
TeologiaTeologia Sistemática13 de 45
Capítulo 13: A existência e o conhecimento de Deus
Teologia Sistemática, Parte 3: Deus
Neste texto
- O Estudo de Deus
- O que É Teologia Própria?
- De que Deus Estamos Falando?
- A Existência de Deus
- A Bíblia Não Tenta Provar que Deus Existe
- O Tolo e o Ateu Prático
- Por que, Então, Argumentar?
- Os Argumentos Clássicos
- O Argumento Cosmológico
- O Argumento Teleológico
- O Argumento Antropológico
- O Argumento Moral
- O Argumento Ontológico
- Outros Argumentos
- O que os Argumentos Conseguem Fazer
- Minha Própria Visão
- Os que Negam a Deus
- Ateísmo
- Agnosticismo
- Outras Visões
- O Conhecimento de Deus
- Deus Está Além do Nosso Entendimento
- Deus Se Deu a Conhecer
- Apreender sem Compreender
- Como Podemos Falar de Deus?
- A Linguagem da Semelhança
- A Linguagem Humana da Bíblia
- Saber sobre Deus e Conhecer a Deus
- Os Nomes de Deus
- O que Há num Nome?
- Elohim e El
- Adonai
- YHWH, o Nome Próprio de Deus
- SENHOR, Javé e Jeová
- Os Nomes Compostos
- O Nome de Deus no Novo Testamento
- Deus e Senhor
- Pai
- Um Só Nome
- Santificado Seja o Teu Nome
- Conclusão
- Fontes
Toda a fé cristã depende de duas perguntas. Deus existe? E, se existe, podemos conhecê-lo? A Bíblia responde sim às duas, e é por elas que começamos o estudo do próprio Deus.
O Estudo de Deus
O que É Teologia Própria?
A palavra “teologia” vem do grego theos, “Deus”, e logos, “palavra”. Teologia é falar sobre Deus. No uso comum, a palavra cobre toda a doutrina cristã. Por isso os teólogos chamam de teologia própria a parte que trata de Deus em si mesmo: a sua existência, o modo como podemos conhecê-lo, os seus nomes e os seus atributos.
Na parte anterior vimos como Deus se revela, na criação e na Escritura, e como devemos ler a Bíblia. Agora começamos a estudar o que essa revelação nos diz sobre o próprio Deus. Primeiro, perguntamos se Deus existe e se podemos conhecê-lo. Depois vêm os seus atributos, a sua relação com o mundo, a Trindade, os seus decretos, a criação e a providência e, por fim, o problema do mal.
De que Deus Estamos Falando?
A palavra “Deus” é usada de muitas maneiras. Há quem fale de Deus como uma “energia do universo”, uma “força superior” ou “o cara lá de cima”. Por isso precisamos dizer logo de início de que Deus estamos falando.
O Breve Catecismo de Westminster, usado pelos presbiterianos, pergunta “O que é Deus?” e responde: “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade” (pergunta 4).
O Deus da Bíblia é um só. Ele é pessoal, e não uma força. Ele é distinto do mundo que criou e, ao mesmo tempo, sustenta e governa esse mundo. E ele se revelou plenamente em Jesus Cristo como Pai, Filho e Espírito Santo. É desse Deus que perguntamos se existe e se podemos conhecê-lo.
A Existência de Deus
A Bíblia Não Tenta Provar que Deus Existe
A Bíblia começa com uma afirmação, e não com uma prova: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1). Os autores bíblicos nunca param para demonstrar que Deus existe. Eles supõem isso em cada página, como supomos que o chão está debaixo dos nossos pés. A carta aos Hebreus diz o que se espera de quem se aproxima de Deus:
“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus. Pois é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que ele é recompensador dos que o buscam.”
(Hebreus 11:6, Bíblia Livre)
O versículo pede duas coisas: crer que Deus existe e crer que ele é bom e se deixa encontrar. Só a primeira não basta, porque “os demônios também creem, e estremecem” (Tiago 2:19). Saber que Deus existe é o começo, e não o fim.
O Tolo e o Ateu Prático
Quando a Bíblia fala de quem nega a Deus, ela não descreve um filósofo que chegou ao ateísmo depois de muito estudo. Ela descreve alguém que vive como se não tivesse a quem prestar contas: “O tolo diz em seu coração: Não há Deus. Eles têm se pervertido, fazem obras abomináveis” (Salmos 14:1). A palavra hebraica traduzida por “tolo” é nabal, e ela fala de uma falha moral, e não de falta de inteligência.
