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TeologiaTeologia Sistemática10 de 45

Capítulo 10: A doutrina da Escritura: inspiração e autoridade

Teologia Sistemática, Parte 2: Revelação e Escritura

Diego Gonçalvesatualizado 28 min de leitura5.500 palavras

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Neste texto

Podemos olhar para a Bíblia de duas maneiras. A primeira é a humana: quem a escreveu, quando e por quê. A segunda olha a partir de Deus: por que ele nos deu a Bíblia, em que sentido ela é a sua palavra e que autoridade ela tem sobre nós?

A Perspectiva Humana

No capítulo anterior vimos que Deus falou de muitas maneiras e mandou pôr por escrito o que revelou. O resultado é o livro que temos nas mãos. Antes de perguntar o que Deus fez por meio dele, vale a pena olhar para o próprio livro.

Uma Biblioteca

A Bíblia não é um único livro, mas uma coleção de escritos. Eles foram produzidos ao longo de mais de mil anos, por cerca de quarenta autores muito diferentes, de reis a pescadores, em três línguas: hebraico, aramaico e grego.

Na Bíblia usada pelos protestantes há 66 livros: 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo. A divisão atual nem sempre corresponde ao modo como os livros foram escritos. Samuel e Reis, por exemplo, foram divididos em dois livros cada um porque não cabiam num só rolo de pergaminho.

O evangelista Mateus escrevendo, com um anjo inclinado ao seu ouvido, em pintura de Rembrandt
Rembrandt, O evangelista Mateus e o anjo, 1661. Museu do Louvre, Paris. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Dois Testamentos

Os escritos da Bíblia cristã estão divididos em duas coleções: o Antigo Testamento e o Novo Testamento. A palavra “testamento” aqui quer dizer aliança. O Antigo Testamento reúne os escritos ligados à aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai. O Novo Testamento reúne os escritos da nova aliança entre Cristo e a sua Igreja, firmada pelo sangue dele na cruz. Na última ceia, Jesus disse: “Este copo é o Novo Testamento em meu sangue” (Lucas 22:20).

O Antigo Testamento dos protestantes tem o mesmo conteúdo da Bíblia hebraica dos judeus, embora em outra ordem e com outra divisão dos livros. A Bíblia católica romana acrescenta alguns livros judaicos escritos em grego, que os protestantes chamam de apócrifos. Por que uns livros entraram e outros não é o assunto do próximo capítulo.

Tipos de Escritos

A Bíblia tem quase todo tipo de literatura: história, leis, poesia, provérbios, profecia, evangelhos, cartas e visões apocalípticas. Alguns livros têm um tipo só. Outros misturam vários, às vezes na mesma página. Isso exige cuidado do leitor de hoje. A poesia hebraica não rima nem tem métrica como a nossa, e um salmo não se lê como uma crônica. Como veremos, saber que tipo de texto estamos lendo é importante para entender o que ele está afirmando.

Os Autores

Muitos livros trazem o nome do autor, como as cartas de Paulo e os livros dos profetas. Outros são anônimos. Os evangelhos não dizem no texto quem os escreveu, mas a Igreja antiga os atribuiu desde cedo a Mateus, Marcos, Lucas e João. Ninguém sabe quem escreveu a carta aos Hebreus.

No Antigo Testamento a questão é mais difícil. A tradição judaica e cristã atribui a Moisés os cinco primeiros livros, a Lei. O próprio Jesus fala do “livro de Moisés” (Marcos 12:26) e diz: “de mim ele escreveu” (João 5:46). Muitos estudiosos modernos entendem que esses livros reúnem tradições orais e escritas que só ganharam a forma final muitos séculos depois. A fé protestante histórica ficou com o testemunho de Jesus, sem negar que houve alguns acréscimos posteriores, como o relato da própria morte de Moisés (Deuteronômio 34:5-6).

De qualquer forma, a autoridade de um livro bíblico não depende de sabermos o nome de quem o escreveu. Hebreus é palavra de Deus mesmo sem autor conhecido. O que importa é que o livro venha de Deus.

