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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana9 de 23

Lição 9: Como nascem as doutrinas

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1

Diego Gonçalves25 min de leitura4.995 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.

Objetivos da lição

  • Distinguir doutrina, dogma, credo, confissão e opinião teológica, e reconhecer o vício do texto de prova.
  • Acompanhar, no próprio Novo Testamento, a formação das primeiras fórmulas de fé e o modelo do Concílio de Jerusalém.
  • Descrever os momentos do trabalho doutrinário: a exegese, a teologia bíblica, a síntese, o diálogo com a igreja e a formulação.
  • Conhecer o modo como Armínio, os remonstrantes e Wesley trataram os credos, as confissões e a analogia da fé.
  • Formular critérios arminianos e wesleyanos para distinguir o desenvolvimento legítimo da doutrina da inovação.

Introdução

Nas férias de fim de ano, em muitas casas brasileiras, aparece sobre a mesa da cozinha um quebra-cabeça de mil peças. Uma peça azul, sozinha, não diz se é céu ou mar, mas o sobrinho mais novo costuma garantir que descobriu onde ela vai. Os mais experientes começam pelas bordas, separam as peças por cor, olham a tampa da caixa e aceitam a ajuda de quem já montou aquele desenho; e todos sabem que uma peça forçada no lugar errado estraga não só aquele canto, mas também tudo o que se monta ao redor dela.

As lições 6, 7 e 8 trataram das fontes da teologia e da autoridade da Escritura sobre a tradição, a razão e a experiência. Resta perguntar como, a partir dessas fontes, a igreja chega a uma doutrina. Da versão anterior deste texto conservamos a tese e os passos principais: fazer teologia não consiste em empilhar versículos, e uma doutrina madura passa pela exegese, pela sistematização, pela conversa com a história da igreja e pela comunicação fiel em cada cultura, tendo Cristo no centro. Acrescentamos o testemunho do Novo Testamento, a história dos credos e a contribuição de Armínio e de Wesley.

Na igreja brasileira circulam diariamente, em mensagens de celular e em pregações apressadas, doutrinas inteiras construídas sobre um versículo, e não raro uma “revelação inédita” que a igreja antiga já examinou e rejeitou há quinze séculos. Neste sentido, perguntar como nascem as doutrinas é perguntar como se monta o quebra-cabeça sem forçar as peças.

1. Os termos

1.1 Doutrina

A palavra doutrina traduz os termos gregos didachē e didaskalia, que designam o ato de ensinar e aquilo que se ensina. O Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento observa que didaskalia, rara nos Evangelhos e em Paulo, aparece quinze vezes nas Epístolas Pastorais, quase sempre qualificada como “sã” (hygiainousa, 1 Timóteo 1:10; Tito 2:1), e indica ali um corpo de ensino relativamente fixo, que as igrejas devem guardar contra a heresia, sem tensão com o evangelho pregado sempre de novo (verbete “ensinar”). Doutrina é o ensino da igreja acerca daquilo que Deus revelou.

1.2 Dogma

O termo dogma vem do verbo dokeō, “parecer”, “julgar”, e significava opinião, decisão ou decreto público. Lucas o emprega para o decreto de César Augusto (Lucas 2:1) e para as decisões do Concílio de Jerusalém, entregues às igrejas como dogmata (Atos 16:4; Dicionário internacional, verbete “mandamento”); a carta do concílio usa o verbo da mesma raiz: “pareceu bem (edoxen) ao Espírito Santo e a nós” (Atos 15:28). H. Orton Wiley distingue a doutrina, verdade ensinada pela Escritura, do dogma, a mesma verdade formulada e proclamada com autoridade pela igreja (Christian Theology, vol. 1). Abaixo de ambos está a opinião teológica (theologoumenon), legítima, mas não vinculante.

1.3 Credo e confissão

Credo vem do latim credo, “creio”, primeira palavra do Credo Apostólico; os gregos o chamavam symbolon, sinal de reconhecimento. Alister McGrath explica que o termo se reserva às declarações da fé comum a todos os cristãos, como o Credo Apostólico e o Niceno, ao passo que as declarações próprias de uma tradição se chamam confissões, como a Confissão de Westminster: o credo pertence a toda a igreja, a confissão a uma denominação (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 1).

