
TeologiaTeologia Sistemática22 de 37
Lição 24: A imagem de Deus e a constituição do ser humano
Curso de Teologia Sistemática, parte 2
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os termos e as distinções
- 1.1 Imagem e semelhança
- 1.2 Corpo, alma, espírito e coração
- 1.3 Dicotomia, tricotomia e monismo
- 2. A fundamentação bíblica
- 2.1 A imagem na criação
- 2.2 Cristo, a imagem de Deus
- 2.3 A imagem renovada
- 2.4 O ser humano inteiro
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 Dos Pais à Idade Média
- 3.2 A Reforma e o século XX
- 3.3 Armínio
- 3.4 Wesley: imagem natural, política e moral
- 3.5 A teologia wesleyano-arminiana e o Brasil
- 4. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 4.1 Afirmações
- 4.2 A imagem depois da queda
- 4.3 A imagem e o corpo
- 4.4 Dicotomia e tricotomia
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.
Objetivos da lição
- Explicar os termos bíblicos e teológicos da doutrina da imagem de Deus e da constituição humana.
- Reunir o testemunho da Escritura sobre a imagem na criação, em Cristo e na nova criação, e sobre o ser humano como corpo, alma e espírito.
- Acompanhar as principais interpretações da imagem e da constituição humana, dos Pais da Igreja a Armínio, Wesley e a teologia no Brasil.
- Expor a distinção wesleyana entre imagem natural, política e moral e avaliar a dicotomia e a tricotomia.
- Tirar consequências para a dignidade humana, o cuidado do corpo e a santificação.
Introdução
Quase todos nós carregamos no bolso algumas moedas de real, e poucos reparamos que, de um lado, cada uma traz a efígie da República. Com o uso, o relevo se gasta e a moeda escurece; ainda assim, qualquer pessoa reconhece de quem é a imagem. Jesus fez uma pergunta parecida aos que queriam apanhá-lo com uma questão de impostos: “Mostrai-me uma moeda; ela tem a imagem e a inscrição de quem?” Responderam que era de César, e ele concluiu: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lucas 20:24-25). Já Tertuliano entendia que a resposta escondia uma segunda pergunta, pois, se a moeda pertence a quem nela gravou a sua imagem, o ser humano pertence a Deus, que o fez à imagem dele (Sobre a idolatria, 15).
Depois de estudar, na lição 23, a criação do ser humano, a sua dignidade e a sua vocação, tratamos agora de duas questões que ali ficaram reservadas: o sentido da expressão “imagem de Deus” (imago Dei), com o que restou dela depois da queda, e a constituição do ser humano, isto é, se somos corpo e alma ou corpo, alma e espírito. As respostas condicionam a doutrina do pecado (lições 25 a 27), a da pessoa de Cristo (lição 28) e a do estado intermediário (lição 47); e, como a tradição wesleyana descreve a salvação inteira como renovação da imagem de Deus em nós, esta lição prepara desde já a quarta parte do curso.
1. Os termos e as distinções
1.1 Imagem e semelhança
Gênesis 1:26 emprega dois substantivos: ṣelem, “imagem”, e dəmût, “semelhança”. Ṣelem designa no Antigo Testamento uma figura concreta, quase sempre uma estátua, inclusive de ídolos (2 Reis 11:18; Daniel 3:1); dəmût é palavra mais abstrata, que indica parecença ou modelo. A Septuaginta traduziu-os por eikōn e homoiōsis, e a Vulgata, por imago e similitudo. O Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento conclui que, à luz da antropologia do Antigo Testamento, os dois termos são sinônimos e se referem “ao ser humano como um todo” (art. “Imagem”). Isso se confirma no próprio Gênesis: o versículo 27 fala só de imagem, 5:1 só de semelhança, 5:3 usa os dois em ordem inversa, e 9:6 volta a falar só de imagem. Por isso a exegese moderna não sustenta a distinção que alguns Pais fizeram entre a imagem conservada e a semelhança perdida.
