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Capítulo 42: A morte e o estado intermediário
Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas
Neste texto
- A Morte
- O que É a Morte?
- Três Sentidos da Palavra
- A Morte Vem do Pecado
- Por que os Crentes Ainda Morrem?
- Cristo Venceu a Morte
- Como a Bíblia Fala da Morte do Crente
- O Medo da Morte
- A Imortalidade
- Só Deus É Imortal em Si Mesmo
- Alma Imortal e Esperança Cristã
- Dois Sentidos de Imortalidade
- A Mortalidade Condicional
- O Lugar dos Mortos
- O Xeol no Antigo Testamento
- Hades, Paraíso e Geena no Novo Testamento
- O Lugar dos Justos Antes de Cristo
- O Estado Intermediário
- Os Crentes Estão com Cristo
- Conscientes e em Descanso
- Mas Ainda Esperando
- Os Incrédulos Aguardam o Juízo
- O que Não Sabemos
- Respostas que a Bíblia Não Confirma
- O Sono da Alma
- O Purgatório
- Uma Segunda Chance Depois da Morte
- A Reencarnação
- Falar com os Mortos
- A Morte e a Vida Cristã
- O Luto com Esperança
- Preparar-se para Morrer
- Conclusão
- Fontes
Todos nós vamos morrer, a não ser que Cristo volte antes. Mas o que é a morte, e o que acontece com a pessoa entre o dia em que ela morre e o dia da ressurreição?
A Morte
No capítulo anterior, vimos um panorama das últimas coisas. Agora vamos olhar cada assunto mais de perto. O primeiro é aquele que alcança todo ser humano, crente ou não, rico ou pobre: “está ordenado aos seres humanos morrerem uma vez, e depois disso, o juízo” (Hebreus 9:27).
O que É a Morte?
A medicina descreve a morte pelo que acontece no corpo. A Bíblia olha também para o que não se vê. Para ela, a morte é a separação entre o corpo e a alma. Tiago diz que “o corpo sem o espírito está morto” (Tiago 2:26). O Eclesiastes descreve o mesmo momento assim: “o pó volte à terra, assim como era; e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12:7).
Por isso a Bíblia fala da morte como uma saída. Quando Raquel morreu, o texto diz que a sua alma saiu (Gênesis 35:18). Jesus, na cruz, disse: “Pai, em tuas mãos eu entrego meu espírito” (Lucas 23:46). Estêvão, enquanto era apedrejado, orou: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (Atos 7:59).
Isso quer dizer que a morte não é o fim da pessoa. O corpo vai para o túmulo, mas a pessoa continua a existir diante de Deus. No capítulo sobre a imagem de Deus e a constituição do ser humano, vimos que fomos feitos de pó e de sopro, com um corpo e uma alma. A morte separa por um tempo o que Deus fez para ficar junto.
Três Sentidos da Palavra
A Bíblia usa a palavra “morte” de três maneiras. Vale a pena distinguir cada uma, porque muitas confusões vêm de misturar as três.
A Morte Física
É a morte do corpo, a que acabamos de descrever. É dela que falamos num velório. Ela atinge a todos: “assim também a morte passou a todos os seres humanos, porque todos pecaram” (Romanos 5:12).
A Morte Espiritual
É a separação entre a pessoa e Deus, que é a fonte da vida. Paulo escreve aos efésios: “vós estáveis mortos em vossas ofensas e pecados” (Efésios 2:1). Estavam vivos no corpo, mas mortos para Deus. Foi essa morte que chegou primeiro, no dia em que Adão pecou. Deus tinha avisado: “no dia que dela comeres, morrerás” (Gênesis 2:17). Adão não caiu morto naquele dia, mas perdeu a comunhão com Deus e começou a caminhar para o túmulo.
A Segunda Morte
É a separação final e para sempre entre o pecador e Deus, depois do juízo. O Apocalipse a chama pelo nome: “a morte e o Xeol foram lançados no lago de fogo; esta é a segunda morte: o lago de fogo” (Apocalipse 20:14). Veremos esse assunto no capítulo sobre o juízo e o estado eterno.