Isso tem um nome: ateísmo prático. É o de quem diz que crê em Deus, mas decide a vida, o dinheiro e os relacionamentos como se Deus não existisse. Esse ateísmo é bem mais comum do que o outro, e pode estar sentado no banco da igreja.
Por que, Então, Argumentar?
Se a Bíblia não tenta provar que Deus existe, por que os cristãos falam de argumentos? Primeiro, porque a própria Bíblia mostra Paulo conversando com quem não cria. Em Atenas, ele partiu de um altar com a inscrição “AO DEUS DESCONHECIDO” (Atos 17:23), falou do Criador que dá a todos “vida, respiração, e todas as coisas” e citou poetas gregos (Atos 17:25-28). Segundo, porque Pedro nos manda estar “sempre preparados para responder com mansidão e respeito a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15). Os argumentos não substituem a fé, mas mostram que ela não é irracional.
Jacó Armínio, professor de teologia em Leiden, tratou do assunto num dos seus debates. Ele começou com uma afirmação que vale para todo este capítulo:
A cada tratado sobre a natureza de Deus, deve estar prefixado este principal axioma de toda religião: “Existe um Deus”. Sem isso, é vã toda investigação sobre a natureza de Deus; pois, se a natureza divina não existisse, a religião seria um mero fantasma, concebido pelo homem.
(Jacó Armínio, Debates privados, XIV.3, em As obras de Armínio, vol. 2)
Armínio acrescenta que a existência de Deus já foi mostrada a toda criatura racional, mas que pode ser confirmada por vários argumentos, e reúne dez deles. Os principais estão entre os que veremos agora.
Os Argumentos Clássicos
No capítulo sobre a revelação geral, apresentamos rapidamente as chamadas “provas” da existência de Deus. Agora vamos olhar para elas com um pouco mais de calma.
O Argumento Cosmológico
O nome vem do grego kosmos, “mundo”. O argumento parte de um fato simples: o mundo existe. Por que existe alguma coisa, em vez de nada?
Tomás de Aquino, no século 13, apresentou esse argumento de três formas (Suma teológica, I, q. 2, a. 3). Tudo o que muda é mudado por outro. Tudo o que acontece tem uma causa. E as coisas do mundo poderiam não existir, e por isso dependem de outra coisa para existir. Em cada caso, a cadeia precisa de um ponto de partida: alguém que existe por si mesmo. Armínio dizia isso em poucas palavras: “Nada existe, ou pode existir, por si mesmo” (Debates privados, XIV.5).
Uma forma bem conhecida hoje é o argumento kalam, defendido no nosso tempo pelo filósofo William Lane Craig:
- Tudo o que começa a existir tem uma causa.
- O universo começou a existir.
- Portanto, o universo tem uma causa.
A causa de que ele fala precisa estar fora do tempo, do espaço e da matéria, porque foi ela que deu origem a tudo isso.
Alguém sempre pergunta: “E quem criou Deus?” O argumento não diz que tudo tem uma causa, mas que tudo o que começa a existir tem uma causa. Deus não começou a existir. Ele é aquele de quem tudo o mais depende.
O Argumento Teleológico
O nome vem do grego telos, “finalidade”. O argumento parte da ordem que vemos no mundo. O inglês William Paley usou, em 1802, uma comparação simples. Se tropeçamos numa pedra no campo, não perguntamos quem a fez. Mas, se achamos um relógio, com engrenagens e molas que trabalham juntas para marcar as horas, concluímos que alguém o fez. O mundo se parece muito mais com o relógio do que com a pedra.
O salmista já pensava assim: “Os céus declaram a glória de Deus; e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Salmos 19:1). E Armínio dizia que “toda a ordem é de um ser”, e que a orientação das coisas para um fim é “de um ser bom e sábio” (Debates privados, XIV.10).
Depois de Darwin, muitos disseram que a natureza explica sozinha essa ordem. Os cristãos discutem entre si como Deus criou, e voltaremos a isso no capítulo sobre a criação. Mas fica a pergunta: de onde vêm as leis da natureza, e por que estão ajustadas com tanta precisão? Os físicos falam do “ajuste fino” do universo. Se algumas constantes da física fossem um pouco diferentes, não haveria estrelas, planetas nem vida.
