AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos5 de 71

Jamierson Oliveira: O pastor batista pentecostal que escreveu um arminianismo puro e simples

Diego Gonçalves13 min de leitura2.606 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

O livro Arminianismo Puro e Simples nasceu de anotações para debates na televisão. Nos agradecimentos, Jamierson Oliveira conta que o reverendo Eber Cocareli, apresentador do programa Vejam Só, o convidava com frequência para discutir a controvérsia entre arminianos e calvinistas, e que dessas participações veio a ideia de reunir o material num livro. Na mesma página, agradece a um amigo calvinista, Rodrigo Marques, e aos estudiosos arminianos que leram o manuscrito. O livro saiu pela CPAD em 2018, aprovado pelo Conselho de Doutrina da editora das Assembleias de Deus, e o autor era um pastor batista de Guarulhos, jornalista de formação, criado num lar assembleiano.

Vida

Raízes batistas num lar assembleiano

Jamierson Oliveira nasceu em 19 de novembro de 1971. É a terceira geração de convertidos na família, pelo lado do pai e pelo da mãe, e conta que o avô materno foi o primeiro convertido numa igreja batista em Pernambuco. Ele mesmo cresceu num lar da Assembleia de Deus em Jundiaí, no interior de São Paulo.

Os pastores da sua juventude eram mestres no ensino e incentivavam o estudo, e por isso ele não sofreu com a desconfiança contra a teologia. Muito jovem, sentiu o chamado para o pastorado, o ensino e a obra missionária, e começou a pregar cedo. Passou por treinamentos em campos missionários no Uruguai, na Bolívia, em Moçambique e entre ribeirinhos no Brasil. Ainda adolescente, foi batizado no Espírito Santo, experiência que, escreveu em 2014, fortaleceu a sua fé, despertou os seus dons e a sua vocação e lhe deu desejo de santidade e paixão pelas almas.

Jornalismo, apologética e missões

Jamierson estudou no Seminário Vale da Bênção, formou-se em Jornalismo pela UniSant’Anna, em São Paulo, e fez bacharelado em Teologia pela Universidade Filadélfia (Unifil), de Londrina, com pós-graduação em Design Instrucional. Em São Paulo, foi diretor editorial do Instituto Cristão de Pesquisas (ICP), ministério dedicado ao estudo das seitas e à defesa da fé, e editor-chefe da revista Defesa da Fé e da Bíblia Apologética de Estudo, publicadas pela editora do instituto. Em 2008 lançou um livro de entrevistas, Grandes Entrevistas, e em 2013 era editor-chefe da revista POVOS, que naquele ano trouxe na capa conselhos para quem se prepara para o campo missionário.

A missão é o outro eixo do seu trabalho. Ele foi editor e comentarista da Bíblia Missionária de Estudo, lançada pela Sociedade Bíblica do Brasil em 2014. O projeto durou sete anos, reuniu mais de cinquenta autores sob a editoria geral do missionário presbiteriano Timóteo Carriker e foi a primeira Bíblia de estudo em português com reflexões sobre a missão ao lado do texto bíblico.

Pastor batista pentecostal

Morando com a família em São Paulo, Jamierson foi pastor auxiliar na Igreja Batista da Família até ser convidado para pastorear a Igreja Batista Ethnos, em Guarulhos, igreja que ele lidera desde meados da década de 2010. A Ethnos pertence à Convenção das Igrejas Batistas Independentes (CIBI), denominação nascida, há mais de um século, de uma missão pentecostal sueca: com a chegada do missionário Erik Jansson e da família a Guarani das Missões, no Rio Grande do Sul, surgiu o ramo batista que Jamierson descreve como pentecostal desde a origem. Ele mantém também o Seminário Batista Livre, com unidades em Guarulhos e em São Paulo, do qual é diretor acadêmico.

Como professor, dá aulas e palestras de apologética, escatologia e história. Em 2017 publicou o texto da palestra “Afinal, por que somos arminianos?”, que antecipou o livro do ano seguinte. Em dezembro de 2020, numa série de entrevistas do blog O Cristão Pentecostal sobre as igrejas batistas, explicou a diversidade dos batistas brasileiros e a presença antiga do pentecostalismo entre eles, e lamentou que os batistas pentecostais estejam “devendo muito em produção teológica no Brasil”.

