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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana21 de 30

Lição 21: Providência, liberdade e o problema do mal

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 2

Diego Gonçalves23 min de leitura4.586 palavras

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Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.

Objetivos da lição

  • Definir mal moral e mal natural, permissão divina e teodiceia.
  • Reunir o testemunho bíblico de que Deus não é autor do mal, mas o governa, limita e dirige para os seus fins.
  • Acompanhar as principais respostas cristãs ao problema do mal, de Agostinho a Armínio e Wesley.
  • Expor a posição arminiana clássica diante do determinismo, do deísmo e das teologias que limitam Deus, e tirar dela as consequências pastorais.

Introdução

Em muitos velórios do interior, alguém se aproxima da mãe que acabou de perder o filho pequeno e, com a melhor das intenções, diz que “Deus precisava de mais um anjinho no céu”. A frase quer consolar e acaba ferindo duas vezes: atribui a Deus a morte da criança, como se ele a tivesse tirado por alguma necessidade sua, e ensina uma teologia que a Escritura não ensina. Confesso que já ouvi frases semelhantes saírem da minha própria boca; diante da dor, todos sentimos a urgência de explicar o que não compreendemos, e a pressa de explicar é, muitas vezes, o caminho mais curto para dizer coisas falsas sobre Deus.

O problema é antigo. Lactâncio atribuiu a Epicuro o dilema que ainda hoje se repete: ou Deus quer tirar os males e não pode, ou pode e não quer, ou nem quer nem pode, ou quer e pode; e, neste último caso, de onde vêm os males? (A ira de Deus, 13). Armínio abriu um dos seus debates acadêmicos com a mesma inquietação: muitos preferiram imaginar um Deus “em repouso e negligente quanto aos assuntos terrenos” a privá-lo da honra da sua bondade, sabedoria e poder; mas é possível, respondeu, preservar para Deus “esses três ornamentos da Majestade Suprema, bem como a sua Providência” (Disputas públicas, IX, 1, em As obras de Armínio, vol. 1).

A lição anterior definiu a providência como conservação, concurso e governo e deixou para aqui a pergunta inevitável: se Deus governa tudo, como governa o pecado e o sofrimento sem ser o autor deles? Os anjos caídos ficam para a lição 22, a origem do pecado humano para as lições 25 e 26, a vontade libertada pela graça para a lição 27 e a vitória final sobre a morte para a lição 49.

1. Os termos e as distinções

1.1 O mal e as suas espécies

O hebraico raʿ designa tanto a maldade moral quanto a desgraça e o dano. A Septuaginta o traduz por kakos e ponēros, e o Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento observa que kakos é, primariamente, “o mal que objetivamente lesa a existência da pessoa”, enquanto o Novo Testamento prefere ponēros e hamartia para o mal moral; registra também que nele nunca se encontra um dualismo “no qual o mal tem o mesmo poder que o bem” (art. “Mal”). Daí a distinção entre o mal moral, que é o pecado das criaturas racionais, e o mal natural, o sofrimento produzido por causas não pessoais, como a doença, a seca e a enchente.

Agostinho ensinou que o mal não tem substância própria: é privação do bem (privatio boni), como a doença é falta de saúde (Enquirídio, 11). A fórmula não diminui a gravidade do mal, mas exclui um segundo princípio eterno, rival de Deus, como queriam os maniqueus. Armínio foi mais longe: falando com rigor, “o pecado é o único mal”, porque as outras coisas a que damos esse nome são apenas “ofensivas a alguém”; e no pecado se distinguem o ato, que como ato pertence ao bem natural, e a anomia, “a transgressão da lei” (1 João 3:4), que lhe dá a forma de mal (Disputas públicas, IX, 2-3). Deus sustenta a criatura e o seu poder de agir; a transgressão é obra da criatura.