1.2 Corpo, alma, espírito e coração
O vocabulário bíblico é rico e pouco técnico. Em hebraico, bāśār é a “carne”, o ser humano na sua fragilidade; nepeš, que nossas Bíblias traduzem por “alma”, é o ser vivo, a pessoa, o próprio “eu” (“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR”, Salmos 103:1); rûaḥ significa ao mesmo tempo “vento”, “fôlego” e “espírito”; nəšāmâ é o “sopro” que Deus soprou nas narinas do primeiro homem (Gênesis 2:7); e lēb, o “coração”, é o centro da vontade, do juízo e da vida moral. O Novo Testamento emprega sōma, “corpo”; sarx, “carne”, em Paulo muitas vezes a existência dominada pelo pecado; psychē, “alma”; pneuma, “espírito”; kardia, “coração”; e nous, “mente”. O Dicionário internacional mostra que psychē significa no Novo Testamento sobretudo a vida, a pessoa inteira e a vida interior diante de Deus (art. “Alma”). Nenhum desses termos divide o ser humano em compartimentos; cada um olha a pessoa inteira de um ângulo.
1.3 Dicotomia, tricotomia e monismo
Daí nasceram três modelos. A dicotomia (do grego dicha, “em dois”, e temnō, “cortar”) ensina que o ser humano é composto de duas realidades, uma material, o corpo, e outra imaterial, chamada indiferentemente de alma ou espírito. A tricotomia (“cortar em três”) distingue três elementos: o corpo, a alma, sede da vida psíquica, do intelecto, das emoções e da vontade, e o espírito, órgão da comunhão com Deus. O monismo (de monos, “único”) nega qualquer realidade imaterial distinta do corpo; na sua forma materialista, nega também a sobrevivência da pessoa depois da morte. Uma forma de dicotomia que sublinha a unidade da pessoa, chamada por John Cooper de dualismo holístico (Body, Soul and Life Everlasting, 1989), tem ganhado espaço entre teólogos de várias tradições.
2. A fundamentação bíblica
2.1 A imagem na criação
Charles Sherlock observa que a fórmula aparece três vezes no Gênesis, sempre em pontos decisivos: no ponto mais alto da criação (Gênesis 1:26-27, examinado na lição anterior), no começo da genealogia depois do Éden e na aliança com Noé depois do dilúvio (A doutrina da humanidade, cap. 1). O segundo texto é especialmente instrutivo:
Este é o livro das gerações de Adão. No dia em que criou Deus ao ser humano, à semelhança de Deus o fez; Macho e fêmea os criou; e os abençoou, e chamou o nome deles Adão, no dia em que foram criados. E viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme sua imagem, e chamou seu nome Sete.
Adão foi feito à semelhança de Deus, e Sete nasce à semelhança de Adão. A imagem passa de geração em geração, mas passa por meio de um pai que já pecou. O terceiro mostra que ela continua presente depois da queda, a ponto de fundamentar a proibição do homicídio: “O que derramar sangue humano, pelo ser humano seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus o ser humano foi feito” (Gênesis 9:6). Tiago repete a convicção a respeito de qualquer pessoa ao censurar a língua que amaldiçoa “os seres humanos, que são feitos à semelhança de Deus” (Tiago 3:9).
Duas observações ajudam a ler esses textos. Em primeiro lugar, o mesmo Deus que se apresenta como criador da sua imagem proíbe Israel de fazer qualquer “imagem de forma alguma, efígie de macho ou fêmea” (Deuteronômio 4:16). Nenhuma escultura pode representar o Deus invisível, porque ele já tem a sua imagem na terra, viva, e ela é o ser humano. Em segundo lugar, no antigo Oriente Próximo, a estátua do rei colocada numa terra conquistada representava a presença e a autoridade do monarca, e ultrajá-la equivalia a ultrajar o próprio rei (David Clines, citado por Sherlock, notas do cap. 1). Por isso Gerhard von Rad via no ser humano um “sinal da Sua própria autoridade” posto por Deus no mundo (citado pelo Dicionário internacional, art. “Imagem”), e o domínio aparece no mesmo versículo que a imagem (Gênesis 1:26). Ser imagem é, portanto, ser semelhante a Deus, relacionado com ele e encarregado de representá-lo diante da criação.
2.2 Cristo, a imagem de Deus
O Novo Testamento quase não usa eikōn para a humanidade em geral e concentra a palavra em Cristo. Ele “é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Colossenses 1:15); o evangelho anuncia “a glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Coríntios 4:4); e Hebreus o chama de “resplendor da sua glória” e “expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3), traduzindo a palavra charaktēr, a marca que o cunho deixa na moeda. O Filho eterno é a imagem perfeita do Pai e, ao se fazer homem, mostrou também o que é um ser humano que vive inteiramente como imagem de Deus. Por isso a teologia define a imagem olhando primeiro para Jesus, e não para Adão nem para nós mesmos: quem o viu, viu o Pai (João 14:9), e vê também o ser humano como Deus o quis.
