AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

TeologiaTeologia Sistemática39 de 45

Capítulo 39: Os sacramentos: batismo e Ceia do Senhor

Teologia Sistemática, Parte 8: A Igreja

Diego Gonçalves27 min de leitura5.489 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Jesus deixou à sua Igreja dois atos simples: um banho de água e uma refeição de pão e vinho. O que eles significam, e o que Deus faz por meio deles?

Sacramentos e Ordenanças

No capítulo anterior vimos que uma das marcas da igreja verdadeira é a administração correta do batismo e da Ceia do Senhor. Mas as igrejas nem sempre entenderam esses atos da mesma maneira. Antes de olhar para cada um, precisamos entender as palavras que usamos para falar deles.

O que é um Sacramento?

A palavra “sacramento” não aparece na Bíblia. Ela vem do latim sacramentum, que era o juramento que o soldado romano fazia ao seu general. Armínio lembrou esse sentido: assim como o soldado se ligava ao comandante pelo juramento, quem recebe esses sinais se liga publicamente a Cristo (Debates privados, LX.1). Além disso, a antiga tradução latina da Bíblia usava sacramentum para traduzir a palavra grega mysterion, mistério. Por isso, até hoje, as igrejas do Oriente chamam o batismo e a Ceia de “mistérios”.

Agostinho, no século 5, deu uma definição curta que ficou famosa: o sacramento é “a forma visível de uma graça invisível”. Calvino explicou a mesma ideia com mais palavras:

É um sinal exterior pelo qual o Senhor sela em nossa consciência as promessas da sua boa vontade para conosco, para sustentar a fraqueza da nossa fé; e nós, de nossa parte, damos testemunho da nossa devoção a ele, diante dele, dos anjos e também dos homens.

(João Calvino, Institutas, IV.14.1, tradução nossa)

Há duas direções aqui: Deus confirma a sua promessa, e nós declaramos diante de todos que pertencemos a Cristo.

Sacramento ou Ordenança?

Muitos evangélicos no Brasil, sobretudo batistas e pentecostais, preferem a palavra “ordenança”, um rito que Cristo mandou a sua igreja praticar. Eles querem evitar a ideia de que a água, o pão ou o vinho transmitem graça de modo automático. As duas palavras podem ser usadas. “Ordenança” lembra que fazemos isso porque Cristo mandou. “Sacramento” lembra que, nesses atos, Deus também age e fala conosco. Neste capítulo, usaremos as duas.

Quantos São?

A igreja de Roma reconhece sete sacramentos: batismo, confirmação ou crisma, eucaristia, penitência ou confissão, unção dos enfermos, ordem e matrimônio. Os protestantes reconhecem apenas dois: o batismo e a Ceia do Senhor.

Por que só dois? Porque um sacramento precisa ter três coisas: ter sido instituído por Cristo, ter um sinal visível e trazer uma promessa da graça ligada à salvação. Armínio usou esse critério e mostrou que os outros cinco ritos não cumprem as três condições (Debates privados, LXVI.1). O casamento, por exemplo, é santo, mas foi criado no Éden, e não dado como sinal da graça do evangelho. Só o batismo e a Ceia foram mandados por Jesus, com um sinal visível, para a sua igreja até o fim dos tempos (Mateus 28:19-20; 1 Coríntios 11:26).

Sinais e Selos

A Bíblia nos dá uma chave para entender os sacramentos quando fala da circuncisão de Abraão. Paulo diz que Abraão “recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé quando ainda era incircunciso” (Romanos 4:11). A circuncisão não deu a Abraão a justiça. Ele já tinha sido justificado pela fé. Mas ela foi um sinal visível dessa justiça e um selo que a confirmava.

Um selo, no mundo antigo, era a marca que se punha num documento para garantir que ele era verdadeiro. Os sacramentos funcionam assim. Eles não acrescentam nada à promessa de Deus, mas a confirmam para nós de um modo que podemos ver, tocar e provar. Armínio insistiu que eles são mais do que figuras:

Esses sinais, além da aparência externa que apresentam aos nossos sentidos, fazem com que alguma coisa aconteça aos pensamentos. Eles não são apenas símbolos nus e significativos, mas também selos e penhores, que afetam não apenas a mente, mas igualmente o próprio coração.

