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Capítulo 23: A doutrina do pecado

Teologia Sistemática, Parte 4: O ser humano e o pecado

Diego Gonçalvesatualizado 27 min de leitura5.430 palavras

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Neste texto

A doutrina do pecado é importante porque trata do que está errado no mundo. O pecado nos separa do nosso Criador, causa conflito entre as pessoas e estraga a criação que devíamos cuidar. Mas o que é o pecado, de onde ele veio e até onde ele alcança?

O que É o Pecado?

No capítulo anterior, vimos que Deus fez o ser humano à sua imagem e que o pecado estragou essa imagem. Agora precisamos olhar para o próprio pecado. A palavra “pecado” é usada na Bíblia de duas maneiras. A primeira se refere a uma ação contrária à vontade de Deus. A segunda descreve uma condição da nossa natureza, algo que carregamos por dentro mesmo quando não estamos fazendo nada de errado.

As Palavras da Bíblia

A Bíblia usa várias palavras para descrever o pecado, e cada uma mostra um lado dele. Três aparecem juntas na oração de Davi depois do seu adultério com Bate-Seba:

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, conforme a tua bondade; desfaz minhas transgressões conforme a abundância de tuas misericórdias. Lava-me bem de minha perversidade, e purifica-me de meu pecado.”

(Salmos 51:1-2, Bíblia Livre)

A primeira palavra hebraica, pesha, traduzida por “transgressão”, é a rebeldia. É a palavra usada para o súdito que se levanta contra o rei. Deus a usa ao falar de Israel: “Eu criei filhos, e os fiz crescerem; porém eles se rebelaram contra mim” (Isaías 1:2). A segunda, awon, traduzida por “perversidade” ou “iniquidade”, vem de uma raiz que quer dizer “torcer”. O pecado entorta o que Deus fez reto, e a culpa fica pesando sobre quem o cometeu, como Caim percebeu: “Grande é minha iniquidade para ser perdoada” (Gênesis 4:13).

A terceira palavra é a mais comum. Em hebraico é chattat, e no grego do Novo Testamento é hamartia. As duas querem dizer “errar o alvo”. É um termo de quem atira, e a Bíblia o usa no sentido literal ao falar de setecentos soldados de Benjamim que “atiravam uma pedra com a funda a um fio de cabelo, e não erravam” (Juízes 20:16). Deus estabeleceu um alvo para nós, e deixar de acertá-lo é pecado. Essa palavra e o seu equivalente hebraico aparecem centenas de vezes na Bíblia.

O Novo Testamento acrescenta outras. Parabasis é a “transgressão”, passar por cima de uma linha que Deus traçou (Romanos 5:14). Anomia quer dizer “sem lei”, e é a palavra que João usa quando diz que “o pecado é injustiça” (1 João 3:4). Asebeia, a “irreverência”, é a falta de respeito para com Deus, e adikia, a “injustiça”, é o mal que fazemos aos outros. Paulo junta as duas quando diz que a ira de Deus se manifesta “contra toda irreverência e injustiça das pessoas” (Romanos 1:18). Somadas, essas palavras mostram que o pecado é rebeldia contra Deus, desvio do caminho certo, fracasso diante do padrão que ele estabeleceu e dano ao próximo.

Pecado Como Natureza

Ações erradas são o lado mais visível do pecado, mas não o mais grave. Mais grave é a natureza pecaminosa com que todos nascemos e com que vivemos a vida toda. Davi confessou:

“Eis que em perversidade fui formado, e em pecado minha mãe me concebeu.”

(Salmos 51:5, Bíblia Livre)

Davi não estava pecando no ventre da mãe. Mas a natureza pecaminosa já fazia parte dele. Paulo diz a mesma coisa de si mesmo: “em mim, isto é, em minha carne, não habita bem algum” (Romanos 7:18). Jesus ensinou que os pecados que vemos nascem de uma fonte que não vemos:

“Pois é de dentro do coração humano que vêm os maus pensamentos, os pecados sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as ganâncias, as maldades, o engano, a depravação, o olho malicioso, a blasfêmia, a soberba, a insensatez. Todos estes males procedem de dentro, e contaminam o ser humano.”

