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Lição 38: Vocação, arrependimento e fé

Curso de Teologia Sistemática, parte 4

Diego Gonçalves25 min de leitura4.966 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática. Parte 4: A doutrina do Espírito Santo: a salvação, a Igreja e as últimas coisas.

Objetivos da lição

  • Definir vocação, arrependimento, fé e conversão, com o vocabulário bíblico (qārāʾ, kaleō, šûb, metanoia, ʾāman, pistis) e os termos latinos da tradição.
  • Mostrar que a Escritura apresenta o chamado de Deus como universal, sério e resistível, e o arrependimento e a fé como dom e mandamento ao mesmo tempo.
  • Acompanhar a doutrina da penitência antiga e medieval à Reforma, a Armínio, a Wesley e aos sistemáticos wesleyanos, inclusive no Brasil.
  • Formular a posição arminiana clássica e wesleyana sobre a ordem entre arrependimento e fé e sobre a fé como condição sem mérito.
  • Tirar as consequências para a pregação, a evangelização e o cuidado pastoral.

Introdução

Nos bairros de antigamente, quando a tarde caía, as mães chamavam os filhos da janela, e o menino, no meio da pelada, ouvia o próprio nome atravessar a rua. A voz não era um convite qualquer, porque a mãe queria de verdade que ele voltasse para casa, e ele sabia disso. Ao mesmo tempo, a voz não o arrastava: ele podia fingir que não tinha ouvido e continuar no jogo. Se obedecesse, precisava fazer duas coisas que eram, no fundo, uma só, largar a bola e tomar o caminho de casa.

A imagem guarda as três realidades desta lição: Deus chama os pecadores pelo evangelho, e o chamado é sério; quem ouve é convocado a deixar o pecado, o que se chama arrependimento, e a voltar-se para Cristo, confiando nele, o que se chama fé. A tradição reformada distingue um chamado externo, dirigido a todos, de um chamado eficaz e irresistível, que alcança só os eleitos; a tradição arminiana sustenta que o chamado dirigido a todos é sincero, que a graça que o acompanha capacita de verdade a responder e que ele pode ser recusado. Na igreja brasileira, o tema tem também um problema prático, porque muitas vezes reduzimos o chamado ao apelo do fim do culto, e a resposta a uma mão levantada.

A lição 36 mostrou que a graça preveniente vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade; a lição 37, que Deus elege em Cristo os que creem. Esta lição trata do momento em que o propósito eterno do Pai chega à pessoa pela obra do Espírito, que chama pela Palavra, convence do pecado e gera a fé; as lições 39 e 40 estudarão o que Deus faz por nós e em nós quando cremos.

1. Os termos e as distinções

1.1 Vocação

O hebraico qārāʾ e o grego kaleō significam “chamar”, “convidar” e “convocar”; klēsis é o “chamado”, e klētos, o “chamado” ou “convidado”, de onde o latim vocatio. No artigo “Chamar” do Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, Lothar Coenen observa que, no Antigo Testamento, o chamado de quem tem autoridade “sempre era uma ordem, nunca um mero convite”, e que essa chamada “espera que os homens ouçam e respondam”; e acrescenta: “Não é, portanto, compulsão”.

A teologia distingue a vocação externa, que se dá pela pregação e pela leitura da Palavra, e a vocação interna, que é a ação do Espírito na mente e no coração de quem ouve. Para Armínio, as duas não são espécies diferentes de chamado, mas partes de um único ato de Deus, e “a eficácia consiste na simultaneidade da vocação interna e da externa” (Disputas públicas, XVI, 11, em As obras de Armínio, vol. 1). A vocação interna ilumina a mente e afeta o coração “para que seja dada séria atenção àquelas coisas que são faladas, e para que seja dada fé ou crédito à palavra” (XVI, 11). É a graça preveniente da lição 36 na forma de chamado, e Abner Hernández mostra que, para Armínio, a fé é propriamente fruto dessa graça, “a luz interna do Espírito tornando eficaz a luz externa da Escritura” (tese de 2017).