(Jacó Armínio, Debates privados, LX.3, em As obras de Armínio, vol. 2)

Por que Deus usa sinais assim? Calvino respondeu que é por causa da nossa fraqueza. Somos feitos de corpo e alma, e Deus se adapta a nós e usa coisas da terra para nos levar a ele (Institutas, IV.14.3).

A Palavra e a Fé

Duas coisas são necessárias para que o sacramento tenha sentido. A primeira é a Palavra. Sem ela, o sinal fica mudo, e por isso os reformadores nunca separaram o sacramento da pregação. A segunda é a fé. A igreja de Roma ensina que o sacramento produz efeito pelo simples fato de ser realizado corretamente. Os protestantes rejeitaram essa ideia. O rito, sozinho, não salva ninguém. John Wesley, que valorizava muito os sacramentos, foi bem claro sobre isso:

Antes de usar qualquer meio de graça, grave bem na sua alma: não há poder nisto. Em si mesmo, é uma coisa pobre, morta, vazia; separado de Deus, é uma folha seca, uma sombra. Também não há mérito em eu usá-lo. Mas, porque Deus manda, eu faço.

(John Wesley, sermão Os meios de graça, V.4, tradução nossa)

O poder está em Deus, e o mérito está no sangue de Cristo. Quem recebe os sacramentos com fé encontra neles a graça que a Palavra promete.

O Batismo

O batismo é o sacramento de entrada. Ele marca o começo da vida cristã e a entrada da pessoa na igreja visível.

A Instituição do Batismo

Antes de subir ao céu, Jesus deu aos discípulos a sua grande ordem:

“Portanto ide, fazei discípulos a todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-lhes a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado. E eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.”

(Mateus 28:19-20, Bíblia Livre)

Os apóstolos obedeceram desde o Pentecostes, quando “os que receberam a palavra dele de boa vontade foram batizados” (Atos 2:41). Em todo o livro de Atos, quem crê em Jesus é batizado: os samaritanos (Atos 8:12), o eunuco etíope (Atos 8:38), Saulo (Atos 9:18), Cornélio (Atos 10:48), Lídia (Atos 16:15), o carcereiro de Filipos (Atos 16:33). No Novo Testamento, não existe cristão que não tenha sido batizado.

O que o Batismo Representa

União com Cristo na Morte e na Ressurreição

A imagem mais importante está em Romanos 6:

“Ou não sabeis que todos os que somos batizados em Cristo Jesus, somos batizados em sua morte? Por isso, estamos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos para a glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida.”

(Romanos 6:3-4, Bíblia Livre)

O batismo mostra que o crente está unido a Cristo. A velha vida morreu e foi sepultada com ele, e uma vida nova começou (Colossenses 2:12).

Lavagem, Roupa Nova e Corpo

A água limpa, e por isso o batismo representa a purificação do pecado: “sê batizado, e lava teus pecados, invocando o nome do Senhor” (Atos 22:16). Quem lava é o sangue de Cristo, e a água é o sinal visível dessa limpeza. O batismo também é como trocar de roupa: “todos vós que fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3:27). E marca a entrada na igreja: “todos nós somos batizados em um só Espírito, para um só corpo” (1 Coríntios 12:13). Ninguém é batizado para viver sozinho.

Visões sobre o Significado do Batismo

Os cristãos discordam sobre o que acontece no batismo. Há quatro visões principais.

Um Meio de Graça Salvadora

Nesta visão, o batismo é o meio pelo qual Deus faz nascer de novo a pessoa. Essa é a visão da igreja de Roma e também dos luteranos, e as duas tradições batizam crianças. Mas elas variam quanto ao papel da fé. Para Roma, o rito bem realizado é suficiente para a criança. Para os luteranos, a fé é necessária, e Deus a cria na criança por meio da Palavra unida à água.