1.2 A permissão divina

O latim permissio nomeia o ato de deixar acontecer o que se poderia impedir. No Exame do panfleto de Perkins (1602), Armínio definiu:

A permissão divina é um ato da vontade divina, pelo qual Deus suspende qualquer eficiência que lhe seja possível, seja por direito, ou por poder, ou dos dois modos; eficiência que, usada por Deus, restringiria ou impediria um ato de uma criatura racional, ato esse para cuja realização a mesma criatura tem uma inclinação e suficiente força.

Armínio, Exame do panfleto de Perkins, “Debate sobre o tema da permissão”

A permissão é, portanto, ato da vontade, e não da ignorância nem da impotência: só permite quem sabe o que permite, pode impedir e tem autoridade para isso. Ela pressupõe na criatura a inclinação para agir, de modo que Deus não infunde a inclinação ao mal, mas deixa de impedir o ato a que a criatura já se inclina; e, como a vontade divina é orientada pela sabedoria, a permissão é sempre instituída “para o melhor fim”. Armínio insistia que Deus permite “não na ignorância”, “não com relutância”, “não como sendo incapaz de impedir” e “não como se estivesse tranquilo, indiferente ou negligente”; a vontade de Deus se ocupa da permissão, e a permissão se ocupa do pecado, “e essa ordem não pode ser invertida, sem grande perigo” (Disputas públicas, IX, 11). Ou seja, Deus quer permitir; não quer o pecado que permite.

1.3 Os atos da providência diante do mal

No mesmo debate, Armínio descreveu a ação de Deus no início, no progresso e no fim do pecado (Disputas públicas, IX, 6-21). Wiley conservaria o esquema ao falar de uma providência preventiva, permissiva, diretiva e determinativa (Christian Theology, vol. 1).

  1. ImpedimentoDeus põe obstáculo ao poder, à capacidade ou à vontade da criatura
  2. PermissãoDeus suspende os obstáculos e não impede o ato a que a criatura se inclina
  3. DireçãoDeus encaminha o mal permitido para um fim que o pecador não pretendia
  4. DeterminaçãoDeus limita o tempo e a medida do mal
  5. Punição e perdãoDeus julga o pecado cometido ou o perdoa em Cristo
Os atos da providência diante do pecado, segundo Armínio Disputas públicas, IX

1.4 Teodiceia e defesa

Teodiceia, termo cunhado por Leibniz nos Ensaios de teodiceia (1710), de theos, “Deus”, e dikē, “justiça”, é a tentativa de mostrar que o mal é compatível com a bondade e o poder de Deus (McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica). O filósofo reformado Alvin Plantinga distinguiu dela a defesa, que se contenta em mostrar que não há contradição lógica entre Deus e o mal (Deus, a liberdade e o mal). A distinção convém a uma teologia modesta: “As coisas secretas pertencem ao SENHOR nosso Deus: mas as reveladas são para nós” (Deuteronômio 29:29). Não nos cabe explicar cada dor, mas afirmar o que Deus revelou de si diante dela.

2. A fundamentação bíblica

2.1 O Deus santo não é autor do mal

A Escritura nunca põe em Deus a raiz do mal. “Teus olhos são puros demais para veres o mal” (Habacuque 1:13); Deus não tem “prazer na morte do perverso” (Ezequiel 33:11); e, no meio das ruínas de Jerusalém, o poeta confessa que “não é sua vontade afligir nem entristecer os filhos dos homens” (Lamentações 3:33). O texto mais direto é de Tiago:

Ninguém, quando for tentado, diga: “Sou tentado por Deus”; porque Deus não é tentado pelo mal, e ele mesmo tenta ninguém; Mas cada um é tentado quando é atraído e seduzido pelo seu próprio mau desejo. Depois do mau desejo ter concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, quando é completado, gera a morte.

Tiago 1:13-15

A genealogia do pecado está dentro da criatura; do “Pai das luzes” procede “toda boa dádiva” (1:17), e não a tentação.

2.2 O Deus soberano governa o mal sem o aprovar

A mesma Escritura afirma que nenhum mal escapa ao governo de Deus. O caso exemplar é José, que o site já estudou em José do Egito: a providência de Deus em Gênesis 37-50:

E respondeu-lhes José: Não temais: estou eu em lugar de Deus? Vós pensastes mal sobre mim, mas Deus o encaminhou para o bem, para fazer o que vemos hoje, para manter em vida muito povo.