As Datas

O Novo Testamento foi escrito na segunda metade do primeiro século, dentro da geração dos apóstolos e das testemunhas de Jesus. O Antigo Testamento é mais difícil de datar. Se Moisés escreveu a Lei, ela vem do tempo do êxodo, e os últimos profetas, como Malaquias, escreveram por volta de 400 a.C. Em todo caso, o Antigo Testamento estava completo séculos antes de Jesus, e foi essa coleção que ele e os apóstolos chamaram de “as Escrituras”.

A Exatidão

Os relatos históricos da Bíblia contam o que de fato aconteceu? É verdade que os autores bíblicos não escreviam como os livros escolares de hoje. Eles escolhiam o que contar, resumiam, às vezes seguiam a ordem dos assuntos e não a do calendário, usavam números redondos e reproduziam discursos pelo sentido. Quem lê a Bíblia esperando um relatório de cartório vai estranhar.

Mas escolher e organizar não é inventar. Lucas diz que se informou “com exatidão desde o princípio” (Lucas 1:3). A fé cristã depende de fatos. Paulo diz sem rodeios: “E se Cristo não ressuscitou, então é vã nossa pregação, e vã também é vossa fé” (1 Coríntios 15:14). Uma religião que se apoia em acontecimentos precisa de relatos verdadeiros desses acontecimentos.

A Perspectiva Divina

Para olhar a Bíblia a partir de Deus, partimos de duas convicções. A primeira é que Deus existe. Se ele não existe, a Bíblia é só uma coleção de escritos religiosos antigos. A segunda é que Deus quer ser conhecido por nós, e então é de esperar que ele nos dê algo como a Bíblia. A pergunta agora é como a revelação de Deus se tornou um livro que é palavra de Deus.

O que É Inspiração?

No centro da perspectiva divina está a inspiração. Paulo escreve a Timóteo: “Toda a Escritura é divinamente inspirada” (2 Timóteo 3:16). A expressão grega é uma palavra só, theopneustos, que quer dizer “soprada por Deus”. A ideia não é que Deus soprou algo dentro de um livro humano, mas que a Escritura saiu de Deus, como a palavra sai da boca de quem fala.

Pedro explica o lado humano: “a profecia jamais foi produzida pela vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus conduzidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21). Os homens falaram e escreveram, mas foram conduzidos pelo Espírito, como um barco é levado pelo vento. Davi já dizia: “O espírito do SENHOR falou por mim, E sua palavra foi em minha língua” (2 Samuel 23:2).

Podemos então definir a inspiração como a ação do Espírito Santo sobre os autores da Bíblia, pela qual o que eles escreveram é, ao mesmo tempo, palavra deles e palavra de Deus. Ela é diferente da revelação, que é o ato de Deus se dar a conhecer, e da iluminação, que é a obra do Espírito em quem lê. Calvino, ao falar dos apóstolos, deixou clara a diferença entre eles e os pregadores que vieram depois:

Entre os apóstolos e os seus sucessores há esta diferença: os apóstolos foram os escreventes certos e autênticos do Espírito Santo, e por isso os seus escritos devem ser recebidos como oráculos de Deus; os ministros que vieram depois não têm outro ofício senão ensinar o que está revelado e registrado nas Sagradas Escrituras.

(João Calvino, Institutas, IV.8.9, tradução nossa)

A Bíblia afirma que é inspirada, mas não diz em detalhes como a inspiração aconteceu. Por isso surgiram várias teorias.

Teorias da Inspiração

Ditado

Nesta teoria, Deus deu aos autores cada palavra, como um chefe que dita uma carta à secretária. Os autores eram apenas um instrumento passivo, e até o estilo vinha de Deus. Hoje poucos defendem essa ideia.

Verbal e Plenária

Nesta teoria, a ação do Espírito alcança as próprias palavras escolhidas pelos autores, e por isso é chamada de verbal. E alcança toda a Escritura, e não só algumas partes, e por isso é chamada de plenária, que quer dizer “plena”. A diferença em relação ao ditado é que o Espírito usa o vocabulário, o estilo e a personalidade de cada autor. Paulo escreve como Paulo, e Amós como o boiadeiro que era, mas o que eles escrevem é exatamente o que Deus quis dizer. Esta é a visão mais comum entre os evangélicos.