(Marcos 7:21-23, Bíblia Livre)

Essa natureza é chamada às vezes de “carne”, às vezes de “natureza pecaminosa” ou simplesmente de “pecado”. Em todos os casos, refere-se a algo que está dentro de nós e que não conseguimos vencer com as nossas forças. Sem a graça de Deus, o pecado é o nosso senhor. Por isso o pecado é ao mesmo tempo um ato e uma condição. A árvore ruim dá frutos ruins, e o problema começa na raiz.

Pecado de Comissão

Na maioria das vezes, quando falamos de um pecado específico, estamos falando de um pecado de comissão. É algo que eu fiz e que Deus proibiu: mentir, roubar, matar, cobiçar. Ao longo da Bíblia, há muitos relatos de pessoas que desobedeceram à lei ou a alguma ordem direta de Deus. No uso de todo dia, a palavra “pecado” quase sempre quer dizer isso.

Pecado de Omissão

Uma maneira menos óbvia de pecar é deixar de fazer o bem que sabemos que devíamos fazer. Tiago diz: “quem sabe fazer o bem, e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17). Se sei que devo ajudar alguém e me recuso, isso não é muito diferente de fazer o mal. Errar o alvo é pecado, tanto faz se a flecha passou longe demais ou ficou no meio do caminho. E esse pecado não está só em deixar de fazer o que a Bíblia manda. Está também em deixar de seguir a direção do Espírito Santo.

Na parábola das ovelhas e dos bodes, os que foram condenados não são acusados de ter cometido algum crime. Eles são condenados pelo que não fizeram: não deram de comer ao faminto, não visitaram o doente nem o preso (Mateus 25:41-45).

A Terceira Maneira

Muitas vezes, eu me sinto tranquilo porque não estou desobedecendo a nenhuma ordem conhecida. Mas é possível pecar mesmo fazendo o bem? Creio que sim. Se o pecado é errar o alvo, e eu não estou fazendo o que Deus quer de mim, ou estou fazendo pelo motivo errado, então estou pecando, ainda que a ação seja boa.

Jesus deu um exemplo:

“Ficai atentos para que não façais vossa boa ação diante das pessoas a fim de que sejais vistos por elas; de outra maneira não tereis recompensa de vosso Pai que está nos céus. Portanto, quando fizeres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelas pessoas; em verdade vos digo que já receberam sua recompensa.”

(Mateus 6:1-2, Bíblia Livre)

Dar esmola é bom. Dar esmola para ser elogiado é pecado. Armínio, o teólogo holandês do início do século XVII, usou esse mesmo exemplo para explicar que há pecados “por si mesmos”, quando a ação é proibida, e pecados “por acidente”, quando uma ação boa é feita do jeito errado ou com a intenção errada (Debates públicos, VIII.3). Paulo vai na mesma direção quando diz que “tudo que não é pela fé é pecado” (Romanos 14:23).

A Raiz do Pecado

Se olharmos por baixo de todos esses pecados, o que encontramos? Os cristãos deram respostas parecidas. Agostinho, no século V, apontou o orgulho, o desejo de ser mais do que Deus nos fez. Martinho Lutero descreveu o pecador como alguém “curvado sobre si mesmo”, que vive voltado só para si. Armínio disse que todos os pecados nascem de uma só fonte, o “amor próprio ou afeição desordenada” (Debates públicos, VIII.7).

Jesus resumiu toda a Lei em dois mandamentos: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a nós mesmos (Mateus 22:37-40). Isso nos dá a medida do pecado. Pecado é tudo o que fica aquém desse amor ou vai contra ele. Na raiz, o pecado é o ser humano que deixa de amar a Deus e ao próximo e passa a girar em torno de si mesmo.