2.3 A imagem renovada
O mesmo Cristo que é a imagem de Deus é o modelo da nova criação. Paulo exorta os efésios a se despojarem do velho ser humano e a se revestirem do novo:
quanto ao comportamento passado, que deveis abandonar o velho ser humano, que se corrompe pelos maus desejos de engano; que deveis vos renovar no espírito da vossa mente; e que deveis vos revestir do novo ser humano, que é criado conforme Deus na verdadeira justiça e santidade.
Aos colossenses, escreve que eles se revestiram do novo ser humano, “que se renova em conhecimento, conforme a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:10). Os dois textos indicam o conteúdo do que precisa ser renovado: conhecimento, justiça e santidade. A renovação é um processo presente, pois “somos transformados de glória em glória, segundo a mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Coríntios 3:18), e uma esperança futura, pois “assim como trouxemos a imagem do terrestre, assim também traremos a imagem do celestial” (1 Coríntios 15:49). O alvo de todo o propósito divino é que os que creem sejam “conformes à imagem do seu Filho” (Romanos 8:29), e João resume a esperança cristã ao dizer que, quando ele se manifestar, “seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (1 João 3:2).
2.4 O ser humano inteiro
Em Gênesis 2:7, Deus forma o homem do pó, sopra-lhe nas narinas o fôlego de vida, e o pó animado pelo sopro divino se torna “alma vivente”, uma pessoa viva. A Escritura, porém, também distingue o que a morte separa: “E o pó volte à terra, assim como era; e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12:7). Jesus ensina que os homens podem matar o corpo, “mas não podem matar a alma” (Mateus 10:28), e ao morrer entrega o seu espírito nas mãos do Pai (Lucas 23:46); Paulo deseja “ser desligado, e estar com Cristo, o que é muito melhor” (Filipenses 1:23), e prefere “deixar o corpo, e habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8). A esperança final, contudo, não é a alma liberta do corpo, mas “a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23) na ressurreição.
Os textos preferidos dos tricotomistas pedem leitura atenta:
E o próprio Deus da paz vos santifique em tudo; e que todo o vosso espírito, alma e corpo sejam preservados irrepreensíveis na vinda do nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é aquele que vos chama, e ele também o fará.
O outro diz que a palavra de Deus “penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e das medulas, e é apta para julgar os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12). Em ambos, o acento recai sobre a totalidade: Deus santifica “em tudo”, e a palavra alcança o coração. Fórmulas semelhantes aparecem em outros lugares sem que ninguém conclua que somos feitos de quatro partes, como no grande mandamento, que pede o amor a Deus “com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com todas as tuas forças” (Marcos 12:30); e no cântico de Maria alma e espírito formam um paralelismo poético (Lucas 1:46-47).
3. Desenvolvimento histórico
3.1 Dos Pais à Idade Média
Ireneu de Lião (ver o estudo Irineu e a imagem de Deus) distinguiu a imagem, que todos possuem e que inclui a razão e a liberdade, da semelhança, que Adão recebeu como uma criança destinada a crescer e que o pecado interrompeu (Contra as heresias, IV, 38, 1; V, 6, 1; V, 16, 2). Tertuliano e Orígenes seguiram caminho parecido, e Atanásio via na imagem a capacidade, dada a nenhuma outra criatura, de participar da vida do Logos (Alister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 14). Agostinho procurou na memória, na inteligência e na vontade vestígios da Trindade (A Trindade, IX a XIV), e Tomás de Aquino situou a imagem na natureza intelectual e distinguiu dela a justiça original, um dom sobrenatural acrescentado (donum superadditum), perdido na queda. Sherlock adverte que essa separação favoreceu a ideia de uma natureza neutra, capaz de se preparar para a justificação, contra a qual protestaram os reformadores (cap. 3).
Os alexandrinos falaram muitas vezes em corpo, alma e espírito. A tricotomia, porém, ficou suspeita quando Apolinário de Laodiceia a usou para ensinar que, em Cristo, o Logos ocupava o lugar do espírito humano, de modo que Jesus não teria uma mente humana completa. O Concílio de Constantinopla (381) condenou essa doutrina, e Calcedônia (451) confessou Cristo “verdadeiramente homem, de alma racional e corpo”. Desde então a dicotomia tornou-se a posição corrente no Ocidente.