1.4 O texto de prova

Chamamos texto de prova o versículo citado como se, sozinho, encerrasse a questão. Flávyo Henrique Costa Santos o define como o recurso de quem, no debate, apresenta um versículo “sem o acompanhamento de sua respectiva exegese” (Manual de teologia arminiana, cap. 3). Os teólogos protestantes do século XVII chamavam dicta probantia os textos que fundamentavam cada artigo da fé, sem vício algum, porque eram o resultado de uma exegese anterior. O vício começa quando a citação substitui a exegese, e a peça, arrancada da caixa, passa a valer pelo desenho inteiro.

2. A fundamentação bíblica

2.1 “Também está escrito”

O texto de prova mais célebre da Escritura foi citado pelo tentador. Na tentação, o diabo levou Jesus ao alto do templo e lhe recitou o Salmo 91:

Então o diabo o levou consigo à santa cidade, e o pôs sobre o ponto mais alto do Templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te abaixo, porque está escrito que: Mandará a seus anjos acerca de ti, e te tomarão pelas mãos, para que nunca com teu pé tropeces em pedra alguma. Jesus lhe disse: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.

Mateus 4:5-7

A citação era exata, e a aplicação, falsa. O Senhor não respondeu negando o salmo, mas pondo-o ao lado de outro texto, Deuteronômio 6:16, e o advérbio “também” contém um princípio de interpretação: nenhuma passagem se entende isolada do conjunto da Escritura. Pedro advertiria que há coisas difíceis nas cartas de Paulo, “as quais os ignorantes e os inconstantes distorcem” (2 Pedro 3:16).

2.2 As primeiras fórmulas de fé

O Novo Testamento mostra a doutrina já em formação. Israel recitava diariamente a confissão “Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é” (Deuteronômio 6:4), e a igreja apostólica herdou o costume de resumir a fé em fórmulas breves. A mais antiga talvez seja a que Paulo transmitiu aos coríntios:

Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi, que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que foi visto por Cefas, depois pelos doze.

1 Coríntios 15:3-5

Os verbos “entregar” e “receber” são a linguagem técnica da tradição (paradidōmi, paralambanō), e o refrão “segundo as Escrituras” mostra que a fórmula interpreta o Antigo Testamento à luz da cruz. Paulo cita também o hino de 1 Timóteo 3:16, fala da “forma de doutrina” a que os romanos foram entregues (Romanos 6:17) e manda Timóteo preservar “o exemplo das sãs palavras” (2 Timóteo 1:13); Judas exorta a batalhar “pela fé que de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3). Já existia um depósito a guardar e fórmulas que o resumiam.

2.3 O Concílio de Jerusalém

Atos 15 descreve o primeiro caso em que a igreja precisou decidir uma questão doutrinária, a de saber se os gentios convertidos deviam ser circuncidados. Os apóstolos e os anciãos “se reuniram para dar atenção a este assunto” (Atos 15:6), e houve “muita discussão” (15:7). Pedro relatou que Deus dera o Espírito Santo aos gentios, “purificando seus corações pela fé” (15:8-9); Barnabé e Paulo contaram os sinais que Deus operara entre eles (15:12); e Tiago mostrou que “com isso concordam as palavras dos profetas”, citando Amós 9:11 (15:15-17). A decisão foi comunicada por carta:

Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, de nenhuma carga a mais vos impor, a não ser estas coisas necessárias.

Atos 15:28

Nesse relato estão, em germe, os elementos que a teologia reconheceria depois. A Escritura decide, porque a experiência de Pedro e de Paulo só foi aceita quando se viu que os profetas concordavam com ela; a comunidade delibera; o Espírito Santo conduz, e a decisão “pareceu bem” primeiro a ele; e a igreja se limita ao necessário, sem acrescentar cargas.

2.4 A analogia da fé

Paulo manda que a profecia, aqui o dom de expor a palavra de Deus, se exerça “segundo a medida da fé” (Romanos 12:6). A expressão grega é kata tēn analogian tēs pisteōs, “segundo a proporção da fé”, e dela a tradição tirou o princípio da analogia da fé: cada passagem deve ser lida em harmonia com o conjunto da Escritura. Os bereanos examinavam “a cada dia as escrituras, para ver se estas coisas eram assim” (Atos 17:11). O centro desse conjunto é Cristo, que declarou aos discípulos de Emaús “em todas as Escrituras o que estava escrito sobre ele” (Lucas 24:27), e a compreensão da igreja não depende só do seu esforço, porque o Espírito de verdade a guiaria “em toda verdade” (João 16:13).