Um Sinal e Selo da Aliança

Nesta visão, o batismo ocupa no Novo Testamento o lugar que a circuncisão ocupava no Antigo. O batismo sela a promessa de Deus, mas o que ele promete é recebido pela fé. Essa é a visão das igrejas reformadas e presbiterianas. Armínio pensava assim, e Wesley e os metodistas também. Elas batizam os filhos dos crentes e esperam que, ao crescer, eles confirmem pessoalmente a fé.

Wesley ligava o batismo ao novo nascimento de modo mais forte que os reformados. Mas advertia que “o batismo não é o novo nascimento; não são uma e a mesma coisa” (sermão O novo nascimento, IV.1). Um adulto batizado que vive no pecado precisa nascer de novo.

Um Sinal da Salvação

Nesta visão, o batismo é um testemunho público da mudança que Deus já fez na vida da pessoa. Ela crê em Cristo e, por isso, é batizada. O batismo é um ato de obediência e uma declaração diante da igreja e do mundo de que agora ela segue Jesus como Senhor. Essa é a visão dos batistas, dos pentecostais e de boa parte dos evangélicos brasileiros. Quem pensa assim batiza apenas os que creem.

O Momento da Salvação

Uma quarta visão, menos comum no Brasil, é a das Igrejas de Cristo, nascidas nos Estados Unidos no século 19. Para elas, a fé é necessária, mas a salvação só acontece no momento do batismo. Antes dele, a pessoa ainda não está perdoada.

O Batismo É Necessário para a Salvação?

Um católico romano diria que sim. Um batista diria que não. Quem defende que o batismo é necessário cita Atos 2:38, onde Pedro manda o povo se arrepender e ser batizado “para perdão dos pecados”, e 1 Pedro 3:21, que diz que o batismo “agora também vos salva”.

Mas há outras passagens que precisam ser levadas em conta. Quando o carcereiro de Filipos perguntou o que devia fazer para ser salvo, Paulo e Silas responderam: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16:31). O batismo veio logo depois, mas a resposta à pergunta foi a fé. O ladrão na cruz não foi batizado, e Jesus lhe disse: “hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). Cornélio recebeu o Espírito Santo antes de ser batizado (Atos 10:47-48).

O próprio texto de Pedro ajuda a entendê-lo. O batismo salva “não como remoção da sujeira do corpo, mas sim como o pedido de boa consciência a Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo” (1 Pedro 3:21). O que salva é a ressurreição de Cristo, recebida por quem se volta para Deus. A água é o sinal dessa resposta.

Além disso, fazer do batismo uma condição para a salvação parece contradizer a salvação pela graça, por meio da fé (Efésios 2:8-9). Paulo lutou na carta aos Gálatas contra os que exigiam que os gentios fossem circuncidados para serem salvos. E ele concluiu: “em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé, que opera por meio do amor” (Gálatas 5:6). É difícil ver como o batismo seria diferente da circuncisão nesse argumento. Armínio disse a mesma coisa à sua maneira: a graça “não pode ser concedida, imediatamente, pela água” (Debates privados, LXIII.8).

Isso não quer dizer que o batismo seja opcional, porque Jesus mandou batizar. O batismo não é necessário como causa da salvação, mas é necessário como obediência de quem foi salvo.

Quem Deve Ser Batizado?

Esta é uma das maiores divisões entre os protestantes. Todos concordam que um adulto que se converte deve ser batizado depois de crer. A pergunta é sobre os filhos dos crentes.

O Batismo de Crianças

O batismo de crianças é praticado por Roma, pelos ortodoxos e, entre os protestantes, por luteranos, reformados, presbiterianos, anglicanos e metodistas. Há três argumentos principais.

O primeiro é a aliança. No Antigo Testamento, os meninos de Israel recebiam a circuncisão com oito dias de vida, antes de poderem crer. Paulo liga a circuncisão ao batismo em Colossenses 2:11-12. Se os filhos dos crentes eram incluídos no sinal da antiga aliança, por que seriam excluídos do sinal da nova?

O segundo são as famílias batizadas. Lídia “foi batizada, e também sua casa” (Atos 16:15). O carcereiro “foi batizado, ele e todos os seus” (Atos 16:33). Paulo batizou “os da casa de Estefanas” (1 Coríntios 1:16). É possível que essas casas incluíssem crianças pequenas.

