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SermõesSermões em João7 de 13

Concílio de Niceia: por que ainda importa quem é Jesus

O Cristo que adoramos: por que Niceia ainda importa

Diego Gonçalves11 min de leitura2.240 palavras

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Neste texto

Texto-base: Jo 1:1-3 (ARA)

No começo do século IV, a igreja não vivia um tempo calmo. Havia tensão real, divisão pública, acusações, disputas que saíam do círculo dos estudiosos e viravam conversa de rua. É estranho para muita gente hoje imaginar cristãos discutindo teologia como quem discute futebol ou política, com slogans e músicas de deboche. Mas foi exatamente isso que aconteceu.

Muitos de nós gostamos de pensar na igreja antiga como um lugar de unidade perfeita, onde todos concordavam e amavam a verdade do mesmo jeito. Só que a história mostra outra coisa. A fé foi preservada, sim, mas muitas vezes no meio de confusão, insegurança e debates difíceis. Deus não precisou de um ambiente “limpinho” para conduzir seu povo. Ele trabalhou no meio da bagunça humana, sem aprovar o pecado humano, mas guiando a igreja para confessar com clareza quem Jesus é.

O Concílio de Niceia, em 325, ficou famoso como um grande marco. Hoje ele parece uma montanha na paisagem da história cristã. Mas, para muitos que estavam lá, aquilo parecia mais uma reunião de emergência. Havia lados hostis, ressentimentos, pressões do governo e um desejo prático: parar uma briga que estava escandalizando o império. Depois do concílio, alguns bispos que assinaram o credo participaram de outros encontros e mudaram de posição conforme a política e a conveniência. Isso mostra que o concílio não foi um “momento mágico” de santidade geral. Foi um passo importante, mas tomado por gente comum, com limites, medos e interesses.

Mesmo assim, por trás de toda a confusão, havia uma pergunta que não era pequena: de que maneira Jesus é divino? Ou, falando de forma bem direta: quando adoramos Jesus, estamos adorando Deus de verdade, ou estamos honrando alguém menor, criado, elevado, mas não Deus?

Essa pergunta não é apenas “teológica”. Ela mexe com a oração, com a adoração, com a confiança na salvação. Se Jesus não é plenamente Deus, o evangelho muda de forma. Se ele é apenas uma criatura elevada, a nossa fé fica apoiada em alguém que não pode sustentar o peso da nossa esperança.

O Novo Testamento fala de Jesus em tons que parecem, à primeira vista, diferentes. De um lado, lemos que “o Verbo era Deus” (Jo 1:1, ARA) e vemos Jesus dizendo: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30, ARA). Do outro, vemos o Filho orando, obedecendo, servindo, dizendo que o Pai é maior (Jo 14:28). Como juntar tudo sem apagar um lado para salvar o outro?

Foi nesse clima que a igreja se viu obrigada a pensar com cuidado, com Bíblia aberta e com reverência. E aqui há uma lição para nós: amadurecer na fé, muitas vezes, passa por enfrentar perguntas desconfortáveis, sem fugir para respostas fáceis.

A crise em Alexandria

A controvérsia começou em Alexandria, no Egito, num ambiente de ensino para líderes da igreja. O bispo Alexandre orientava seus presbíteros e defendia que o Filho, o Logos, existe desde sempre com o Pai. Ele argumentava que, se Deus criou todas as coisas por meio do Filho, o Filho não pode ser parte da criação. Jo 1:3 afirma que “todas as coisas foram feitas por intermédio dele” (ARA). Paulo também fala de Cristo como aquele por meio de quem tudo existe e como o centro da criação (Cl 1:16-17, ARA). Se isso é verdade, o Filho não começou a existir dentro do tempo, porque o tempo faz parte do mundo criado.

Em palavras simples: se Deus fez o mundo por meio do Filho, o Filho não pode ser uma peça do mundo. Ele está do lado do Criador, não do lado das criaturas.

Alexandre insistia que não fazia sentido dizer que houve um momento em que o Filho não existia. Se o Pai é eternamente Pai, ele é Pai de um Filho. E isso não queria dizer dois deuses. A questão era afirmar a unidade de Deus sem diminuir o Filho. Ele queria deixar claro que “divindade” não é uma coisa que você tem em porcentagens, como se alguém fosse “mais Deus” e outro fosse “menos Deus”. Ou é Deus, ou não é. Não dá para adorar “meio Deus” sem cair em idolatria.