Os livros pela CPAD

Arminianismo Puro e Simples: uma introdução histórico-teológica foi lançado em meados de 2018, com 112 páginas. Tem três capítulos, sobre o contexto histórico de Jacó Armínio, a teologia arminiana e a teologia wesleyana, e um apêndice com citações de arminianos pentecostais, glossário, uma lista de teólogos arminianos e um guia de estudos. A revista Reflexus o resenhou em 2023 e elogiou a linguagem didática. Do lado calvinista, Luciano Sena, do Ministério Cristão Apologético, reconheceu em 2019 o tom amigável do autor, mas apontou uma tensão: se 80% dos evangélicos são arminianos e muitos deles caem no semipelagianismo, o problema maior estaria dentro de casa.

Em dezembro de 2024, a CPAD publicou Lutero Ainda Fala, com 128 páginas, sobre os cinco solas da Reforma (somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé e glória somente a Deus) e a maneira de aplicá-los na pregação e no ensino da igreja.

Pensamento

Um batista pentecostal e arminiano clássico

Jamierson é um pentecostal arminiano, de tradição batista. As duas metades da classificação são dele. Sobre a primeira, disse em 2020: “como tradição familiar, formação ministerial e hoje como teólogo, sou pentecostal clássico”. Sobre a segunda, explicou o que separa a sua convenção da Convenção Batista Brasileira na doutrina da salvação: “somos arminianos clássicos e eles arminianos de quatro pontos”. O arminiano de quatro pontos rejeita a eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível, mas mantém a segurança eterna incondicional; o clássico afirma que a perseverança depende de permanecer em Cristo pela fé. O objetivo declarado de Arminianismo Puro e Simples é introduzir o leitor ao arminianismo clássico, “desde Jacó Armínio passando por John Wesley, até os autores contemporâneos”.

A graça vem primeiro

O livro organiza o debate em quatro visões da salvação. No pelagianismo, o ser humano é o único protagonista da própria redenção. No semipelagianismo, ele dá o primeiro passo e Deus responde. No arminianismo, Deus inicia a obra e o ser humano, coadjuvante, responde a Deus. No calvinismo, Deus é o único agente, e desde antes da fundação do mundo escolheu uns para a salvação e outros para a condenação. Jamierson chama as duas primeiras posições de heresias e as duas últimas de evangélicas.

A palestra de 2017 mostra o que ele entende por “Deus inicia”. O texto abre com as palavras de Armínio sobre o homem caído, que não é capaz, “de e por si mesmo”, de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom, e precisa ser renovado por Deus em Cristo, pelo Espírito Santo. Em seguida, reproduz os cinco artigos da Remonstrância, de 1610, com destaque para o terceiro e o quarto: o homem não tem a fé salvadora por si mesmo nem pela força do seu livre-arbítrio, e a graça é “o princípio, o progresso e a consumação de todo o bem”, mas não é irresistível, porque muitos “resistiram ao Espírito Santo” (Atos 7.51). É a doutrina da depravação total unida à graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade para crer, sem forçá-la. A conclusão da palestra descreve o arminianismo como teologia da graça livre de Deus, “isento radicalmente de qualquer tipo de antropocentrismo”.

Jamierson usa a palavra “sinergismo” para nomear essa posição, isto é, a ideia de que a graça age e a pessoa responde. Lida com o restante do que ele escreve, a palavra tem o sentido que Roger Olson chama de sinergismo evangélico: toda a capacidade de crer vem da graça, e a fé recebe, sem acrescentar mérito.

Para resumir o sistema, ele adota o acróstico FACTS, resposta arminiana ao TULIP calvinista: livre pela graça para crer, expiação para todos, eleição condicional, depravação total e segurança em Cristo.

Eleição, expiação e evangelização

Na doutrina da eleição, Jamierson segue a leitura corporativa e condicional: Deus elegeu em Cristo um povo, plano que abrange toda a humanidade, e cada pessoa participa dele pela fé. A predestinação, nesse quadro, é uma prerrogativa que Deus concede aos eleitos, isto é, aos que estão em Cristo. A expiação é universal: Cristo morreu por todos, e só os que creem recebem o perdão.

Um debate de 2014 numa rede social, reproduzido pelo CACP, mostra o argumento em ação. Diante de um calvinista que dizia que Cristo morreu pelas ovelhas e não pelos bodes, Jamierson perguntou quantas classes de pecadores existem antes da conversão. Se todos estavam perdidos e debaixo da ira (Romanos 3.10, 3.23; João 3.36), Cristo morreu por todos, e ser ovelha é obra da graça recebida pela fé. A resposta coube numa frase: “Ovelhas são os ex-bodes que não resistiram o ‘helkó’ do Pai”, em referência ao verbo grego de João 6.44, “trazer” ou “atrair”.

