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Capítulo 36: A santificação

Teologia Sistemática, Parte 7: A salvação

Diego Gonçalves27 min de leitura5.468 palavras

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Neste texto

Deus não salva ninguém para deixá-lo como estava. Quem foi perdoado e nasceu de novo é chamado a ser santo. Mas o que é a santificação, como ela acontece e até onde ela pode chegar nesta vida?

O que É a Santificação

No capítulo anterior, vimos que o novo nascimento é o começo de uma vida nova. Uma criança nasce num instante e depois leva anos para crescer. A santificação é esse crescimento. Ela é a obra de Deus que vai tornando o crente parecido com Cristo, desde o dia em que ele crê até o dia em que verá o Senhor.

O que Quer Dizer “Santo”?

No Antigo Testamento, a palavra hebraica para santo é qadosh. No Novo Testamento, a palavra grega é hagios, e santificação é hagiasmos. As duas trazem a ideia de separar. Uma coisa santa é uma coisa separada do uso comum e entregue a Deus. O sábado era santo porque era um dia separado para o Senhor. Os utensílios do tabernáculo eram santos porque não podiam ser usados na cozinha de casa. Os sacerdotes eram santos porque tinham sido separados para servir no altar.

Mas a palavra não fica só nessa ideia de separação. Deus é santo, e a sua santidade é também pureza. Ele não tem mancha nenhuma, e o mal não pode ficar diante dele. Por isso, quando Deus separa um povo para si, ele quer que esse povo se pareça com ele. Pedro lembra uma ordem que Deus já tinha dado a Israel:

Ao contrário; assim como aquele que vos chamou é santo, sede vós também santos em todo o vosso comportamento. Pois está escrito: Sede santos, porque eu sou santo.

(1 Pedro 1:15-16, Bíblia Livre)

A santificação tem, portanto, dois lados. Primeiro, Deus nos separa do mundo e nos toma para si. Depois, ele vai nos limpando por dentro, para que vivamos de um jeito que combine com essa separação. Em Efésios 4:1, Paulo pede que andemos “como é digno do chamado”. Fomos chamados para ser filhos de Deus, e agora precisamos viver como filhos.

Santificação e Justificação

A justificação e a santificação andam juntas, mas não são a mesma coisa. No Capítulo 34, vimos que a justificação é o que Deus faz por nós: ele perdoa os nossos pecados e nos aceita por causa da justiça de Cristo. A santificação é o que Deus faz em nós: ele vai mudando o nosso coração e a nossa vida.

As diferenças ajudam a entender as duas:

  • a justificação muda a nossa situação diante de Deus; a santificação muda a nossa condição por dentro;
  • a justificação acontece de uma vez e está completa desde o primeiro dia; a santificação começa naquele dia e vai crescendo;
  • a justificação é igual para todos os crentes, porque ninguém está mais perdoado do que outro; a santificação é diferente de um crente para outro, porque uns cresceram mais e outros menos;
  • na justificação, a justiça de Cristo é creditada a nós; na santificação, o Espírito vai formando em nós o caráter de Cristo.

Confundir as duas traz dois perigos. O primeiro é achar que Deus só nos aceita depois que estivermos santos o bastante. Isso tira a paz do crente, porque ele nunca vai se achar santo o bastante. O Concílio de Trento, no século XVI, juntou as duas coisas e ensinou que a justificação inclui a renovação interior do homem. Os reformadores responderam que somos aceitos por Deus só pela justiça de Cristo, e não pela santidade que já temos.

O segundo perigo é o contrário: separar tanto as duas coisas que alguém se diga perdoado e continue vivendo do mesmo jeito. Calvino respondeu aos que acusavam os protestantes de desprezar as boas obras:

Cristo, portanto, não justifica ninguém que ele não santifique também. Pois esses benefícios estão ligados de modo perpétuo e inseparável. […] Podemos distingui-los, mas Cristo contém os dois, inseparavelmente, em si mesmo.