1.2 Arrependimento

O Antigo Testamento usa sobretudo šûb, “voltar”, e niḥam, que exprime pesar; o Novo, metanoia, “mudança de mente”, metamelomai, “sentir remorso”, e epistrephō, “voltar-se”. Armínio associou essas palavras aos termos latinos resipiscentia, poenitentia e conversio: o primeiro diz respeito ao entendimento, o segundo aos afetos e o terceiro à ação que resulta dos dois, e não há arrependimento verdadeiro sem os três (Disputas públicas, XVII, 1).

J. Goetzmann chega a conclusão semelhante pela exegese: no Novo Testamento, o sentido meramente intelectual de metanoia “desempenha um papel muito reduzido”, e se ressalta “a decisão mediante a qual o homem inteiro se volta” (Dicionário internacional, art. “Conversão”). Em Atos 3:19 e 26:20, metanoeō descreve o voltar-se contra o mal, e epistrephō, o voltar-se para Deus. Judas, “sentindo remorso” (metamelētheis, Mateus 27:3), devolveu as moedas, mas não voltou para Deus.

Wesley acrescentou uma distinção que se tornou clássica na tradição metodista: “Há duas espécies de arrependimento: o arrependimento chamado legal e o evangélico. O primeiro é uma completa convicção de pecado […]. O último é mudança do coração e, consequentemente, de vida, de todo pecado para toda santidade” (Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Mateus 3:8, em Coletânea da teologia de João Wesley). O arrependimento legal precede a fé que justifica; o evangélico a acompanha por toda a vida.

1.3 Fé

A raiz hebraica ʾāman significa “ser firme”, e a forma heʾĕmîn quer dizer “crer”, isto é, apoiar-se em alguém firme, como no jogo de palavras de Isaías: “Se não crerdes, não ficareis firmes” (Isaías 7:9). O grego usa pistis, “fé”, “confiança”, e pisteuō, “crer”. A teologia protestante distinguiu na fé três elementos: o conhecimento (notitia), o assentimento (assensus) e a confiança (fiducia).

Armínio definiu a fé evangélica como “uma concordância da mente, produzida pelo Espírito Santo, por intermédio do Evangelho nos pecadores que, pela lei, conhecem e reconhecem os seus pecados, sendo penitentes por causa deles” (Disputas privadas, XLIV, 3, em As obras de Armínio, vol. 2). Essa concordância não nasce do raciocínio natural, porque é “infundida, acima da ordem da natureza”; o conhecimento vem antes dela, e a confiança, depois, “pois, por meio da fé, a confiança é depositada em Cristo” (XLIV, 5). Wesley, comentando Hebreus 11:1, definiu a fé como elenchos, “evidência” e “convicção” divinas das coisas que não se veem, “uma espécie de luz divina exposta à alma” (sermão O caminho bíblico da salvação, II, 1).

1.4 Conversão

Conversão é o nome que reúne os dois movimentos: afastar-se do pecado pelo arrependimento e voltar-se para Deus em Cristo pela fé. Os tessalonicenses se converteram “deixando os ídolos, para servir ao Deus vivo e verdadeiro” (1 Tessalonicenses 1:9). Armínio teve o cuidado de chamar o arrependimento de “ato do homem”, para distingui-lo da regeneração, “que é o ‘ato de Deus’” (Disputas públicas, XVII, 3), sem separar os dois na experiência de quem se converte.

2. Fundamentação bíblica

2.1 O Deus que chama

Pelo profeta, Deus jura:

Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do perverso, mas sim em que o perverso se converta de seu caminho, e viva. Convertei-vos! Convertei-vos de vossos caminhos; por que razão morrereis, ó casa de Israel?