As três estão ligadas. Quem morre fisicamente ainda morto para Deus caminha para a segunda morte. Mas quem crê em Cristo passa da morte para a vida já agora. Jesus disse: “quem ouve minha palavra, e crê ao que me enviou, tem vida eterna, e não virá em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24). O crente ainda vai passar pela primeira morte, mas a segunda não tem nenhum poder sobre ele.
A Morte Vem do Pecado
A morte não fazia parte do plano original de Deus para o ser humano. Ela entrou no mundo pela porta do pecado: “por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte” (Romanos 5:12). Depois da queda, Deus disse a Adão: “pó és, e ao pó voltarás” (Gênesis 3:19). E Paulo resume: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23).
Por isso a morte nunca é tratada na Bíblia como uma amiga ou como uma parte natural da vida que devemos simplesmente aceitar. Ela é “o último inimigo, que será aniquilado” (1 Coríntios 15:26). Diante do túmulo de Lázaro, mesmo sabendo que ia ressuscitá-lo em poucos minutos, “Jesus chorou” (João 11:35). A morte é uma ruptura no mundo de Deus, e os cristãos podem chorar diante dela sem nenhuma vergonha.
Por que os Crentes Ainda Morrem?
Se Cristo morreu pelos nossos pecados e a morte é o salário do pecado, por que os crentes ainda morrem? Essa pergunta é antiga, e os protestantes deram a ela uma resposta bem parecida.
O Catecismo de Heidelberg, de 1563, responde que a morte do crente não paga os seus pecados, porque Cristo já pagou tudo. Ela é o fim do pecado e a entrada na vida eterna (pergunta 42).
Jacó Armínio ensinou que Cristo nos livra tanto da perdição eterna quanto da morte do corpo. Mas lembrou que essa libertação acontece em etapas. Pela sua morte, Cristo tirou da morte o direito que ela tinha sobre nós. Mas ele nos livra do domínio real da morte no tempo marcado por Deus: primeiro a alma, quando morremos, e depois o corpo, na ressurreição. Até lá, o corpo do crente fica no túmulo, sob o poder de um inimigo que já foi vencido, mas que só será destruído no último dia (Apologia contra trinta e um artigos, IX).
Isso nos ajuda a entender por que o crente morre. A morte continua sendo um inimigo, mas um inimigo que agora trabalha para nós. Ela se tornou a porta pela qual Deus nos leva para casa. Paulo podia dizer: “se vivemos, para o Senhor vivemos; e se morremos, para o Senhor morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, do Senhor somos” (Romanos 14:8). E o salmista já tinha dito: “Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte de seus santos” (Salmos 116:15).
Cristo Venceu a Morte
A grande notícia do evangelho é que Cristo entrou na morte para destruí-la por dentro. O autor de Hebreus explica por que o Filho de Deus se fez homem:
“Portanto, uma vez que os filhos compartilham do sangue e da carne, também ele, semelhantemente, participou das mesmas coisas, a fim de pela morte aniquilar ao que tinha o poder da morte, isto é, o diabo; e libertar a todos os que, por medo da morte, estavam sujeitos à servidão durante a vida toda.”
(Hebreus 2:14-15, Bíblia Livre)
Cristo passou pela nossa morte por inteiro. O seu corpo foi posto num túmulo, e a sua alma foi para o lugar dos mortos. John Wesley, o pregador inglês do século XVIII, resumiu assim a fé que ele tinha em comum com todos os cristãos:
Creio que ele sofreu dores indizíveis, tanto no corpo quanto na alma, e por fim a morte, e morte de cruz, […] que o seu corpo foi então posto no túmulo, e a sua alma foi para o lugar dos espíritos separados; que ao terceiro dia ele ressuscitou dos mortos.