O Pecado Como Nosso Adversário

A natureza pecaminosa faz parte de nós, mas a Bíblia também a mostra como uma força que luta contra nós. Antes de Caim matar o irmão, Deus o advertiu:

“Se bem fizeres, não serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado está à porta; contra ti será o seu desejo, porém tu deves dominá-lo.”

(Gênesis 4:7, Bíblia Livre)

O pecado aparece aqui como uma fera agachada na porta, esperando a presa. Caim recebe a ordem de dominá-lo, e não obedece.

Em Romanos 7, Paulo fala de uma luta interior: “o bem que quero, não faço; mas o mal que não quero, isso faço” (Romanos 7:19). E em Romanos 8 ele mostra o caminho da vitória: “os que são segundo a carne voltam sua mentalidade para as coisas da carne, mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito” (Romanos 8:5). A minha mente pode estar voltada para o que o pecado deseja ou para o que o Espírito Santo deseja. O crente, cuja vontade foi libertada pela graça, pode, pelo poder do Espírito, resistir ao pecado e obedecer a Deus.

A Origem do Pecado

De onde veio o pecado? Deus fez tudo “bom em grande maneira” (Gênesis 1:31). O mal não estava na criação desde o começo. Ele entrou depois.

Antes do Éden

O pecado não começou com o ser humano. João diz que “o diabo peca desde o princípio” (1 João 3:8). Antes da queda de Adão, houve a queda de anjos que se rebelaram contra Deus, como vimos no Capítulo 20. John Wesley, o pregador inglês do século XVIII, chamou o diabo de “o primeiro pecador no universo”, que pelo mau uso da sua liberdade trouxe o mal para a criação. O mal entrou no mundo de Deus pela porta da liberdade de criaturas que Deus fez boas.

A Prova no Jardim

No Éden, Deus deu ao homem uma liberdade enorme e uma única restrição:

“E mandou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás dela; porque no dia que dela comeres, morrerás.”

(Gênesis 2:16-17, Bíblia Livre)

A ordem era simples. Havia comida de sobra no jardim, e a árvore proibida era uma prova, e não uma armadilha. Adão e Eva iam mostrar se confiavam em Deus e se aceitavam viver debaixo da palavra dele.

Gravura de Adão e Eva nus, de pé junto à árvore, com a serpente nos galhos
Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1504, gravura em metal. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A Tentação

Gênesis 3 conta como o casal caiu:

“Porém a serpente era astuta, mais que todos os animais do campo que o SENHOR Deus havia feito. E ela disse à mulher: Deus vos disse: Não comais de toda árvore do jardim? E a mulher respondeu à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer; mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: Não morrereis; Mas Deus sabe que no dia que comerdes dele, vossos olhos serão abertos, e sereis como deuses, sabendo o bem e o mal. E a mulher viu que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para se obter conhecimento. E ela tomou de seu fruto, e comeu; e deu também ao seu marido com ela, e ele comeu.”

(Gênesis 3:1-6, Bíblia Livre)

A tentação seguiu alguns passos. Primeiro, a serpente pôs em dúvida a palavra de Deus. A pergunta dela exagera a ordem, como se Deus tivesse proibido todas as árvores. Depois, negou a ameaça: “Não morrereis”. Por fim, contou uma meia verdade. Eles iam conhecer o bem e o mal, mas a serpente não falou da dor, da vergonha e da morte que viriam junto. E levantou uma suspeita sobre o caráter de Deus, como se ele estivesse escondendo deles algo bom.

Só então veio o desejo. A árvore era “boa para se comer”, “agradável aos olhos” e “desejável para se obter conhecimento”. João fala dessas mesmas três portas quando diz que no mundo há “a cobiça da carne, a cobiça dos olhos, e a ostentação da vida” (1 João 2:16). Wesley descreveu o que aconteceu no coração de Eva:

Assim a descrença gerou o orgulho. Ela pensou que era mais sábia do que Deus, capaz de encontrar melhor caminho para a felicidade do que aquele que Deus havia ensinado. A descrença gerou a teimosia: ela determinou fazer a sua própria vontade e não a daquele que a havia feito.