(João Calvino, Institutas, III.16.1, tradução nossa)

Calvino estava pensando em 1 Coríntios 1:30, onde Paulo diz que Cristo se tornou para nós “sabedoria, justiça, santificação, e resgate”. Quem recebe Cristo recebe as duas coisas, porque recebe a pessoa inteira dele.

Os Três Tempos da Santificação

Como a salvação, a santificação também pode ser vista em três tempos. A Bíblia fala dela como algo que já aconteceu, como algo que está acontecendo e como algo que ainda vai acontecer. Paul Enns, no Moody Handbook of Theology, chama esses três tempos de santificação posicional, santificação progressiva (ou da experiência) e santificação final.

Já Fomos Santificados

O primeiro tempo é a santificação posicional. No momento em que a pessoa crê, Deus a separa para si. Ela passa a pertencer a Deus e a ser chamada de santa. Isso não depende de quanto ela já cresceu, mas da obra de Cristo, feita de uma vez por todas:

Pela sua vontade somos santificados por meio da oferta sacrificial do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez por todas.

(Hebreus 10:10, Bíblia Livre)

Por isso Paulo chamava de “santos” todos os crentes a quem escrevia. O caso mais curioso é o da igreja de Corinto. Era uma igreja cheia de problemas: divisões, imoralidade, brigas na justiça, bebedeira na Ceia do Senhor. Mesmo assim, Paulo escreveu “aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (1 Coríntios 1:2). E, mais adiante, lembrou: “já estais lavados, e santificados, e justificados no nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus” (1 Coríntios 6:11).

Isso corrige um uso muito comum da palavra entre nós. No Brasil, muitos pensam que “santo” é um título dado pela igreja a pessoas muito especiais, depois de mortas, e que aparecem em imagens e no calendário. Na Bíblia, todo crente é santo. Ser santo é pertencer a Deus. O desafio é viver de acordo com isso.

Estamos Sendo Santificados

O segundo tempo é a santificação progressiva. Os coríntios eram santos, mas Paulo passou a carta inteira corrigindo a vida deles. A posição já era de santos, mas a vida ainda precisava crescer. É isso que a santificação progressiva faz: ela vai trazendo a nossa vida para perto daquilo que já somos em Cristo.

Esse crescimento é obra do Espírito, que nos transforma aos poucos:

E todos nós, com o rosto descoberto, refletindo como que um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, segundo a mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.

(2 Coríntios 3:18, Bíblia Livre)

Repare no verbo: “somos transformados”. É um processo que está em andamento. E Paulo, já no fim do seu ministério, ainda dizia: “Não que eu já a tenha obtido, ou que já seja perfeito; mas sigo a fim de alcançar aquilo para o qual eu também fui alcançado por Cristo Jesus” (Filipenses 3:12).

A santificação progressiva não é opcional. Paulo escreveu que “esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4:3), e que “Deus não nos chamou para a impureza, mas sim para a santificação” (1 Tessalonicenses 4:7). A Carta aos Hebreus é ainda mais forte: “Buscai a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14).

Seremos Santificados

O terceiro tempo é a santificação final. Um dia, a obra que Deus começou estará completa. Paulo tinha certeza disso: “aquele que começou a boa obra em vós irá completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Quando Cristo voltar, até o nosso corpo será transformado: “Ele transformará o nosso degradante corpo, para que seja conforme o seu corpo glorioso” (Filipenses 3:21).

Esse é o alvo de Cristo para toda a sua Igreja:

Maridos, amai as vossas próprias esposas, assim como também Cristo amou a Igreja, e se entregou por ela; a fim de a santificar, havendo a purificado com a lavagem com água, pela palavra, a fim de apresentar a si mesmo uma igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem algo semelhante; mas sim, santa e irrepreensível.

(Efésios 5:25-27, Bíblia Livre)

Essa esperança não nos deixa acomodados. João diz que “todo aquele que tem nele essa esperança purifica a si mesmo, como também ele é puro” (1 João 3:3). Quem espera ver o Senhor quer começar a se parecer com ele desde já.