(John Wesley, Carta a um católico romano, 7, tradução nossa)
Já falamos da descida de Cristo ao lugar dos mortos no capítulo sobre os estados de Cristo. O que importa aqui é que não existe nenhum lugar da morte por onde Cristo não tenha passado antes de nós. E ele saiu de lá vitorioso. O Cristo ressuscitado diz a João: “eu sou o que vivo, e fui morto; e eis que eu vivo para todo o sempre; Amém. E eu tenho as chaves da morte e do Xeol” (Apocalipse 1:18). Quem tem as chaves decide quem entra e quem sai. A morte já não tem a última palavra sobre os que pertencem a ele.
Por isso Paulo pode zombar da morte:
“Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a Lei. Mas graças a Deus, que nos dá vitória por meio do nosso Senhor Jesus Cristo.”
(1 Coríntios 15:55-57, Bíblia Livre)
O aguilhão é o ferrão. A morte ainda nos ameaça, mas o seu ferrão, que é o pecado, ficou cravado em Cristo na cruz.
Como a Bíblia Fala da Morte do Crente
A Bíblia usa algumas imagens simples para falar da morte dos que pertencem a Cristo. Cada uma mostra um lado do que acontece.
Dormir
Jesus disse aos discípulos: “Lázaro, nosso amigo, dorme; mas vou para despertá-lo do sono”. Eles não entenderam, e então ele disse claramente: “Lázaro está morto” (João 11:11-14). Paulo fala dos irmãos “que já dormem” (1 Coríntios 15:6), e de Estêvão se diz que, depois de orar pelos seus assassinos, adormeceu (Atos 7:60). A imagem combina com o corpo, que fica deitado e quieto como alguém que dorme, e sobretudo com a certeza de que ele vai acordar. Por isso os cristãos antigos chamavam o lugar onde enterravam os seus mortos de koimētērion, palavra grega que quer dizer “dormitório”. Dela vem a nossa palavra “cemitério”.
Desmontar a Tenda
Paulo compara o nosso corpo a uma tenda: “se nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos um edifício de Deus, uma casa não feita por mãos, mas eterna, nos céus” (2 Coríntios 5:1). Pedro, perto de morrer, usou a mesma imagem: “breve está a saída do meu tabernáculo” (2 Pedro 1:14). Uma tenda serve para quem está de passagem. A morte é o dia de desmontar o acampamento.
Partir
Paulo escreve aos filipenses que tem “desejo de ser desligado, e estar com Cristo” (Filipenses 1:23). A palavra grega era usada para um barco que se solta do cais e levanta a âncora para seguir viagem. No fim da vida, Paulo falou do mesmo modo a Timóteo: “o tempo da minha partida está perto” (2 Timóteo 4:6). Para quem vive para Cristo, essa viagem leva a um porto melhor. Por isso Paulo podia dizer: “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Filipenses 1:21).
O Medo da Morte
É natural ter medo da morte. O próprio Jesus, no Getsêmani, disse: “Minha alma está completamente triste até a morte” (Mateus 26:38). O cristão não precisa fingir que a morte não dói nem que a separação dos que amamos é coisa pequena.
Mas o medo da morte não precisa nos dominar. Cristo veio justamente para libertar os que, “por medo da morte, estavam sujeitos à servidão durante a vida toda” (Hebreus 2:15). O crente pode dizer com Davi: “Ainda que eu venha a andar pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” (Salmos 23:4). Calvino escreveu:
Podemos concluir com certeza que ninguém fez bom progresso na escola de Cristo, a não ser aquele que espera com alegria tanto o dia da sua morte quanto o da ressurreição final.
(João Calvino, Institutas, III.9.5, tradução nossa)
Calvino não pedia que os crentes desprezassem a vida, que ele chamava de um posto onde Deus nos colocou até nos chamar. Ele queria que a esperança fosse maior que o medo.