O terceiro é a promessa feita por Pedro no Pentecostes: “a promessa é para vós, e para vossos filhos” (Atos 2:39).

Armínio e Wesley seguiram essa visão. Armínio ensinava que devem ser batizados todos os do povo da aliança, “quer sejam adultos ou crianças”, desde que as crianças sejam filhas de pais crentes (Debates privados, LXIII.7). Wesley defendeu o mesmo no seu Tratado sobre o batismo, de 1756.

O Batismo de Crentes

Outros defendem que só devem ser batizados os que creem e confessam a sua fé. É a posição dos batistas, dos pentecostais, dos menonitas e de muitas igrejas evangélicas. Ela também tem uma longa história entre os que creem na graça oferecida a todos: os batistas gerais da Inglaterra, como Thomas Helwys e Thomas Grantham, batizavam apenas crentes, como conta A tradição arminiana: de Armínio a Wesley e ao Brasil. Também aqui há três argumentos.

O primeiro é a ordem da Grande Comissão. Jesus mandou primeiro fazer discípulos e depois batizá-los (Mateus 28:19). Esse é o padrão que se repete em Atos: as pessoas ouvem, creem e então são batizadas.

O segundo é que o batismo pede uma resposta que um bebê não pode dar. Pedro disse: “Arrependei-vos, e batize-se” (Atos 2:38). O eunuco perguntou: “o que me impede de ser batizado?” (Atos 8:36), depois de ouvir o evangelho. Em Samaria, os que creram foram batizados, “tanto homens como mulheres” (Atos 8:12). Não há no Novo Testamento nenhum caso claro de batismo de uma criança pequena.

O terceiro é que, nas casas batizadas, o texto também diz que todos ouviram a palavra e creram. Paulo e Silas “falaram da palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa”, e o carcereiro “alegrou-se muito, tendo crido em Deus com toda a sua casa” (Atos 16:32, 34).

Avaliando as Visões

Embora o batismo de crianças tenha sido praticado na maior parte da história da igreja, não há evidência clara dele no Novo Testamento. Não sabemos se havia crianças pequenas nas casas batizadas, e os textos dizem que as pessoas dessas casas ouviram e creram. Todos os casos de batismo que conhecemos são de pessoas que primeiro creram em Jesus.

O argumento da aliança é sério e não deve ser desprezado. Mas a nova aliança tem uma diferença importante. Na antiga, a pessoa entrava no povo de Deus pelo nascimento. Na nova, ela entra pelo novo nascimento, e esse vem pela fé. No Novo Testamento, o batismo é a resposta natural de quem recebeu Jesus como Salvador. Por isso, parece mais fiel à Bíblia que o batismo seja dado aos que creem e fazem um compromisso público com Cristo.

Isso não quer dizer que os filhos dos crentes estejam fora do cuidado de Deus. As igrejas que batizam só crentes costumam apresentar as crianças a Deus em oração, como Jesus fez quando as tomou nos braços e as abençoou (Marcos 10:16). E Lutero, Calvino, Armínio e Wesley foram servos fiéis de Cristo, mesmo discordando de nós neste ponto.

Qual é o Modo do Batismo?

Os cristãos praticam três modos de batismo: a imersão, em que a pessoa é posta inteira debaixo da água; a efusão, em que se derrama água sobre a cabeça; e a aspersão, em que se borrifa água sobre a cabeça.

A Imersão

A palavra grega baptizo quer dizer imergir, submergir, afundar na água. E essa parece ter sido a forma usada no Novo Testamento. João batizava em Enom “porque havia ali muitas águas” (João 3:23). Muita água não seria necessária para borrifar, mas seria para imergir. Depois de batizado, Jesus “saiu da água” (Marcos 1:10). Filipe e o eunuco “desceram ambos à água”, e depois “subiram da água” (Atos 8:38-39). Além disso, a imersão é o modo que melhor mostra a morte, o sepultamento e a ressurreição com Cristo, de que Paulo fala em Romanos 6. A pessoa desce à água como quem é sepultada e sai dela como quem ressuscita.