(John Wesley, sermão O objetivo da vinda de Cristo, I.9, em Coletânea da teologia de João Wesley)

O pecado começou no coração, quando Eva deixou de crer no que Deus tinha dito. A mão só pegou o fruto depois.

A Raiz da Queda

Muita gente pensa que o pecado de Adão foi só gula, como se tudo se resumisse a uma fruta. O problema foi muito maior. João Calvino, o reformador de Genebra, viu bem onde estava a raiz:

A infidelidade, portanto, foi a raiz dessa revolta. Dela nasceram a ambição, o orgulho e a ingratidão, porque Adão, cobiçando mais do que lhe fora dado, ofendeu a bondade de Deus, que o havia enriquecido tanto.

(João Calvino, Institutas, II.1.4, tradução nossa)

Adão tinha tudo e quis mais. Feito à imagem de Deus, quis ser igual a Deus. Em vez de receber de Deus a definição do bem e do mal, quis decidir por conta própria. Esse é o centro de todo pecado até hoje.

As Primeiras Consequências

Os efeitos apareceram logo. “Foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus” (Gênesis 3:7). A comunhão com Deus virou medo. Quando Deus chegou ao jardim, o homem disse: “Ouvi tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e me escondi” (Gênesis 3:10). A parceria entre o homem e a mulher virou acusação. Adão pôs a culpa na mulher e, de quebra, no próprio Deus: “A mulher que me deste por companheira me deu da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12). A mulher pôs a culpa na serpente. E o trabalho na terra virou fadiga: “maldita será a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida” (Gênesis 3:17).

Adão e Eva foram expulsos do jardim e da árvore da vida. Mas não morreram fisicamente naquele dia. O que morreu naquele dia foi a comunhão com Deus, e a morte do corpo veio depois, como fruto dessa primeira morte. Paulo resume: “por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte” (Romanos 5:12).

Ainda assim, é Deus quem procura o pecador. “Onde estás?” (Gênesis 3:9) é a pergunta de um Pai que vai atrás do filho que fugiu. Logo depois, Deus promete que a descendência da mulher vai esmagar a cabeça da serpente (Gênesis 3:15) e veste o casal com roupas de pele (Gênesis 3:21). A história da salvação começa no mesmo capítulo da queda.

O Pecado e o Plano de Deus

Antes da criação, o Deus que tudo sabe sabia o que ia acontecer com a humanidade. Ele não foi pego de surpresa pelo nosso pecado. Pedro diz que fomos resgatados “pelo sangue precioso, como de um cordeiro sem falha e sem contaminação: o sangue de Cristo”, e acrescenta que Cristo “já era conhecido desde antes da fundação do mundo” (1 Pedro 1:19-20). Antes de existir o primeiro pecado, Deus já tinha preparado o remédio.

Isso, porém, não quer dizer que Deus quis a queda ou que ela foi uma peça necessária do seu plano. Saber de antemão é diferente de causar. A queda foi uma tragédia de verdade, contrária à vontade de Deus. O que Deus fez foi vencê-la com um bem maior: “onde o pecado aumentou, a graça superabundou” (Romanos 5:20).

Responsabilidade pelo Pecado

Se Deus sabia de tudo e é soberano, quem é responsável pelo pecado? A Bíblia responde com clareza que não é Deus:

“Ninguém, quando for tentado, diga: “Sou tentado por Deus”; porque Deus não é tentado pelo mal, e ele mesmo tenta ninguém; Mas cada um é tentado quando é atraído e seduzido pelo seu próprio mau desejo. Depois do mau desejo ter concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, quando é completado, gera a morte.”