Ezequiel 33:11

O chamado é universal: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados” (Mateus 11:28); “quem quiser, tome de graça da água da vida” (Apocalipse 22:17). É sério, porque Deus jura pela própria vida. E é resistível: “estendi minha mão, e não houve quem desse atenção” (Provérbios 1:24); “Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos […]; porém não quisestes!” (Mateus 23:37); “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51).

Na parábola das bodas, os convidados “não quiseram vir” e “foram embora, um ao seu campo, e outro ao seu comércio” (Mateus 22:3, 5). A conclusão, “muitos são chamados, porém poucos escolhidos” (22:14), não diz que o rei fingiu chamar os primeiros, mas que eles recusaram um convite verdadeiro; e quem não atende ao convite divino, nota Coenen, “pode estar malbaratando sua vida e sua esperança” (art. “Chamar”).

Deus nos “chamou com um chamado santo; não conforme as nossas obras” (2 Timóteo 1:9), e o meio é o evangelho (2 Tessalonicenses 2:14). Em Romanos 8:30, “aos que chamou, a esses também justificou”, os chamados são os que atenderam ao chamado, os klētoi que, como mostrou a lição 37, são os eleitos em Cristo pela fé. O caso de Lídia mostra as duas faces da vocação: Paulo falava, e “o Senhor abriu” o coração dela, “para que prestasse atenção ao que Paulo dizia” (Atos 16:14).

2.2 O arrependimento: dom e mandamento

O Novo Testamento apresenta o arrependimento como dom de Deus. Cristo foi exaltado “para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados” (Atos 5:31); e “também aos gentios Deus deu arrependimento para a vida” (Atos 11:18; veja 2 Timóteo 2:25). A oração de Efraim já sabia disso:

De fato ouvi Efraim se queixar, dizendo: Castigaste-me, e fui castigado como um novilho não domado; converte-me e serei convertido; pois tu és o SENHOR meu Deus. Pois depois que me desviei, arrependi-me; depois que entendi, golpeei-me na coxa; envergonhei-me, e me senti humilhado, porque levei a vergonha de minha juventude.

Jeremias 31:18-19

O mesmo Novo Testamento apresenta o arrependimento como mandamento: Deus “agora anuncia a todas as pessoas, em todo lugar, para que se arrependam” (Atos 17:30), e Jesus adverte: “se vós não vos arrependerdes, todos de modo semelhante perecereis” (Lucas 13:3). Goetzmann resume a tensão dizendo que o arrependimento é “uma possibilidade que Deus deu ao homem, como dádiva escatológica da graça, e também um dever que se requer dele” (art. “Conversão”). Deus ordena o que a sua graça torna possível, e é a sua bondade “que te conduz ao arrependimento” (Romanos 2:4).

Paulo distingue a tristeza que salva da que mata: “a tristeza segundo a vontade de Deus opera arrependimento para a salvação, de que ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte” (2 Coríntios 7:10). No filho pródigo aparecem os três momentos que Armínio descreveria: o rapaz pensa “consigo mesmo”, julga a sua condição (“Pai, pequei contra o céu”) e, “levantando-se, foi a seu pai” (Lucas 15:17-20); e o pai já corria ao seu encontro “quando ainda estava longe”.

2.3 A fé que recebe

Abraão “creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça” (Gênesis 15:6). Paulo tira desses textos o contraste que governa toda a doutrina:

Ora, ao que trabalha, seu pagamento não é considerado um favor, mas sim, uma dívida. Porém, ao que não tem obra, mas crê naquele que torna justo o ímpio, sua fé lhe é reputada como justiça.

Romanos 4:4-5

A fé ocupa no evangelho o lugar oposto ao da obra, e Paulo dá a razão: a promessa “é pela fé, para que seja conforme a graça” (Romanos 4:16). Por isso a salvação vem “pela graça […], por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não por obras, para que ninguém tenha orgulho de si mesmo” (Efésios 2:8-9). João descreve a fé com o verbo receber: “a todos quantos o receberam, deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem em seu nome” (João 1:12). E ela nasce do chamado, porque “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17).