Dinâmica

Na teoria dinâmica, o Espírito Santo e o autor humano trabalham juntos, mas de outro modo. O Espírito dá os pensamentos e as ideias, e o autor escolhe livremente as palavras para expressá-los. A personalidade do autor aparece com muita clareza. Mas, nessa teoria, a inspiração fica nas ideias, e não nas palavras.

Iluminação

Esta teoria limita a ação do Espírito a aumentar a sensibilidade espiritual dos autores. O Espírito não lhes dá pensamentos nem palavras. É algo parecido com o que ele faz em qualquer crente. Nesta visão, a Bíblia é pouco diferente de outros livros “inspirados”, como os de Agostinho, de Calvino ou de C. S. Lewis. Um passo além está a inspiração natural, para a qual os autores bíblicos eram apenas homens de grande talento religioso, como um poeta é inspirado para escrever um poema.

O que a Própria Bíblia Mostra

Como saber qual dessas teorias é verdadeira? O melhor caminho é ver como a própria Bíblia trata a Escritura, a começar por Jesus.

Jesus e a Escritura

Jesus citava o Antigo Testamento como palavra de Deus. Na tentação, ele respondeu ao diabo três vezes com “Está escrito” (Mateus 4:4). Disse que “a Escritura não pode ser quebrada” (João 10:35) e que “nem um jota nem um til passará da Lei até que tudo se cumpra” (Mateus 5:18).

Às vezes o argumento de Jesus dependia de uma palavra só. Contra os saduceus, que negavam a ressurreição, ele citou a sarça ardente: “não lestes o que Deus vos falou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó?” (Mateus 22:31-32). O argumento está no tempo do verbo. Deus não disse “eu era”, mas “eu sou” o Deus de homens que tinham morrido havia séculos, e por isso eles vivem para ele. Repare também que, para Jesus, o que estava escrito em Êxodo era “o que Deus vos falou”.

O mesmo aparece quando Jesus fala do casamento. Ele cita Gênesis 2:24 como palavra do Criador: “aquele que os criou no princípio, macho e fêmea os fez, e disse: Portanto o homem deixará pai e mãe” (Mateus 19:4-5). Em Gênesis, essas palavras são do narrador. Para Jesus, o que o narrador escreveu, Deus disse.

Os Apóstolos e a Escritura

Os apóstolos pensavam do mesmo jeito. A carta aos Hebreus introduz um salmo com as palavras “como diz o Espírito Santo” (Hebreus 3:7). Paulo diz que os apóstolos falavam “não com palavras que a sabedoria ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina” (1 Coríntios 2:13).

E os escritos dos apóstolos logo foram postos ao lado do Antigo Testamento. Pedro inclui as cartas de Paulo entre “as outras Escrituras” (2 Pedro 3:16). Paulo cita, sob o mesmo “a Escritura diz”, um texto de Deuteronômio e uma frase que encontramos em Lucas: “o trabalhador é digno do seu salário” (1 Timóteo 5:18).

Uma Olhada em Lucas

Se a Bíblia toda é palavra de Deus, ela também mostra com muita franqueza o trabalho dos seus autores humanos. A introdução do evangelho de Lucas é o melhor exemplo:

Como muitos empreenderam pôr em ordem o relato das coisas que entre nós se cumpriram, conforme os que as viram desde o princípio, e foram servidores da palavra, nos transmitiram, pareceu-me bom que também eu, que tenho me informado com exatidão desde o princípio, escrevesse-as em ordem a ti, caríssimo Teófilo, para que conheças a certeza das coisas de que foste ensinado.

Lucas 1:1-4

O que aprendemos aqui?

  1. Lucas decide escrever. Ele não diz ter recebido uma ordem ou uma visão, e o motivo que dá é pessoal: que Teófilo conheça a verdade sobre Jesus.
  2. A inspiração de Lucas não dispensou a pesquisa. Ele ouviu testemunhas, conferiu informações e organizou o material.
  3. Já havia outros relatos sobre Jesus. Comparando Lucas com Marcos, vemos que Lucas aproveitou muito de Marcos, mudou detalhes de redação e acrescentou bastante coisa.

É difícil encaixar tudo isso na teoria do ditado. Lucas trabalhou como um historiador cuidadoso, e foi por meio desse trabalho que o Espírito Santo produziu um evangelho inspirado.