3.2 A Reforma e o século XX
Lutero identificou a imagem com a justiça original e considerou-a praticamente perdida. Calvino ensinou que “a sede própria da imagem” é a alma, que ela não foi totalmente apagada, mas ficou corrompida a ponto de restar uma “horrenda deformidade”, e que a sua restauração em Cristo se conhece por Colossenses 3:10 e Efésios 4:24 (Institutas, I, 15, 3-4). No século XX, Karl Barth leu a imagem a partir de “macho e fêmea os criou” como a capacidade de relação, a correspondência entre o eu e o tu que reflete as relações em Deus. Emil Brunner, em controvérsia com Barth, sustentou que permanece depois da queda a capacidade humana de receber a palavra de Deus (Stanley Grenz e Roger Olson, A teologia do século 20); e a exegese do Antigo Testamento, com von Rad, sublinhou a dimensão funcional ou régia. Hoje se costuma agrupar essas leituras em três famílias, a estrutural, a relacional e a funcional, e Sherlock conclui que nenhuma interpretação, sozinha, dá conta do testemunho da Escritura (cap. 3).
3.3 Armínio
Armínio tratou do tema no Debate privado XXVI, “Sobre a criação do homem à imagem de Deus”. O homem é “uma criatura de Deus, consistindo de um corpo e uma alma” (XXVI, 1), e a alma, criada do nada, é simples, imaterial e imortal, “não realmente por si mesma, mas pela graça sustentadora de Deus” (XXVI, 4). Armínio era dicotomista, e até a imortalidade era, para ele, dádiva. Na alma, a imagem se mostra na substância, nas faculdades do entendimento e da vontade e nos hábitos da sabedoria, da justiça e da santidade; quanto ao corpo, embora não se possa dizer propriamente que foi criado à imagem de quem é puro espírito, ele “tem algo de divino”, porque não teria morrido sem o pecado, é capaz de glória incorruptível e é instrumento de obras admiráveis (XXVI, 7).
O ponto decisivo vem em seguida: as partes da imagem podem ser distinguidas em naturais e essenciais, como o ser espírito dotado de entendimento e vontade, e em sobrenaturais e acidentais, como “o conhecimento de Deus e das coisas que dizem respeito à salvação eterna” e “a retidão e a santidade da vontade” (XXVI, 8). Quando trata dos efeitos da queda, Armínio diz que a posteridade de Adão ficou privada “desse dom do Espírito Santo, ou mesmo da justiça original”, e que a essa pena se dá o nome de “privação da imagem de Deus” (Debate privado XXXI, 9, em As obras de Armínio, vol. 2). Essa distinção prepara a doutrina wesleyana e sustenta a convicção arminiana de que o ser humano caído continua humano, mas incapaz de qualquer bem espiritual sem a graça.
3.4 Wesley: imagem natural, política e moral
O texto clássico está no sermão 45, O novo nascimento (1760), que funda a necessidade do novo nascimento na criação à imagem de Deus: “não apenas na sua imagem natural, uma figura da sua própria imortalidade, um ser espiritual dotado de entendimento, liberdade da vontade e várias afeições; nem só na sua imagem política, como governador deste mundo inferior, com domínio sobre os peixes do mar e sobre toda a terra; mas principalmente na sua imagem moral, que, segundo o apóstolo, é justiça e verdadeira santidade” (I, 1). A divisão em três não é invenção de Wesley; Albert Outler mostrou que ele a tomou de Isaac Watts, Ruin and Recovery of Mankind (1740), como registra Randy Maddox (Responsible Grace, cap. 3, n. 16).
A imagem natural consiste, segundo o sermão 60, A libertação geral, no poder de mover-se a si mesmo, no entendimento, na vontade e na liberdade, sem a qual o ser humano seria tão incapaz de virtude ou de vício quanto um pedaço de mármore (I, 1). A imagem política é o governo do mundo inferior, que Wesley descreve, no mesmo sermão, como o canal pelo qual as bênçãos do Criador chegavam às demais criaturas (I, 3). A imagem moral é o amor, a justiça, a misericórdia e a pureza que tornavam Adão semelhante ao caráter de Deus; por isso ele podia ser declarado “bom em grande maneira” (Gênesis 1:31). Maddox observa que Wesley menciona a imagem política raramente e que a distinção que mais pesa na sua teologia é a outra, entre a imagem natural e a moral, correspondente à distinção entre os atributos naturais e os morais de Deus (cap. 3).