Como Deus Nos Santifica

A Obra é de Deus

A santificação é obra de Deus. Nós não nos tornamos santos por força de vontade, como quem aprende a controlar a alimentação ou a acordar cedo. Já no Antigo Testamento, Deus dizia a Israel: “Eu sou o SENHOR que vos santifico” (Levítico 20:8). E Paulo ora assim pelos tessalonicenses:

E o próprio Deus da paz vos santifique em tudo; e que todo o vosso espírito, alma e corpo sejam preservados irrepreensíveis na vinda do nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é aquele que vos chama, e ele também o fará.

(1 Tessalonicenses 5:23-24, Bíblia Livre)

As três pessoas da Trindade participam dessa obra. O Pai nos santifica, como Paulo pede nesse texto. O Filho nos santifica pelo seu sangue: “Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, sofreu fora do portão da cidade” (Hebreus 13:12). E o Espírito aplica essa obra em nós: Deus nos escolheu “para a salvação, em santificação do Espírito, e fé na verdade” (2 Tessalonicenses 2:13; veja também 1 Pedro 1:2).

Armínio, num dos seus debates na Universidade de Leiden, definiu a santificação desta maneira:

É um ato glorioso de Deus, pelo qual Ele purifica o homem que é um pecador e, ainda assim, um fiel, retirando-o da escuridão da ignorância, do pecado interior e de seus desejos, imbuindo-o do Espírito do conhecimento, da justiça e da santidade, para que, separado da vida do mundo e feito em conformidade com Deus, o homem possa viver a vida de Deus.

(Jacó Armínio, Disputas privadas, XLIX.4, em As obras de Armínio, vol. 2)

Repare em duas expressões. A primeira é “um pecador e, ainda assim, um fiel”. Deus santifica pessoas que ainda têm pecado, mas que já creem em Cristo. A segunda é “viver a vida de Deus”. O alvo da santificação é muito mais do que deixar alguns vícios. É viver a vida que Deus vive, que é santa e cheia de amor.

Pela Fé, Unidos a Cristo

Deus nos santifica do mesmo modo que nos justifica: por meio da fé, unindo-nos a Cristo. Quando Jesus apareceu a Paulo no caminho de Damasco, falou dos que estão “entre os santificados pela fé em mim” (Atos 26:18). A fé nos une a Cristo, e em Cristo temos tudo, inclusive a santificação.

Em Romanos 6, Paulo explica que quem está unido a Cristo morreu com ele para o pecado e ressuscitou com ele para uma vida nova. Por isso ele manda:

Assim também vós, considerai que estais mortos para o pecado, mas vivendo para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Portanto, não reine o pecado em vosso corpo mortal, para obedecer a ele em seus maus desejos. Nem apresenteis os membros do vosso corpo ao pecado como instrumentos de injustiça; em vez disso, apresentai-vos a Deus, como vivos dentre os mortos, e vossos membros como instrumentos de justiça para Deus.

(Romanos 6:11-13, Bíblia Livre)

A ordem de Paulo começa com o que já é verdade. Ele não diz “esforce-se para morrer para o pecado”. Ele diz “considerai que estais mortos”. A vida santa nasce de crer no que Cristo já fez. Por isso Paulo podia dizer: “Já estou crucificado com Cristo. Estou vivendo não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).

Jesus usou a imagem da videira para dizer a mesma coisa. O ramo não dá fruto por esforço próprio. Ele dá fruto porque está ligado à videira, e a seiva da videira corre nele. “Quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (João 15:5). O fruto do Espírito, de que tratamos no Capítulo 31: Os dons e o fruto do Espírito, é exatamente isso: o caráter de Cristo crescendo em quem permanece nele.

Com a Nossa Participação

Se a santificação é obra de Deus, o crente fica parado esperando? Não. Aqui há uma diferença importante em relação à justificação. Na justificação, só recebemos: Deus declara justo quem não tem obra nenhuma (Romanos 4:5). Na santificação, Deus age em nós e nos chama a agir com ele. Paulo juntou as duas coisas num só texto:

Portanto, meus amados, assim como sempre obedecestes, não somente na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir, conforme a sua boa vontade.