Um Exemplo de Paulo

Outra passagem interessante está em 1 Coríntios 7. Ao falar do casamento, Paulo diz: “aos casados eu mando, não eu, mas o Senhor” (1 Coríntios 7:10). Ele está lembrando um ensino que o próprio Jesus deu. Logo depois, diz: “aos outros digo eu, não o Senhor” (v. 12), porque vai tratar de uma situação que Jesus não tinha tratado. E, sobre as virgens, diz: “não tenho mandamento do Senhor; porém eu dou minha opinião” (v. 25).

Alguns concluem daí que Paulo não se considerava inspirado nessas partes. Mas o capítulo termina assim: “E também eu penso, que tenho o Espírito de Deus” (v. 40). Paulo não divide a carta em partes inspiradas e partes não inspiradas. Ele distingue o que Jesus ensinou pessoalmente do que ele mesmo, como apóstolo guiado pelo Espírito, ensina agora. A passagem mostra que a inspiração passou pela memória, pelo raciocínio e pelo juízo do apóstolo.

Comparando os Evangelhos

Por que temos quatro evangelhos, e não um só, sem aparentes diferenças? Mateus, Marcos e Lucas são muito parecidos, e João é bem diferente deles. E há diferenças de detalhe entre os relatos. Mateus fala de um anjo no túmulo vazio (Mateus 28:2). Lucas fala de “dois homens” com roupas brilhantes (Lucas 24:4).

Essas diferenças são de escolha e de ponto de vista. Quem fala de um anjo não nega que havia dois; apenas fala daquele que falou com as mulheres. Testemunhas verdadeiras nunca contam a história com as mesmas palavras. As outras diferenças vêm do propósito de cada autor. Lucas escreveu para que Teófilo tivesse certeza (Lucas 1:4). João escreveu “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus” (João 20:31). Cada um escolheu o material de acordo com o seu objetivo, e Deus quis que tivéssemos os quatro retratos.

Minha Própria Visão

O que tudo isso nos diz sobre a inspiração? A teoria dinâmica viu uma coisa verdadeira: os autores não foram máquinas, e a personalidade deles aparece em cada página. Mas ela erra quando põe a inspiração só nas ideias. Jesus e os apóstolos apoiaram argumentos em palavras e até no tempo de um verbo, e não há ideia comunicada sem palavras que a carreguem.

Creio, por isso, que a melhor explicação é a inspiração verbal e plenária, entendida sem ditado. Alguns teólogos a chamam de inspiração orgânica: Deus usou a pessoa inteira do autor, com a sua história, a sua pesquisa, o seu vocabulário e o seu estilo, e o resultado é ao mesmo tempo palavra humana e palavra de Deus. Como isso acontece nós não sabemos explicar por inteiro. Armínio, ao tratar do assunto em Leiden, afirmou com firmeza a origem divina da Escritura e deixou em aberto justamente o modo:

A causa principal desses livros é Deus, em seu Filho, pelo Espírito Santo. As causas instrumentais são homens santos de Deus, que, não por sua própria vontade e prazer, mas tendo o Espírito Santo agindo neles e inspirando-os, escreveram esses livros, quer as palavras lhes fossem inspiradas, ditadas, ou então administradas a eles sob a orientação divina.

(Jacó Armínio, Debates privados, V.7, em As obras de Armínio, vol. 2)

Esse é um bom equilíbrio. O que precisamos afirmar é o resultado: o texto que os autores escreveram é exatamente o que Deus quis nos dar.

A Veracidade da Escritura

Infalível e Inerrante

Um assunto muito ligado à inspiração é a inerrância. Dizer que a Bíblia é inerrante é dizer que ela, como foi escrita originalmente, não contém erro em nada do que afirma. Os teólogos também dizem que ela é infalível, isto é, que não engana e não falha no propósito para o qual foi dada.

A inerrância gera muita discussão, e para alguns ela é quase um teste de fé. No fundo, a pergunta é simples: posso ter certeza de que o que a Bíblia diz é verdade?