(Tiago 1:13-15, Bíblia Livre)

Os olhos de Deus “são puros demais para veres o mal” (Habacuque 1:13). E o sábio resume: “Deus fez os homens corretos, porém foram eles que buscaram muitos desejos ruins” (Eclesiastes 7:29). Armínio explicou isso com cuidado:

Mas a culpa desse pecado não pode, de modo algum, ser transferida para Deus […]. Porque Ele não perpetrou esse crime através do homem, nem empregou contra o homem qualquer ação, interna ou externa, pela qual Ele poderia incitá-lo a pecar.

(Jacó Armínio, Debates públicos, VII.8, em As obras de Armínio, vol. 1)

Armínio acrescenta que Deus também não negou a Adão nada do que ele precisava para não pecar. Deus lhe deu a sua imagem, a sua lei, o aviso do castigo e a promessa da recompensa. Adão pecou porque quis, “sem qualquer necessidade, interna ou externa” (Debates públicos, VII.4).

Um Ponto Debatido

Todos os protestantes concordam que Deus não é o autor do pecado e que o ser humano é o culpado. Mas eles discordam sobre o modo como a queda se encaixa nos decretos de Deus, um assunto que estudamos nos capítulos 17 e 19.

A tradição reformada ensina que Deus decretou a queda e que, mesmo assim, o homem caiu por culpa própria. Calvino reconhecia que a razão desse decreto nos é desconhecida e escreveu:

O homem cai, portanto, segundo o que a providência de Deus determinou; mas cai por sua própria culpa.

(João Calvino, Institutas, III.23.8, tradução nossa)

A tradição luterana distingue o conhecimento prévio de Deus, que alcança o bem e o mal, da predestinação, que diz respeito só à salvação. Deus previu a queda, mas não a causou. A tradição arminiana e wesleyana, com Armínio e Wesley, ensina que Deus conheceu de antemão a queda e a permitiu, sem a decretar nem a causar, porque quis ter criaturas que o amassem livremente.

A posição deste site é a última. Cremos que Deus governa todas as coisas e que nada lhe escapa, mas que ele permite o pecado sem querê-lo nem produzi-lo. Assim a culpa fica toda com quem peca, e a bondade de Deus fica preservada. O assunto é tratado em É bíblico dizer que Deus preordena o pecado?.

A Extensão do Pecado

Até onde o pecado alcança? A resposta da Bíblia é que ele alcança todos, e cada um por inteiro.

Todos Pecaram

Paulo dedica os três primeiros capítulos de Romanos a mostrar que gentios e judeus estão na mesma situação. Depois ele conclui:

“Então, quê? Somos nós melhores? Não, de maneira nenhuma. Pois já delatamos que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado, como está escrito: Não há justo, nem um sequer. Ninguém há que entenda, ninguém há que busque a Deus. Todos se desviaram, e juntamente se tornaram inúteis. “Não há quem faça o bem, não há um sequer”.”

(Romanos 3:9-12, Bíblia Livre)

E logo adiante: “todos pecaram, e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23). O Antigo Testamento já dizia o mesmo: “ninguém há que não peque” (1 Reis 8:46) e “não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque” (Eclesiastes 7:20). Só houve uma exceção. Jesus foi provado “em tudo, conforme a nossa semelhança, porém sem pecado” (Hebreus 4:15).

A Pessoa Inteira

O pecado também alcança cada pessoa por inteiro. Ele não fica preso a um canto da vida. Atinge a mente, que ficou em trevas (Romanos 1:21), a vontade, que se volta para o mal, os desejos e o próprio coração: “O coração é mais enganoso que todas as coisas, e perverso; quem pode conhecê-lo?” (Jeremias 17:9). Antes do dilúvio, Deus viu “que todo desígnio dos pensamentos dos seus corações era só mau continuamente” (Gênesis 6:5).

Os reformadores chamaram isso de depravação total. A expressão é forte e às vezes é mal entendida. Com ela, ninguém está dizendo que todo mundo é tão mau quanto poderia ser, nem que o ser humano não consegue fazer nada de bom diante dos outros. O que ela afirma é que nenhuma parte de nós ficou de fora do pecado e que, por nós mesmos, não conseguimos fazer nada que agrade a Deus nem voltar para ele. Paulo diz que estávamos “mortos em vossas ofensas e pecados” (Efésios 2:1).

