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HistóriaTeólogos arminianos6 de 65

A. Raymond George: o liturgista que renovou o culto do metodismo britânico

Diego Gonçalvesatualizado 12 min de leitura2.465 palavras

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Neste texto

Em outubro de 1966, um pequeno grupo de observadores protestantes viajou a Roma para acompanhar o Consilium, a comissão que o Vaticano criara para pôr em prática a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Com o anglicano Ronald Jasper, o americano Massey Shepherd, Künneth e Max Thurian, da comunidade de Taizé, ia um ministro metodista inglês, diretor de um seminário de Leeds, indicado pelo Conselho Mundial de Igrejas. Anos depois ele lembraria aquela primeira viagem e diria que todos tinham ali “a sensação de estar fazendo história”. Era Alfred Raymond George, que assinava A. Raymond George e passou a vida ensinando, em salas de aula e em comissões, que o culto também é lugar onde a igreja aprende o evangelho.

Vida

De Gloucester a Marburg

Raymond George nasceu em Gloucester, no oeste da Inglaterra, em 26 de novembro de 1912, filho de pais metodistas wesleyanos. A mãe vinha das Igrejas de Cristo. Ele já era pregador leigo (o local preacher do metodismo britânico) quando foi batizado: o batismo só lhe foi exigido em 1933, quando se apresentou como candidato ao ministério.

Estudou no Balliol College, em Oxford, de 1931 a 1935, e depois em Cambridge, na Fitzwilliam House e na Wesley House, o seminário metodista da cidade, de 1935 a 1937. Saiu com notas de primeira classe nas duas universidades. Passou ainda um ano na Universidade de Marburg, na Alemanha. Foi recebido no ministério metodista em 1936.

Professor de seminário

A vocação dele foi a de professor de futuros pastores. Começou como tutor assistente no Handsworth College, em Birmingham, de 1938 a 1940. As condições da guerra o levaram a servir quatro anos num circuito de Manchester, na igreja de Great Western Street, de origem metodista primitiva. Foi a única vez que ele trabalhou como pastor de circuito, e um resenhista das suas memórias perguntou se essa vida quase toda acadêmica não o afastou do membro comum da igreja.

Em 1946 foi nomeado para Headingley, em Leeds, um seminário aberto em 1868 para formar ministros wesleyanos. Ficou ali 21 anos. Em 1953 ocupava a cadeira de teologia sistemática e pastoral e de filosofia da religião. Foi diretor de 1961 a 1967 e foi o último: em 1967 Headingley se uniu ao Didsbury College para formar o Wesley College, em Bristol. Ali chegou a ser chefe de escoteiros, e em 1982, quando o ramo de Yorkshire da Wesley Historical Society celebrou os seus 25 anos no antigo prédio do seminário, foi ele quem falou, com um relato seco e bem-humorado dos anos que passou ali.

De 1968 a 1972 dirigiu o Richmond College, em Londres, que formava ministros e missionários desde 1843 e fechou em 1972. Depois ensinou no Wesley College, em Bristol, de 1972 até se aposentar, em 1981. Os alunos o lembravam como um grande incentivador.

Presidente da Conferência

Em 1975 a Igreja Metodista da Grã-Bretanha o elegeu presidente da sua Conferência. Foi o mesmo ano em que saiu o Methodist Service Book, o livro de culto em que ele trabalhou por mais de uma década. De 1979 a 1980 foi moderador do Conselho Federal das Igrejas Livres. Na aposentadoria foi o responsável (warden) pelo New Room, em Bristol, a capela que John Wesley mandou construir em 1739. Morreu em Bristol em 22 de junho de 1998. As memórias que deixou escritas saíram em 2003, editadas pelo teólogo metodista Geoffrey Wainwright.

O livro de culto de 1975

O caminho até o Methodist Service Book foi longo, e o próprio George o contou num artigo de 1977. Em 1957 a Conferência criou uma comissão para estudar a natureza do culto cristão. Em 1962 decidiu revisar o Book of Offices de 1936 e entregou o trabalho ao Comitê de Fé e Ordem, que consultou igrejas metodistas de outros países e especialistas de outras denominações. As ordens foram publicadas em caráter experimental: os batismos e a recepção de membros em 1967, o culto dominical e o sepultamento em 1968, o Culto da Aliança em 1969, o casamento em 1970. Em 1974 a Conferência aprovou os textos finais, e o livro saiu em 1975.