Só que nem todos ficaram confortáveis com essa linguagem. Um presbítero influente, Ário, achou que isso empurrava a igreja para um tipo de confusão com o monoteísmo. Para ele, se o Pai é o único Deus absoluto, o Filho precisa ser inferior em essência. Ário aceitava que o Filho existia antes do resto da criação, mas dizia que, em algum ponto, Deus “produziu” o Filho. E a frase que virou lema foi: “houve um tempo em que ele não era”.

Essa frase saiu das salas e foi para o povo. Começaram cantos, gritos, frases escritas nas paredes. A igreja de Alexandria ficou dividida. E quando a discussão se espalhou, não era mais um detalhe para especialistas. Era uma crise de adoração.

De um lado, a pergunta era: “Se Jesus não é plenamente Deus, por que o adoramos?” Do outro, a preocupação era: “Se colocarmos Jesus no mesmo nível do Pai, não estamos criando dois deuses?”

Observe como as duas preocupações parecem “piedosas”. Uma quer proteger a adoração verdadeira. A outra quer proteger o monoteísmo. Mas intenções piedosas não garantem conclusões corretas. É por isso que a igreja precisou voltar às Escrituras e também aprender a falar com precisão.

Quem Jesus precisa ser para nos salvar

Há um tipo de religiosidade que foge desse tipo de tensão e prefere dizer: “Isso é assunto de teólogo; o importante é amar”. O problema é que o amor cristão não é vazio. Ele tem um conteúdo. Amamos a quem? Confiamos em quem? Adoramos quem? Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16:15). E Pedro respondeu com clareza. Essa pergunta continua sendo um teste de fé.

Se Jesus for apenas uma criatura elevada, ainda que perfeita, ele não pode ser o Salvador no sentido pleno. A Bíblia liga salvação ao próprio Deus vindo ao encontro do homem. Em Isaías, Deus declara que fora dele não há Salvador (Is 43:11). Se a salvação é obra de Deus, e Jesus é o Salvador, Jesus participa da identidade e da obra do próprio Deus. Não é um intermediário qualquer, mas Deus agindo a nosso favor.

Mais ainda: a adoração no Novo Testamento não é dada a Jesus como se ele fosse um “representante” qualquer. Tomé chama Jesus de “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20:28, ARA). Hebreus fala do Filho como aquele que recebe honra e cujo trono é chamado de trono de Deus (Hb 1:8, ARA). Apocalipse retrata o Cordeiro recebendo louvor junto com aquele que está no trono (Ap 5:13). Isso é pesado demais para caber na ideia de “criatura superior”.

Ao mesmo tempo, o Novo Testamento é claro quanto à humanidade real de Jesus. Ele se cansa, sente fome, aprende obediência na dor, ora, chora e se submete ao Pai (Jo 4:6; Mt 4:2; Hb 5:8; Jo 11:35). Isso não diminui sua divindade. Mostra a beleza da encarnação. Fp 2:6-8 afirma que ele, “subsistindo em forma de Deus”, se esvaziou, assumiu forma de servo e foi obediente até a morte (ARA). O Filho não deixa de ser Deus; ele assume a nossa condição para nos resgatar por dentro da história.

O coração da crise, então, não era um jogo de palavras. Era o evangelho em risco de ser reduzido. Se o Filho não é plenamente Deus, a cruz fica menor do que precisamos. Porque o problema do pecado não é apenas falta de informação ou falta de exemplo. É morte. É separação. É escravidão. E criatura nenhuma pode vencer isso por nós de forma definitiva. Precisamos de Deus.

Por isso, a reação de muitos líderes foi firme. Alexandre disciplinou Ário, e Ário apelou a aliados poderosos. A briga ganhou apoio político e se espalhou entre bispos do Oriente. O imperador Constantino, que queria unidade no império, decidiu convocar um concílio para resolver a crise. Ele pagou as viagens, ofereceu estrutura e pressionou por um acordo. Nem todos foram por amor à verdade pura. Havia interesses. Mas Deus, em sua providência, usa até governos e circunstâncias imperfeitas para conter danos maiores e conduzir seu povo.

Em Niceia, os bispos precisavam de uma confissão que não deixasse brecha para a ideia de que o Filho era um “deus menor”. Algumas expressões já circulavam como forma de oração e confissão: “Deus de Deus”, “Luz de Luz”, “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”. Só que os opositores conseguiam “acomodar” essas frases, dizendo que o Filho era “divino” apenas de forma secundária.

Então apareceu uma palavra que virou chave: “consubstancial”, isto é, “da mesma substância” do Pai. A palavra técnica (do grego) tinha um objetivo simples: afirmar que o Filho é Deus do mesmo modo que o Pai é Deus. Não é um segundo deus. Não é um ser criado. Não é apenas um mensageiro, mas Deus com o Pai, digno do mesmo culto, da mesma confiança, da mesma entrega.