Como o Pecado Chega até Nós

Como a natureza pecaminosa passa de pais para filhos? A Bíblia afirma que ela passa e que tudo começou em Adão, mas diz pouco sobre o modo. Alguns pensam que a alma vem dos pais junto com o corpo e que por isso herdamos a corrupção. Outros pensam que Deus cria cada alma e que a corrupção vem da união com uma natureza humana já caída. Outros ainda explicam a ligação com Adão como a de um representante que agiu em nome de todos. Muito disso fica sem resposta definitiva.

O que todos os protestantes afirmam é que nascemos numa condição de pecado. Eles discordam sobre se herdamos também a culpa de Adão e sobre o que a graça faz com essa condição. Esse é o assunto do próximo capítulo, sobre o pecado original e a depravação total. A posição deste site é a da depravação total, vencida somente pela graça de Deus em Cristo, que vem antes de qualquer resposta nossa, como explica A Doutrina da Depravação Total.

As Relações e a Sociedade

O pecado não fica só dentro da pessoa. Ele se espalha para as relações e para a vida em sociedade. Gênesis 4 a 11 mostra isso: depois da queda vêm o assassinato de Abel, a vingança de Lameque, a violência que enche a terra antes do dilúvio e o orgulho de Babel. Os profetas denunciaram o pecado que se transforma em lei e em costume:

“Ai dos que decretam ordenanças injustas, e dos escribas que escrevem coisas opressivas, Para afastarem aos pobres de seu direito, e para tomarem o direito dos pobres de meu povo; para despojarem as viúvas, e para roubarem aos órfãos.”

(Isaías 10:1-2, Bíblia Livre)

Quando muitas pessoas pecam do mesmo jeito por muito tempo, o pecado vira estrutura. A escravidão que durou mais de três séculos no Brasil é um exemplo triste, e as suas marcas ainda estão no nosso meio. Cada pessoa continua responsável pelo que faz, mas o pecado também deixa raízes na sociedade.

A Criação Geme

O pecado alcança até a natureza. Por causa do homem, a terra foi amaldiçoada e passou a produzir “espinhos e cardos” (Gênesis 3:18). Paulo diz que a criação inteira espera a libertação:

“porque a criação ficou sujeita à futilidade (não por vontade própria, mas sim por causa daquele que a sujeitou), na esperança de que também a mesma criação seja liberta da escravidão da degradação para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre dores como as de parto até agora.”

(Romanos 8:20-22, Bíblia Livre)

Todos os Pecados São Iguais?

Às vezes se ouve que, para Deus, todos os pecados são iguais. Isso é verdade num sentido. Qualquer pecado, até o menor, basta para nos separar de Deus, porque “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Armínio disse:

Pois todo pecado é, em sua própria natureza, mortal, isto é, merece a morte.

(Jacó Armínio, Debates públicos, VIII.8, em As obras de Armínio, vol. 1)

Mas Armínio também lembrou que isso não torna todos os pecados iguais em gravidade (Debates públicos, VIII.9). Jesus disse a Pilatos que quem o tinha entregado “tem maior pecado” (João 19:11). E ensinou que o servo que conhecia a vontade do seu senhor e não a fez “será muito espancado”, enquanto o que não sabia “será pouco espancado” (Lucas 12:47-48). Pecar sabendo é mais grave do que pecar por ignorância. Pecar contra Deus é mais grave do que pecar contra uma pessoa. E os pecados planejados são mais graves do que os que vêm de um momento de fraqueza.

A Igreja Católica Romana divide os pecados em mortais, que destroem a vida da graça, e veniais, que a ferem. Os protestantes, em geral, preferem dizer que todo pecado merece a morte e que qualquer pecado pode ser perdoado a quem se arrepende e crê, por causa do sangue de Cristo.