O Argumento Antropológico
O nome vem do grego anthropos, “ser humano”. Esse argumento olha para nós mesmos. O ser humano pensa, escolhe, ama, cria arte e pergunta pelo sentido da vida. Uma força cega e impessoal poderia produzir alguém assim?
A Bíblia responde que fomos feitos à imagem de Deus (Gênesis 1:26). O salmista usa a mesma lógica: “Por acaso aquele que criou os ouvidos não ouviria? Aquele que formou os olhos não veria?” (Salmos 94:9). Se nós somos pessoas, quem nos fez não pode ser menos do que pessoa.
O Argumento Moral
Todo ser humano tem algum senso de certo e errado. As listas variam de um povo para outro, mas em toda parte se condena a traição e se admira a coragem. Paulo diz que os gentios, que não tinham a lei de Moisés, mostram “a obra da Lei escrita em seus corações”, e que a consciência ora os acusa, ora os defende (Romanos 2:14-15).
Armínio notou que a consciência alegra a pessoa quando ela faz o bem e a atormenta quando faz o mal, mesmo quando ninguém mais ficou sabendo. Isso, diz ele, indica que existe “algum juiz supremo” (Debates privados, XIV.8). No século 20, C. S. Lewis popularizou o argumento em Cristianismo puro e simples. Quando duas pessoas discutem e uma diz “isso não é justo”, as duas supõem uma regra que vale para ambas e que nenhuma delas inventou.
O Argumento Ontológico
O nome vem do grego ontos, “ser”. Esse argumento não parte do mundo, mas da própria ideia de Deus. Ele foi formulado por Anselmo de Cantuária no século 11, num livro chamado Proslógio, que é mais uma oração do que um tratado. Deus é “aquilo de que nada maior se pode pensar”. Ora, existir de fato é maior do que existir só na nossa cabeça. Logo, Deus existe de fato.
Desde o começo o argumento teve críticos. O monge Gaunilo respondeu que do mesmo modo se poderia provar a existência da ilha mais perfeita. A maioria dos teólogos, Tomás de Aquino entre eles, nunca se convenceu. Mesmo assim, o argumento ensina algo verdadeiro: se Deus existe, ele não existe por acaso nem pode deixar de existir.
Outros Argumentos
Armínio lembra ainda outros caminhos. Há o consenso dos povos: em todos os tempos e lugares encontramos alguma religião, como se Deus tivesse posto em todos uma semente de conhecimento dele. Há os milagres, as profecias cumpridas e a experiência de milhões de crentes, que encontraram em Deus perdão, paz e uma vida nova.
O que os Argumentos Conseguem Fazer
Nenhum desses argumentos é uma prova matemática. Cada um, sozinho, chega só a uma parte do quadro: uma primeira causa, um projetista inteligente, um legislador moral. Nenhum chega, por si mesmo, ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e nenhum produz a fé que salva. Essa fé é confiança no Deus que “é recompensador dos que o buscam” (Hebreus 11:6), e é obra do Espírito por meio da Palavra.
Armínio deu um exemplo de sobriedade. Depois de listar os seus argumentos, deixou em aberto se o primeiro argumento de Tomás provava de fato a existência de Deus, “devido às divergências de homens muito instruídos” (Debates privados, XIV, conclusão). Ele não precisava vencer todas as discussões para crer.
Ainda assim, os argumentos têm valor. Juntos, funcionam como testemunhas num tribunal: uma sozinha pode não convencer, mas várias contando a mesma história dão ao juiz boas razões para crer. John Wesley, que pregou a multidões de gente simples, dizia que “renunciar à razão é renunciar à religião” (carta a Thomas Rutherforth). Mas ele também sabia que conhecer a Deus é mais do que tirar uma conclusão, como veremos adiante.
Minha Própria Visão
Creio que os argumentos são úteis, mas não devem ocupar o centro. Eles podem tirar pedras do caminho e mostrar que a fé não exige desligar a cabeça. Mas o objetivo de todos eles é levar a pessoa a ouvir o que Deus disse de si mesmo e a olhar para Jesus. O site trata do assunto também em “Por que cremos em Deus?”.