Gênesis 50:19-20

Há duas intenções no mesmo acontecimento: a dos irmãos, que era má e continua má, e a de Deus, que encaminhou o fato “para o bem”. Armínio leu a passagem como exemplo da direção do pecado para um fim que o pecador não pretendia (Disputas públicas, IX, 17). O prólogo de Jó mostra a determinação: Satanás age dentro de limites que não escolheu, “somente não estendas tua mão contra ele” (Jó 1:12). A cruz reúne tudo no grau máximo: Jesus foi “entregue pelo determinado conselho e conhecimento prévio de Deus” e crucificado “pelas mãos de injustos” (Atos 2:23).

Costuma-se citar Isaías 45:7 para fazer de Deus autor do mal moral: “eu faço a paz, e crio a adversidade”. A palavra é raʿ, e o paralelismo com šālôm mostra que se trata da calamidade histórica, do juízo que Deus traz sobre as nações por meio de Ciro, e não da maldade moral; é o uso de Jó: “Receberíamos o bem de Deus, e o mal não receberíamos?” (Jó 2:10). Deus pode enviar o juízo; não peca nem faz pecar.

2.3 Nem todo sofrimento é castigo pessoal

Os amigos de Jó procuraram durante trinta capítulos o pecado que explicaria a sua dor, e o livro termina com Deus dizendo que não falaram dele “o que era correto” (Jó 42:7). Jesus recusou a mesma suposição:

Vós pensais que estes galileus foram mais pecadores, por terem sofrido estas coisas? Não, eu vos digo; antes, se vós não vos arrependerdes, todos de modo semelhante perecereis. Ou aqueles dezoito, sobre os quais a torre em Siloé caiu, matando-os; pensais que eram mais culpados dos que todos as pessoas que moravam em Jerusalém?

Lucas 13:2-4

Um mal moral (a crueldade de Pilatos) e um mal acidental (a queda da torre) recebem a mesma resposta, e, diante do cego de nascença, Jesus diz que “nem este pecou, nem seus pais” (João 9:3). Todo sofrimento pertence a um mundo caído, e cada tragédia chama todos ao arrependimento; mas não temos o direito de ler na desgraça de alguém o veredito de Deus sobre essa pessoa, porque “o tempo e a ocasião imprevista acontece a todos” (Eclesiastes 9:11).

2.4 A criação que geme e o lamento

O mal natural se liga à queda por solidariedade cósmica, e não por culpa individual. A terra foi amaldiçoada “por causa de ti” (Gênesis 3:17), e “a criação ficou sujeita à futilidade (não por vontade própria, mas sim por causa daquele que a sujeitou), na esperança de que também a mesma criação seja liberta da escravidão da degradação”; ela “geme e sofre dores como as de parto até agora” (Romanos 8:20-22). O gemido é de parto. É nesse quadro que “todas as coisas juntamente contribuem para o bem daqueles que amam a Deus” (8:28): o versículo não diz que todas as coisas são boas, mas que Deus as faz servir ao bem de sermos “conformes à imagem de seu Filho” (8:29).

A Escritura ensina também a queixa dirigida a Deus: “Até quando, SENHOR, te esquecerás de mim?” (Salmo 13:1), oração que termina em “eu confio em tua bondade” (13:5). Jó nunca recebeu a explicação que pedia; recebeu a presença de Deus e confessou: “falei do que não entendia” (Jó 42:3). E, diante do túmulo de Lázaro, “Jesus chorou” (João 11:35).