(Filipenses 2:12-13, Bíblia Livre)

Paulo não diz “exercei a vossa salvação, porque Deus não vai fazer nada”. Ele diz “exercei a vossa salvação, pois é Deus quem opera em vós”. Deus trabalha, e por isso nós podemos trabalhar. Wesley pregou um sermão inteiro sobre esse texto. Ele dizia que, como Deus opera em nós, nós podemos operar; e, como Deus opera em nós, nós devemos operar. Wesley lembrava uma frase de Agostinho: aquele que nos fez sem nós não nos salvará sem nós.

Essa participação não acrescenta nada à graça. Ela é a resposta à graça, e até a força para responder vem de Deus. Em Romanos 12, Paulo mostra como é essa resposta:

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com a presente era; mas transformai-vos pela renovação da vossa mentalidade, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.

(Romanos 12:1-2, Bíblia Livre)

Paulo começa pelas “misericórdias de Deus”, que ele tinha explicado nos onze capítulos anteriores. Só depois vem o pedido. Primeiro Deus nos dá tudo em Cristo. Depois nos pede que entreguemos tudo a ele.

Fazer Morrer e Fazer Viver

Os teólogos da Reforma descreviam a santificação com duas palavras: mortificação e vivificação. Mortificar é fazer morrer o que é do velho homem. Vivificar é fazer crescer o que é do novo. Armínio dizia que a santificação consiste nessas duas coisas (Disputas privadas, XLIX.5), e Calvino ensinava o mesmo (Institutas, III.3.8).

Paulo usa essa linguagem em Colossenses. De um lado, ele manda: “mortificai as partes carnais que há em vós que são terrenas; são elas: o pecado sexual, a impureza, a paixão depravada, o desejo maligno, e a ganância, que é idolatria” (Colossenses 3:5). De outro, ele lembra aos crentes: “já vos despistes do velho ser humano com os seus costumes, e vos revestistes do novo, que se renova em conhecimento, conforme a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:9-10).

Mas é preciso notar quem faz morrer. Paulo diz em Romanos 8:13: “se, pelo Espírito, fizerdes morrer as ações do corpo, vivereis”. Somos nós que fazemos morrer, mas fazemos isso pelo Espírito. Quem tenta matar o pecado só com a própria força acaba ou desanimado ou orgulhoso.

Os Meios que Deus Usa

Deus costuma santificar o seu povo por meio de coisas simples, que ele mesmo deu à Igreja. Os cristãos antigos as chamavam de meios da graça.

A Palavra

O primeiro meio é a Palavra de Deus. Jesus orou pelos discípulos: “Santifica-os em tua verdade; tua palavra é a verdade” (João 17:17). A Bíblia mostra o que agrada a Deus, denuncia o pecado escondido e alimenta a fé. O salmista perguntava como um jovem pode manter puro o seu caminho, e respondia: guardando-o conforme a palavra de Deus (Salmos 119:9).

A Oração e a Ceia do Senhor

O segundo meio é a oração. Quem ora se coloca diante de Deus, e ninguém fica muito tempo na presença de Deus sem ser mudado. Com a oração vêm o jejum e a Ceia do Senhor. Nela, a Igreja lembra a morte de Cristo, examina a própria vida (1 Coríntios 11:28) e é fortalecida na fé.

A Comunhão dos Irmãos

O terceiro meio é a comunhão da igreja. Ninguém se santifica sozinho. A Carta aos Hebreus manda que sejamos “atenciosos uns para com os outros, a fim de incentivar o amor e as boas obras”, “não abandonando a nossa reunião” (Hebreus 10:24-25). Os irmãos nos encorajam quando estamos fracos e nos corrigem quando estamos errados.