A Imortalidade
Se a pessoa continua a existir depois da morte, isso quer dizer que a alma é imortal? A resposta precisa de um pouco de cuidado, porque a palavra “imortal” é usada de mais de um jeito.
Só Deus É Imortal em Si Mesmo
Paulo diz que Deus é “o único a ter imortalidade” (1 Timóteo 6:16). Isso não quer dizer que os anjos e as almas deixam de existir. Quer dizer que só Deus tem a vida em si mesmo, sem depender de ninguém. Tudo o mais que existe recebe a existência dele e continua existindo porque ele sustenta.
Armínio disse isso de um jeito claro. A alma humana é imortal, “não realmente por si mesma, mas pela graça sustentadora de Deus” (Debates privados, XXVI.4). A alma não tem uma faísca divina que não pode ser apagada. Ela continua a existir porque Deus quis criá-la assim e continua a mantê-la.
Alma Imortal e Esperança Cristã
Muitos filósofos gregos, como Platão, ensinavam que a alma é imortal por natureza e que o corpo é uma espécie de prisão. Para eles, a morte era uma libertação, e a alma ficava melhor sem o corpo. Essa ideia entrou muitas vezes na igreja e ainda aparece quando alguém diz que, no fim, “vamos todos virar espírito”.
A Bíblia concorda que a alma sobrevive à morte do corpo. Jesus disse: “não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mateus 10:28). Mas a esperança cristã é diferente da esperança grega. Para o cristão, a vida da alma sem o corpo é uma situação provisória. A esperança verdadeira é a ressurreição. Paulo diz que nós “gememos em nós mesmos, esperando a adoção, isto é, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23).
Dois Sentidos de Imortalidade
Quando a Bíblia fala de imortalidade, quase sempre tem em vista mais do que continuar existindo: uma vida que a morte não pode mais tocar. Cristo “anulou a morte, e trouxe para a luz a vida e a imortalidade por meio do evangelho” (2 Timóteo 1:10). Essa imortalidade é um dom para os que estão nele: “é necessário que este corpo degradável revista-se da capacidade de não se degradar, e este corpo mortal vista a imortalidade” (1 Coríntios 15:53).
Wesley publicou entre os seus sermões uma explicação simples dessa diferença:
Essas palavras, imortal e incorruptível, não querem dizer apenas que não morreremos mais (pois nesse sentido os condenados também são imortais e incorruptíveis), mas que estaremos perfeitamente livres de todos os males do corpo que o pecado trouxe ao mundo.
(John Wesley, sermão Sobre a ressurreição dos mortos, II.1, tradução nossa)
Então há dois sentidos. No primeiro, todo ser humano é imortal, porque todos continuam a existir depois da morte e todos vão ressuscitar, “uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e o desprezo eterno” (Daniel 12:2). No segundo, só os que estão em Cristo recebem a imortalidade, que é a vida eterna e gloriosa, num corpo que nunca mais vai adoecer nem morrer.
A Mortalidade Condicional
Alguns grupos ensinam que o ser humano não tem uma alma que sobrevive à morte. Quando a pessoa morre, ela deixa de existir por inteiro, ou fica totalmente inconsciente, até a ressurreição. Só os salvos receberiam a imortalidade, e os perdidos seriam destruídos de vez. Essa visão é chamada de mortalidade condicional. Ela é ensinada pelos adventistas do sétimo dia e pelas testemunhas de Jeová, e alguns teólogos evangélicos também a defendem.
Ela lembra, com razão, que a vida eterna é um dom de Deus. Mas não combina com os textos que mostram os mortos conscientes antes da ressurreição, como veremos adiante, e por isso a Igreja quase sempre a rejeitou.
O Lugar dos Mortos
Antes de falar do estado intermediário, é preciso entender algumas palavras que a Bíblia usa para o lugar dos mortos.
O Xeol no Antigo Testamento
A palavra hebraica sheol, que a Bíblia Livre escreve “Xeol”, aparece mais de sessenta vezes no Antigo Testamento. Às vezes ela quer dizer simplesmente a sepultura. Outras vezes, o lugar ou a condição de todos os mortos, bons e maus.