3. Desenvolvimento histórico

3.1 Dos Pais à Reforma

Ireneu via a humanidade criada como uma criança destinada a amadurecer, e o encontro com o mal como parte desse crescimento (Contra as heresias, IV, 38); John Hick desenvolveu a ideia no século XX, e McGrath registra a objeção principal: ela dá ao mal certa dignidade e não explica os horrores que aniquilam quem os sofre (Teologia sistemática, histórica e filosófica, “Teodiceias”). Agostinho deu ao Ocidente a resposta mais influente: Deus criou um mundo bom, e o mal entrou pelo mau uso da liberdade dos anjos e do ser humano. O Manual de teologia arminiana lembra que O livre-arbítrio (395) é uma teodiceia escrita para provar que Deus não é autor do mal, e que essa é a motivação dos arminianos: “preservar o caráter Santo de Deus” (Flávyo Henrique Costa Santos, cap. 1). No Enquirídio, Agostinho escreveu que Deus “julgou melhor tirar o bem dos males do que não permitir mal algum” (27), frase que Tomás de Aquino retomou (Suma teológica, I, q. 2, a. 3, ad 1).

Lutero falou do “Deus oculto” (Deus absconditus), cujos juízos não esquadrinhamos (Da vontade cativa, 1525), e da teologia da cruz, que conhece Deus pelo sofrimento de Cristo (Disputa de Heidelberg, 1518, teses 19-20). Calvino desconfiou da linguagem da permissão (Institutas, I, 18, 1) e perguntou: “por que diremos permissão, senão porque ele assim o quer?” (III, 23, 8); não obstante, negou que Deus seja autor do pecado. A Confissão de Westminster estendeu a providência a todos os pecados, “não por uma mera permissão”, e afirmou que a pecaminosidade “procede só da criatura, e não de Deus” (V, 4).

3.2 Armínio

Na Conferência amigável com Francisco Júnio (1597), Armínio observou que “o próprio Calvino, e também Beza, negam, abertamente, que Deus é o autor do pecado”, mas “não mostram como essas duas coisas podem ser conciliadas” (As obras de Armínio, vol. 3). O debate Sobre a justiça e a eficácia da providência de Deus a respeito do mal é a sua tentativa de mostrá-lo. Como cabe a uma pessoa de bem impedir um mal “na medida em que essa pessoa saiba que é lícito fazê-lo”, Armínio começa pelos modos com que Deus impede o pecado: a lei, a retirada da capacidade, a oposição de um poder maior e os argumentos que persuadem a vontade. A permissão tem fundamento duplo: a liberdade com que Deus formou a criatura racional, que a sua constância não permite abolir, “para que Ele não seja acusado de mutabilidade”, e a sabedoria e o poder pelos quais Deus “sabe e pode trazer a luz das trevas e produzir o bem do mal” (IX, 11).

O Deus de Armínio não é espectador. Ele dirige o pecado para fins que o pecador não pretendia, como a Assíria, que foi “uma serra nas mãos do Criador” (Isaías 10:15); marca a hora do mal, porque contra Jesus “ninguém lançou mão dele, porque ainda não era chegada a sua hora” (João 7:30); limita a sua medida; e, no fim, pune ou perdoa (IX, 16-21). Tudo isso sem infundir a inclinação ao mal nem predeterminar a vontade, porque o concurso divino com o querer é simultâneo, como vimos na lição 20.

3.3 Leibniz, Lisboa e Wesley

Leibniz sustentou que Deus escolheu criar o melhor dos mundos possíveis, e que os males são o preço de um conjunto melhor. Em 1º de novembro de 1755, o terremoto de Lisboa matou dezenas de milhares de pessoas, muitas reunidas nas igrejas para a missa de Todos os Santos, e Voltaire fez do otimismo de Leibniz caricatura no Cândido (1759). Wesley respondeu ao terremoto com um chamado ao arrependimento, como vimos na lição anterior, e Randy Maddox mostra que o seu pensamento amadureceu: o jovem Wesley chegou a atribuir catástrofes diretamente a Deus; o Wesley maduro preferiu falar de males que Deus “permite”, desconfiou de ligar sofrimentos determinados a pecados determinados e percebeu que uma explicação apenas penal do sofrimento carece de dimensão redentora (Responsible Grace, cap. 2). “Não podemos atribuir demais à providência divina”, escreveu, “a menos que a façamos interferir na nossa liberdade de agir” (Carta à senhora Barton, 1778); e a única coisa que não podemos atribuir à providência é o nosso pecado (sermão 37, A natureza do entusiasmo, 27).