Na introdução do livro, ele escreve que não consegue se imaginar motivado a pregar o evangelho a alguém sem crer que essa pessoa possa realmente ser salva, e que “o fervor evangelístico e missionário é natural em um coração arminiano”.

Formação contra o semipelagianismo

O diagnóstico central de Arminianismo Puro e Simples é sobre as igrejas que já são arminianas. “Crescimento não é o nosso problema”, escreve Jamierson; o desafio está no conteúdo, na formação dos líderes e na identidade das igrejas. Por muitos anos, diz, pastores ensinaram que estudar teologia era perda de tempo e que bastava orar, jejuar e buscar os dons. O resultado é um povo que, por falta de ensino, acaba crendo na heresia pelagiana ou semipelagiana, e dá aos calvinistas o argumento de que os arminianos não têm uma doutrina bíblica e reformada da salvação. Ele admite que muitos calvinistas também conhecem mal a própria teologia, mas observa que, em geral, eles explicam o calvinismo melhor do que os arminianos explicam o arminianismo.

A resposta que ele propõe é ensino. Daí o glossário, o guia de estudos e a bibliografia do livro, e daí a lista de leituras arminianas que publicou no blog em 2014, com obras de Olson, Mildred Wynkoop, H. Orton Wiley, Kenneth Collins, Stanley Horton e Myer Pearlman.

Armínio, Wesley e a Reforma

Jamierson insiste que o arminianismo pertence à Reforma. No livro, conta a vida de Armínio, a disputa com Francisco Gomaro em Leiden e o Sínodo de Dort, onde os remonstrantes não tiveram direito de defesa. Depois apresenta John Wesley, o quadrilátero (a Escritura lida com a tradição, a razão e a experiência) e os pontos em que Wesley concorda com Armínio: pecado original, depravação total, eleição condicional, graça preveniente e expiação ilimitada. A diferença que ele registra está na apostasia, que para Wesley pode ser revertida pelo arrependimento.

Na palestra de 2017, desenha uma linha do tempo: a teologia dos Pais da Igreja, a Reforma, o arminianismo clássico, os remonstrantes, os batistas gerais, o metodismo e o pentecostalismo clássico. Vê um proto-arminianismo em Balthasar Hubmaier e Menno Simons e sustenta que a predestinação ensinada por Calvino não fazia parte do ensino da igreja antes de Agostinho. O livro termina mostrando o acordo do arminianismo com os cinco solas da Reforma e com a frase de Wesley de que ninguém, nem o próprio Calvino, afirmou o pecado original e a justificação pela fé com mais clareza que Armínio. Lutero Ainda Fala retoma os cinco solas como critérios para a pregação de hoje.

O tom com os calvinistas é de discordância firme e convivência. Na introdução do livro, ele avisa que a obra não pretende ser uma revanche contra os calvinistas, e a palestra termina com a máxima atribuída ao luterano Rupertus Meldenius: “Nas coisas essenciais, unidade, nas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, amor”.

Pentecostal, batista e dispensacionalista

Na doutrina do Espírito Santo, Jamierson crê na atualidade dos dons e no batismo no Espírito Santo como segunda experiência, distinta da regeneração, revestimento de poder para o testemunho. Diferente das Assembleias de Deus, não exige as línguas como evidência inicial: a segunda bênção pode se manifestar por qualquer dom ou sem sinal visível. Na escatologia, é dispensacionalista, pré-milenista e pré-tribulacionista, e em 2020 leu um acordo de paz no Oriente Médio à luz da septuagésima semana de Daniel.

Perto e longe da declaração de fé do Diego

Na soteriologia, Jamierson e a declaração de fé do Diego caminham juntos: a incapacidade humana, a graça que precede a resposta e pode ser resistida, a expiação universal, a eleição condicional em Cristo e a recusa do pelagianismo e do semipelagianismo. As diferenças estão em outros capítulos. O Diego é arminiano de tendência wesleyana e crê na inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor perfeito; Jamierson, pentecostal de tradição batista, espera depois da conversão o batismo no Espírito como revestimento de poder. Na escatologia, o Diego é amilenista, e Jamierson, dispensacionalista.

Obras principais

  • Grandes Entrevistas (Arte Editorial, 2008).
  • Bíblia Missionária de Estudo (Sociedade Bíblica do Brasil, 2014), como editor e comentarista.
  • Arminianismo Puro e Simples: uma introdução histórico-teológica (CPAD, 2018).
  • Lutero Ainda Fala: como os Cinco Solas da Reforma Protestante podem nos ajudar na busca pela verdade de Deus (CPAD, 2024).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min