A Efusão e a Aspersão

Quem defende a efusão e a aspersão também tem argumentos. No Antigo Testamento, as purificações eram feitas borrifando água (Números 19:18-19), e Hebreus chama esses ritos de “vários lavamentos” (Hebreus 9:10), com a mesma família de palavras de batismo. Deus prometeu: “aspergirei água pura sobre vós, e sereis purificados” (Ezequiel 36:25). O Espírito foi “derramado” no Pentecostes (Atos 2:17), e a água derramada lembra esse dom que vem do alto. E não é fácil saber onde o carcereiro de Filipos teria sido imerso no meio da noite (Atos 16:33).

A Didaquê, um manual cristão escrito por volta do ano 100, manda batizar de preferência em água corrente. Mas acrescenta que, se não houver água suficiente, se derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A igreja antiga preferia a imersão, mas aceitava outro modo quando era necessário.

Wesley, que batizou por aspersão e também por imersão, explicou por que não via uma forma obrigatória:

O batismo é realizado lavando, imergindo ou aspergindo a pessoa, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Digo lavando, imergindo ou aspergindo, porque a Escritura não determina de qual destes modos deve ser feito, nem por um mandamento expresso, nem por um exemplo que o prove com clareza, nem pela força ou pelo sentido da palavra batizar.

(John Wesley, Tratado sobre o batismo, I, tradução nossa)

Avaliando as Visões

A imersão tem a seu favor o sentido da palavra, os exemplos do Novo Testamento e a figura de Romanos 6. Ao mesmo tempo, o Novo Testamento não dá uma regra sobre a quantidade de água. O que faz o batismo ser batismo é a água, o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e a fé de quem é batizado. O modo é importante, mas não é o centro.

A Posição Deste Site sobre o Batismo

Este site crê no batismo de crentes. Deve ser batizado quem se arrependeu e creu em Jesus Cristo, como resposta pública à graça que já recebeu. O batismo pode ser feito por imersão ou por aspersão. A imersão é o modo que melhor mostra a nossa união com Cristo na morte e na ressurreição, mas não negamos o batismo de quem foi batizado por aspersão depois de crer. E reconhecemos como irmãos os que batizam crianças, mesmo discordando deles neste ponto. Os argumentos sobre o modo estão em Batismo por aspersão ou imersão: o debate e seus argumentos.

A Ceia do Senhor

O batismo é recebido uma só vez, porque marca o começo. A Ceia é celebrada muitas vezes, porque alimenta a vida que começou. Armínio chamou o batismo de sacramento da iniciação e a Ceia de sacramento da confirmação (Debates privados, LXIV.1).

A Instituição da Ceia

Jesus instituiu a Ceia na noite em que foi traído, durante a refeição da Páscoa com os discípulos. Paulo recebeu esse relato e o passou à igreja de Corinto:

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei; que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e tendo dado graças, o partiu, e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo, que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o copo, dizendo: Este copo é o novo Testamento em meu sangue. Fazei isto todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão, e beberdes deste copo, anunciai a morte do Senhor, até que ele venha.”

(1 Coríntios 11:23-26, Bíblia Livre)

A Ceia recebe vários nomes: “Ceia do Senhor” (1 Coríntios 11:20), “comunhão” (1 Coríntios 10:16), “partir do pão” (Atos 2:42) e “eucaristia”, da palavra grega que quer dizer “dar graças”. No Brasil, muitas igrejas a chamam de “Santa Ceia”.

Pontos de Concordância

Há vários pontos que quase todas as tradições têm em comum:

  • A Ceia foi instituída pelo próprio Jesus.
  • A igreja deve celebrá-la regularmente, até que ele venha.
  • A Ceia anuncia a morte do Senhor por nós e aponta para a sua volta.
  • Há um benefício espiritual para quem participa dela com fé.
  • A Ceia é para os seguidores de Cristo, e não para o público em geral.
  • A Ceia tem uma dimensão de comunhão entre os irmãos. Ela é celebrada como parte de um corpo, e não como um ato individual.