A fé salvadora não se confunde com a crença de que certas afirmações são verdadeiras, porque “os demônios também creem, e estremecem” (Tiago 2:19). Ela é dada pela graça, pois “vos foi dado gratuitamente, quanto a Cristo, não somente o crer nele” (Filipenses 1:29), e não fica sozinha: é “a fé, que opera por meio do amor” (Gálatas 5:6).

2.4 Arrependimento e fé juntos

Jesus abriu o seu ministério com as duas palavras: “arrependei-vos, e crede no Evangelho” (Marcos 1:15). Paulo resumiu o seu em Éfeso como o testemunho “do arrependimento para se converter a Deus, e da fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21; veja também 26:18-20). A Escritura nunca promete perdão a quem se arrepende sem crer nem a quem diz crer sem se arrepender; as duas palavras descrevem uma só volta da pessoa inteira para Deus.

3. Desenvolvimento histórico

3.1 Da igreja antiga à Idade Média

A igreja antiga levou muito a sério o arrependimento depois do batismo. O Pastor de Hermas (século II) admitia uma única penitência para os batizados que caíssem (Mandamentos, IV, 3), e Tertuliano, no tratado Sobre a penitência (c. 203), descreveu a penitência pública, com a confissão diante da igreja. Jerônimo chamou a penitência de “segunda tábua depois do naufrágio”, imagem que a Idade Média consagrou. A penitência pública cedeu lugar à confissão privada, a escolástica fixou o sacramento em três partes (contrição do coração, confissão da boca e satisfação pelas obras), e o IV Concílio de Latrão (1215) tornou obrigatória a confissão anual.

3.2 A Reforma e a resposta católica

A primeira das 95 teses de Lutero (1517) afirmava que, ao dizer “arrependei-vos”, Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse de arrependimento (veja Arrependimento bíblico). A Confissão de Augsburgo (1530) ensinou que o arrependimento consiste em duas partes, a contrição e a fé (art. XII). Calvino sustentou que o arrependimento “não só segue imediatamente a fé, mas nasce dela” (Institutas, III, 3, 1), e o definiu como a verdadeira conversão da vida a Deus, que procede de um temor sincero de Deus e consiste na mortificação da carne e na vivificação do Espírito (III, 3, 5).

O Concílio de Trento descreveu as disposições que preparam o adulto para a justificação (sessão VI, 1547, cap. 6), chamou a penitência de “segunda tábua” (cap. 14), condenou quem diz que a fé justificadora é somente confiança na misericórdia divina (cânon 12) e reafirmou as três partes do sacramento (sessão XIV, 1551), no qual, segundo a sua autocompreensão, Cristo aplica ao penitente o fruto da cruz.

A ortodoxia reformada desenvolveu a doutrina da vocação eficaz. Os Cânones de Dort (1619) afirmam que todos os chamados pelo evangelho são chamados com seriedade (III/IV, 8), mas atribuem a conversão a uma operação que regenera os eleitos de modo infalível (III/IV, 10-12). A Confissão de Westminster (1647) descreve a fé salvadora como “aceitar, receber e descansar somente em Cristo” (XIV, 2) e o arrependimento como “graça evangélica” (XV, 1); nessa ordem, a regeneração precede a fé.

3.3 Armínio e os remonstrantes

Nas Disputas públicas (XVI e XVII) e nas Disputas privadas (XLII a XLIV), Armínio segue a ordem da vocação, do arrependimento “pelo qual os homens respondem à vocação divina” e da fé, com três traços principais.