Sem liberdade, diz o sermão Sobre a divina providência (1786), o ser humano seria tão incapaz de virtude quanto as pedras, e Deus não pode “contradizer-se a si mesmo” nem “desfazer o que fez” (sermão 67, 15). No sermão 59, O amor de Deus ao homem caído (1782), Wesley pergunta por que Deus permitiu a queda e responde com Romanos 5:15: em Cristo, a humanidade ganhou a possibilidade de mais santidade e felicidade do que teria sem ela, e as próprias aflições se tornaram ocasião para a paciência, a mansidão e a misericórdia. Maddox adverte que Wesley não fez da queda objeto da vontade ativa de Deus; o seu ponto é que a graça fará da criação redimida algo mais glorioso do que a primeira. Mais do que explicar o mal, Wesley anuncia a vitória sobre ele: essas coisas são apenas “permitidas por um tempo pelo grande Governador do mundo, para que ele tire um bem imenso e eterno deste mal temporário” (sermão 63, A expansão geral do evangelho, 27).

3.4 A teologia wesleyano-arminiana e o Brasil

Watson, Pope e Wiley conservaram esse equilíbrio entre o governo universal de Deus e a responsabilidade da criatura (Theological Institutes; A Compendium of Christian Theology; Christian Theology). No século XIX, o matemático Albert Taylor Bledsoe escreveu numa Teodiceia (1853) que “uma santidade necessária é uma contradição em termos”; o site registrou os méritos e os limites da obra em Albert Taylor Bledsoe: o matemático que escreveu uma teodiceia contra Jonathan Edwards.

No Brasil, A. B. Langston, ao perguntar como Deus permitiu que Satanás tentasse o ser humano, respondeu que “até nesta permissão vemos uma providência de Deus”, em que se manifesta a misericórdia divina (Esboço de teologia sistemática, 5.3.2). Walter Brunelli admite “uma névoa à nossa frente” que não nos deixa ver todas as implicações da relação entre Deus e o surgimento do pecado (Teologia para pentecostais, vol. 3). Na piedade popular, porém, convivem duas distorções opostas: o fatalismo do “Deus quis assim” e a teologia da prosperidade, que vê no sofrimento do crente sinal de falta de fé.

4. A posição arminiana clássica e wesleyana

4.1 Afirmações

Em suma, cremos, em primeiro lugar, que Deus é perfeitamente santo, bom, sábio e todo-poderoso, e que não é autor do pecado nem o quer. Em segundo lugar, que o mal moral entrou no mundo pela livre transgressão de anjos e de seres humanos, e que o mal natural pertence a uma criação sujeita à futilidade por causa da queda, mas na esperança da redenção. Em terceiro lugar, que nada acontece fora do conhecimento e do governo de Deus: ele impede muitos males, permite outros com vontade sábia e santa, dirige-os para os seus fins, limita-os e, no fim, os julga ou os perdoa em Cristo. Em quarto lugar, que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, sem torná-las necessárias. Por fim, que a resposta definitiva de Deus ao mal é a cruz, a ressurreição e a nova criação.

4.2 Respostas que a fé não pode aceitar

O dilema de Epicuro tem saídas fáceis, e todas custam caro. Negar o mal, como o panteísmo; Brunelli, citando Geisler, observa que o ateísmo afirma o mal e nega Deus, o panteísmo afirma Deus e nega o mal, e só o teísmo afirma os dois. Negar a providência, como Epicuro e o deísmo. Limitar Deus, como a teologia do processo, que lhe deixa apenas o poder de persuadir, e o teísmo aberto, que lhe nega o conhecimento do futuro livre, posições que este curso rejeita (ver a lição 17).