3. Do texto à doutrina: os momentos do trabalho doutrinário

3.1 A exegese

O primeiro momento é a exegese (do grego exēgeomai, “conduzir para fora”), que procura o sentido que o autor bíblico quis comunicar aos seus primeiros leitores. Ela pergunta pelo contexto, pelo sentido das palavras na língua original e pelo gênero do texto, porque um salmo não se lê como uma carta de Paulo. Neemias registra que os levitas leram o livro da Lei “o declarando, e explicando o sentido, para que pudessem entender o que era lido” (Neemias 8:8). O assunto voltará na lição 14; nenhuma doutrina sobrevive a uma exegese que a desmente.

3.2 A teologia bíblica

O segundo momento acompanha o desenvolvimento da revelação na história da salvação, porque Deus falou “muitas vezes, e de muitas maneiras” pelos profetas e, por fim, “por meio do seu Filho” (Hebreus 1:1-2). Geerhardus Vos, teólogo reformado, formulou a diferença com uma imagem clássica: a teologia bíblica “desenha uma linha de desenvolvimento”, e a teologia sistemática “desenha um círculo”; ambas estão igualmente sujeitas à Escritura (Teologia bíblica, introdução).

3.3 A síntese

O terceiro momento é a síntese, ou sistematização: reunir o testemunho de toda a Escritura sobre um assunto, deixar que as passagens claras iluminem as obscuras e procurar a coerência interna da revelação, sem forçar os textos para dentro de um sistema pronto. A doutrina da Trindade é o exemplo mais claro. Nenhum versículo diz “Deus é trino”, mas a Escritura afirma que “o SENHOR um é” (Deuteronômio 6:4), que “a Palavra era Deus” (João 1:1), que se batiza “em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19), e invoca sobre a igreja “a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo” (2 Coríntios 13:14). A doutrina nasce quando todas essas peças são mantidas juntas.

O mesmo exemplo mostra o perigo do texto de prova. Ário, presbítero de Alexandria no século IV, sustentava que o Filho era a mais alta das criaturas e tinha versículos para isso: Provérbios 8:22, que a Septuaginta traduzia por “o Senhor me criou”; Colossenses 1:15, “primogênito de toda a criação”; e João 14:28, “meu Pai maior é que eu”. Atanásio respondeu lendo esses textos no conjunto da Escritura, que também diz “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), e distinguindo o que se afirma do Filho como Deus do que se afirma dele como homem que se humilhou por nós. A heresia tinha versículos; a ortodoxia tinha a Escritura inteira.

3.4 O diálogo com a igreja

O quarto momento é a conversa com os que leram a Escritura antes de nós. Ninguém faz teologia do zero, e a leitura dos Pais, dos credos e das confissões nos protege da presunção de descobrir sozinhos o que a igreja já sabia e de reabilitar erros que ela já examinou. A lição 6 mostrou que a tradição ocupa no Quadrilátero wesleyano um lugar real, porém subordinado.

3.5 A formulação e a comunicação

O último momento é a formulação, que escolhe as palavras com que a igreja dirá o que a Escritura ensina, e a comunicação dessa verdade em cada cultura, tratada na lição 5. A formulação às vezes exige termos que a Bíblia não usa. Atanásio conta, em Sobre os decretos do Concílio de Niceia, que os bispos quiseram empregar apenas expressões bíblicas, mas os arianos as aceitavam e as entendiam a seu modo; adotaram então o termo homoousios, “da mesma substância”, para proteger o sentido bíblico. A palavra nova não acrescentou conteúdo à revelação, mas cercou-o, como a borda do quebra-cabeça, que não é o desenho, mas impede que ele se desmanche.

4. Desenvolvimento histórico

4.1 A igreja antiga: regra de fé, credos e concílios

Ireneu de Lião, no fim do século II, opôs aos gnósticos a regra de fé (regula fidei), resumo do ensino apostólico guardado publicamente pelas igrejas e chave para ler a Escritura. Os credos nasceram, explica McGrath, da confissão pública no batismo, e o Credo Apostólico conserva a estrutura trinitária de Mateus 28:19 (Teologia sistemática, cap. 1). O Concílio de Niceia (325) e o de Constantinopla (381) deram ao Credo Niceno a forma que ainda hoje se recita, e o de Calcedônia (451) definiu a união das duas naturezas na pessoa de Cristo, como veremos nas lições 18 e 28 (sobre Niceia, ver “Concílio de Niceia: por que ainda importa quem é Jesus”).