Em primeiro lugar, a iniciativa é inteiramente de Deus. Os chamados são homens “mortos, nos pecados” e, por isso, “indignos de serem chamados e inadequados para responder ao chamado, a menos que, pela misericordiosa avaliação de Deus, fossem considerados dignos e pela sua poderosa operação, fossem considerados adequados para obedecer à vocação” (Disputas públicas, XVI, 6). A causa principal do arrependimento é Deus, e o homem é apenas a causa “imediata, porém menos principal”, “convertido e convertendo-se, pelo poder e eficácia da graça de Deus e o Espírito de Cristo” (XVII, 5-6). Nada disso é semipelagiano: o homem age, mas age movido e capacitado pela graça.

Em segundo lugar, o chamado é sério e pode ser recusado. A rejeição da palavra é “o resultado acidental da vocação, e que não é a intenção de Deus”, e a sua causa é “a maldade, a insensibilidade e a dureza do coração humano” (XVI, 14). Nos Certos artigos que devem ser diligentemente examinados e ponderados, Armínio escreveu que “a vocação interna é concedida até mesmo àqueles que não obedecem ao chamado” e que “quem quer que Deus chame, Ele o faz com seriedade, com uma vontade desejosa de seu arrependimento e salvação” (arts. 4 e 6, em As obras de Armínio, vol. 2). A Remonstrância (1610) resumiu o ensino ao afirmar que o homem não tem a fé salvadora de si mesmo e que a graça, sem a qual nada podemos, não é irresistível (arts. 3 e 4).

Em terceiro lugar, Armínio situou o arrependimento entre a lei e o evangelho. A lei convence do pecado e produz um temor que, no princípio, é “servil”, mas que, com o progresso, “se torna um temor filial, pela visão do Evangelho” (XVII, 7); e a ligação entre as duas palavras “remove toda a auto-segurança, e proíbe todo o desespero, que são as duas pragas da religião e das almas” (Disputas privadas, XLIII, 8). Recusou a satisfação diante de Deus, porque não há outra “exceto a obediência da paixão do nosso Senhor Jesus Cristo” (XVII, 11), negou que a penitência seja uma “segunda tábua depois do naufrágio” (XVII, conclusão) e, significativamente, aprovou a definição de arrependimento de Calvino (XVII, 2).

3.4 Wesley e o metodismo

Para Wesley, o arrependimento legal precede a fé: “Precisamos arrepender-nos antes de podermos crer no evangelho” (sermão O Senhor, justiça nossa, II, 11). Contudo, o arrependimento e os seus frutos não são necessários “no mesmo sentido que a fé, nem no mesmo grau”, mas apenas “condicionalmente, se houver tempo e oportunidade para eles”, como mostra o ladrão na cruz; por isso permanece “a fé como única condição imediata” da justificação (O caminho bíblico da salvação, III, 2).

Wesley insistiu, como Armínio, em que o pecador só se lança à misericórdia de Deus em Cristo pela graça: lança-se “o que ele não pode fazer senão pela graça de Deus” (sermão A justificação pela fé, IV, 5). O Wesley maduro admitiu também uma “fé de servo”, a de quem teme a Deus e pratica a justiça sem ainda ter a certeza do perdão, e passou a vê-la como fé real, aceita por Deus, embora chamada a crescer até a “fé de filho” (sermão Sobre a fé, 1788). Randy Maddox mostra que, nessa fase, Wesley via o arrependimento e a fé “respondendo um ao outro” por toda a vida cristã: no arrependimento reconhecemos que sem a graça nada podemos, e na fé recebemos o perdão e a força de Deus (Responsible Grace, cap. 7; sermão 14, O arrependimento dos crentes).

3.5 Os sistemáticos wesleyanos e o contraste com Finney e Cheung

Richard Watson tratou o arrependimento e a fé como mandamentos e, ao mesmo tempo, frutos do Espírito (Theological Institutes, parte II). William Burt Pope tratou a vocação, o arrependimento e a fé como a obra preparatória do Espírito, que conduz o pecador à justificação (Compendium, vol. 2). H. Orton Wiley insistiu em que a capacidade de arrepender-se e crer é uma “capacidade graciosa”, dada pela graça preveniente, e não uma capacidade natural que sobrou da queda (Christian Theology, vol. 2).