O Antigo Testamento fala pouco do que acontece com a alma depois da morte, e alguns textos parecem bem sombrios. “Na morte não há lembrança de ti; no Xeol quem te louvará?” (Salmos 6:5). “Os mortos não louvam ao SENHOR, nem os que descem ao silêncio” (Salmos 115:17). Esses textos olham a morte do lado de cá: para quem fica, o morto se cala e já não louva a Deus no templo.
Mesmo assim, a esperança aparece. Davi confiava: “tu não deixarás a minha alma no Xeol, nem permitirás que teu Santo veja a degradação. Tu me farás conhecer o caminho da vida; fartura de alegrias há em tua presença” (Salmos 16:10-11). Asafe escreveu: “Tu me guiarás com teu conselho, e depois me receberás em glória” (Salmos 73:24). E Jó, no meio da dor, disse: “eu sei que meu Redentor vive, e ao fim se levantará sobre a terra; e mesmo depois de consumida minha pele, então em minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-26).
Hades, Paraíso e Geena no Novo Testamento
No Novo Testamento, a palavra grega que corresponde ao sheol é hades. A Bíblia Livre também a traduz por “Xeol”. Na maioria das vezes, ela indica simplesmente o estado de morte, para onde vão todos os que morrem. Mas na história do rico e Lázaro ela é um lugar de sofrimento: “estando no Xeol em tormentos, ele levantou seus olhos” (Lucas 16:23).
Para o lugar onde os justos estão depois da morte, o Novo Testamento usa outras palavras. Jesus fala do “colo de Abraão” (Lucas 16:22), isto é, o lugar de honra junto do pai dos crentes, como num banquete. Ao ladrão arrependido, ele promete o “paraíso” (Lucas 23:43). Essa palavra quer dizer jardim e lembra o Éden. Paulo foi “arrebatado ao paraíso” e o chama também de “terceiro céu” (2 Coríntios 12:2-4).
Há ainda a geena, que é outra coisa. A palavra vem do vale de Hinom, ao sul de Jerusalém, onde se queimava lixo. Jesus usou esse nome para o castigo final, depois do juízo: “temei mais aquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (Mateus 10:28). Ela pertence ao estado final, e não ao estado intermediário.
O Lugar dos Justos Antes de Cristo
Alguns pensaram que, antes da vinda de Cristo, o Xeol tinha duas partes: uma de tormento para os maus e outra de descanso para os justos. A Igreja Católica Romana chamou a parte dos justos de “limbo dos pais” e ensinou que Cristo foi até lá para libertá-los. Calvino chamou isso de fábula sem apoio na Bíblia (Institutas, II.16.9).
Armínio foi mais cauteloso. Repetindo Agostinho, disse que preferia ter dúvidas sobre as coisas escondidas a brigar sobre as incertas, e lembrou que hoje a pergunta pesa pouco, porque Cristo já subiu ao céu e abriu o caminho para nós (Apologia contra trinta e um artigos, X). O que sabemos é que, na transfiguração, Moisés e Elias “apareceram com glória” ao lado de Jesus (Lucas 9:30-31). Os justos do Antigo Testamento estavam vivos para Deus. Deus “não é Deus de mortos, mas de vivos; pois todos vivem por causa dele” (Lucas 20:38).
O Estado Intermediário
O estado intermediário é a situação dos mortos entre o dia em que morrem e o dia da ressurreição. A Bíblia não responde a todas as nossas perguntas sobre ele, mas diz o suficiente para nos dar paz.
Os Crentes Estão com Cristo
O primeiro ponto, e o mais importante, é que os crentes que morrem vão imediatamente para a presença de Cristo. Jesus disse ao ladrão na cruz: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). O homem tinha pedido: “lembra-te de mim, quando chegares em teu Reino” (Lucas 23:42). Ele pensava num futuro distante. Jesus responde com “hoje”.