Pontos de Desacordo

  • Alguns veem os elementos como o corpo e o sangue de Cristo, e outros os veem apenas como símbolos.
  • Todos concordam que há algum benefício para quem participa. Mas o que é esse benefício varia muito.
  • Quem pode ministrar a Ceia? Um sacerdote ordenado, um pastor ou qualquer crente?
  • Quem pode participar? Qualquer crente, só os batizados ou só os membros da igreja local?
  • Quais elementos usar? Vinho ou suco de uva? Pão com ou sem fermento?

As Principais Visões da Ceia

A Visão Católica Romana

A igreja de Roma ensina a transubstanciação. Quando o sacerdote pronuncia as palavras de Jesus sobre o pão e o vinho, a substância deles se transforma no corpo e no sangue de Cristo. A aparência, o gosto e o cheiro continuam os mesmos, mas o que está no altar não é mais pão nem vinho. Além disso, Roma ensina que a missa é um sacrifício: o mesmo sacrifício da cruz, oferecido de forma não sangrenta pelos vivos e pelos mortos. O Concílio de Trento, no século 16, confirmou essas doutrinas.

A Visão Luterana

Lutero rejeitou a transubstanciação e a missa como sacrifício. Mas ele manteve com firmeza que o corpo e o sangue de Cristo estão de fato presentes “em, com e sob” o pão e o vinho. O pão continua pão, e o vinho continua vinho, mas junto com eles está o verdadeiro corpo de Cristo. Essa visão é chamada às vezes de consubstanciação, palavra que o próprio Lutero não usava. Para Lutero, quando Jesus disse “isto é o meu corpo”, falou de modo literal, e todos os que comem recebem o corpo de Cristo: os crentes para perdão e vida, e os incrédulos para juízo. O site trata disso em Lutero e a Ceia: a presença real de Cristo no pão.

A Visão Reformada

Calvino seguiu um caminho entre Lutero e Zuínglio. Ele ensinou que Cristo não está fisicamente nos elementos, porque o seu corpo ressuscitado está no céu, à direita do Pai. “Convém que o céu receba” Jesus até a restauração de todas as coisas (Atos 3:21). Mas Calvino achava pouco dizer que a Ceia é só uma lembrança. Ele ensinou que, na Ceia, o Espírito Santo une de verdade o crente a Cristo, e a alma é alimentada pela vida dele. Cristo está presente, não no pão, mas pelo Espírito, e é recebido pela fé. Calvino reconhecia que estava diante de um mistério:

Se alguém me perguntar sobre o modo, não terei vergonha de confessar que é um mistério sublime demais para que eu possa expressá-lo, ou mesmo compreendê-lo. E, para ser ainda mais claro, eu mais o experimento do que o entendo.

(João Calvino, Institutas, IV.17.32, tradução nossa)

Armínio estava perto dessa visão. Ele ensinava que o pão e o vinho não mudam e que o corpo de Cristo não está sob o pão, nem no pão, nem com o pão. Mas os sinais, além de representar, “selam Cristo para nós, com os seus benefícios” (Debates privados, LXIV.4-5).

A Visão Memorial

Esta visão recebe o nome de Ulrico Zuínglio, o reformador de Zurique. Para ele, Cristo não está presente nos elementos. A Ceia é uma lembrança da morte de Cristo. Participamos dela para nos lembrarmos de Cristo e declararmos a nossa fé. Em muitos aspectos, a Ceia é como um sermão em que o evangelho é encenado em vez de falado. Essa visão influenciou a maioria dos batistas e muitos evangélicos.

E os Metodistas?

Wesley não seguiu nem Lutero nem Zuínglio. Ele falava da Ceia como um dos principais “meios de graça”, os canais comuns pelos quais Deus dá a sua graça. Assim como o pão e o vinho fortalecem o corpo, os sinais do corpo e do sangue de Cristo fortalecem a alma. Na Ceia, Deus confirma o perdão, renova as forças do crente e o leva adiante na santidade. Por isso, todo cristão deve participar dela “tão frequentemente quanto puder” (sermão O dever da comunhão constante, I).

