crer, sem forçá-la.

Armínio, o monergista

Em 2016, Gutierres escreveu “Jacó Armínio, o monergista!”, talvez o seu texto mais técnico sobre o tema. Monergismo é a doutrina de que só Deus age na salvação; sinergismo, a de que Deus e o ser humano cooperam. O argumento parte da história. “O protestantismo é essencialmente monergista”, escreve, porque nasceu na tradição latina de Tertuliano, Cipriano e Agostinho, enquanto o Oriente, que nunca passou por uma crise pelagiana, sempre falou de sinergia sem problema. Armínio, lembra ele, se via como agostiniano e como reformado, e afirmou que nunca ensinou nada contra a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg. Por isso, diz Gutierres, Armínio “certamente discordaria do termo” sinergista.

Para sustentar a leitura, ele cita Carl Bangs, para quem o sinergismo não pode ser considerado verdadeiro arminianismo, e os batistas de livre-arbítrio F. Leroy Forlines, J. Matthew Pinson e Stephen Ashby. Forlines fala em “monergismo condicional”: Deus é o único agente da justificação e da regeneração, e a condição é a fé, que a graça torna possível e que pode ser recusada. Gutierres discorda, nesse ponto, de Roger Olson, que prefere chamar o arminianismo de “sinergismo evangélico”; para ele, a distinção de Olson confunde mais do que esclarece. A conclusão do texto é que a teologia de Armínio foi um “desenvolvimento sutil” da tradição reformada, e não uma ruptura com ela.

Eleição em perspectiva hebraica

Em 2020, num estudo sobre a eleição, Gutierres propôs sair do impasse por outro caminho. Calvinistas e arminianos, observa, discutem a eleição quase sempre como escolha de indivíduos, e essa premissa individualista é estranha ao Antigo Testamento. Ali, Deus elege um povo, Israel, e quando elege uma pessoa, como Davi, ela representa o povo: “a eleição de um povo sempre começa pelo indivíduo representativo”. Com N. T. Wright, ele lê Cristo como o Eleito por excelência, que incorpora o povo de Deus; com Christopher Wright, lembra que a eleição de Abraão tem finalidade missionária, para que nele fossem abençoadas todas as famílias da terra (Gênesis 12.1-3). É a leitura que os arminianos chamam de eleição corporativa: Deus elege em Cristo, e cada pessoa participa dessa eleição pela fé. A salvação, conclui, é universalizante sem ser universalista, porque a graça pode ser rejeitada.

Nem fatalismo, nem um deus sem divindade

Gutierres rejeita os extremos dos dois lados. Em “A reação arminiana” (2013), descreve o avanço do calvinismo no Brasil por blogs e editoras e saúda o despertar dos arminianos, que em geral “dificilmente são militantes” e por isso conhecem mal a própria tradição. Recusa o hipercalvinismo, que chama de “determinista arrogante e fatalista”, e um hiperarminianismo que termina num “deus sem divindade”. Considera blasfema a ideia de que Deus seja autor do pecado e estranha a ideia de que Deus não conheça o futuro, tese do teísmo aberto. Deus, resume, “não é nem limitado e nem um déspota fatalista”.

O mesmo equilíbrio aparece no trato com os calvinistas. Defendeu que a CPAD publicasse autores reformados, porque “editora confessional não significa ‘confessionalismo’ radical”, e confessou: “Não sou calvinista, mas os autores calvinistas publicados pela Casa muito me ajudaram”. Ao jovem que se dizia convertido às “doutrinas da graça”, respondeu que a graça já lhe tinha sido pregada antes, e que quem pensa que a salvação depende de entender um sistema doutrinário “está mais próximo do gnosticismo do que do cristianismo”. A essência da fé, insiste, “está manifestada nos Credos ecumênicos”. Reino dividido desenvolve a mesma tese: o sectarismo, que transforma doutrinas secundárias em razão de existir, seria um dos maiores males do movimento evangélico.

A Palavra e o Espírito

Na teologia pentecostal, a tese central de Gutierres é que o pentecostalismo “é, acima de tudo, uma pneumatologia”, isto é, uma doutrina do Espírito Santo, e não uma cosmovisão própria. Em Revestidos de Poder, defende o lugar da experiência na vida cristã, sob a autoridade da Escritura: “separar a experiência das Sagradas Letras é um atestado para tragédias” (2018, p. 50). Afirma a atualidade dos dons e das línguas e dialoga com pesquisas científicas sobre a glossolalia.

Em O Espírito e a Palavra (2019), ele explica a hermenêutica pentecostal. O pentecostalismo foi a tradição que melhor aproveitou a hermenêutica desenvolvida a partir dos anos 1960, e, depois de Roger Stronstad, que estudou Lucas como teólogo, a teologia pentecostal passou a ser outra. Tratar Atos como simples registro jornalístico “empobrece enormemente a leitura das Escrituras”, porque Lucas escreve com propósito teológico, sem inventar histórias. Mas o pentecostal também não lê toda a Bíblia pelos olhos de Lucas: “A hermenêutica pentecostal não lucaniza as Escrituras.” Paulo e Lucas têm ênfases diferentes e complementares, e por isso Gutierres fala de dois sentidos de batismo no Espírito, um soteriológico, ligado à conversão, e outro missiológico, o revestimento de poder para o testemunho. Ele não quer romper com a interpretação protestante clássica, que busca o sentido do texto e a intenção do autor, mas aperfeiçoá-la.

Igreja e vida pública

Os livros mais recentes levam a mesma preocupação para a política. Em Quem tem medo dos evangélicos?, ele amplia o quadrilátero do historiador David Bebbington e descreve o evangélico brasileiro por seis marcas: os credos ecumênicos, o ativismo evangelístico, a Bíblia inspirada e inerrante, a conversão, a piedade pessoal e a reconciliação com Deus pela cruz. Critica o progressismo que esvazia o evangelho e o nacionalismo religioso da “nação cristã”. Em Igreja polarizada, inspirado pelas reflexões de Anne Applebaum sobre a direita polonesa, adverte contra “reduzir o Evangelho a uma bandeira partidária”. Ele se define como conservador de centro-direita e, mesmo assim, já foi chamado de comunista por discordar do populismo da extrema direita.

Perto e longe da declaração de fé do Diego

Na soteriologia, Gutierres e a declaração de fé do Diego concordam no essencial: a depravação total, a graça que vem antes de toda resposta humana e pode ser recusada, a eleição em Cristo, a rejeição do semipelagianismo e do teísmo aberto. A diferença está na tradição. O Diego é arminiano de tendência wesleyana e crê na inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor perfeito; Gutierres segue o arminianismo clássico não wesleyano de Horton e William Menzies e, como pentecostal, espera depois da conversão o batismo no Espírito Santo como revestimento de poder. Sobre o parentesco e as diferenças entre as duas famílias, veja metodistas e pentecostais.

Obras principais

  • Revestidos de Poder: uma introdução à teologia pentecostal (CPAD, 2018).
  • O Espírito e a Palavra: fundamentos, características e contribuições da hermenêutica pentecostal (CPAD, 2019).
  • Autoridade bíblica e experiência no Espírito: a contribuição da hermenêutica pentecostal-carismática (Thomas Nelson Brasil, 2020), com Kenner Terra.
  • Reino dividido (GodBooks).
  • Quem tem medo dos evangélicos? Religião e democracia no Brasil de hoje (Mundo Cristão, 2022).
  • Pneumatologia: uma perspectiva pentecostal (Thomas Nelson Brasil, 2023).
  • Igreja polarizada: como a guerra cultural ameaça destruir nossa fé (Mundo Cristão, 2025).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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