Os que Negam a Deus
Ateísmo
O ateu nega que Deus exista. A palavra vem do grego: a, que nega, e theos, “Deus”. Há três tipos de ateísmo.
- O ateísmo prático, de que já falamos.
- O ateísmo teórico é o de quem afirma abertamente que Deus não existe.
- O ateísmo disfarçado é o de quem continua usando a palavra “Deus”, mas para falar de algo impessoal, como “a energia do universo”. Um Deus que não pensa, não ama e não fala está muito longe do Deus da Bíblia.
Agnosticismo
O agnóstico diz que não podemos saber se Deus existe. A palavra vem de a e gnosis, “conhecimento”, e foi criada pelo cientista inglês Thomas Huxley em 1869. Mas Deus não é um objeto de laboratório. Ele é uma pessoa que se dá a conhecer quando quer. E ele quis.
Outras Visões
O politeísmo crê em muitos deuses, como os povos vizinhos de Israel. O panteísmo diz que tudo é Deus. O deísmo aceita um Deus que criou o mundo e depois se afastou dele, como um relojoeiro que dá corda no relógio e vai embora. Voltaremos ao panteísmo e ao deísmo no capítulo sobre a transcendência e a imanência de Deus.
No Brasil, o ateísmo declarado ainda é pequeno. O desafio mais comum é uma religiosidade vaga, em que quase todos dizem crer em Deus, mas cada um o desenha do seu jeito. Paulo descreve esse perigo: os homens “trocaram a glória de Deus indestrutível por semelhança de imagem do ser humano destrutível” (Romanos 1:23). Um Deus feito à nossa imagem sempre concorda conosco. Por isso não basta perguntar se alguém crê em Deus. É preciso perguntar em que Deus ele crê.
O Conhecimento de Deus
Se Deus existe, podemos conhecê-lo? A Bíblia dá duas respostas que andam juntas. Deus é incompreensível: nenhuma mente humana consegue entendê-lo por inteiro. E Deus é cognoscível, isto é, pode ser conhecido, porque ele se deu a conhecer de verdade.
Deus Está Além do Nosso Entendimento
Zofar pergunta a Jó: “Podes tu compreender os mistérios de Deus? Chegarás tu à perfeição do Todo-Poderoso?” (Jó 11:7). O salmista diz que a grandeza do SENHOR “é incompreensível” (Salmos 145:3). E Deus mesmo fala pelo profeta:
“Pois meus pensamentos não são vossos pensamentos, nem vossos caminhos são meus caminhos, diz o SENHOR. Porque tal como os céus são mais altos que a terra, assim também meus caminhos são mais altos que vossos caminhos, e meus pensamentos mais altos que vossos pensamentos.”
(Isaías 55:8-9, Bíblia Livre)
Paulo diz que Deus “habita em luz inacessível” (1 Timóteo 6:16). E, depois de três capítulos de Romanos sobre os caminhos de Deus, ele termina em louvor: “Quão incompreensíveis são os seus juízos, e inimagináveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33).
“Compreender” vem do latim comprehendere, “abraçar por todos os lados”. Podemos entrar no mar e tocar a água, mas não podemos abraçar o oceano. Agostinho disse numa frase famosa: “Se o compreendes, não é Deus” (Sermão 117). Um Deus que coubesse inteiro na nossa cabeça seria pequeno demais para ser adorado.
Deus Se Deu a Conhecer
Mas essa não é a última palavra. “As coisas secretas pertencem ao SENHOR nosso Deus: mas as reveladas são para nós e para nossos filhos para sempre” (Deuteronômio 29:29). E Deus quer ser conhecido. Pelo profeta Jeremias, ele diz qual é o único orgulho que vale a pena:
“Mas aquele que se orgulhar, orgulhe-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço bondade, juízo, e justiça na terra; porque destas coisas eu me agrado, diz o SENHOR.”
(Jeremias 9:24, Bíblia Livre)
No Novo Testamento, esse conhecimento tem um centro: Jesus Cristo. “A Deus nunca ninguém o viu; o unigênito Deus, que está no seio do Pai, ele o declarou” (João 1:18). Quando Filipe pediu para ver o Pai, Jesus respondeu: “Quem a mim tem visto, já tem visto ao Pai” (João 14:9). E a vida eterna é isto: “que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem tens enviado” (João 17:3).
