
SermõesSermões em João2 de 13
Natal em João 1: a Palavra eterna na manjedoura
Quando o Infinito se fez criança
Todo dezembro, tem uma caixa no alto do armário esperando para ser aberta. Dentro dela vêm o pisca-pisca emaranhado e as peças do presépio: José, Maria, os pastores, os reis, um boi, uma ovelha, um camelo, o anjo de asas douradas. Montamos tudo com carinho. Só que, se a gente for à Bíblia conferir o que está escrito, algumas dessas peças ficam sem apoio.
Lucas e Mateus contam o nascimento de Jesus, e os dois não dizem como Maria e José chegaram a Belém. Não falam de jumento. Não citam nenhum animal junto à manjedoura. O anjo que fala aos pastores é um só (Lc 2:10), e depois aparece uma multidão que, segundo Lc 2:13, estava “louvando a Deus e dizendo”. O texto não diz que eles cantaram. Isso não estraga o Natal, claro. Mas mostra como a gente se acostuma a ouvir a história sem prestar atenção no que ela realmente afirma.
Marcos começa com Jesus já adulto. João começa muito antes. Volta até antes de Mateus e de Lucas, antes dos pastores, antes de Belém, antes da criação. João quer responder uma pergunta que vale para todo Natal: quem é esse menino?
O menino que não teve começo
João abre o seu evangelho assim:
No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.
(Jo 1:1-5, NVI)
Durante muito tempo a gente pensa que Jesus passou a existir quando nasceu. João diz o contrário. Quando tudo começou, ele já era. Jesus mesmo afirmou: “Antes de Abraão nascer, Eu Sou!” (Jo 8:58). O bebê da manjedoura é eterno.
João chama Jesus de “Palavra”, em grego Logos. Era um termo que o mundo grego conhecia bem. Para os filósofos, o logos era aquilo que dava sentido a todas as coisas, e Fílon de Alexandria o via como uma ponte entre um Deus distante e o universo material. João pega essa palavra familiar e vai além: o Logos tem nome, é Jesus de Nazaré.
Pense no que é uma palavra. A gente só sabe o que alguém pensa quando ele fala ou escreve. O pensamento sozinho fica guardado. A palavra o traz pra fora. Jesus é isso: a expressão perfeita do que está na mente de Deus. Quem quer saber como é o Deus que parece grande demais pra ser entendido olha para Jesus. Dizer que “ele estava com Deus” aponta para uma comunhão face a face com o Pai, e dizer que “era Deus” afirma que ele não é só um mensageiro. É o próprio Deus que se faz conhecido.
O Criador deitado numa manjedoura
O versículo 3 vai mais longe: todas as coisas foram feitas por meio dele. Paulo diz o mesmo em Cl 1:16 e acrescenta que nele tudo subsiste (Cl 1:17). Jesus não só criou o universo, ele o sustenta. Então, quando você olhar para o bebê enrolado em panos, lembre-se de quem está ali: aquele que segura as estrelas no lugar precisou ser segurado no colo.
A luz que incomoda
A Bíblia começa com escuridão física em Gn 1, e Deus resolve com uma frase: “Haja luz.” Em Gn 3, uma escuridão diferente invade o mundo, a espiritual. Só pode ser removida por aquele que é vida e luz. João diz que a luz brilha nas trevas e que as trevas não conseguiram apagá-la. A palavra que o texto usa também pode ser lida como “compreender”, no sentido de agarrar. A escuridão não consegue segurar a luz, nem apagá-la, porque a luz é mais forte. Se tem uma, não tem a outra.
Mesmo assim, muita gente prefere o escuro. Jesus disse: “A luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más” (Jo 3:19). Quem acordou de madrugada com alguém acendendo a luz do quarto sabe como é. A primeira reação é cobrir o rosto. Dói. Só depois de um tempo os olhos se acostumam e a gente enxerga o quarto. A luz de Cristo também costuma doer antes de ajudar, porque mostra o que estava escondido. João Batista veio como testemunha para que as pessoas olhassem pra ela (Jo 1:6-8), mas muita gente fecha os olhos e fica onde está.