McGrath observa ainda o peso do culto: se Ário tivesse razão, os cristãos que adoravam a Cristo seriam idólatras (Teologia sistemática). E Gregório de Nazianzo explicou que a igreja chegou “por meio de avanços progressivos” à plena luz da Trindade (Oração 31, citada por McGrath).

Em 434, Vicente de Lérins propôs no Commonitório o cânon vicentino: deve-se crer “o que foi crido em toda parte, sempre e por todos” (quod ubique, quod semper, quod ab omnibus). Vicente admitia um progresso na doutrina semelhante ao crescimento do corpo, em que os membros crescem sem que surjam membros novos (Commonitório 23). O cânon tem limites, e Vicente o formulou em parte contra a doutrina agostiniana da predestinação, como observam McGrath e Santos, num ambiente que tendia ao semipelagianismo condenado em Orange (529); a imagem do crescimento orgânico, porém, permanece útil para distinguir a explicitação da inovação.

4.2 Da Idade Média à Reforma

Na Idade Média, a autoridade de formular a doutrina concentrou-se nos concílios e no bispo de Roma, e o Concílio de Trento (1546) declarou receber a Escritura e as tradições não escritas “com igual afeto de piedade e reverência”. Os reformadores responderam com a sola Scriptura, sem rejeitar os credos antigos, que receberam como exposições fiéis da Escritura. A Fórmula de Concórdia luterana (1577) chama a Escritura de “única regra e norma” e os símbolos de “testemunhos”, distinção que a dogmática posterior expressou nas fórmulas norma normans, a norma que normatiza, e norma normata, a norma normatizada. Nasceram então as grandes confissões, entre elas a Confissão Belga (1561) e o Catecismo de Heidelberg (1563), sob os quais Armínio exerceu o seu ministério.

4.3 Armínio e os remonstrantes: a confissão sob a Palavra

Na oração Sobre a reconciliação das dissensões religiosas entre cristãos, Armínio rejeita os falsos remédios para as divisões, entre eles a fé implícita, que manda crer no que a igreja crê sem conhecer o assunto, e a pretensão de que um concílio antigo encerre para sempre uma questão, porque “a causa da religião, que é a causa de Deus”, não se submete ao simples juízo humano. Propõe um sínodo livre, em que todos os partidos sejam ouvidos e cuja regra seja “a Palavra de Deus, registrada nos livros do Antigo e do Novo Testamento”. Manda considerar, em cada doutrina, a sua verdade e o grau de necessidade de crê-la, e cita o conselho de Agostinho aos maniqueus: que ambos os lados busquem a verdade “como se fosse desconhecida de cada um de nós” (As obras de Armínio, vol. 1).

Na Declaração de Sentimentos (1608), Armínio defendeu a revisão da Confissão Belga e do Catecismo de Heidelberg num sínodo nacional (tradução no site, seção X), porque só à palavra de Deus se deve a honra de estar “acima de todas as disputas”, e esses escritos “procedem de homens e podem, por isso, conter em si alguma porção de erro”. A aprovação dos teólogos e o sangue dos mártires não tornam uma doutrina indubitável, porque teólogos e mártires podem errar. Armínio distingue os artigos fundamentais, que se aproximam do fundamento da salvação e que o sangue dos mártires selou, das doutrinas edificadas como superestrutura, que podem ser discutidas entre homens doutos e tementes a Deus; e lembra que nenhum mártir foi jamais interrogado sobre a leitura de Romanos 7 que alguns pretendiam selada pelo sangue deles. Contra o temor de que a igreja ficasse com “uma fé anual”, responde que ela tem sempre as Escrituras, que “compreendem plena e claramente tudo o que é necessário à salvação”, e aconselha uma confissão com o menor número possível de artigos, “concebida inteiramente nas expressões da Escritura”.

A Remonstrância de 1610 (tradução no site) seguiu esse caminho: cinco artigos breves, apoiados em textos bíblicos, e, no quinto, a declaração de que a possibilidade de abandonar a fé precisava ser examinada com mais cuidado nas Escrituras antes que a ensinassem com plena convicção, exemplo raro de uma doutrina que não se define além do que a exegese já estabeleceu. O Sínodo de Dort (1618-1619) não foi a assembleia livre que Armínio desejara, porque os remonstrantes compareceram como acusados, e não como participantes.