Nas palavras de George, o livro se afastava dos anteriores mais do que qualquer um deles se afastara do de 1784. A ordem principal ganhou o nome que Wesley dera ao livro que mandou aos metodistas americanos, The Sunday Service, e passou a unir num só culto a Palavra e a Ceia do Senhor. Pela primeira vez a liturgia metodista ficou livre da influência anglicana direta, e o livro foi muito mais usado do que se esperava, até ser substituído em 1999.

O ecumenista

O trabalho com o culto puxou George para o movimento ecumênico. Esteve no comitê executivo do Conselho Metodista Mundial de 1956 a 1981 e na Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas de 1961 a 1975. Representou os metodistas no Joint Liturgical Group, o grupo das igrejas britânicas para o culto, desde a fundação, em 1963, e mais tarde o presidiu. Representou-os também na Consulta Internacional sobre Textos em Inglês, que deu às igrejas de língua inglesa versões comuns do Glória, dos Credos e do Pai-Nosso em Prayers We Have in Common (1970).

Com os católicos romanos o diálogo foi de décadas. George fez parte da comissão internacional entre católicos e metodistas de 1971 a 1986 e esteve, ao lado de Wainwright e do bispo americano William Cannon, entre os metodistas que produziram o relatório de Nairóbi (1986), Rumo a uma declaração sobre a Igreja. Na Grã-Bretanha foi copresidente da comissão católico-metodista de 1971 a 1993. O ecumenismo dele tinha limites claros: não se sentia à vontade no culto inter-religioso e não tinha simpatia pela prática, herdada dos metodistas primitivos, de leigos presidirem a Ceia.

Pensamento

Classe: wesleyano. George foi ministro da Igreja Metodista da Grã-Bretanha a vida inteira, e essa igreja compromete os seus pregadores com as doutrinas evangélicas das Notas sobre o Novo Testamento de Wesley e dos 44 sermões, que ela chama de padrão de pregação e de fé. Ele estudou essa herança por dentro: escreveu o capítulo sobre os meios de graça no primeiro volume da History of the Methodist Church in Great Britain (1965), editou os três volumes seguintes com Rupert Davies e Gordon Rupp e foi buscar nos Hinos sobre a Ceia do Senhor de Charles Wesley a chave da sua teologia do culto. O campo dele foi a liturgia, e é pelo culto que o wesleyanismo dele aparece.

Comunhão com Deus

O primeiro livro, Communion with God in the New Testament (1953), foi a Fernley-Hartley Lecture, a conferência anual de teologia do metodismo britânico. George examinou as palavras que o Novo Testamento usa para a relação do crente com Deus e concluiu que a melhor delas é koinonia, que ele traduziu por “comunhão”. Classificou três tipos de mística: a de absorção em Deus, a do relacionamento pessoal, de um “eu” diante de um “tu”, e a que fala mais de pecado e de salvação do que de união. Para ele, toda a comunhão com Deus no Novo Testamento é do segundo tipo: a oração é pessoal, ao modo dos profetas, e não dissolve o crente em Deus. O modelo de toda piedade cristã é a oração do próprio Jesus. O resenhista batista Denis Lant discordou de partes do argumento, mas previu que o livro ficaria na primeira fila dos estudos sobre a oração no Novo Testamento.

Wesley, Coke e o episcopado

Em 1957 George entrou num debate antigo: com que direito Wesley, presbítero da Igreja da Inglaterra, separou Thomas Coke em 1784 como superintendente dos metodistas americanos? Wesley dizia ser “bispo segundo as Escrituras” e citava autores que tratavam presbítero e bispo como uma só ordem. George mostrou o dilema: se todo presbítero já fosse bispo, não havia por que separar Coke; se Coke recebeu algo novo, Wesley não podia ordenar só por ser presbítero. A saída estava numa comissão divina extraordinária de Wesley, que cuidava dos metodistas dos dois lados do Atlântico. A conclusão é equilibrada: o ato de Wesley “pode ser defendido, mas não a coerência de todos os seus argumentos”. George lembrou ainda que W. B. Pope comparava o superintendente de circuito ao bispo da igreja antiga, e que no Novo Testamento o cuidado do rebanho pertence aos presbíteros.

O culto como memória viva

A conferência que George deu em 1969 à Church Service Society, da Igreja da Escócia, mostra o centro do seu pensamento. Ele perguntou onde a liturgia narra os atos de Deus na história e como quem cultua se relaciona com esses fatos. Comparou as orações eucarísticas de Hipólito, de Crisóstomo, de Roma, de Cranmer e da Igreja da Escócia, e viu com bons olhos a tendência recente, presente também no culto dominical experimental dos metodistas de 1968, de recontar com mais espaço a criação e a redenção antes do Santo.