Paulo diz o mesmo de várias maneiras:
“Por isso sempre temos confiança, e sabemos que, enquanto habitarmos no corpo, estamos ausentes do Senhor. (Pois andamos pela fé, e não pela vista). Temos, porém, confiança, e queremos mais deixar o corpo, e habitar com o Senhor;”
(2 Coríntios 5:6-8, Bíblia Livre)
Para Paulo, só há duas situações: ou estamos no corpo, longe do Senhor, ou fora do corpo, com o Senhor. Não há um intervalo vazio entre as duas. Por isso ele diz que partir e “estar com Cristo” é “muito melhor” do que continuar aqui (Filipenses 1:23). E o autor de Hebreus diz que a Igreja, no seu culto, se une aos “espíritos dos justos já aperfeiçoados” (Hebreus 12:23).
Calvino usou esses mesmos textos contra os que diziam que a alma morre com o corpo:
Se as almas não sobrevivessem aos corpos, o que é que está presente com Deus quando se separa do corpo? […] Se as almas separadas dos corpos não continuassem a existir, capazes de glória e felicidade, Cristo não teria dito ao ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso”.
(João Calvino, Institutas, III.25.6, tradução nossa)
Conscientes e em Descanso
Os crentes que morreram estão conscientes. Na história contada por Jesus, Lázaro “é consolado” (Lucas 16:25). No Apocalipse, as almas dos mártires debaixo do altar clamam a Deus, recebem roupas brancas e ouvem uma resposta (Apocalipse 6:9-11). E João ouviu uma voz do céu: “Benditos são os mortos que morrem no Senhor a partir de agora; sim, diz o Espírito, para que se descansem de seus trabalhos; e suas obras os seguem” (Apocalipse 14:13).
O estado dos crentes depois da morte é, então, de descanso e de alegria. O cansaço, a dor e a luta contra o pecado ficaram para trás. Eles estão com Cristo, e isso basta para ser “muito melhor”.
Armínio resumiu assim a sua fé:
(1.) Creio que a alma humana é imortal, isto é, nunca morre. (2.) Com base nisso, deduzo que as almas não dormem. (3.) Creio que, depois desta vida, é aberto a todos os homens um estado de felicidade ou de infelicidade, e em um ou em outro eles entram, imediatamente depois de que deixam este mundo.
(Jacó Armínio, Apologia contra trinta e um artigos, X, em As obras de Armínio, vol. 1)
Mas Ainda Esperando
Ao mesmo tempo, o estado intermediário ainda não é o fim. Os mártires do Apocalipse perguntam “Até quando?” e ouvem que devem repousar “ainda um pouco de tempo” (Apocalipse 6:10-11). Eles estão em paz, mas ainda esperam o dia em que Deus vai fazer justiça e completar a sua obra.
Paulo também não via a vida sem corpo como o ideal. Ele diz que, nesta tenda, gememos “não porque queremos ser despidos, mas sim, revestidos; para que a mortalidade seja devorada pela vida” (2 Coríntios 5:4). Melhor ainda será receber o corpo novo. Armínio disse que a felicidade das almas dos santos “será plenamente consumada depois da ressurreição do corpo, e quando todos os membros da Igreja universal forem levados ao céu” (Apologia, X). Os crentes que morreram estão felizes, mas a sua felicidade ainda vai crescer.
Os Incrédulos Aguardam o Juízo
A Bíblia fala menos dos que morrem sem Cristo, mas o que ela diz é sério. Na história do rico e Lázaro, o rico está consciente, lembra da sua vida, sofre e pede ajuda (Lucas 16:23-24). Pedro diz que o Senhor sabe “reservar aos injustos para o dia do julgamento, para serem punidos” (2 Pedro 2:9). De Judas se diz que ele foi “a seu próprio lugar” (Atos 1:25).