O Sofrimento

Por fim, Deus usa até o sofrimento. Ninguém gosta de passar por ele, mas Deus o usa para o nosso bem. Os nossos pais nos corrigiam como achavam melhor, mas Deus “disciplina para o nosso proveito, a fim de que sejamos participantes da sua santidade” (Hebreus 12:10). Na hora, a disciplina dói, “mas depois produz um fruto pacífico de justiça aos que foram exercitados por ela” (Hebreus 12:11).

A Luta contra o Pecado

A Carne e o Espírito

Quem nasceu de novo descobre logo que a vida cristã tem luta. Antes da conversão, muitos pecados nem incomodavam. Depois, eles passam a incomodar muito. Paulo descreve essa luta assim:

Mas eu digo: andai no Espírito, e não executeis o mau desejo da carne. Pois a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; pois estes se opõem mutuamente, para que não façais o que quereis.

(Gálatas 5:16-17, Bíblia Livre)

Nesse texto, “carne” quer dizer a nossa natureza caída, inclinada para o mal, e não o corpo. “Espírito” é o Espírito Santo, que mora no crente. Os dois puxam para lados opostos. A promessa de Paulo é que quem anda no Espírito não vai realizar os desejos da carne.

O Pecado que Permanece

Todos os grandes ramos da Reforma ensinaram que, depois da conversão, ainda resta pecado no coração do crente. O pecado perde o trono, mas não sai de casa de uma vez. Calvino explicou assim:

Na regeneração dos seus filhos, Deus destrói neles o reino do pecado, porque o Espírito lhes dá forças para vencer na luta. Mas, embora o pecado deixe de reinar, ele continua a habitar neles.

(João Calvino, Institutas, III.3.11, tradução nossa)

Wesley concordava nesse ponto. No sermão O pecado nos crentes, ele ensinou que o crente, mesmo justificado e nascido de novo, ainda encontra no coração orgulho, impaciência, amor ao mundo e outras inclinações contrárias a Cristo. Ele dizia que a ideia de que o crente fica livre de todo pecado no momento da conversão era uma novidade perigosa, porque tirava do crente a vigilância contra o mal que ainda mora nele.

Isso explica por que um crente sincero às vezes se assusta consigo mesmo. Ele ama a Deus, mas descobre raiva, inveja ou cobiça no próprio coração. Isso mostra que a obra de Deus nele ainda não terminou, e não que ele está perdido. O que não pode acontecer é ele fazer as pazes com o pecado.

O que Dizer de Romanos 7?

Romanos 7 é um dos textos mais discutidos sobre esse assunto. Nele, Paulo diz: “o bem que quero, não faço; mas o mal que não quero, isso faço” (Romanos 7:19), e termina com o grito: “Miserável homem que sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Romanos 7:24).

Alguns entendem que Paulo fala aqui da sua experiência como crente. Essa foi a leitura de Agostinho na velhice, de Lutero e de Calvino. Para eles, o texto mostra a luta de todo cristão, que quer o bem e ainda tropeça.

Outros entendem que Paulo fala de alguém que vive debaixo da Lei e tenta agradar a Deus com as próprias forças, antes de conhecer a liberdade do Espírito. Essa foi a leitura de muitos Pais gregos, de Armínio, que escreveu um longo estudo sobre o capítulo, e de Wesley. Eles lembram que, no capítulo anterior, Paulo diz que o crente foi liberto do pecado (Romanos 6:18), e que, logo depois, ele diz que “a Lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2).

Eu tendo a pensar que o contexto favorece a segunda leitura, porque o capítulo fala de alguém que luta sozinho com a Lei, e o Espírito Santo só aparece no capítulo 8. Mas as duas leituras chegam ao mesmo lugar. A resposta ao grito de Romanos 7 vem logo em seguida: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 7:25). E Paulo continua: “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). A Lei mostrava o caminho, mas não dava força para andar nele. O Espírito dá essa força, “para que a exigência da lei se cumprisse em nós, que andamos, não segundo a carne, mas sim, segundo o Espírito” (Romanos 8:4).