Três reações ao menino
João conta, a partir do versículo 10, como as pessoas responderam à luz. Há três reações, e a gente pode se reconhecer em alguma delas.
Ignorado
“O mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu” (Jo 1:10). Com tantos enfeites, compras e festas, é fácil passar direto pelo nascimento de Emanuel, que significa “Deus conosco”. Ele não fez uma visita rápida. Andou neste planeta durante uns 33 anos e foi um de nós. O tradutor J. B. Phillips escreveu que não devemos deixar nada nos cegar para o significado do que aconteceu em Belém, porque nada altera o fato de que vivemos num planeta visitado.
Desde o começo foi assim. Herodes o odiou, os escribas o ignoraram, e não havia lugar na hospedaria (Lc 2:7). Só os pastores, os magos e os pobres foram recebê-lo. Hoje não mudou muito. Você tem ignorado Jesus este ano? Não deixe o Natal passar sem entender por que ele veio.
Rejeitado
Há quem faça mais do que ignorar. O versículo 11 diz: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.” A expressão dá a ideia de voltar pra casa. Jesus veio ao povo que deveria conhecê-lo melhor. O Antigo Testamento inteiro anunciava a vinda dele. Quando chegou, em vez de recebê-lo em casa, expulsaram-no. Isso não é só história, é uma verdade sobre o coração humano: a gente tem uma tendência a se livrar de Deus e a fugir da luz.
Recebido
Mas sempre houve quem o recebesse:
Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus.
(Jo 1:12-13, NVI)
Esse é um dos versículos mais importantes da Bíblia, e nele há três palavras-chave. Receber tem o sentido de tomar, de pegar com a mão. Jesus é o presente de Deus, e cada um de nós pode deixá-lo na caixa ou abrir. Crer é confiar em Cristo por inteiro, mais do que concordar com a cabeça: é entregar a vida. E o direito de ser filho é um privilégio. No momento em que alguém recebe a Cristo, Deus lhe dá a honra de entrar para a família dele.
O versículo 13 deixa claro que isso não se herda. Não nascemos filhos de Deus por sermos filhos de pais cristãos, nem por estar na igreja desde pequeno. Deus não tem netos, só filhos, e cada um precisa chegar a ele pessoalmente. Ninguém vira cristão por acidente. Em algum momento a pessoa decide, de forma consciente, crer e receber.
O sussurro
Mary Ann Bird conta, em The Whisper Test (O Teste do Sussurro), que nasceu com lábio leporino. Cresceu achando que ninguém fora da família poderia amá-la. Na escola, a professora fazia um teste de audição: sussurrava uma frase, e cada criança tinha que repetir. Na vez dela, Mary Ann esperou, e a professora sussurrou: “Eu queria que você fosse minha filhinha.” Aquelas palavras mudaram a vida dela.
O Natal é um sussurro parecido. Quando Jesus entra no mundo, ele diz a quem está longe, a quem acha que não serve, a quem se sente feio por dentro: eu quero você na minha família. E a boa notícia é que a gente pode estar nela, se receber.
Quem você conhece?
Muita gente conhece os fatos do Natal: a estrela, os pastores, o presépio. O que importa, no fim, é conhecer o menino. O bebê é infinito, Cristo é o Criador e o Senhor é vida e luz. Não dá pra ficar neutro diante disso. A pergunta que João faz é se você o conhece.
Jesus está batendo à porta da sua vida. Você vai deixá-lo entrar?
Senhor Jesus, por muito tempo eu te mantive do lado de fora. Reconheço que sou pecador e que não consigo me salvar sozinho. Obrigado por teres vindo ao mundo, tu que és eterno, Criador, vida e luz. Eu creio que morreste na cruz pelos meus pecados e ressuscitaste. Eu te recebo agora, para ser teu filho. Entra na minha vida e sê o meu Salvador. Amém.
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