Alguns reclamaram: “essa palavra não está na Bíblia”. E isso é um alerta útil para nós. A igreja não deve inventar termos à toa. Mas há momentos em que a igreja usa uma palavra fora do texto bíblico para proteger o sentido do texto bíblico. A Trindade, por exemplo, é uma palavra que não aparece na Bíblia, mas tenta resumir um conjunto de verdades bíblicas: há um só Deus (Dt 6:4), o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito é Deus, e eles não são a mesma Pessoa. A palavra não cria a doutrina; ela serve como cerca para não deixarmos o ensino bíblico ser distorcido.

Mesmo assim, é aqui que eu quero confrontar nosso tempo. Muitos cristãos hoje vivem com um “Jesus genérico”. Um Jesus que serve para motivar, acalmar ansiedade, ajudar a família, melhorar o humor. Ele é tratado como útil, não como Senhor. Só que o Jesus da Escritura não cabe nesse lugar pequeno.

Se Jesus é consubstancial com o Pai, ele não é um acessório da nossa vida. Ele é o centro. Isso muda como você ora. Muda como você decide. Muda o que você tolera como pecado. Muda o peso da sua adoração no domingo e o peso da sua obediência na segunda.

E há outro perigo: a nossa geração também é tentada a uma fé sem conteúdo, que chama de “orgulho” qualquer firmeza doutrinária. Só que o problema em Niceia não era falta de amor, era falta de verdade. E amor sem verdade vira sentimentalismo. Jesus não chamou as pessoas apenas para se sentirem melhor. Ele chamou para segui-lo, negar a si mesmo e obedecer (Lc 9:23). A urgência do evangelho não combina com uma fé relaxada.

Quando a igreja confessa quem Jesus é, ela também confessa quem ela é. Se Jesus é Deus verdadeiro, a igreja não é um clube, nem um palco, nem uma ONG. Ela é o povo que vive de joelhos diante do Deus que se revelou em Cristo. E se isso é verdade, não dá para manter uma vida dupla: adorando com os lábios e negociando com o pecado no secreto.

O chamado

Então eu quero fazer um chamado bem direto.

Primeiro: volte a adorar Jesus como Deus. Não como ideia, não como símbolo, não como “energia boa”, não como ajudante do seu projeto. Adore como Tomé: “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20:28, ARA). A adoração bíblica inclui reverência e rendição. Se a sua vida não se curva, a sua adoração está incompleta.

Segundo: abandone a preguiça espiritual. Não trate a verdade como coisa secundária. A Bíblia nos chama a crescer no conhecimento de Cristo (Cl 1:10, ARA) e a combater o bom combate da fé (1Tm 6:12, ARA). Isso não é para te deixar arrogante. É para te deixar firme. Quem não sabe em quem crê vira presa fácil de modas, de discursos bonitos e de um cristianismo diluído.

Terceiro: arrependa-se de reduzir Jesus. Talvez você nunca tenha dito que ele é criatura. Mas você o reduziu na prática quando escolheu um pecado e decidiu proteger esse pecado. Você o reduziu quando achou normal viver sem oração. Você o reduziu quando tratou a igreja como opção e não como compromisso. Você o reduziu quando decidiu que obedecer é “exagero”. Se ele é Deus verdadeiro, não existe área “neutra”. Não existe canto reservado onde Cristo não manda.

Quarto: confie de verdade na salvação que só Deus pode dar. Se o Filho é Deus, a obra da cruz tem peso infinito. Você não precisa carregar culpa como se Cristo fosse fraco. Você não precisa viver em desespero como se Deus estivesse distante. “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5:19, ARA). Isso significa que há perdão real para o pecador arrependido, e há poder real para uma vida santa.

Por fim, faça hoje uma entrega específica. Diga ao Senhor onde você tem sido resistente. Nomeie. Confesse. Rompa com o que alimenta a sua frieza. Ajuste sua rotina para buscar a Deus. Repare o que você feriu. Obedeça ao que você já sabe. Rm 12:1 (ARA) chama isso de culto racional: apresentar o corpo como sacrifício vivo. Isso não é poesia, é prática.

A crise de Niceia nos lembra que o centro da fé não é um sentimento religioso, mas uma Pessoa: Jesus Cristo, Deus conosco, Senhor da igreja, Salvador suficiente. A pergunta permanece: quando você diz “Jesus”, de quem você está falando? O Cristo real, bíblico, eterno, digno de adoração? Ou um Cristo reduzido, domesticado, que cabe no bolso?

Hoje, escolha adorar o Cristo verdadeiro. E escolha viver como quem sabe a quem pertence.