Quanto à queda, Wesley ensina que Adão, “naquele momento”, perdeu a imagem moral de Deus “e, em parte, a natural” (sermão 57, Sobre a queda do homem, II, 6), e em outro lugar insiste em que ele perdeu “toda a imagem moral de Deus”, isto é, a justiça e a verdadeira santidade (sermão 62, O fim da vinda de Cristo, citado no Manual de teologia arminiana, cap. 11). Daí a definição wesleyana da religião: o seu “grande fim” é “renovar o nosso coração à imagem de Deus” (sermão 44, O pecado original, III, 5). O novo nascimento é a passagem “da imagem do diabo (na qual nascemos) à imagem de Deus” (Diário, 13 de setembro de 1739), e a perfeição cristã é “a renovação, no coração, de toda a imagem de Deus” (Uma exposição simples da perfeição cristã, 27).
Sobre a constituição humana, Wesley falava a linguagem da dicotomia, descrevendo o ser humano como “um espírito” semelhante a Deus, “embora revestido de um veículo material” (sermão 57, II, 6). Nem por isso desprezava o corpo: em 1747 publicou Medicina primitiva, um manual de remédios simples para os pobres, que teve mais de vinte edições ainda em vida dele.
3.5 A teologia wesleyano-arminiana e o Brasil
Os sistematizadores do metodismo conservaram a distinção. Watson tratou da imagem natural e moral e recusou a leitura sociniana que a reduzia ao domínio sobre as criaturas, que é consequência da imagem e não a sua essência (Theological Institutes, parte II). Pope e Wiley trataram da constituição humana e da imagem antes da doutrina do pecado. No Brasil, o Manual de teologia arminiana, de Flávyo Henrique Costa Santos, expõe as três dimensões e lê a imagem política em chave relacional, perdida na relação com Deus e obscurecida nas relações com a criação, consigo mesmo e com o próximo, razão pela qual a salvação, para Wesley, alcança também a sociedade (cap. 11).
O debate sobre a constituição humana tem endereço certo entre nós. O batista A. B. Langston defendeu a dicotomia com uma imagem feliz: o ser humano não se parece com uma casa de três andares, mas com uma de dois, em cujo andar de cima, “além de janelas que dão para o mundo, há uma clarabóia, que dá para o céu” (Esboço de teologia sistemática, “A doutrina do homem”). Walter Brunelli, por sua vez, registra que a tricotomia é “mormente aceita pelos pentecostais” e a defende, sem deixar de reconhecer que os dicotomistas, “em algum sentido, têm razão” (Teologia para pentecostais, vol. 3). Boa parte da piedade evangélica brasileira recebeu a tricotomia pela leitura de Franz Delitzsch e, sobretudo, de Watchman Nee, cujo livro O homem espiritual (1928) circula há décadas nas nossas igrejas.
4. A posição arminiana clássica e wesleyana
4.1 Afirmações
Em suma, cremos, em primeiro lugar, que Deus criou o ser humano, homem e mulher, à sua imagem: pessoa dotada de entendimento, vontade e liberdade (imagem natural), chamada a representar Deus no cuidado da criação (imagem política) e criada em justiça e verdadeira santidade (imagem moral). Em segundo lugar, que o Filho eterno é a imagem perfeita do Pai e que, encarnado, revela o ser humano verdadeiro, segundo o qual somos renovados. Em terceiro lugar, que pela queda a imagem moral se perdeu, a natural ficou corrompida sem ser destruída e a política se desfigurou, de modo que todo ser humano conserva a dignidade de imagem de Deus, mas nenhum conserva o poder de voltar-se para Deus por si mesmo. Em quarto lugar, que o ser humano é uma unidade de corpo e alma, distintos sem estarem separados, exceto entre a morte e a ressurreição. Por fim, que a obra do Espírito, da graça preveniente à glorificação, tem por alvo renovar em nós a imagem de Deus.