A base da resposta está no caráter de Deus. “Deus não é homem, para que minta” (Números 23:19). Ele é o “Deus, que não pode mentir” (Tito 1:2), e é “impossível que Deus minta” (Hebreus 6:18). Jesus orou ao Pai: “tua palavra é a verdade” (João 17:17). Se a Escritura saiu da boca de Deus, ela participa da veracidade dele. Armínio dizia que a autoridade da Bíblia está justamente nisso:

A autoridade da palavra de Deus, que está contida nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, está tanto na veracidade de toda a narração, como de todas as declarações, quer sejam sobre coisas passadas, sobre coisas presentes ou sobre as que ainda estão por vir, e no poder das ordens e proibições que estão contidos na palavra divina.

(Jacó Armínio, Debates privados, VI.1, em As obras de Armínio, vol. 2)

Repare na expressão “toda a narração”. Para Armínio, a Bíblia é verdadeira também quando conta a história, e não só quando ensina doutrina.

Três Posições

Inerrância Plena

A primeira posição afirma que a Bíblia não erra em nada do que afirma, seja sobre Deus e a salvação, seja sobre a história e o mundo. A convicção é antiga. Agostinho escreveu a Jerônimo que, se encontrasse nos livros da Bíblia algo que parecesse contrário à verdade, pensaria que a cópia estava errada, que o tradutor tinha se enganado ou que ele mesmo não tinha entendido (Carta 82).

O debate moderno começou quando a ciência e a pesquisa histórica levaram muitos a duvidar de partes da Bíblia. A resposta evangélica mais conhecida é a Declaração de Chicago sobre a inerrância bíblica, de 1978. Ela diz que a Escritura é “sem erro ou falha em todo o seu ensino”, tanto no que afirma sobre a criação e a história quanto no seu testemunho da graça de Deus.

A vantagem dessa posição é clara: posso não entender o que a Bíblia diz sobre um assunto, mas posso confiar que, bem entendida, ela está certa.

Inerrância Limitada

A segunda posição afirma que a Bíblia não erra em tudo o que diz respeito à salvação e à vida com Deus, mas não faz a mesma afirmação sobre a ciência e a história. Ela foi defendida por vários teólogos protestantes desde o século 19. Nessa visão, as histórias de Gênesis poderiam ser tradições antigas com um núcleo de verdade, mas não relatos exatos, e isso não teria importância, porque todas elas transmitiriam as verdades que Deus quer que tenhamos.

Essa posição nasce de uma intuição correta: a Escritura foi dada para nos tornar “sábio para a salvação” (2 Timóteo 3:15), e não para responder às perguntas da geologia.

Mas ela tem um problema sério. Onde traçar a linha? Se Adão pode não ter existido, o que impede de dizer o mesmo de outros personagens? Paulo compara Adão e Cristo (Romanos 5:14), e a comparação perde o sentido se um deles não for real. A salvação que a Bíblia anuncia está costurada com a história que ela conta. Se Cristo não ressuscitou de fato, os apóstolos são “falsas testemunhas de Deus” (1 Coríntios 15:15). E cada defensor dessa posição tem a sua própria lista do que pode estar errado, sem um critério firme para separar uma coisa da outra.

Sem Inerrância

A posição oposta à inerrância plena nega qualquer forma de inerrância. Para ela, a Bíblia pode ter alguma inspiração, no sentido da iluminação, e pode ser útil para conhecer a Deus e viver com piedade. Mas é um livro humano, sujeito a erro e a revisão. Essa é a posição da teologia liberal, que diz que a Bíblia “contém” a palavra de Deus, mas não “é” a palavra de Deus.

O que a Inerrância Não Quer Dizer

A inerrância é muitas vezes mal entendida. Alguns cuidados ajudam.

A Bíblia Registra o que Não Aprova

A Bíblia registra com fidelidade coisas que são falsas, sem afirmá-las. Ela conta que a serpente disse a Eva: “Não morrereis” (Gênesis 3:4). Registra longos discursos dos amigos de Jó, e no fim Deus diz que eles não falaram dele “o que era correto” (Jó 42:7). A inerrância vale para o que a Bíblia afirma, e não para cada frase dita por alguém dentro dela.

Cada Texto Fala do Seu Jeito

Uma parábola não é uma reportagem, e um salmo não é um tratado de astronomia. Cada texto deve ser lido segundo o seu gênero, e afirma a verdade do jeito próprio desse gênero.