Na segunda parte enfrentou a palavra anamnese, o “fazei isto em memória de mim” de 1 Coríntios 11:24-25. Muitos diziam que a memória bíblica é um tipo especial de lembrança, “dinâmica”, que faz o passado agir no presente. George achou que a ideia precisava ser mais bem definida e propôs duas respostas. A primeira é o Espírito Santo, que segundo João 14:26 faz lembrar tudo o que Cristo disse. Ele citou o hino de Charles Wesley que chama o Espírito de “verdadeiro registrador da sua paixão” e lhe pede que aplique Cristo “a cada alma, e à minha”. A Ceia não é um rito mágico que produz efeito automático, porque a igreja precisa pedir a bênção de Deus. A segunda resposta é o próprio Cristo, presente onde dois ou três se reúnem em seu nome (Mateus 18:20). Ele foi crucificado uma vez e não pode ser crucificado de novo, mas está presente e traz em si a obra da cruz. Por isso, dizia George, a doutrina da presença deve vir antes da doutrina do sacrifício, e a Eucaristia é “um milagre do tempo, mais do que do espaço”. O que há de único na relação do culto cristão com o passado “fica de pé ou cai com a doutrina da sua ressurreição”.

Em 1982, numa nova conferência na Escócia, comparou as orações eucarísticas recentes de Roma, da Igreja da Inglaterra, da Igreja da Escócia e dos metodistas. Lamentou que os metodistas raramente celebrassem a Ceia todos os domingos. Aprovou a reserva das novas orações protestantes, que falam em sacrifício de louvor e em oferecer-se a si mesmo como “sacrifício vivo”, sem oferecer a Deus os elementos nem o corpo e o sangue de Cristo. Preferia tirar a palavra “eterno” da expressão “sacrifício eterno”, porque ela vai além do que a Epístola aos Hebreus autoriza. Contra quem queria uma liturgia sem as imagens bíblicas da ascensão e da ressurreição, respondeu que o púlpito é o lugar de explicá-las e que a liturgia deve continuar “firmemente baseada na revelação bíblica”.

Os meios de graça

No artigo de 1977 sobre o livro de culto, George explicou aos metodistas o movimento litúrgico. A palavra “liturgia” lembrava a muitos algo impresso, fixo e obrigatório. Ele preferia falar em renovação do culto, um ato de todo o povo em que Deus, em Cristo, fala, ouve e habita no seu corpo, a igreja. Essa ideia contrariava o individualismo pietista, mas combinava, disse ele, “com o verdadeiro coração do metodismo”. Daí a principal mudança de 1975: quase todos os cultos ganharam a forma da Ceia, com preparação, Palavra e o ato próprio de cada ocasião, e o culto de pregação deixou de ser separado da Mesa do Senhor. O artigo termina com os irmãos Wesley, que sabiam que o culto cristão é a lembrança de um Salvador crucificado e também a celebração da presença de um Senhor ressuscitado.

Aqui George está perto do que este site afirma sobre os meios de graça: a oração, as Escrituras e a Ceia do Senhor não têm poder em si mesmos, e Deus age por eles pelo seu Espírito. A diferença está nas Escrituras. A declaração de fé do site afirma que os escritos originais da Bíblia foram preservados de erro, e George tratava como questão aberta, por exemplo, se os discursos do Evangelho de João reproduzem as palavras do próprio Jesus.

Obras principais

  • “Ordination in Methodism”, London Quarterly and Holborn Review (1951).
  • Communion with God in the New Testament (Epworth, 1953), a Fernley-Hartley Lecture.
  • “Wesley and Coke”, Proceedings of the Wesley Historical Society 31 (1957).
  • “The Means of Grace”, em A History of the Methodist Church in Great Britain, vol. 1 (Epworth, 1965).
  • “The Historical Element in Liturgy”, Church Service Society Annual 40 (1970).
  • “The Methodist Service Book”, Proceedings of the Wesley Historical Society 41 (1977).
  • A History of the Methodist Church in Great Britain, vols. 2 a 4 (Epworth, 1978, 1983 e 1988), editados com Rupert Davies e Gordon Rupp.
  • “Some New Anaphoras Compared”, conferência do centenário da Church Service Society (1983).
  • Memoirs Methodist and Ecumenical (Buxton, 2003), editadas por Geoffrey Wainwright.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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