Quando o Crente Cai

O crente pode cair. João escreveu para que não pequemos, mas logo acrescentou uma palavra de consolo:

Meus filhinhos, vos escrevo estas coisas para que não pequeis; mas se alguém pecar, temos um advogado com o Pai: Jesus Cristo, o justo. E ele é o sacrifício para perdão dos nossos pecados; e não somente dos nossos, mas também dos de todo o mundo.

(1 João 2:1-2, Bíblia Livre)

O caminho de volta é a confissão: “Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9). Repare que a promessa tem duas partes: perdoar e purificar. Deus não só tira a culpa. Ele também limpa.

Até Onde a Santificação Pode Chegar Nesta Vida?

Os protestantes concordam que a santificação é obra de Deus, começa no novo nascimento, cresce ao longo da vida, será completa na volta de Cristo e não nos dá mérito diante de Deus.

Mas há uma pergunta em que eles divergem: até onde a graça de Deus pode levar o crente antes da morte? O pecado que mora no coração vai ficar lá até o fim, ou Deus pode purificar o coração ainda nesta vida? Esse é um dos pontos disputados entre os protestantes, o da santificação e da perfeição.

A Visão Reformada

A tradição reformada ensina que a santificação atinge o homem inteiro, mas fica incompleta nesta vida. A Confissão de Westminster (1647) diz que em toda parte do crente ainda restam alguns restos de corrupção, e que daí nasce uma guerra contínua, que não termina antes da morte. Mas ela diz também que, nessa guerra, a parte regenerada vence, porque o Espírito de Cristo dá forças continuamente.

Os reformados citam textos como “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tiago 3:2) e “Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos” (1 João 1:8). Para eles, ninguém fica livre do pecado antes de morrer. O crente cresce a vida inteira, mas a purificação completa só vem na glória.

A Visão Luterana

Os luteranos gostam de uma frase de Lutero: o crente é, ao mesmo tempo, justo e pecador. Justo porque Deus o declara justo em Cristo. Pecador porque ainda carrega a velha natureza. Por isso eles insistem que o crente nunca deve olhar para o próprio progresso como base da sua paz. A paz está só na promessa do evangelho.

Para os luteranos, a santificação nasce da justificação, como o fruto nasce da árvore. Quem recebe o perdão passa a amar a Deus e ao próximo. Lutero ensinava, no Catecismo Menor, que o batismo significa que o velho homem em nós deve ser afogado todos os dias pelo arrependimento, e que um novo homem deve surgir todos os dias para viver diante de Deus. Os luteranos desconfiam de toda conversa sobre uma santidade alcançada, porque temem que ela leve ao orgulho.

A Visão Wesleyana

John Wesley ensinou que Deus pode purificar o coração do crente do pecado interior ainda nesta vida. Ele chamava isso de inteira santificação ou perfeição cristã, a partir de textos como 1 Tessalonicenses 5:23-24 e Mateus 5:48. Para Wesley, essa purificação acontece pela fé, do mesmo modo que a justificação:

Tenho testificado continuamente, tanto em particular como em público, que somos santificados e justificados pela fé. […] Ninguém é santificado senão aquele que crê; sem fé nenhum homem é santificado. E ela é a única condição; é suficiente para a santificação.

(John Wesley, O modo escriturístico da salvação, sermão 43, III.3, em Coletânea da teologia de João Wesley)

Wesley dizia que essa perfeição é amor. É amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo, sem que o orgulho, o ódio ou a cobiça disputem o coração com Deus. Ele foi muito claro sobre o que ela não é:

A perfeição cristã, portanto, não implica na isenção da ignorância ou dos erros, das fraquezas ou das tentações. […] Não há perfeição de graus, como é chamada, nem perfeição que não admita desenvolvimento contínuo.

(John Wesley, Perfeição cristã, sermão 40, I.9, em Coletânea da teologia de João Wesley)

Ou seja, quem foi inteiramente santificado ainda erra, ainda é tentado, ainda tem limitações e ainda precisa crescer. Continua precisando de Cristo e do seu sangue a cada momento (1 João 1:7). E pode perder essa graça, se deixar de vigiar. Wesley via a santificação como um crescimento gradual que, em algum momento, recebe de Deus uma purificação instantânea do coração, e que depois continua crescendo.