A expressão de Wiley marca a distância em relação a Charles Finney, lido neste curso apenas como contraste. Finney definiu o arrependimento evangélico como “um fenômeno da vontade” que “consiste na mudança da intenção última do egoísmo para a benevolência” (Teologia sistemática), e supôs no pecador capacidade natural para essa mudança. No extremo oposto, Vincent Cheung, também lido apenas como contraste, define a fé como “assentimento voluntário a proposições compreendidas” e rejeita a confiança como elemento distinto (Teologia sistemática). Contra Finney, a vontade caída não se converte por força própria; contra Cheung, a fé salvadora é confiança pessoal em Cristo.

3.6 O Brasil

O Esboço de teologia sistemática do batista A. B. Langston analisa o arrependimento como mudança que “envolve a pessoa toda”, no pensamento, nos sentimentos e na vontade. Entre os pentecostais, Walter Brunelli adverte contra a “conversão sem arrependimento”, observando que o tempo entre a pregação e o convite “é, geralmente, muito curto”, e pede que o recém-convertido seja acompanhado até o arrependimento e o discipulado (Teologia para pentecostais, vol. 3). A advertência é justa. Quando, porém, Brunelli escreve que a fé “é um elemento exclusivamente humano”, é preciso acrescentar o que a tradição arminiana sempre disse: é a pessoa que crê, mas só crê porque a graça a libertou para crer. O site já tratou da conversão em Conversão e João 3:16.

4. A posição arminiana clássica e wesleyana

4.1 Definições

Em suma, cremos que a vocação é o ato misericordioso de Deus pelo qual o Pai, no Filho e pelo Espírito, chama os pecadores, por meio da Palavra e da ação interior do Espírito, ao arrependimento, à fé e à comunhão com Cristo. Ela é universal na intenção, séria em todos os que a recebem, acompanhada da graça suficiente para responder e resistível. O arrependimento é a volta da pessoa inteira, pela graça convencedora, do pecado para Deus: no entendimento, que reconhece o pecado; nos afetos, que se entristecem segundo Deus; e na vontade, que o abandona. A fé é a confiança, gerada pelo Espírito por meio do evangelho, pela qual o pecador penitente recebe Cristo como o seu Salvador e descansa somente nele.

4.2 A ordem do caminho

A ordem que a tradição wesleyana descreve é lógica antes de ser cronológica. A graça preveniente vem antes de tudo e liberta a vontade (lição 36); o chamado do evangelho, acompanhado da ação do Espírito, desperta o pecador; a graça convencedora produz o arrependimento legal, a convicção do pecado e da incapacidade; a fé recebe Cristo; e no mesmo instante Deus justifica e regenera (lições 39 e 40). Depois, o arrependimento evangélico e a fé que opera pelo amor acompanham o crente em toda a santificação. Na experiência, tudo pode caber numa só hora, como na casa do carcereiro de Filipos (Atos 16:31).

Na tradição reformada, a regeneração precede a fé, e o arrependimento nasce da fé; aqui, a graça preveniente precede a fé sem ser ainda a regeneração, e o arrependimento legal prepara a fé sem ser mérito nem condição imediata da justificação. Nas duas tradições, porém, Deus vem primeiro, e o pecador não pode se arrepender nem crer sem a graça.