4.4 Wesley: a analogia da fé, a igreja antiga e o espírito católico

Wesley herdou dos anglicanos os credos, os Artigos e as Homilias e os leu à luz da igreja dos primeiros séculos. Randy Maddox mostra que ele preferia os escritores anteriores a Niceia e se interessava mais por pessoas do que por fórmulas, sem desprezar a antiguidade na determinação da doutrina; o livro de doutrina que mais recomendava era o comentário do bispo John Pearson ao Credo Apostólico (Responsible Grace, cap. 1). No sermão Sobre o pecado nos crentes (1763), escreveu que “toda doutrina nova tem de estar errada”, porque nenhuma pode ser verdadeira se não for a mesma “que era desde o princípio”.

O instrumento exegético característico de Wesley foi a analogia da fé. Nas Notas explicativas sobre Romanos 12:6, ele a define como “o grande sistema de doutrina” acerca do pecado original, da justificação pela fé e da salvação presente e interior, e manda interpretar toda Escritura duvidosa “de acordo com as grandes verdades que perpassem o todo”; no prefácio às notas sobre o Antigo Testamento (1765), acrescenta o novo nascimento e a santidade interior e exterior (Coletânea da teologia de João Wesley, “A Bíblia”). Maddox observa que esse princípio livrou Wesley de tratar a Escritura como um depósito de pepitas isoladas e de cair, salvo raramente, na teologia de texto de prova, embora traga o risco de impor ao texto uma unidade apressada, que só se evita quando o intérprete permanece aberto às perguntas do próprio texto (Responsible Grace, cap. 1). A quem pretendia provar pela Escritura a reprovação incondicional, Wesley respondeu que, seja o que for que essa Escritura prove, “nunca pode provar isto”, que Deus não seja amor (sermão 110, A graça livre, 1739).

Wesley distinguia ainda as doutrinas essenciais das opiniões. No sermão Espírito católico, reconhece que “todos os homens não verão todas as coisas de modo semelhante” e que o sábio concede aos outros a liberdade de pensar que deseja para si (Coletânea, “O padrão moral”), sem que isso signifique indiferença quanto aos pontos principais da fé. Nos Artigos de Religião que preparou para os metodistas americanos (1784), conservou os artigos sobre a Trindade, o Filho e o Espírito Santo, manteve o artigo V, segundo o qual não se exige como artigo de fé o que não se lê na Escritura nem por ela se pode provar, e suprimiu o artigo anglicano sobre os três credos, cuja doutrina não rejeitava; a sua reserva, explica Maddox, dizia respeito a certas formulações filosóficas e ao tom polêmico.

4.5 Os sistemáticos wesleyanos e o debate moderno

Richard Watson defendeu nos Theological Institutes (1823-1829) a divindade de Cristo contra os socinianos por meio de uma exegese paciente, confirmada pelo testemunho dos Pais anteriores a Niceia. William Burt Pope (Compendium of Christian Theology, 1880) distinguiu a revelação, concluída em Cristo e nos apóstolos, da compreensão progressiva que a igreja tem dela. No mesmo período, John Henry Newman publicou o Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã (1845), principal justificação católica para os dogmas que a Escritura não ensina explicitamente, e Adolf von Harnack interpretou o dogma antigo como helenização do evangelho (História dos dogmas, 1886-1890). A tradição wesleyana caminhou entre esses dois polos, sem aceitar um desenvolvimento que acrescenta nem uma crítica que dissolve.

4.6 A igreja brasileira

No Brasil, as igrejas históricas chegaram com as suas confissões, os presbiterianos com Westminster e os metodistas com os Artigos de Religião herdados de Wesley, e as Assembleias de Deus aprovaram em 2017 uma Declaração de Fé própria. Grande parte da cultura evangélica, porém, desconfia dos credos, que julga coisa de católico, e fica exposta à doutrina construída sobre o versículo solto, como a teologia da prosperidade, que fez de 3 João 2 (“eu desejo que estejas bem em todas as coisas, e que tenhas saúde”) uma promessa de riqueza, quando o texto é a saudação habitual de uma carta antiga (ver “Amnésia evangélica: por que a história da Igreja importa”).