Esse conhecimento é verdadeiro, mas ainda não é completo: “agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face” (1 Coríntios 13:12). Vemos de verdade, mas ainda não com toda a clareza.
Apreender sem Compreender
Os teólogos antigos resumiram essas duas verdades numa fórmula: podemos apreender a Deus, mas não compreendê-lo. Apreender é segurar de verdade, ainda que só em parte. Compreender é abarcar por inteiro. Armínio disse que a mente humana, que é finita, “apreende a Existência Infinita e a Principal Verdade, embora seja incapaz de compreendê-las” (O objeto da teologia, em As obras de Armínio, vol. 1).
Uma criança pequena conhece o pai de verdade. Sabe o nome dele, reconhece a sua voz, confia nele e sabe que é amada. Mas não entende tudo o que o pai pensa nem tudo o que ele faz. O conhecimento dela é pequeno, mas é verdadeiro. Assim é o nosso conhecimento de Deus.
Como Podemos Falar de Deus?
Se Deus é tão maior do que nós, como as nossas palavras podem dizer algo verdadeiro sobre ele? Quando dizemos que Deus é bom, “bom” quer dizer o mesmo que quando falamos de um vizinho bom?
A Linguagem da Semelhança
Se as palavras tivessem exatamente o mesmo sentido, Deus seria apenas um ser humano maior. Se tivessem um sentido completamente diferente, não saberíamos nada dele. A Igreja sempre seguiu um caminho do meio: as palavras têm um sentido semelhante. O amor de Deus é amor de verdade, mas muito mais puro e maior do que o nosso. Os teólogos chamam isso de linguagem analógica.
Armínio explicou que, como não conhecemos a natureza de Deus em si mesma, podemos conhecê-la pela semelhança com as coisas criadas, “principalmente” pelo que existe em nós mesmos, “que somos criados à imagem dEle”, lembrando sempre que Deus excede infinitamente toda perfeição das criaturas (Debates privados, XV.2). A tradição falou de três caminhos:
- Afirmação: atribuímos a Deus o que há de bom nas criaturas, porque foi ele quem o pôs nelas. Se ele criou os ouvidos, ele ouve (Salmos 94:9).
- Negação: tiramos de Deus as limitações das criaturas. Nós temos começo e fim, mudamos e ocupamos um lugar; ele não. Daí vêm palavras como infinito, imutável e invisível.
- Eminência: afirmamos que o que há de bom nas criaturas está em Deus num grau muito mais alto. Deus é sábio, mas a sua sabedoria não tem defeito nem limite.
Esses caminhos vão nos acompanhar no próximo capítulo, sobre os atributos de Deus.
A Linguagem Humana da Bíblia
A Bíblia fala do “braço” do Senhor, dos seus “olhos” e até diz que ele “se arrependeu”. Isso se chama antropomorfismo: falar de Deus com imagens tiradas do ser humano. Deus não tem corpo, porque “Deus é Espírito” (João 4:24). Mas ele escolheu falar conosco na nossa língua. Calvino explicou isso com uma imagem bonita:
Pois quem, mesmo de pouca capacidade, não entende que Deus, por assim dizer, balbucia conosco, assim como as amas costumam falar com as criancinhas? Por isso, tais modos de falar não explicam com clareza como Deus é, mas acomodam o conhecimento dele à nossa pequena capacidade.
(João Calvino, Institutas, I.13.1, tradução nossa)
É o que os teólogos chamam de acomodação. Uma mãe que fala com o bebê não mente quando usa palavras simples. Ela diz a verdade numa medida que a criança consegue receber. O que a Bíblia diz de Deus é verdadeiro, ainda que não diga tudo.
Saber sobre Deus e Conhecer a Deus
Há uma diferença entre saber coisas sobre uma pessoa e conhecer essa pessoa. Posso saber o nome e a profissão do presidente da República sem nunca ter conversado com ele. No hebraico, o verbo “conhecer”, yada, fala de relacionamento. É o mesmo verbo usado para a intimidade do casamento: “E Adão conheceu a sua mulher Eva” (Gênesis 4:1). Por isso Oseias chama o povo: “Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR” (Oseias 6:3).