4.3 Por que a fé não é mérito

A objeção mais frequente afirma que, se a fé é condição, ela se torna uma obra que o homem oferece a Deus. Jesus respondeu de antemão: “Esta é a obra de Deus: que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29). A fé não é uma obra que se apresenta como título, mas a renúncia a todo título, porque Paulo a opõe ao que “trabalha” (Romanos 4:4-5). Acusado de ensinar que a fé depende em parte da graça e em parte do livre-arbítrio, Armínio respondeu com a imagem do rico que dá esmola a um mendigo faminto: o presente não deixa de ser puro “porque o mendigo estende a mão para recebê-lo”, e “muito menos” se pode dizer isso da fé, “para cujo recebimento são necessários mais atos da graça divina” (Apologia, art. XXVII, em As obras de Armínio, vol. 1). Como mostrou a lição 36, o único ato que o homem pode chamar de inteiramente seu, nesse processo, é a resistência.

4.4 As tradições em comparação

TradiçãoVocaçãoArrependimentoFé
Católica (Trento)Graça preveniente que dispõe à justificaçãoSacramento com contrição, confissão e satisfaçãoPrimeira disposição, completada pela esperança e pelo amor
Luterana (Augsburgo)Eficaz pela Palavra e pelos sacramentos, resistívelContrição e féConfiança na promessa, dom do Espírito
Reformada (Dort, Westminster)Externa a todos, eficaz e irresistível nos eleitosNasce da fé, depois da regeneraçãoDom dado aos eleitos na vocação eficaz
Arminiana wesleyanaSéria e suficiente para todos, resistívelLegal antes da fé, evangélico por toda a vidaConfiança gerada pelo Espírito, condição sem mérito

A divergência fica marcada como divergência: com os reformados, partilhamos que o arrependimento e a fé são dons que o homem natural não produz, e divergimos quanto ao modo da graça e à seriedade do chamado aos que o recusam; com os católicos, os frutos do arrependimento, e divergimos da satisfação humana.

4.5 Objeções e respostas

A primeira objeção pergunta se um chamado sério e recusado não frustra a Deus. O Senhor mesmo diz: “Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e hostil” (Romanos 10:21). Deus não é derrotado pela recusa, porque ele mesmo quis criar pessoas capazes de amá-lo livremente, e a recusa, diz Armínio, é um resultado “acidental”.

A segunda objeção afirma que pôr o arrependimento antes da fé conduz ao legalismo, como se o pecador precisasse se preparar para merecer a graça. Wesley respondeu com a distinção entre condição remota e condição imediata: ninguém é justificado por se arrepender, e quem crê é justificado no mesmo instante, “com ou sem aqueles frutos”.

A terceira objeção pergunta como alguém pode saber se o seu arrependimento é suficiente. Armínio respondeu com uma ternura pastoral rara: se o penitente tem consciência da sinceridade do seu arrependimento, “não existe a necessidade de que esse homem examine, com ansiedade, se ela é tão grande […] quanto o rigor da justiça poderia exigir” (Disputas públicas, XVII, 9). Wesley anotou no diário, em 1739, que, se o arrependimento fosse falso toda vez que o pecador recai antes de crer, ele mesmo teria sido hipócrita por quase vinte anos. A certeza não vem da medida das nossas lágrimas, mas de Cristo, recebido pela fé.

5. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, a doutrina corrige a nossa pregação: se o chamado é sério e dirigido a todos, podemos dizer a qualquer pessoa, no bairro, no presídio ou na aldeia, que Deus a chama; mas não podemos reduzi-lo a um pedido de que alguém “aceite Jesus” sem falar de pecado, de arrependimento e de entrega a Cristo. Em segundo lugar, ela orienta o cuidado pastoral, porque o apelo pode ser o começo de uma conversão, e a igreja precisa acompanhar quem levantou a mão até que o arrependimento e a fé deem fruto. Em terceiro lugar, ela nos livra das “duas pragas” de que falava Armínio, a falsa segurança de quem diz crer sem se arrepender e o desespero de quem se arrepende sem ousar crer. Por fim, ela nos lembra que o arrependimento não fica para trás, porque cada dia é tempo de ouvir a voz que diz “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hebreus 3:15), e de voltar.