5. A posição arminiana clássica e wesleyana

5.1 Uma hierarquia de autoridades

A tradição arminiana e wesleyana reconhece a Escritura como norma normans, a única regra infalível de fé e prática. Abaixo dela estão os credos ecumênicos, com autoridade real, porém derivada, porque expõem fielmente a Escritura e exprimem o consenso da igreja antiga; abaixo deles, as confissões de cada tradição, úteis para ensinar e guardar a unidade, mas sujeitas a exame, como Armínio pediu para a Confissão Belga; e, por fim, as opiniões teológicas, que se discutem com liberdade e caridade. Por conseguinte, a igreja não pode exigir de ninguém, como condição de salvação, o que pertence à superestrutura, nem pode tolerar, como se fosse opinião, a negação do fundamento.

5.2 Desenvolvimento legítimo e inovação

A revelação está completa, porque Deus falou definitivamente no Filho (Hebreus 1:2) e a fé foi entregue “de uma vez” (Judas 3); a compreensão da igreja, porém, cresce “até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus” (Efésios 4:13). O desenvolvimento legítimo explicita o que a Escritura contém, como o corpo que cresce em Vicente de Lérins, e a inovação acrescenta membros novos. Destarte, os critérios são quatro. Em primeiro lugar, a doutrina deve brotar da exegese e harmonizar-se com a analogia da fé, cujo centro é Cristo e a salvação pela graça. Em segundo lugar, deve guardar continuidade com a fé da igreja antiga, que tem autoridade de testemunha, e não de juiz. Em terceiro lugar, deve produzir os frutos da doutrina “sadia” (hygiainousa): a fé, o amor e a santidade. Em quarto lugar, deve distinguir com humildade o fundamento da superestrutura, à maneira de Armínio e da Remonstrância.

Há, por fim, uma dimensão que uma teologia da graça não pode omitir. A formação da doutrina também é obra de Deus do começo ao fim: a revelação é dom, a iluminação é obra do Espírito, e a igreja só formula com fidelidade quando pode dizer, como em Jerusalém, que “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”. O estudo e os concílios são meios de que o Espírito se serve, e não um mérito que produza a verdade.

5.3 Comparação com outras tradições

A Igreja Católica Romana entende que a Tradição e a Escritura formam um só depósito, interpretado pelo magistério, e justifica com a teoria do desenvolvimento dogmas como a Imaculada Conceição (1854), a infalibilidade papal (1870) e a Assunção de Maria (1950); o protestante reconhece aí o desejo de fidelidade à fé recebida e diverge porque esses dogmas não se podem provar pela Escritura. A Igreja Ortodoxa recebe os sete concílios ecumênicos como expressão da Tradição viva. Luteranos e reformados guardam com especial cuidado as suas confissões, e a Confissão de Westminster afirma que o juiz supremo das controvérsias é o Espírito Santo falando na Escritura (I, 10), princípio que o wesleyano subscreve sem reservas. Em muitas igrejas batistas e pentecostais prevalece o lema “nenhum credo senão a Bíblia”, que quer exaltar a Escritura, mas costuma trocar os credos antigos pela opinião do pregador do momento.

5.4 Dois contrastes: Finney e Cheung

Charles Finney leva a desconfiança dos credos ao extremo: a coerência cristã consistiria em mudar de opinião sempre que se recebe nova luz, e todo padrão de doutrina equivaleria ao princípio do papado, a ponto de escrever que “um papa vivo é melhor que uma confissão de fé morta” (Teologia sistemática, prefácio). A humildade converte-se em individualismo, e não surpreende que a doutrina de Finney sobre o pecado e a expiação se tenha afastado da fé histórica, como as lições 26 e 32 mostrarão. Vincent Cheung erra no sentido oposto, ao fazer da dedução lógica o juiz da síntese: recusa qualquer tensão aparente e conclui que “a Bíblia afirma a soberania divina e nega a liberdade humana” (Teologia sistemática). A síntese, nesse caso, descarta as peças que não cabem no sistema, quando Wesley preferia admitir que há passagens cujo sentido só conheceremos na eternidade.

6. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, somos chamados a ler a Bíblia como um todo. Antes de construir uma convicção sobre um versículo, convém perguntar o que o texto quis dizer aos seus primeiros leitores, como se relaciona com o restante da Escritura e o que a igreja sempre entendeu dele. Facilmente encontramos na Bíblia o que já queríamos encontrar.