A Linguagem do Dia a Dia

A Bíblia fala como as pessoas falam. Ela diz que “o sol nasce, e o sol se põe” (Eclesiastes 1:5), como nós dizemos até hoje sem negar que a Terra gira. Usa números redondos, cita o Antigo Testamento livremente, pelo sentido, e conta o mesmo fato com detalhes diferentes. Nada disso é erro. Calvino gostava de dizer que Deus, na Escritura, se acomoda à nossa capacidade, como um pai que fala de modo simples com o filho pequeno.

Os Originais

A inerrância se refere aos textos como saíram das mãos dos autores, os chamados autógrafos. Não se refere às cópias, que podem ter erros de copista, nem às traduções. Mas, como vimos no capítulo anterior, Deus guardou a sua palavra por meio de tantas cópias que podemos saber com muita segurança o que os originais diziam.

Problemas sem Solução

Há passagens difíceis, ainda sem boa explicação. Muitas outras foram esclarecidas com o tempo. Diante das que restam, a atitude honesta é esperar, sem esconder a dificuldade e sem concluir às pressas que a Bíblia errou.

Uma Preocupação

Tenho, porém, uma preocupação com o modo como muitas pessoas usam a inerrância. Elas esquecem que a Bíblia é inerrante, mas a nossa interpretação dela não é.

A Bíblia foi escrita em culturas que já não existem, em primeiro lugar para pessoas daquele tempo. Quando ignoramos isso e a lemos só com os nossos óculos culturais, corremos o risco de fazê-la dizer o que ela não quis dizer. Muitas brigas, por exemplo sobre os primeiros capítulos de Gênesis, nascem aqui: defendemos com unhas e dentes a nossa leitura do texto como se ela fosse o próprio texto. A inerrância deveria nos deixar mais humildes, e não mais briguentos. A interpretação será o assunto do Capítulo 12.

A Posição do Site

A declaração de fé deste site, na página Sobre, diz que, pela inspiração do Espírito Santo, os escritos originais “foram preservados de erro”, de modo que temos nas Escrituras “uma revelação verdadeira e digna de confiança acerca de Deus e de suas obras na história”. É a posição da inerrância plena, entendida com os cuidados acima. Ela se apoia na veracidade de Deus e no modo como Jesus tratou a Escritura, e não precisa de uma teoria de ditado mecânico.

A Autoridade da Escritura

A Pergunta Mais Importante

A pergunta mais importante que podemos fazer sobre a Bíblia é que autoridade ela terá na nossa vida. Posso crer que a Bíblia é inspirada e inerrante e, mesmo assim, não deixar que ela mande em mim. Nesse caso, ela terá pouco valor para mim, além de um exercício da cabeça. Mas, se a Bíblia tem autoridade, eu preciso ouvi-la e obedecer-lhe. “Sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando a vós mesmos” (Tiago 1:22).

De Onde Vem Essa Autoridade?

A autoridade da Bíblia vem de Deus, que é o seu autor. Ela não vem da Igreja, que reconheceu a Escritura mas não a criou. Também não vem do pregador nem da experiência de quem lê. Esse ponto foi tratado no Capítulo 5: A Escritura como fonte primária da teologia.

Como sabemos que a Bíblia vem de Deus? Há boas razões para crer nisso. Wesley falava de quatro grandes argumentos: os milagres, as profecias cumpridas, a bondade da doutrina e o caráter moral dos escritores. E propôs também um argumento curto:

A Bíblia deve ser a invenção de homens bons ou de anjos; de homens maus ou de demônios; ou de Deus. […] Ela não podia ser a invenção de homens maus ou de demônios pois eles não fariam um livro que impõe todos os deveres, proíbe todos os pecados e condena as suas almas ao inferno por toda a eternidade.

(John Wesley, Demonstração clara e concisa da inspiração divina das Sagradas Escrituras, em Coletânea da teologia de João Wesley)

E homens bons, completa Wesley, não escreveriam “Assim disse o Senhor” sobre uma invenção sua. Resta que a Bíblia veio de Deus.

Esses argumentos mostram que crer na Bíblia não é um salto no escuro. Mas a certeza firme do crente não vem só deles. Ela vem do mesmo Espírito que inspirou os profetas, quando ele abre o nosso entendimento, como Jesus fez com os discípulos: “Então ele lhes abriu o entendimento, para que entendessem as Escrituras” (Lucas 24:45). É o que a Reforma chamou de testemunho interno do Espírito Santo, estudado no Capítulo 6: Razão e experiência sob a autoridade da Palavra.