O Pecado Contra o Espírito Santo

Jesus falou de um pecado que não será perdoado:

“Por isso eu vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos seres humanos; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. E qualquer um que falar palavra contra o Filho do homem lhe será perdoado; mas qualquer um que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem na era presente, nem na futura.”

(Mateus 12:31-32, Bíblia Livre)

Jesus disse isso a fariseus que viam as obras de Deus diante dos olhos e as chamavam de obra do diabo (Mateus 12:24). Ele não estava falando de uma frase dita sem pensar, nem de um pecado cometido por fraqueza, e sim da rejeição consciente e teimosa da verdade que o Espírito Santo deixa clara. Armínio descreveu esse pecado como resistir, com malícia determinada, à verdade do evangelho, mesmo depois de ter sido convencido por ela (Debates públicos, VIII.11). Quem tem medo de ter cometido esse pecado mostra, pelo próprio medo, que o Espírito ainda está trabalhando no seu coração.

As Consequências do Pecado

A Bíblia deixa claro que o pecado tem consequências. Gostamos de diminuir a gravidade dos nossos pecados. Mas todo pecado é, antes de tudo, contra Deus. Davi tinha pecado contra Bate-Seba, contra Urias e contra o povo, e mesmo assim disse a Deus: “Contra ti, somente contra ti pequei” (Salmos 51:4).

A Ira de Deus

Paulo diz que “a ira de Deus se manifesta do céu contra toda irreverência e injustiça das pessoas que bloqueiam a verdade pela injustiça” (Romanos 1:18). A ira de Deus é a reação firme da sua santidade contra o mal, e não um ataque de raiva. Um Deus que não se importasse com o pecado não seria bom. Não podemos esperar desprezar o governo de Deus sem que isso nos custe nada.

Separação

O pecado afasta o ser humano de Deus. Isaías diz: “vossas perversidades fazem separação entre vós e vosso Deus; e vossos pecados encobrem o rosto dele de vós” (Isaías 59:2). Jeremias mostra a loucura disso: o povo deixou a Deus, “fonte de água viva”, para cavar “cisternas rachadas, que não retêm águas” (Jeremias 2:13). O pecado nos promete vida e nos deixa com sede.

Escravidão

O pecado também prende. Jesus disse: “todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34). O pecado começa como uma escolha, vira costume e acaba em prisão. Quem acha que pode largar o pecado na hora que quiser ainda não percebeu o tamanho da corrente.

A Morte É a Pena pelo Pecado

Esperamos ser punidos quando desobedecemos aos pais, às regras da empresa ou às leis do país. Quanto mais quando desobedecemos à lei de Deus, escrita no coração ou no papel. Paulo diz:

“Pois quem semear para a sua carne, da carne colherá degradação; mas quem semear para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna.”

(Gálatas 6:8, Bíblia Livre)

E também: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). A Bíblia fala dessa morte de três maneiras. Há a morte espiritual, a separação de Deus que já existe agora: “vós estáveis mortos em vossas ofensas e pecados” (Efésios 2:1). Há a morte física, a separação entre a alma e o corpo, que entrou no mundo pelo pecado (Romanos 5:12). E há a morte eterna, a separação definitiva de Deus para quem rejeita a sua graça. Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (João 14:6). Se ele é a vida, o pecado, que nos afasta dele, nos leva à morte.

E os Bebês?

Para um adulto que toma as suas próprias decisões, faz sentido sofrer as consequências do que fez. Mas e os bebês, ou as pessoas que não têm condição de distinguir o certo do errado? Eles enfrentam a mesma pena de quem sabe o que faz?