Voltemos ao menino do campinho. A voz que o chamou da janela era sincera, e não o obrigava; mas foi ela que o lembrou de casa, e sem ela ele teria continuado no jogo até a noite. Assim é a vocação de Deus: o Espírito nos alcança antes que pensemos em voltar, convence-nos do que estamos perdendo e nos dá forças para largar o que segurávamos e tomar o caminho de casa. E isso vale para todos nós, porque o Pai não espera à janela: desce até o portão e vem correndo ao nosso encontro. Senhor, que nos chamas pelo evangelho e não tens prazer na morte de ninguém, dá-nos ouvidos para escutar a tua voz, arrependimento para deixar o pecado e fé para receber o teu Filho, e guarda-nos na tua casa até o dia em que te veremos face a face.

Síntese

  1. A vocação é o chamado de Deus, pela Palavra e pelo Espírito, dirigido com seriedade a todos, acompanhado da graça suficiente e resistível (Ezequiel 33:11; Atos 7:51).
  2. O arrependimento é a volta da pessoa inteira do pecado para Deus, no entendimento, nos afetos e na vontade; é ao mesmo tempo dom da graça e mandamento dirigido a todos (Atos 11:18; 17:30).
  3. A fé é a confiança, gerada pelo Espírito por meio do evangelho, pela qual o pecador recebe Cristo; é condição da salvação, e não mérito, como a mão do mendigo que recebe a esmola (Romanos 4:4-5, 16).
  4. Na tradição wesleyana, o arrependimento legal prepara a fé, a fé é a única condição imediata da justificação, e o arrependimento evangélico acompanha o crente por toda a vida.
  5. A diferença com a tradição reformada está no modo da graça; nas duas, ninguém se arrepende nem crê sem a graça que vem antes.

Questões para revisão

  1. Qual é a diferença entre vocação externa e vocação interna, e por que Armínio as considera partes de um só ato?
  2. Que sentidos têm šûb, metanoia, metamelomai e epistrephō, e o que o caso de Judas ensina sobre a diferença entre remorso e arrependimento?
  3. Em que sentido o arrependimento é dom e, ao mesmo tempo, mandamento?
  4. Quais são os elementos da fé segundo a teologia protestante, e por que a tradição arminiana rejeita a redução da fé ao assentimento?
  5. O que Wesley quer dizer com arrependimento legal e arrependimento evangélico, e por que o primeiro não é condição imediata da justificação?
  6. Como Armínio responde à acusação de que a fé depende em parte da graça e em parte do livre-arbítrio?

Bibliografia

  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Disputas públicas XVI e XVII; Disputas privadas XLII a XLIV; Apologia contra os 31 artigos; Certos artigos que devem ser diligentemente examinados e ponderados).
  • A Remonstrância (1610). Tradução e notas. Diário do Diego, 2026.
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel.
  • CALVINO, João. As institutas da religião cristã (1559), III, 2-3.
  • Cânones de Dort (1619); Catecismo de Heidelberg (1563); Confissão de Augsburgo (1530); Confissão de fé de Westminster (1647), caps. X, XIV e XV.
  • Concílio de Trento. Sessões VI (1547) e XIV (1551).
  • Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova (arts. “Chamar”, de Lothar Coenen; “Conversão”, de F. Laubach e J. Goetzmann; “Fé”, de Otto Michel).
  • HERNÁNDEZ, Abner F. The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius. Tese de doutorado. Berrien Springs: Andrews University, 2017.
  • LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP.
  • MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
  • POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Vol. 2. Londres, 1880.
  • WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
  • WESLEY, John. Sermões A justificação pela fé, O arrependimento dos crentes, O Senhor, justiça nossa, O caminho bíblico da salvação e Sobre a fé; Notas explicativas sobre o Novo Testamento; Diário. Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. Vol. 2. Kansas City: Beacon Hill, 1941.
  • Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática. Anterior: Lição 37: A eleição condicional em Cristo. Próxima: Lição 39: A justificação pela fé.

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