Em segundo lugar, a igreja precisa recuperar os credos. A recitação do Credo Apostólico no culto e o seu estudo na Escola Bíblica Dominical protegem os simples e os novos convertidos, como protegiam os catecúmenos da igreja antiga (ver o sermão de Agostinho aos catecúmenos sobre o Credo). O credo não substitui a Bíblia, mas a resume.

Em terceiro lugar, a distinção entre fundamento e superestrutura é uma escola de caridade. Arminianos e calvinistas confessam juntos os credos antigos, e as suas diferenças, reais, pertencem a pontos que Armínio jamais confundiu com o fundamento. Com efeito, a controvérsia conduzida com a humildade que ele pedia honra a Deus mais do que a vitória num debate.

Em quarto lugar, a doutrina existe para a vida. A sã doutrina é a doutrina saudável, e a sua finalidade é que conheçamos a Deus, o amemos e vivamos em santidade. Uma teologia que acumula erudição e perde de vista o amor de Cristo e o serviço ao próximo perde a própria razão de existir.

Voltemos à mesa da cozinha. O quebra-cabeça se monta com paciência, pelas bordas e pelas cores, com a ajuda de quem já montou o mesmo desenho. Na teologia há, porém, uma diferença que a imagem não alcança: o desenho da tampa não é uma paisagem, mas uma pessoa, o Cristo de quem falam todas as Escrituras, e quem fez as peças está à mesa conosco, porque o Espírito que inspirou a Palavra é o mesmo que a ilumina. Que o Senhor nos livre da pressa de quem força as peças e da preguiça de quem nunca abre a caixa, e nos conceda a alegria de ver, um dia, face a face, aquele que agora conhecemos em parte.

Síntese

  1. Doutrina é o ensino da igreja acerca do que Deus revelou; dogma, a doutrina recebida publicamente; os credos expressam a fé comum dos cristãos, as confissões a de uma tradição, e as opiniões teológicas permanecem livres.
  2. O próprio Novo Testamento contém fórmulas de fé e, no Concílio de Jerusalém, o modelo de uma decisão doutrinária em que a Escritura decide, a comunidade delibera e o Espírito Santo conduz.
  3. Uma doutrina nasce da exegese, da teologia bíblica e da síntese de todo o testemunho da Escritura, em diálogo com a igreja; o texto de prova isolado é o caminho mais curto para a heresia.
  4. Armínio submeteu as confissões à Palavra de Deus e distinguiu os artigos fundamentais da superestrutura; Wesley interpretou a Escritura pela analogia da fé e distinguiu as doutrinas essenciais das opiniões.
  5. O desenvolvimento legítimo explicita o que a Escritura contém, sem acrescentar; e a formação da doutrina, como toda a obra da salvação, depende da graça de Deus, que revela, ilumina e guia a igreja em toda a verdade.

Questões para revisão

  1. Qual é a diferença entre doutrina, dogma, credo, confissão e opinião teológica?
  2. Que princípio de interpretação está contido na resposta de Jesus em Mateus 4:7, “Também está escrito”?
  3. Que elementos do trabalho doutrinário aparecem no relato do Concílio de Jerusalém (Atos 15)?
  4. Como a controvérsia ariana ilustra o perigo do texto de prova e a necessidade da síntese e de termos como homoousios?
  5. Que razões Armínio apresentou, na Declaração de Sentimentos, para submeter a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg a exame?
  6. O que Wesley entendia por analogia da fé, e que vantagens e riscos Maddox aponta nesse princípio?
  7. Que critérios permitem distinguir o desenvolvimento legítimo da doutrina da inovação?
  8. Em que Finney e Cheung se afastam, cada um a seu modo, da posição wesleyana sobre a formação da doutrina?

Bibliografia

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  • Remonstrância (1610). Tradução no Diário do Diego.
  • SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
  • VICENTE DE LÉRINS. Commonitório (434).
  • VOS, Geerhardus. Teologia bíblica: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
  • WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
  • WESLEY, John. Notas explicativas sobre a Epístola aos Romanos; sermões 13 (Sobre o pecado nos crentes), 39 (Espírito católico) e 110 (A graça livre); Carta a um católico romano (1749); prefácio às Notas explicativas sobre o Antigo Testamento (1765); Artigos de Religião (1784).
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. 3 vols. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1940-1943.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 8: Razão e experiência sob a autoridade da Palavra. Próxima: Lição 10: A revelação geral.

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