
SermõesSermões em João8 de 13
Maria Madalena e Jesus ressuscitado em João 20:11-18
Chamada pelo nome: o encontro de Maria com o Senhor vivo
Quem nunca procurou os óculos pela casa inteira, com eles na cabeça? A gente abre gaveta, levanta almofada, pergunta pra todo mundo. E o tempo todo o que a gente procura está perto demais pra ser visto. Em Jo 20:11-18, Maria Madalena faz isso com o próprio Jesus. Chora ao lado do túmulo vazio, procura um corpo, e o Senhor vivo está de pé bem atrás dela.
Chorando pela notícia errada
Maria já tinha corrido até os discípulos para contar que a pedra estava removida. Pedro e João foram ver e voltaram pra casa. Ela ficou. Ficou chorando, abaixou-se, olhou para dentro do sepulcro e viu dois anjos, um à cabeceira e outro aos pés de onde o corpo de Jesus tinha estado. A pergunta deles é quase terna:
Mulher, por que choras? Respondeu-lhes: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.
(Jo 20:13, ARA)
Dá pra sentir a ironia. De todas as coisas que deveriam encher Maria de alegria, o túmulo vazio era a primeira. Mas ela olha pra ele do ponto de vista humano. Pensa no que perdeu, não no que Deus acabava de fazer. O Senhor dela, na cabeça dela, ainda era um corpo, e o corpo tinha sumido. A fé de Maria, naquela hora, era sincera e defeituosa ao mesmo tempo. Muito amor, pouca compreensão. A gente também conhece essa mistura.
O texto diz que ela se virou. Por quê, se estava falando com anjos? João não explica. João Crisóstomo, pregador do século 4, imaginou uma cena bonita: de repente os anjos se curvaram diante de alguém, e Maria olhou pra trás pra ver a quem eles reverenciavam. Pode ser. O fato é que ela vê Jesus de pé e não sabe que é ele.
“Quem procuras?”
Jesus repete a pergunta dos anjos e acrescenta uma:
Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, julgando que fosse o jardineiro, lhe disse: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.
(Jo 20:15, ARA)
Repare no “a quem”. Maria falava de coisas: onde está o corpo, onde ele foi colocado. Jesus leva o pensamento dela para uma pessoa. Muitas vezes a nossa vida espiritual também fica presa às coisas, ao lugar, ao costume, à lembrança de como era antes, quando o Senhor quer que a gente olhe pra ele. No fim, o que importa é a relação pessoal.
Ela achou que era o jardineiro. Fazia sentido: o sepulcro ficava num jardim, e era de um homem rico, José de Arimateia, que devia ter quem cuidasse do terreno. Então Maria, sem perceber diante de quem estava, faz um plano: se mudaram o corpo de lugar, ela mesma o leva embora. Um segundo sepultamento, feito com as próprias mãos. Ela queria cuidar dos restos de quem ela amava. Não imaginava que o Senhor estava vivo.
A voz que ela não esqueceu
Então Jesus diz uma palavra só:
Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse em hebraico: Raboni! (que quer dizer Mestre).
(Jo 20:16, ARA)
Nada de argumento, nada de prova. Ele disse o nome dela, e ela reconheceu. Ninguém precisa explicar quem é quando chama a gente do jeito que só ele chama. Pense na voz de quem criou você ou de alguém que você ama muito. Basta um “alô” no telefone, no meio do barulho, pra gente saber quem é.
Jesus já tinha só que nesse mesmo evangelho, falando do bom pastor:
As ovelhas ouvem a sua voz; ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora.
(Jo 10:3, ARA)
E mais adiante: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo 10:27, ARA). Aquilo que ele ensinou numa parábola acontece ali no jardim, com Maria. Quem pertence a Jesus aprende a reconhecer a voz dele, mesmo quando os olhos ainda estão confusos. Os olhos dela erraram. O ouvido, não.
E aquele “Mestre” de Maria diz muito. Ela passou da busca de um corpo para a relação com uma pessoa viva. A gente não segue Jesus por aquilo que consegue tirar dele, mas por quem ele é.