A história do rico e Lázaro tem figuras, como a ponta do dedo molhada e a língua queimada. Mas Jesus não contaria uma história sobre o destino dos mortos usando uma ideia falsa sobre ele. A lição principal é clara: depois da morte, a situação de cada um está decidida. “Um grande abismo está posto entre nós e vós”, diz Abraão, “para os que quisessem passar daqui para vós não possam; nem também os daí passarem para cá” (Lucas 16:26).
O que Não Sabemos
A Bíblia diz o essencial, mas deixa muitas perguntas sem resposta. Onde fica o paraíso? Os mortos sabem o que acontece na terra? Como eles percebem o tempo? Calvino advertiu contra a curiosidade nesses assuntos. Para ele, querer saber mais do que Deus revelou é tolice, e perguntar pelo lugar das almas não faz sentido, porque a alma não ocupa espaço como o corpo (Institutas, III.25.6).
Os mortos têm algum tipo de corpo antes da ressurreição? Paul Enns pensa que sim, porque Moisés e Elias foram vistos na transfiguração e os mártires do Apocalipse recebem roupas brancas. Mas esses textos são visões cheias de figuras, e Paulo fala do tempo sem o corpo como de estar “nus” (2 Coríntios 5:3). O mais prudente é não ir além do que a Bíblia diz.
E os nossos parentes que morreram nos veem? Alguns usam Hebreus 12:1, que fala de “uma tão grande nuvem de testemunhas”. Mas essas testemunhas são os heróis da fé do capítulo 11, que deram testemunho com a sua vida. Eles são exemplos para nós, e não espectadores. A Bíblia não diz se os mortos acompanham o que acontece aqui, e não devemos construir doutrinas sobre o silêncio dela.
Respostas que a Bíblia Não Confirma
Outras ideias sobre o que acontece depois da morte são muito comuns no Brasil. Vale a pena olhar cada uma à luz das Escrituras.
O Sono da Alma
Nesta visão, a pessoa que morre fica totalmente inconsciente até a ressurreição. Hoje essa ideia é ensinada pelos adventistas e pelas testemunhas de Jeová. No século XVI, alguns anabatistas a defendiam, e o primeiro livro de teologia que Calvino escreveu, em 1534, foi justamente contra ela.
Os defensores lembram que a Bíblia chama a morte de sono e citam o Eclesiastes: “os mortos não sabem coisa alguma” (Eclesiastes 9:5) e “no Xeol, para onde vais, não há trabalho, nem planos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Eclesiastes 9:10). Mas o Eclesiastes olha a vida “abaixo do sol” (Eclesiastes 1:3), isto é, do ponto de vista de quem está na terra. O livro não está descrevendo o que a alma experimenta diante de Deus. E a imagem do sono, como vimos, fala do corpo e da certeza do despertar.
Alguns tentam mudar o sentido da promessa ao ladrão, mudando a vírgula de lugar: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso”. Mas Jesus começa frases com “em verdade te digo” ou “em verdade vos digo” dezenas de vezes nos evangelhos, e nunca acrescenta a ela a palavra “hoje”. Além disso, o ladrão tinha falado de um futuro distante, e a resposta de Jesus só tem força se o “hoje” for a promessa.
Por fim, Paulo não poderia dizer que estar com Cristo é “muito melhor” (Filipenses 1:23) do que servir às igrejas se isso quisesse dizer ficar inconsciente por séculos.
O Purgatório
A Igreja Católica Romana ensina que os que morrem em graça, mas ainda não purificados por completo, passam pelo purgatório antes de entrar no céu. Já falamos disso no capítulo anterior, e basta lembrar por que os protestantes o rejeitam.
O purgatório supõe que o sangue de Cristo não basta para nos purificar. Mas a Bíblia diz que “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1:7) e que, “com uma só oferta ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14). O ladrão na cruz não teve tempo de fazer penitência nem de crescer em santidade, e mesmo assim foi para o paraíso no mesmo dia. E a Bíblia diz que os que morrem no Senhor vão “para que se descansem de seus trabalhos” (Apocalipse 14:13), e não para sofrer. Pela mesma razão, os protestantes não oram pelos mortos. O destino deles já está nas mãos de Deus.