Keswick e a Vida Vitoriosa

No fim do século XIX, as conferências da cidade inglesa de Keswick ensinaram que Deus chama os crentes a uma vida de vitória sobre o pecado, pela entrega completa a Cristo e pela confiança nele. Para esse movimento, a velha natureza não é tirada nesta vida, mas o Espírito a mantém sob controle enquanto o crente permanece em Cristo. Essa visão influenciou muitas igrejas evangélicas e missões.

Os Pentecostais

Os pentecostais estão divididos nesse ponto. As igrejas pentecostais mais antigas, nascidas do movimento de santidade, ensinam três experiências: a salvação, a santificação como segunda obra da graça e o batismo no Espírito Santo. Outras, como as Assembleias de Deus, a maior denominação pentecostal do Brasil, entendem a santificação como progressiva e veem o batismo no Espírito como uma experiência de poder para o serviço, distinta da conversão.

Avaliando as Posições

De um lado, a Bíblia manda: “sede vós perfeitos, assim como vosso Pai celestial é perfeito” (Mateus 5:48). Ela ora para que Deus nos santifique “em tudo” e promete: “Fiel é aquele que vos chama, e ele também o fará” (1 Tessalonicenses 5:23-24). Ela promete um coração purificado: “eu vos purificarei de todas vossas imundícies” (Ezequiel 36:25), e “circuncidará o SENHOR teu Deus teu coração […] para que ames ao SENHOR teu Deus com todo teu coração” (Deuteronômio 30:6). E João fala de um amor que é aperfeiçoado em nós e que “expulsa o medo” (1 João 4:17-18).

De outro lado, a Bíblia também diz que “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tiago 3:2), e Paulo, já maduro, dizia que ainda não era perfeito (Filipenses 3:12).

Boa parte da divergência depende de como se define pecado. Os reformados chamam de pecado toda falta de conformidade com a lei perfeita de Deus, mesmo involuntária. Calvino chegou a discordar de Agostinho por isso: Agostinho não chamava de pecado o mau desejo que surge sem o consentimento da vontade, e Calvino chamava (Institutas, III.3.10). Nesse sentido, é claro que ninguém fica sem pecado nesta vida. Wesley usava a palavra num sentido mais estreito: a transgressão voluntária de uma lei conhecida. Ele reconhecia que mesmo o crente inteiramente santificado comete faltas involuntárias, que também precisam do sangue de Cristo. As duas tradições estão mais perto uma da outra do que parece.

Também vale lembrar que Armínio, na sua Declaração de sentimentos (1608), não afirmou nem negou que o crente possa guardar perfeitamente os mandamentos nesta vida. Ele deixou a questão em aberto, seguindo Agostinho, e insistiu que, se isso for possível, só o será pela graça de Cristo e nunca sem ela.

A Posição Deste Site

Este site segue a visão de Wesley. Cremos que Deus pode purificar o coração do crente ainda nesta vida e enchê-lo de amor a Deus e ao próximo, e que essa obra é um dom recebido pela fé, e não uma conquista do esforço humano. Ela não significa uma vida sem erros, sem tentações ou sem crescimento, e quem a recebe continua dependendo de Cristo a cada instante. Tratamos do assunto em Sede perfeitos: O que Wesley ensinou sobre perfeição cristã.

A Santidade no Dia a Dia

Santidade e Lei

Que regra o crente segue na santificação? Paulo é claro: não somos justificados pela Lei (Gálatas 2:16). Mas isso não quer dizer que podemos viver de qualquer jeito. A lei moral de Deus continua mostrando o que é o amor. Jesus resumiu toda a Lei em dois mandamentos: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo. “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mateus 22:40). Paulo diz o mesmo: “o cumprimento da Lei é o amor” (Romanos 13:10). Calvino, Armínio e Wesley concordavam que a lei moral serve ao crente como regra de vida. Não para ganhar a salvação, mas para mostrar como vive quem já foi salvo.

