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Santa Ceia: as quatro visões históricas da igreja

As quatro visões históricas sobre a Santa Ceia

Diego Gonçalves4 min de leitura707 palavras

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Poucas cerimônias da fé cristã deveriam unir tanto quanto a Ceia do Senhor. Reunir-se em torno de uma mesa para partir o pão e beber do cálice em memória do sacrifício de Jesus na cruz é o gesto mais íntimo e fraterno que o Salvador deixou aos seus discípulos (Lc 22:19-20; 1Co 11:23-26). A ironia da história da igreja é que essa mesma mesa se tornou um dos campos de batalha teológica mais acirrados de todos os tempos.

Ao longo dos séculos, a pergunta que dividiu congregações, separou reformadores e gerou documentos dogmáticos foi simples: o que acontece com o pão e o vinho quando a igreja celebra a Ceia?

Pintura da Última Ceia em que os apóstolos, reunidos à mesa, recebem o pão e o cálice, com o reformador Martinho Lutero entre eles
Lucas Cranach, o Velho, A Última Ceia (painel central do Altar da Reforma), 1547. Igreja de Santa Maria, Wittenberg. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A resposta medieval, consolidada pela Igreja Católica Romana e reafirmada no Concílio de Trento, no século XVI, foi a doutrina da transubstanciação. Segundo esse ensino, quando o sacerdote pronuncia as palavras da consagração no altar, a substância do pão e do vinho se transforma no corpo, no sangue, na alma e na divindade de Jesus Cristo, e permanecem apenas os “acidentes” visíveis (a cor, o gosto e o cheiro do trigo e da uva). Além disso, a missa passou a ser entendida como sacrifício propiciatório repetido, no qual Cristo era oferecido de novo para cobrir os pecados de vivos e mortos. Nessa prática, o cálice deixou de ser dado aos fiéis comuns, em parte por receio de que o sangue de Cristo fosse derramado.

Quando a Reforma Protestante começou, todos os líderes concordaram em rejeitar a ideia de que a missa fosse um novo sacrifício. A cruz foi um evento único, completo e irrepetível (Hb 9:26-28; 10:10-14), e o cálice voltou a todos os membros da igreja. Na hora de definir como Cristo está presente na mesa, porém, os próprios reformadores se dividiram.

Martinho Lutero recusou a transubstanciação filosófica de Roma, mas manteve com firmeza a presença física real. Para Lutero, quando Jesus disse “isto é o meu corpo” (Mt 26:26), falava de forma literal. Apoiado na tese de que a natureza humana de Jesus agora compartilha da onipresença divina, Lutero ensinava que o corpo e o sangue reais de Cristo estão presentes “em, com e sob” o pão e o vinho. Essa visão ficou conhecida como união sacramental, ou consubstanciação, termo que o próprio Lutero não usava, e trata a Ceia como meio de graça objetivo para o perdão dos pecados.

No extremo oposto, o reformador suíço Ulrico Zuínglio propôs uma visão memorialista. Para ele, o verbo “ser” na boca de Jesus tinha o sentido figurado de “significar”, como quando Jesus disse que era a videira verdadeira (Jo 15:1) ou a porta das ovelhas (Jo 10:7). O pão e o vinho seriam sinais para ajudar a igreja a recordar a morte de Cristo no Calvário. O memorialismo, que acabou influenciando a maioria dos batistas e anabatistas posteriores, entende a Ceia sobretudo como testemunho público e compromisso da comunidade.

João Calvino seguiu um caminho intermediário. Não concordava com a presença física defendida por Lutero, porque o corpo ressurreto de Jesus está nos céus, à direita do Pai (At 3:21; Cl 3:1). Também achava o memorialismo de Zuínglio pobre demais. Calvino defendia a presença espiritual real: a Ceia não é apenas uma lembrança do passado nem uma transformação material, mas um verdadeiro banquete espiritual. Pela ação invisível do Espírito Santo e mediante a fé de quem participa, a nossa alma é elevada aos céus para se alimentar da vida de Cristo e receber as bênçãos da sua redenção (1Co 10:16).

Conhecer essas tradições ajuda a igreja a deixar de lado as disputas amargas e a sentar-se à mesa com reverência. Acima das controvérsias sobre as fórmulas teológicas, o centro da mesa continua sendo a graça imerecida de um Deus que se entregou por nós.

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