4.2 A imagem depois da queda
O Manual de teologia arminiana lembra que Calvino também não ensinou a perda completa da imagem, de modo que a divergência entre as duas tradições não está na extensão do estrago, mas no modo como Deus o repara, assunto das lições 36 e 37 (cap. 11). Charles Finney, lido neste curso apenas como contraste, recusava ver em Gênesis 5:3 qualquer transmissão de uma natureza moralmente corrompida, perguntando “por que se deve pressupor que a semelhança e a imagem aqui mencionadas era uma semelhança ou imagem moral?” (Teologia sistemática, aula 16). Para ele, o pecado está somente nas escolhas voluntárias, e a natureza que recebemos de Adão é moralmente intacta, conclusão que a teologia arminiana clássica rejeita. Armínio fala em “privação da imagem de Deus” e Wesley, em perda de toda a imagem moral; por isso, aquilo que o ser humano caído conserva, o entendimento, a vontade e a liberdade para as coisas naturais, não basta para que ele conheça, ame e obedeça a Deus. O Manual chama de “livre-arbítrio natural” essa liberdade nas decisões terrenas, distinta da liberdade para o bem espiritual, que se perdeu (cap. 11). A graça preveniente, portanto, não é um resto da imagem que sobreviveu à queda, mas um dom sobrenatural do Espírito, por causa de Cristo, que começa a restaurar o que estava perdido. A imagem natural explica por que o pecador continua responsável e capaz de ser alcançado; somente a graça explica por que ele pode crer.
4.3 A imagem e o corpo
Vincent Cheung, também lido apenas como contraste, identifica a imagem de Deus com o intelecto e conclui que “o corpo não é parte da imagem de Deus”, que serve apenas como equipamento para expressá-la no mundo físico (Teologia sistemática, seção “A natureza do homem”). A conclusão separa o que a Escritura une. O ser humano inteiro, “macho e fêmea”, é chamado imagem de Deus, e Cristo, a imagem perfeita, assumiu um corpo e ressuscitou nele. Armínio foi mais equilibrado ao dizer que o corpo, sem ser imagem no mesmo sentido que a alma, “tem algo de divino” e participa da glória da pessoa (XXVI, 7). Neste sentido, preferimos afirmar que a imagem reside na pessoa inteira, cuja vida espiritual se exprime pelo corpo.
4.4 Dicotomia e tricotomia
A Escritura não oferece um tratado sobre a constituição humana, e cristãos fiéis defenderam a dicotomia e a tricotomia. Ainda assim, julgamos que a dicotomia, entendida de modo holístico, descreve melhor o testemunho bíblico. Os termos “alma” e “espírito” se alternam nos mesmos contextos: a morte é descrita como a saída da alma (Gênesis 35:18) e como a entrega do espírito (Lucas 23:46); os mortos são chamados de “espíritos” (Hebreus 12:23) e de “almas” (Apocalipse 6:9); Jesus se diz perturbado na alma (João 12:27) e no espírito (João 13:21). Em 1 Tessalonicenses 5:23 Paulo ora pela santificação da pessoa toda, e Sherlock observa que, se Hebreus 4:12 provasse uma divisão estreita entre alma e espírito, também nos obrigaria a separar juntas de medulas (cap. 10). Langston tinha razão ao dizer que “espírito” designa a vida humana na sua relação com Deus, e “alma”, a mesma vida na sua relação com as coisas terrenas.
A tricotomia tem o mérito de lembrar que o ser humano é feito para Deus e que a vida espiritual não se reduz às emoções nem ao intelecto. Seus riscos, porém, são conhecidos: a história de Apolinário mostrou que ela pode ferir a plena humanidade de Cristo, e na piedade popular pode gerar a suspeita contra a mente e contra o corpo, como se a razão e a vida física fossem inimigas do espírito, ou levar a falar da salvação como se só a alma importasse. Por isso, não fazemos da questão um artigo de fé, e consideramos tricotomistas e dicotomistas irmãos que confessam a mesma esperança. O que este curso afirma, contra o monismo materialista e contra o dualismo que despreza o corpo, é que a pessoa sobrevive à morte e está com Cristo (Filipenses 1:23), que essa condição é incompleta, e que a esperança cristã é a ressurreição do corpo (lições 47 e 49).
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, a doutrina da imagem dá fundamento à dignidade de toda pessoa. A imagem não se mede pela inteligência, pela produtividade nem pela saúde: a pessoa com deficiência intelectual, o enfermo em coma e a criança que ainda não nasceu são imagem de Deus tanto quanto nós, e o desprezo por qualquer um deles ofende o Criador.