A Bíblia fala pouco sobre isso. Ela distingue os que sabem o certo e o errado dos que ainda não sabem. Deuteronômio 1:39 fala dos filhos de Israel “que não sabem hoje bem nem mal”, e Isaías 7:15-16 e Jonas 4:11 falam de modo parecido. A idade em que uma criança passa a ter essa consciência varia, e por isso muitos falam de uma “idade da responsabilidade”, a partir da qual a pessoa responde pelo que faz. Paulo diz que, “quando não há Lei, o pecado não é considerado” (Romanos 5:13), mas logo em seguida lembra que a morte reinou mesmo sobre os que não pecaram como Adão (Romanos 5:14).

A passagem mais usada sobre o assunto é a de Davi depois da morte do filho: “Eu vou a ele, mas ele não voltará a mim” (2 Samuel 12:23). Davi talvez estivesse dizendo só que os dois iam se encontrar no mundo dos mortos. Ainda assim, muitos cristãos de várias tradições têm esperança de que as crianças que morrem antes de ter consciência estão seguras na misericórdia de Deus, por causa de Cristo, que é “o sacrifício para perdão dos nossos pecados; e não somente dos nossos, mas também dos de todo o mundo” (1 João 2:2). Creio que esse é um daqueles pontos em que o melhor é confiar que o Juiz de toda a terra fará o que é justo e bom.

O Cristão e o Pecado

Quem crê em Cristo foi perdoado e recebeu uma vida nova. Mas a luta com o pecado continua. João escreveu a crentes: “Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1 João 1:8). E ele mesmo mostra o caminho:

“Meus filhinhos, vos escrevo estas coisas para que não pequeis; mas se alguém pecar, temos um advogado com o Pai: Jesus Cristo, o justo. E ele é o sacrifício para perdão dos nossos pecados; e não somente dos nossos, mas também dos de todo o mundo.”

(1 João 2:1-2, Bíblia Livre)

O alvo do cristão é não pecar. Quando cai, ele não precisa se esconder como Adão, porque tem um advogado. “Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9).

A Bíblia fala de três inimigos nessa luta. O mundo, com a sua cobiça e o seu orgulho (1 João 2:15-16). A carne, a inclinação para o pecado que continua dentro de nós (Gálatas 5:17). E o diabo, que anda ao redor procurando a quem devorar (1 Pedro 5:8). Para enfrentá-los, Deus não nos deixou sozinhos. Ele nos deu a sua Palavra: “Guardei a tua palavra em meu coração, para eu não pecar contra ti” (Salmos 119:11). Deu-nos o Espírito Santo, para que andemos “não segundo a carne, mas sim, segundo o Espírito” (Romanos 8:4). E nos deu a igreja, onde nos encorajamos uns aos outros “a fim de que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado” (Hebreus 3:13). O pecado é forte, mas a graça é mais forte.

Conclusão

O pecado é rebeldia contra Deus, desvio do caminho certo e fracasso diante do alvo que ele nos deu. Ele está no que fazemos, no que deixamos de fazer e nos motivos com que fazemos o bem. Ele nasceu da liberdade de criaturas que Deus fez boas, primeiro de anjos e depois do ser humano, sem que Deus fosse o seu autor. E ele alcança todas as pessoas, cada pessoa por inteiro, as relações, a sociedade e a própria criação. O seu salário é a morte.

Olhando só para isso, tudo parece perdido. Mas o Deus que perguntou “Onde estás?” no jardim é o mesmo que preparou o Cordeiro antes da fundação do mundo. No próximo capítulo, veremos como o pecado de Adão alcança toda a humanidade. Depois, olhando para a pessoa e a obra de Cristo, para o Espírito Santo e para a salvação, encontraremos a resposta de Deus para o nosso problema.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Debates públicos, VII e VIII. Em As obras de Armínio, vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. II.1.4; III.23.8.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • Wesley, John. Sermão O objetivo da vinda de Cristo. Em Coletânea da teologia de João Wesley.

Teologia Sistemática, Parte 4: O ser humano e o pecado. Capítulo anterior: Capítulo 22: A imagem de Deus e a constituição do ser humano. Próximo capítulo: Capítulo 24: O pecado original e a depravação total.

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