Somente a Escritura

Para a tradição protestante, a Escritura é a autoridade final em matéria de fé e de vida. É o princípio da Reforma conhecido como sola Scriptura, “somente a Escritura”. Isso não quer dizer que a tradição da Igreja, a razão e a experiência não tenham valor. Quer dizer que todas elas ficam debaixo da Bíblia e são julgadas por ela. Isaías já dizia: “À Lei e ao testemunho! Se não falarem segundo esta palavra, não haverá amanhecer para eles” (Isaías 8:20).

Por isso os judeus de Bereia são elogiados: ouviram Paulo “examinando a cada dia as escrituras, para ver se estas coisas eram assim” (Atos 17:11).

Suficiência e Clareza

Além da autoridade, a Reforma reconheceu na Escritura outras qualidades, entre elas a suficiência e a clareza.

A Escritura Basta

Dizer que a Escritura é suficiente é dizer que ela contém tudo o que precisamos saber para ser salvos e para viver uma vida que agrada a Deus. Paulo diz que ela pode tornar Timóteo “sábio para a salvação” e que, por ela, “o homem de Deus seja completo, plenamente instruído para toda boa obra” (2 Timóteo 3:15, 17).

Jesus ensinou o mesmo na história do rico e de Lázaro. O rico pede que Lázaro avise os seus irmãos e ouve: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, também não se deixariam convencer, ainda que alguém ressuscite dos mortos” (Lucas 16:29, 31).

Suficiente não quer dizer que a Bíblia diz tudo sobre todas as coisas. Jesus fez “muitos outros sinais” que não foram escritos (João 20:30), e a Bíblia não ensina matemática nem medicina. “As coisas secretas pertencem ao SENHOR nosso Deus: mas as reveladas são para nós e para nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). O que foi revelado basta para o que precisamos.

A suficiência tem uma consequência prática. Nada pode ser imposto à consciência do crente como artigo de fé se não estiver na Escritura ou não puder ser provado por ela. Isso vale para o dogma de um concílio e vale também para a “revelação” de um pregador.

A Escritura É Clara

Dizer que a Escritura é clara é dizer que o essencial dela pode ser entendido por qualquer pessoa que a leia com sinceridade. “A entrada de tuas palavras dá luz, dando entendimento aos simples” (Salmos 119:130). “O testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos simples” (Salmos 19:7). Armínio defendeu essa clareza sem exagerá-la:

Mesmo assim, aqueles sentidos ou significados, cujo conhecimento e crença são simplesmente necessários para a salvação, são revelados nas Escrituras com tal clareza que podem ser percebidos até mesmo pelos indivíduos mais simples da humanidade, com a condição de que sejam capazes de exercer seu raciocínio.

(Jacó Armínio, Debates privados, VIII.4, em As obras de Armínio, vol. 2)

Repare no “mesmo assim”. Pouco antes, Armínio tinha reconhecido que nem tudo na Bíblia é igualmente claro. O próprio Pedro admite que nas cartas de Paulo “há algumas coisas difíceis de entender” (2 Pedro 3:16). Mas o caminho da salvação está à vista de todos.

Calvino comparou a Escritura a um par de óculos. Uma pessoa idosa, de vista cansada, olha um livro bonito e mal consegue juntar duas palavras. Com os óculos, começa a ler com clareza. Assim a Bíblia junta as ideias confusas que temos de Deus e nos mostra com nitidez quem ele é (Institutas, I.6.1).

Essa clareza, porém, só é percebida por quem tem olhos para ver. “Se o nosso Evangelho está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto” (2 Coríntios 4:3). O problema não está na luz, mas nos olhos. Por isso lemos a Bíblia pedindo a ajuda do Espírito.

A clareza da Escritura não dispensa os mestres. O eunuco etíope perguntou a Filipe: “Como eu poderia, se alguém não me ensinar?” (Atos 8:31). Mas ela quer dizer que a Bíblia pertence a todo o povo de Deus, e não só aos especialistas. Por isso a Reforma a traduziu para a língua do povo.