Calvino chamava de “frias e frívolas” as especulações sobre a essência de Deus que não nos levam a conhecer o seu caráter. De que adianta, perguntava ele, saber que existe um Deus com quem não temos nada a ver? (Institutas, I.2.2). Wesley disse algo parecido num sermão:
Das coisas visíveis nós inferimos a existência de um ser eterno e poderoso que é invisível. Mas, embora tivéssemos reconhecido o seu poder, ainda não tínhamos relação com Ele. Há, como sabemos, um imperador da China, a quem nós todavia não conhecemos; assim nós sabíamos que havia um rei de toda a terra embora não o conhecêssemos.
(John Wesley, sermão O pecado original, II.3, em Coletânea da teologia de João Wesley)
Esse conhecimento aparece na vida. Falando do rei Josias, que fazia justiça aos pobres, Deus pergunta: “Ele julgou a causa do aflito e do necessitado, e então esteve bem. Por acaso conhecer a mim não é isto?” (Jeremias 22:16). E João diz: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4:8). Quem conhece a Deus começa a se parecer com ele. Uma teologia que enche a cabeça e deixa o coração e as mãos do mesmo jeito ainda não chegou aonde Deus quer.
Os Nomes de Deus
O que Há num Nome?
No mundo da Bíblia, o nome expressava quem a pessoa era. Por isso Deus muda o nome de Abrão para Abraão e o de Jacó para Israel. E agir “em nome de” alguém é agir com a autoridade dele.
O fato de Deus ter um nome já diz algo importante. Uma força não tem nome. Só uma pessoa se apresenta e diz: “Eu sou”. Ao revelar o seu nome, Deus mostra que é alguém, e não alguma coisa, e que quer ser chamado e invocado.
Quando Deus proclamou o seu nome diante de Moisés, ele descreveu o seu caráter: “SENHOR, SENHOR, forte, misericordioso, e piedoso; tardio para a ira, e grande em benignidade e verdade” (Êxodo 34:6). Calvino comentou:
Ali podemos observar, primeiro, a afirmação da sua eternidade e da sua existência por si mesmo, naquele nome magnífico, repetido duas vezes; e, em segundo lugar, a celebração dos seus atributos, que nos dá uma descrição, não do que ele é em si mesmo, mas do que ele é para nós, para que o nosso conhecimento dele consista mais numa percepção viva do que numa especulação vazia.
(João Calvino, Institutas, I.10.2, tradução nossa)
Elohim e El
Elohim é a palavra mais comum para Deus no Antigo Testamento, com mais de duas mil ocorrências, a começar por Gênesis 1:1. Ela fala de Deus como o Criador poderoso e o juiz de toda a terra. Elohim tem forma de plural, mas, quando se refere ao Deus de Israel, vem com o verbo no singular. Os estudiosos chamam isso de “plural de majestade”: ele é Deus no sentido mais completo da palavra. Muitos cristãos antigos viram nesse plural, e em “Façamos ao ser humano à nossa imagem” (Gênesis 1:26), uma alusão à Trindade. Pode haver aí um sinal, mas é mais seguro apoiar a doutrina nas passagens claras do Novo Testamento, como veremos no capítulo 16.
El é a forma curta, ligada à ideia de força. Ela aparece em vários nomes compostos:
- El Shaddai, “Deus Todo-Poderoso”. Foi assim que Deus se apresentou a Abraão: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda diante de mim, e sê íntegro” (Gênesis 17:1). O nome fala do poder de Deus para cumprir o que promete, mesmo quando parece impossível.
- El Elyon, “Deus Altíssimo”. Melquisedeque abençoou Abrão em nome do “Deus altíssimo, possuidor dos céus e da terra” (Gênesis 14:19).
- El Roi, “o Deus que me vê”. Foi o nome que Agar, a escrava que fugia pelo deserto, deu a Deus: “Tu és o Deus da vista” (Gênesis 16:13). O Deus Altíssimo também vê a mulher sozinha e esquecida.
Adonai
Adonai quer dizer “Senhor” ou “meu Senhor”. A palavra era usada para o dono de uma casa ou de escravos, e fala de autoridade. Quando Isaías diz “eu vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono” (Isaías 6:1), é essa a palavra. Chamar Deus de Adonai é reconhecer que somos servos e que ele tem direito sobre a nossa vida.