Avaliando as Questões

“Isto É o Meu Corpo”

Jesus disse do pão: “isto é o meu corpo” (Mateus 26:26). A leitura mais simples parece ser a literal. Mas há problemas com ela. Jesus estava à mesa, com o seu corpo inteiro, segurando o pão, e os discípulos não poderiam ter entendido que comiam a carne de quem estava diante deles. A Lei proibia beber sangue (Levítico 17:10-14), e seria estranho que Jesus mandasse beber literalmente o seu. E, depois da oração, o vinho continua sendo vinho.

Em outros lugares, Jesus disse que é o caminho (João 14:6), a videira (João 15:1), a porta (João 10:7) e o bom pastor (João 10:11). Todas essas são expressões figuradas, e é provável que o mesmo valha aqui. A Bíblia faz isso com frequência: dá ao sinal o nome da coisa que ele representa. Armínio lembrou que Deus diz da circuncisão “estará meu pacto em vossa carne” (Gênesis 17:13) e que Paulo escreve “Cristo, nosso cordeiro da páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Coríntios 5:7), sem que ninguém entenda isso ao pé da letra (Debates privados, LX.7).

Em João 6, Jesus disse: “se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” (João 6:53). Mas, quando os discípulos se escandalizaram, ele mesmo explicou: “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e são vida” (João 6:63). Comer a carne de Cristo é crer nele e viver dele.

Um Sacrifício Já Oferecido

A Ceia não repete o sacrifício da cruz. A carta aos Hebreus insiste que Cristo se ofereceu “de uma vez por todas” e que “com uma só oferta ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:10, 14). Jesus, depois de oferecer o seu sacrifício, “assentou-se para sempre à direita de Deus” (Hebreus 10:12). A obra está terminada. Na Ceia, não oferecemos Cristo a Deus. Recebemos de Deus o que Cristo conquistou. O único sacrifício que oferecemos ali é o de gratidão e louvor, e é daí que vem o nome eucaristia (Debates privados, LXV.2).

Memória e Comunhão

Jesus disse duas vezes: “fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:24-25). A Ceia olha para trás, para a cruz. Ela anuncia a morte do Senhor. E olha para frente, “até que ele venha” (1 Coríntios 11:26). Cada Ceia é um gosto antecipado do banquete do Reino (Mateus 26:29).

Mas a Ceia é mais do que lembrança. Paulo escreve:

“Por acaso o copo da bênção, que nós bendizemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque assim como há um só pão, nós muitos somos um só corpo; porque todos participamos de um só pão.”

(1 Coríntios 10:16-17, Bíblia Livre)

A palavra “comunhão” traduz o grego koinonia, que quer dizer participação, ter parte em algo junto com outros. Na Ceia, temos parte em Cristo e nos benefícios da sua morte. E, ao mesmo tempo, temos parte uns com os outros. O mesmo pão que nos une a Cristo nos une como um só corpo.

O Perigo de Participar Indignamente

Paulo também adverte:

“Portanto quem comer deste pão, ou beber deste copo do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Portanto examine-se cada um a si mesmo, e assim coma deste pão, e beba deste copo. Porque quem come e bebe indignamente, para si mesmo come e bebe condenação, não discernindo o corpo do Senhor.”

(1 Coríntios 11:27-29, Bíblia Livre)

Muitos crentes sinceros deixam de tomar a Ceia porque se sentem indignos. Mas Paulo fala de uma maneira indigna de participar. Ninguém é digno da Ceia, e é por isso que precisamos dela. Em Corinto, uns comiam e bebiam à vontade, e os pobres ficavam com fome e envergonhados (1 Coríntios 11:21-22). “Não discernir o corpo” é não perceber o que a Ceia significa e desprezar o corpo de Cristo, que é também a igreja reunida. Por isso muitos ficaram doentes, e alguns morreram (1 Coríntios 11:30). É uma advertência para levarmos a Ceia a sério. O remédio é o exame de si mesmo, que não deve afastar o crente da mesa, mas levá-lo a ela com arrependimento e fé.