Em segundo lugar, ela nos ensina a honrar o corpo. Se o corpo é “templo do Espírito Santo” (1 Coríntios 6:19), e se somos chamados a apresentá-lo “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12:1), então o descanso, a alimentação, a saúde, a sexualidade e o trabalho manual pertencem à vida cristã. O exemplo de Wesley ensina às nossas igrejas que o cuidado do corpo é obediência ao Criador, e não concessão ao mundo, e que a evangelização não pode ser reduzida a “ganhar almas” como se o resto da pessoa não importasse.
Em terceiro lugar, ela orienta a missão: se a imagem política se desfigurou nas nossas relações com a criação e com o próximo, a igreja é chamada a ser, no bairro e na cidade, um lugar onde se cuida da terra e se pratica a justiça.
Por fim, ela dá nome ao alvo da vida cristã. A santificação não é aperfeiçoamento moral por esforço próprio, mas obra de Deus que, pela fé, nos transforma “de glória em glória” à imagem de Cristo, até a perfeição do amor e a glorificação. Do começo ao fim, a renovação da imagem é obra da graça.
Voltemos à moeda gasta no bolso. A efígie quase apagada continua dizendo a quem a moeda pertence, e o pecado, por mais que tenha desfigurado a nossa natureza, não apagou a assinatura de Deus em nós. Cristo veio para nos devolver ao dono e para gravar de novo, pelo seu Espírito, a imagem que perdemos. Senhor, que nos fizeste à tua imagem e não nos abandonaste quando a desfiguramos, renova-nos segundo a imagem do teu Filho, ensina-nos a reconhecer o teu rosto em cada pessoa, a cuidar do corpo e da terra que nos deste, e a viver para a tua glória, até que, vendo-te como és, sejamos semelhantes a ti.
Síntese
- “Imagem” e “semelhança” são, em Gênesis, termos sinônimos que descrevem o ser humano inteiro como semelhante a Deus, relacionado com ele e encarregado de representá-lo diante da criação.
- Cristo é a imagem perfeita de Deus, e a salvação consiste em sermos renovados segundo a sua imagem, em conhecimento, justiça e santidade, pela obra do Espírito.
- Wesley, seguindo Watts, distinguiu a imagem natural, a política e a moral; pela queda, a moral se perdeu, a natural se corrompeu e a política se desfigurou.
- A dignidade de imagem permanece em todo ser humano depois da queda, mas não inclui a capacidade de voltar-se para Deus, que só a graça preveniente concede.
- O ser humano é uma unidade de corpo e alma; a dicotomia entendida de modo holístico descreve melhor o testemunho bíblico, e a tricotomia é uma opinião legítima, que não fazemos artigo de fé.
- A pessoa sobrevive à morte, mas a esperança cristã é a ressurreição do corpo e a plena conformidade com Cristo.
Questões para revisão
- Explique os termos ṣelem e dəmût e por que a exegese moderna os considera sinônimos.
- O que a prática dos reis do antigo Oriente Próximo e a proibição das imagens em Deuteronômio 4 acrescentam à compreensão de Gênesis 1:26-28?
- Por que o Novo Testamento concentra em Cristo a linguagem da imagem, e que consequência isso tem para a doutrina da santificação?
- Como Armínio distingue as partes naturais e as sobrenaturais da imagem de Deus, e como essa distinção prepara a doutrina de Wesley?
- Descreva a imagem natural, a política e a moral em Wesley e explique o que acontece a cada uma delas na queda.
- Em que a antropologia arminiana clássica difere da de Charles Finney quanto aos efeitos da queda sobre a imagem?
- Quais são os argumentos da dicotomia e da tricotomia, e como devem ser lidos 1 Tessalonicenses 5:23 e Hebreus 4:12?
Bibliografia
- ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Debates privados XXVI e XXXI).
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
- CALVINO, João. As Institutas, I, 15.
- COOPER, John W. Body, Soul and Life Everlasting: Biblical Anthropology and the Monism-Dualism Debate. Grand Rapids: Eerdmans, 1989.
- Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova (arts. “Alma” e “Imagem”).
- GRENZ, Stanley J.; OLSON, Roger E. A teologia do século 20. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
- IRENEU DE LIÃO. Contra as heresias, IV e V.
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Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática. Anterior: Lição 23: A doutrina da humanidade. Próxima: Lição 25: A doutrina do pecado.
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