YHWH, o Nome Próprio de Deus
Elohim e Adonai são títulos. Mas o Deus de Israel tem um nome próprio, que aparece cerca de 6.800 vezes no Antigo Testamento. Ele é escrito com quatro consoantes hebraicas, YHWH, e por isso é chamado de tetragrama, “quatro letras”. O texto mais importante sobre ele é o encontro de Moisés com Deus na sarça:
“E disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu chegar aos filhos de Israel, e lhes disser, O Deus de vossos pais me enviou a vós; se eles me perguntarem: Qual é seu nome? que lhes responderei? Deus respondeu a Moisés: EU SOU O QUE SOU. E disse: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. E disse mais Deus a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: o SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó, me enviou a vós. Este é meu nome para sempre, este é meu memorial por todos os séculos.”
(Êxodo 3:13-15, Bíblia Livre)
O nome está ligado ao verbo hebraico “ser”, e a resposta de Deus pode ser traduzida por “Eu sou o que sou” ou “Eu serei o que serei”. Os intérpretes leem nela pelo menos três coisas, que não se excluem.
- Deus existe por si mesmo. Tudo o mais recebe a existência de outro; ele simplesmente é.
- Deus é fiel e presente. Pouco antes, Deus tinha prometido a Moisés: “eu serei contigo” (Êxodo 3:12). O nome diz a um povo escravizado que Deus estará com eles e cumprirá o que prometeu.
- Deus é diferente dos ídolos. Ele não se deixa reduzir a uma imagem: “Eu, EU-SOU; este é o meu nome! Não darei a minha glória a outro, nem o meu louvor às imagens de escultura” (Isaías 42:8).
SENHOR, Javé e Jeová
Por respeito ao mandamento “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão” (Êxodo 20:7), os judeus deixaram de pronunciar o nome. Onde estava escrito YHWH, eles liam Adonai, e a pronúncia original acabou esquecida. Os estudiosos acham que ela era algo como Yahweh, em português “Javé”.
Os copistas judeus colocaram as vogais de Adonai nas consoantes de YHWH. No século 16, leitores cristãos juntaram as duas coisas, e daí nasceu “Jeová”, forma que o Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento chama de malformação.
A tradução grega do Antigo Testamento, feita antes de Cristo, trocou o nome por Kyrios, “Senhor”. A maioria das Bíblias em português segue esse costume e escreve SENHOR, em maiúsculas, onde o hebraico tem YHWH. A Bíblia Livre faz o mesmo e, em alguns textos, escreve “EU-SOU”. Quando você ler SENHOR em maiúsculas, ali está o nome próprio de Deus.
Os Nomes Compostos
Em vários momentos da história de Israel, o nome de Deus foi ligado a uma palavra que lembrava o que ele tinha feito. Muitos são nomes de lugares ou de altares, mais do que nomes novos de Deus. Mas cada um guarda uma experiência do mesmo Deus.
- “O SENHOR proverá” (Jeová-Jiré), o monte onde Deus providenciou o cordeiro no lugar de Isaque (Gênesis 22:14).
- “O SENHOR é minha bandeira” (Jeová-Nissi), o altar de Moisés depois da vitória sobre os amalequitas (Êxodo 17:15).
- “O SENHOR é paz” (Jeová-Shalom), o altar de Gideão (Juízes 6:24). O site tem um estudo sobre Jeová Shalom em Juízes 6.
- “O SENHOR que vos santifico”, ao dar a Israel o sábado como sinal (Êxodo 31:13).
- “O SENHOR dos exércitos”, o título mais comum nos profetas, que fala do Senhor de todas as forças do céu e da terra (1 Samuel 1:3).
- “O SENHOR é nossa justiça” (Jeová-Tsidkenu), o nome do rei prometido da família de Davi (Jeremias 23:6), que os cristãos sempre viram como promessa de Cristo.
Esses nomes são para ser lembrados com gratidão, e não usados como fórmulas para “declarar” bênçãos.
O Nome de Deus no Novo Testamento
Deus e Senhor
O Novo Testamento usa sobretudo duas palavras gregas para Deus. Theos é a palavra comum para “Deus”. Kyrios, “Senhor”, era a palavra que a tradução grega usava no lugar de YHWH. E aqui acontece algo surpreendente: os apóstolos passam a chamar Jesus de Kyrios. Paulo escreve:
“Por isso Deus também o exaltou supremamente, e lhe deu o nome que é acima de todo nome; a fim de que no nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.”