A Escritura É Viva

A Bíblia não é um arquivo morto. “A palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada do que toda espada de dois gumes” (Hebreus 4:12). Deus compara a sua palavra à chuva que rega a terra e a faz brotar: “Assim também será minha palavra, que não voltará a mim vazia; ao contrário, ela fará o que me agrada” (Isaías 55:11). Paulo agradece porque os tessalonicenses receberam a pregação “como a palavra de Deus, a qual também opera em vós, que credes” (1 Tessalonicenses 2:13).

Essa força vem do Espírito, que não abandona a palavra que ele mesmo inspirou. Wesley, comentando 2 Timóteo 3:16, ligou as duas coisas:

Toda a Escritura é inspirada por Deus. O Espírito de Deus não só inspirou aqueles que a escreveram, mas inspira continuamente e assiste de modo sobrenatural àqueles que a leem com sincera oração.

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Novo Testamento, 2 Timóteo 3:16, em Coletânea da teologia de João Wesley)

É por isso que a leitura da Bíblia muda vidas. A mesma palavra que convence do pecado também consola, corrige e faz crescer. “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17).

Por que a Bíblia É Assim?

Se a Bíblia é a revelação que Deus faz de si mesmo, por que ela é muitas vezes difícil e não mais direta? Por que Deus não nos deu um manual organizado, com um capítulo para cada doutrina? Ele poderia ter feito isso, mas não fez. Em vez disso, temos histórias, leis, cânticos, cartas e visões, e os teólogos discutem o sentido de muitas passagens desde que a Bíblia existe.

Talvez Deus tenha nos dado de propósito algo que exige esforço. A Bíblia foi escrita para ser lida, meditada e vivida: “antes de dia e de noite meditarás nele” (Josué 1:8). Quanto mais tempo passamos com ela, mais ela nos dá, e nesse esforço a nossa fé cresce. Um livro de teologia sistemática, como este, só faz sentido como servo dessa palavra, organizando o que ela ensina para que a leiamos melhor.

Conclusão

A Bíblia é uma coleção de escritos produzidos por autores humanos, que viveram em culturas muito diferentes da nossa e escreveram, em primeiro lugar, para os seus contemporâneos. Ela não foi escrita como um tratado de teologia e exige esforço de quem quer entender a sua mensagem.

Ao mesmo tempo, a Bíblia é inspirada por Deus. O Espírito Santo conduziu os autores de tal modo que o que eles escreveram, com as suas palavras e o seu estilo, é a palavra de Deus. Por isso ela é verdadeira em tudo o que afirma, tem autoridade sobre a nossa fé e a nossa vida, basta para a salvação, é clara no essencial e continua viva pela ação do Espírito. A cultura em que ela foi escrita mudou, mas a mensagem não mudou. As palavras de Paulo a Timóteo valem para os cristãos do século 21 como valeram para os do século 1:

Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir, e para instruir na justiça; para que o homem de Deus seja completo, plenamente instruído para toda boa obra.

2 Timóteo 3:16-17

Os próximos capítulos deste livro partem dessa convicção: a Bíblia é o guia seguro para conhecer a Deus e o seu propósito, a humanidade e a sua condição, e o modo de viver como crentes. Essa convicção não se prova como um teorema, mas tem se mostrado verdadeira na vida de inúmeras pessoas, inclusive na minha. O próximo capítulo trata de uma pergunta que ficou em aberto: quais livros fazem parte da Escritura, e como a Igreja os reconheceu?

Fontes

  • Agostinho. Carta 82, a Jerônimo (c. 405).
  • Armínio, Jacó. Debates privados, V, VI e VIII. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. I.6.1; IV.8.9.
  • Declaração de Chicago sobre a inerrância bíblica (1978).
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008. Cap. 18.
  • Wesley, John. Demonstração clara e concisa da inspiração divina das Sagradas Escrituras; Notas explicativas sobre o Novo Testamento, 2 Timóteo 3:16. Em Coletânea da teologia de João Wesley.

Teologia Sistemática, Parte 2: Revelação e Escritura. Capítulo anterior: Capítulo 9: A revelação especial e sua preservação. Próximo capítulo: Capítulo 11: O cânon das Escrituras.

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