A quarta saída é fazer de Deus a causa de tudo. Vincent Cheung, lido aqui apenas como contraste, afirma que Deus é “a causa definitiva e imediata de todas as ‘moções’ ou eventos, sejam físicos ou mentais” (Teologia sistemática, seção sobre a eleição); se é assim, Deus causa também cada pecado, e a distinção bíblica entre querer e permitir desaparece. Charles Finney, também só como contraste, reconhece que Deus é sincero ao proibir o pecado, mas o explica por um cálculo de governo: Deus o toleraria como mal menor do que as mudanças necessárias para evitá-lo (Teologia sistemática, aula 33). A explicação combina com o seu governo moral por motivações e com a sua doutrina enfraquecida do pecado, mas reduz a providência a uma administração.

4.3 Liberdade e graça

A tradição arminiana se reconhece no argumento de que o amor exige liberdade, e que um mundo de criaturas capazes de amar a Deus é também um mundo em que o pecado é possível. Três cautelas impedem que ele vire caricatura. Em primeiro lugar, a liberdade é dom, e não autonomia: a criatura só age porque Deus a conserva. Em segundo lugar, depois da queda a vontade, por si, está livre apenas para o mal; Armínio a dizia “aprisionada, destruída e perdida” para o verdadeiro bem (Disputas públicas, XI), e só a graça preveniente a liberta para crer (ver o estudo completo sobre a graça preveniente em Armínio). A teodiceia arminiana, portanto, não é um elogio do livre-arbítrio, mas do amor de Deus, que quer ser amado livremente e torna possível, pela graça, a resposta que o pecado tinha tornado impossível. Em terceiro lugar, o argumento explica melhor o mal moral do que o natural; para este, a Escritura nos dá a solidariedade da criação com a queda, a ação de poderes espirituais limitados por Deus e a promessa da libertação.

4.4 As outras tradições

A tradição reformada concorda conosco em que Deus governa tudo, nada acontece por acaso e Deus não é autor do pecado; diverge no modo, porque para Westminster o decreto torna certo o que acontece, e para Armínio a permissão deixa à criatura a determinação do seu querer. A teologia luterana da cruz nos lembra que Deus se revela no sofrimento de Cristo antes que nas nossas explicações. A tradição católica afirma a providência e a permissão do mal e responde a ele com o conjunto da fé (Catecismo da Igreja Católica, §§ 309-314). As igrejas pentecostais insistem na batalha espiritual, e com razão: “Para isto o Filho de Deus se manifestou, para desfazer as obras do diabo” (1 João 3:8); o prólogo de Jó impede, porém, tanto atribuir todo mal a Deus quanto supor que o diabo age sem limite. A divergência mais séria é com a teologia da prosperidade, contra o testemunho de Jó, dos profetas, dos apóstolos e do próprio Cristo.

4.5 A cruz e a nova criação

A teologia cristã não tem uma explicação completa do mal, mas tem um acontecimento. Na cruz, o maior mal da história foi obra “de injustos” e cumprimento do “determinado conselho” de Deus (Atos 2:23), e por meio dele Deus realizou a redenção do mundo; o que Gênesis 50:20 diz em pequena escala, a cruz diz em escala universal. Ali Deus não contemplou a dor de longe: o Filho participou “do sangue e da carne”, para “pela morte aniquilar ao que tinha o poder da morte, isto é, o diabo” (Hebreus 2:14). E a promessa é que “Deus limpará toda lágrima dos olhos deles; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem mais haverá dor” (Apocalipse 21:4). Neste sentido, discordamos de Leibniz: este não é o melhor dos mundos possíveis, mas um mundo bom, caído e amado, que Deus não abandonou e que fará novo.

5. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, a doutrina corrige a nossa linguagem pastoral. Não precisamos dizer “Deus quis assim”, nem procurar o pecado que explicaria a tragédia; a Escritura manda “chorar com os que choram” (Romanos 12:15), e a presença silenciosa consola mais do que qualquer teodiceia. Em segundo lugar, a doutrina legitima o lamento: a oração que pergunta “até quando?” não é falta de fé, mas fé que ainda fala com Deus.