“Não me detenhas”
Maria se agarra a ele. Faz sentido: acabou de reencontrar quem pensava ter perdido pra sempre. Mas Jesus responde:
Disse-lhe Jesus: Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai; mas vai ter com meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.
(Jo 20:17, ARA)
Há várias explicações para essas palavras, e eu fico com a mais simples. Maria queria o Jesus de antes, o mesmo jeito de estar junto, o mesmo convívio de todo dia. Ele estava dizendo que as coisas iam mudar. Ele ia subir ao Pai, e a partir dali a presença dele não dependeria de um abraço. Poderia ser alcançada em qualquer lugar, por qualquer discípulo, em qualquer hora do dia. Ele mesmo diria aos discípulos que lhes convinha que ele fosse (Jo 16:7), porque viria o Consolador.
E a subida de Jesus ao Pai não significa que ele se afastou. A Bíblia diz que ele vive sempre para interceder por nós (Hb 7:25). A obra da cruz está terminada, e agora ele cuida, junto ao Pai, de cada pessoa que confia nele. Quando a gente está no fundo do poço, é bom lembrar que alguém está intercedendo por nós agora.
“Meus irmãos”
Olhe quem Jesus chama de irmãos. Os mesmos que fugiram quando ele foi preso. Os mesmos que tiveram medo, que negaram, que duvidaram. Ele não diz “aqueles que me abandonaram”. Diz “meus irmãos”. A carta aos Hebreus afirma que ele não se envergonha de chamar os seus de irmãos (Hb 2:11), e Paulo diz que ele é o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8:29).
Ele tinha motivos de sobra pra se envergonhar de nós. Não se envergonha.
Note também a pequena escolha de palavras: “meu Pai e vosso Pai”. Ele não diz “nosso Pai”. Jesus é Filho desde sempre, sem começo. A gente passa a ser filho de Deus pelo novo nascimento, pelo dom que ele dá a quem o recebe (Jo 1:12). Não é a mesma coisa, e ainda assim ele nos deixa chamar o seu Pai de nosso Pai, mas esse tamanho de graça.
Vi o Senhor
O último versículo conta o que aconteceu com a mulher que chorava:
Maria Madalena foi anunciar aos discípulos que vira o Senhor e que ele lhe dissera estas coisas.
(Jo 20:18, ARA)
No texto grego, a ideia é de alguém que vai contando, anunciando. Quem entrou no jardim chorando saiu dele como mensageira. E o Senhor escolheu uma mulher, de quem ninguém esperava muito, para ser a primeira testemunha da ressurreição. Isso deveria nos deixar humildes. Quem encontra o Cristo vivo não consegue guardar pra si.
O pregador George Whitefield, amigo de John Wesley, é um exemplo disso. Arnold Dallimore conta, em sua biografia, que Whitefield passou seu último dia pregando, mesmo doente e cansado. Em Exeter, ficou de pé sobre um barril e falou ao ar livre. À noite, em Newburyport, quando o povo se juntou ao redor da casa onde estava hospedado, ele pregou ainda uma vez, parado no meio da escada. Na manhã seguinte, morreu. Dele é esta frase: “Estou disposto a ir para a prisão e para a morte por vocês, mas não estou disposto a ir para o céu sem vocês”. Quem viu o Senhor vivo não quer ir ao céu sozinho.
Voltando ao começo
Maria procurava um corpo e Jesus estava na frente dela. A gente também pode passar anos procurando o Senhor em coisas, em lembranças, em formas de religião, enquanto ele já está ali, chamando pelo nome. Se você nunca confiou em Cristo, ele está dizendo o seu nome agora. Receba o perdão que ele conquistou com o próprio sangue. E se você já é dele, lembre que quem não se envergonha de nos chamar de irmãos merece que a gente não se envergonhe de chamá-lo de Senhor.
Senhor Jesus, abre os nossos olhos pra te ver onde tu já estás. Ensina-nos a reconhecer a tua voz e a responder ao teu chamado. Não deixes que a gente se contente com lembranças quando podemos ter a ti. E faz de nós, como fizeste de Maria, gente que não consegue calar a boa notícia. Amém.
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