A Posição Deste Site sobre a Ceia

Este site entende a Ceia como memorial da morte de Cristo, comunhão com ele e com os irmãos, e meio de graça. O pão e o vinho não mudam, e o corpo de Cristo não está dentro deles. Mas a Ceia também não é um sinal vazio. Pelo Espírito Santo, Cristo se faz presente e se dá a quem recebe o pão e o vinho com fé, fortalecendo a sua fé, confirmando o perdão e alimentando a vida de santidade. A Ceia não é um sacrifício, porque o sacrifício de Cristo foi oferecido uma vez por todas. As quatro visões históricas estão resumidas em Santa Ceia: as quatro visões históricas da igreja.

Questões Práticas

Quem Pode Participar?

A Bíblia não dá uma lista de quem pode participar da Ceia, mas ela não faria sentido para quem não crê. Ela é feita em memória da morte de Cristo. Por que um incrédulo participaria dela? Em geral, as igrejas pedem que os participantes sejam crentes batizados, com idade para examinar a si mesmos (1 Coríntios 11:28). Algumas abrem a mesa a todos os crentes batizados de qualquer igreja, e outras a restringem aos seus membros.

Os Elementos

Jesus usou os elementos da Páscoa: pão sem fermento e vinho. Hoje, muitas igrejas no Brasil usam suco de uva, por causa dos irmãos que lutam contra o álcool. O pão e o fruto da videira representam bem o corpo partido e o sangue derramado de Jesus.

Também se tornou comum servir pedaços já cortados e copos individuais, por higiene. Mas isso tira um pouco do simbolismo. Paulo diz que “há um só pão” e que, por isso, “nós muitos somos um só corpo” (1 Coríntios 10:17). Ajuda bastante ao menos apresentar um pão e um cálice diante da igreja, partindo o pão à vista de todos, mesmo que depois cada um receba a sua parte.

A Frequência

Com que frequência a igreja deve celebrar a Ceia? A Bíblia não fixa uma regra. Os primeiros cristãos parecem tê-la celebrado com muita frequência: eles perseveravam “no partir do pão” (Atos 2:42), e em Trôade Paulo pregou “no primeiro dia da semana, tendo os discípulos se reunido para partir o pão” (Atos 20:7). Calvino queria que a Ceia fosse celebrada pelo menos uma vez por semana (Institutas, IV.17.43). Wesley comungava, em média, a cada quatro ou cinco dias. Muitas igrejas no Brasil celebram uma vez por mês. O importante é que a Ceia não seja algo acrescentado ao fim do culto, mas esteja no centro dele.

Conclusão

O batismo e a Ceia são os dois sinais visíveis que Cristo deu à sua Igreja. Deus os usa para confirmar a sua promessa, fortalecer a nossa fé e nos unir a Cristo e uns aos outros.

O batismo é o sinal de entrada. Ele mostra que o crente foi unido a Cristo, lavado dos seus pecados e colocado dentro do corpo de Cristo. Este site crê no batismo de crentes, por imersão ou por aspersão, sem deixar de reconhecer como irmãos os que pensam diferente. A Ceia é o alimento do caminho. Nela lembramos a morte de Cristo e esperamos a sua volta, e Cristo, presente pelo seu Espírito, se dá a quem o recebe com fé.

Jesus mandou fazer as duas coisas. Quem crê nele deve ser batizado e deve vir à mesa do Senhor com frequência, com arrependimento, fé e gratidão, até que ele venha.

No próximo capítulo, veremos os ministérios que Cristo deu à sua Igreja, as formas de governo que as igrejas adotaram e a missão que ela tem no mundo.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Debates privados, LX, LXIII, LXIV, LXV e LXVI. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. IV.14.1 e 3; IV.17.32 e 43.
  • Didaquê, cap. 7.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • Wesley, John. Os meios de graça (sermão 16), V.4; O novo nascimento (sermão 45), IV.1; O dever da comunhão constante (sermão 101), I. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Organização de Robert W. Burtner e Robert E. Chiles. Nashville: Abingdon, 1954.
  • Wesley, John. Tratado sobre o batismo (1756), I. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works.

Teologia Sistemática, Parte 8: A Igreja. Capítulo anterior: Capítulo 38: A doutrina da Igreja. Próximo capítulo: Capítulo 40: Ministério, governo e missão da Igreja.

140pal/min