Em terceiro lugar, a permissão divina não desculpa a nossa omissão. Se cabe a uma pessoa de bem impedir o mal quando pode, cabe-nos resistir a ele. O rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, e as enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, mostraram que muitas tragédias chamadas “naturais” carregam também a marca da negligência humana, e que o amor ao próximo se faz em socorro, denúncia e reconstrução: “vence o mal com o bem” (Romanos 12:21). Por fim, a doutrina sustenta a confiança: “Aquele que nem mesmo ao seu próprio Filho poupou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32).

Voltemos à mãe do velório. Ela não precisa ouvir que Deus levou o seu filho porque precisava de mais um anjo. Precisa ouvir que a morte é “o último inimigo” (1 Coríntios 15:26), que a sua dor não está fora das mãos do Pai e que o Deus que ressuscitou Jesus enxugará dos olhos dela toda lágrima. Senhor, ensina-nos a calar quando não sabemos, a chorar com os que choram e a resistir ao mal com o bem, até o dia em que farás novas todas as coisas.

Síntese

  1. O mal moral é o pecado das criaturas racionais, e o mal natural é o sofrimento de uma criação sujeita à futilidade por causa da queda; o mal não procede de um princípio rival de Deus.
  2. Deus não é autor do mal: ele quer permitir o pecado, mas não quer o pecado que permite, e a sua permissão é ato sábio da vontade, e não ignorância nem impotência.
  3. Diante do pecado, a providência impede, permite, dirige, limita, pune e perdoa, de modo que nenhum mal frustra os propósitos de Deus (Gênesis 50:20; Atos 2:23).
  4. Nem todo sofrimento é castigo pessoal (Lucas 13:1-5; João 9:3).
  5. Com Armínio e Wesley, rejeitamos o determinismo e as teologias que limitam Deus; a liberdade da criatura é dom e, depois da queda, só a graça a liberta para o bem.
  6. A resposta definitiva de Deus ao mal é a cruz, a ressurreição e a nova criação.

Questões para revisão

  1. Explique os termos raʿ, kakos e ponēros e a distinção entre mal moral e mal natural.
  2. Como Armínio define a permissão divina, e por que diz que a ordem entre a vontade de Deus, a permissão e o pecado não pode ser invertida?
  3. Quais são os atos da providência diante do pecado, e como Gênesis 50:20, Jó 1:12 e Atos 2:23 os ilustram?
  4. Como ler Isaías 45:7, e o que Lucas 13:1-5 ensina sobre sofrimento e culpa?
  5. Em que Calvino e Westminster divergem de Armínio quanto à permissão, e em que concordam?
  6. Qual é o argumento do sermão O amor de Deus ao homem caído, e como amadureceu o pensamento de Wesley sobre o sofrimento?
  7. Por que a teodiceia arminiana deve ser, antes de tudo, um elogio da graça?

Bibliografia

  • AGOSTINHO. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus; Enquirídio.
  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Disputas públicas IX e XI; Conferência amigável com Francisco Júnio; Exame do panfleto de Perkins).
  • BLEDSOE, Albert Taylor. A Theodicy, or Vindication of the Divine Glory. Nova York, 1853.
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel.
  • CALVINO, João. As Institutas, I, 18; III, 23.
  • Catecismo da Igreja Católica; Confissão de Fé de Westminster (1647).
  • Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova (art. “Mal”).
  • LACTÂNCIO. A ira de Deus.
  • LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP.
  • MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
  • McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
  • PLANTINGA, Alvin. Deus, a liberdade e o mal. São Paulo: Vida Nova, 2012.
  • POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres, 1880.
  • SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
  • WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
  • WESLEY, John. Sermões 37, 59, 63 e 67; Carta à senhora Barton (1778). Em: Coletânea da teologia de João Wesley e John Wesley’s Theology: A Collection from His Works.
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1940-1943.
  • Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 20: A obra de Deus: criação e providência. Próxima: Lição 22: Anjos, Satanás e demônios.

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