Santidade não é Legalismo

Um perigo comum é confundir santidade com uma lista de regras. Em muitas igrejas brasileiras, a palavra “santidade” acabou ligada sobretudo ao tipo de roupa, ao corte de cabelo, ao que se assiste ou ao que não se come. Uma igreja pode ter os seus costumes, e há sabedoria em muitos deles. Mas a Bíblia avisa que as regras humanas do tipo “não pegues”, “não proves”, “não toques” têm “aparência de sabedoria”, mas “não têm valor algum contra a satisfação da carne” (Colossenses 2:21-23). Uma pessoa pode seguir todas as regras de uma igreja e continuar orgulhosa, fofoqueira e sem amor. A santidade bíblica começa no coração e aparece na vida. Ela se vê, antes de tudo, no amor, na humildade, na pureza, na honestidade e na paciência.

Separados, mas no Mundo

Se somos separados para Deus, devemos nos afastar das pessoas que não creem? Jesus orou de outro modo:

Não suplico que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno. Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Santifica-os em tua verdade; tua palavra é a verdade.

(João 17:15-17, Bíblia Livre)

O próprio Jesus comia com publicanos e pecadores, e os religiosos da época o criticavam por isso (Mateus 9:10-13). Ele não se contaminava com o pecado deles. Ele os alcançava. Os crentes são chamados a viver assim. Jesus disse: “Assim brilhe vossa luz diante das pessoas, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem ao vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:16). É difícil a luz brilhar se ela fica guardada dentro da igreja.

Tiago junta as duas coisas numa frase só: “A religião pura e não contaminada para com Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e guardar-se sem a corrupção do mundo” (Tiago 1:27). Estar perto de quem sofre e longe do pecado.

Uma Santidade que Ama

Wesley costumava dizer que o cristianismo é uma religião social, e que transformá-lo numa religião solitária é destruí-lo. A santidade bíblica aparece no casamento, no trabalho, no trato com os pobres e no perdão a quem nos ofende. Cristo se entregou por nós “para purificar para si mesmo um povo particular, zeloso de boas obras” (Tito 2:14). Sobre esse lado prático, veja também Santificação: a reforma interior que dura a vida inteira.

Conclusão

A santificação é a obra de Deus que nos torna parecidos com Cristo. Ela tem três tempos. Já fomos santificados, porque Deus nos separou para si no dia em que cremos. Estamos sendo santificados, porque o Espírito vai nos transformando de glória em glória. E seremos santificados por completo, quando Cristo voltar.

Essa obra é de Deus do começo ao fim. Nós a recebemos pela fé, unidos a Cristo, e respondemos à graça pelos meios que Deus deu. Nesta vida há luta, porque o pecado ainda mora no coração, mas há também vitória, porque o Espírito é mais forte do que a carne.

Os protestantes divergem sobre até onde a santificação pode chegar antes da morte. Este site crê, com Wesley, que Deus pode purificar o coração e enchê-lo de amor ainda nesta vida, como dom recebido pela fé. Mas todos concordam no principal: sem santificação ninguém verá o Senhor, e quem a busca pode confiar que aquele que chama é fiel, “e ele também o fará” (1 Tessalonicenses 5:24).

No próximo capítulo, veremos se quem começou essa vida pode ter certeza de chegar ao fim, na doutrina da perseverança dos santos.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Disputas privadas, XLIX: Sobre a santificação do homem. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Armínio, Jacó. Declaração de sentimentos (1608), VII. Tradução no Diário do Diego.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. III.3.8, 10 e 11; III.16.1.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • Wesley, John. O modo escriturístico da salvação (sermão 43); Perfeição cristã (sermão 40); O pecado nos crentes (sermão 13); Sobre a realização da nossa própria salvação (sermão 85). Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.

Teologia Sistemática, Parte 7: A salvação. Capítulo anterior: Capítulo 35: Regeneração, adoção e certeza da salvação. Próximo capítulo: Capítulo 37: A perseverança dos santos.

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