(Filipenses 2:9-11, Bíblia Livre)
Em Romanos, Paulo cita o profeta Joel, “todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Joel 2:32), onde está o nome YHWH, e aplica as palavras a Jesus (Romanos 10:9-13). Para os primeiros cristãos, confessar Jesus como Senhor era dar a ele o nome que pertence a Deus. O próprio Jesus usou o “eu sou” de um modo que os ouvintes entenderam muito bem: “antes que Abraão fosse, eu sou” (João 8:58). Logo depois, pegaram pedras para apedrejá-lo. O site trata desses textos em “Os sete Eu Sou de Jesus”.
Pai
O nome mais característico do Novo Testamento é Pai. Jesus falou de Deus como “meu Pai” com uma intimidade nova e ensinou os discípulos a orar: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome” (Mateus 6:9). Ele usava a palavra aramaica Abba, que os filhos usavam em casa para chamar o pai.
E Jesus nos deu esse privilégio: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Aba, Pai!’” (Gálatas 4:6). O mesmo Deus que habita em luz inacessível pode ser chamado de Pai por quem está em Cristo.
Um Só Nome
A revelação do nome de Deus chega ao seu ponto mais alto na ordem que Jesus deu antes de subir ao céu: batizar “em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). A palavra é “nome”, no singular. Um só Deus, três pessoas. Esse é o assunto do capítulo 16.
Santificado Seja o Teu Nome
Se o nome de Deus revela quem ele é, o modo como usamos esse nome mostra o que pensamos dele. O terceiro mandamento proíbe tomar o nome de Deus “em vão” (Êxodo 20:7). Tomamos o nome de Deus em vão quando o usamos por hábito, sem pensar no que dizemos, e quando dizemos “Deus me falou” para dar autoridade divina a uma opinião nossa.
O caminho certo é o da confiança: “E confiarão em ti os que conhecem o teu nome; porque tu, SENHOR, nunca desamparaste aos que te buscam” (Salmos 9:10).
Conclusão
A Bíblia não tenta provar que Deus existe. Ela começa com ele e nos chama a crer nele. Os argumentos clássicos, que partem do mundo, da sua ordem, da pessoa humana e da consciência, não produzem a fé, mas mostram que ela é razoável e podem tirar obstáculos do caminho de quem procura.
Deus é maior do que a nossa mente, e nunca vamos entendê-lo por inteiro. Mas ele quis ser conhecido e se deu a conhecer na criação, na Escritura e, acima de tudo, em Jesus Cristo. O nosso conhecimento dele é pequeno, mas verdadeiro, e as palavras humanas da Bíblia nos dizem a verdade sobre ele numa medida que podemos receber.
E Deus tem um nome. Ele é Elohim, o Criador poderoso; Adonai, o Senhor a quem servimos; YHWH, aquele que é e que está com o seu povo. Em Jesus, esse nome foi dado ao Filho, e nós aprendemos a chamar Deus de Pai. Conhecer a Deus é confiar nele, amá-lo e invocar o seu nome, e não apenas saber que ele existe. No próximo capítulo, veremos como é esse Deus que se deu a conhecer, estudando os seus atributos.
Fontes
- Agostinho. Sermão 117.
- Anselmo de Cantuária. Proslógio, 2-4.
- Armínio, Jacó. Debates privados, XIV-XV. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Armínio, Jacó. O objeto da teologia. Em As obras de Armínio, vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Breve Catecismo de Westminster (1647), pergunta 4.
- Brown, Colin; Coenen, Lothar (orgs.). Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. Verbete “Deus”. São Paulo: Vida Nova.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. I.2.2; I.10.2; I.13.1.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008. Cap. 19.
- Lewis, C. S. Cristianismo puro e simples, livro 1.
- Paley, William. Natural Theology (1802).
- Tomás de Aquino. Suma teológica, I, q. 2, a. 3.
- Wesley, John. Sermão O pecado original, II.3; carta a Thomas Rutherforth. Em Coletânea da teologia de João Wesley.
Teologia Sistemática, Parte 3: Deus. Capítulo anterior: Capítulo 12: A interpretação da Escritura. Próximo capítulo: Capítulo 14: Os atributos de Deus.
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