Uma Segunda Chance Depois da Morte
Alguns esperam que, depois da morte, os que rejeitaram a Cristo ou nunca ouviram falar dele ainda tenham uma oportunidade de crer. Eles citam 1 Pedro 3:19, onde Cristo “foi pregar aos espíritos em prisão”, e 1 Pedro 4:6, que diz que “o evangelho também foi pregado aos mortos”.
Já tratamos do primeiro texto no capítulo sobre os estados de Cristo. Nenhum dos dois diz que os mortos podem se converter. 1 Pedro 4:6 fala, ao que tudo indica, de pessoas que ouviram o evangelho em vida e já tinham morrido quando Pedro escreveu. O ensino claro do Novo Testamento é que a decisão é tomada nesta vida (Hebreus 9:27; Lucas 16:26). Isso dá urgência à pregação do evangelho.
A Reencarnação
No Brasil, muitas pessoas que vão à igreja também acreditam em reencarnação. O espiritismo, organizado na França por Allan Kardec no século XIX, se espalhou aqui como em poucos lugares do mundo. Nessa visão, a pessoa vive muitas vidas e vai evoluindo pelo próprio esforço.
A Bíblia ensina outra coisa. O ser humano morre “uma vez” (Hebreus 9:27). Depois vem o juízo, e não uma nova vida na terra. A esperança cristã é a ressurreição: o mesmo corpo, transformado, para a mesma pessoa, e não uma alma passando de corpo em corpo. E a salvação é um presente da graça, recebido pela fé, e não o resultado de muitas vidas de esforço.
Os espíritas costumam dizer que João Batista era Elias reencarnado, porque Jesus disse: “este é o Elias que havia de vir” (Mateus 11:14). Mas o anjo explicou que João viria “no espírito e virtude de Elias” (Lucas 1:17), isto é, com um ministério parecido com o dele. Quando perguntaram a João se ele era Elias, ele respondeu: “Não sou” (João 1:21). E Elias, que nem chegou a morrer, apareceu depois na transfiguração como ele mesmo.
Falar com os Mortos
Muitas pessoas, na dor do luto, procuram contato com os mortos em centros espíritas ou em outros lugares. Deus proibiu isso com clareza: não deve haver no seu povo “quem pergunte a espírito, nem mágico, nem quem pergunte aos mortos. Porque é abominação ao SENHOR qualquer um que faz estas coisas” (Deuteronômio 18:11-12). Isaías pergunta: “Por acaso não deveria o povo consultar ao seu Deus? Perguntarão aos mortos por causa dos vivos?” (Isaías 8:19). O único caso narrado na Bíblia é o do rei Saul, que procurou uma médium antes da sua última batalha (1 Samuel 28). A Bíblia diz que ele morreu, entre outras razões, “por ter buscado à médium para lhe consultar, e não ter buscado ao SENHOR” (1 Crônicas 10:13-14).
Quando o rico pede que Lázaro volte para avisar os seus irmãos, Abraão responde: “Eles têm a Moisés e aos profetas, ouçam-lhes” (Lucas 16:29). Deus já nos deu a sua Palavra. Pela mesma razão, os protestantes não pedem aos santos que já morreram que orem por eles. Os santos estão com Cristo, mas a Bíblia nunca nos manda falar com eles, e “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os seres humanos: o humano Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5).
A Morte e a Vida Cristã
Essa doutrina muda o jeito como vivemos, como choramos e como nos despedimos.
O Luto com Esperança
Paulo escreveu à igreja de Tessalônica, que estava triste com a morte de alguns irmãos:
“Mas irmãos, não queremos que desconheçais acerca dos que morreram, para que não vos entristeçais como os outros que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que morreram em Jesus, Deus os trará de volta com ele.”
(1 Tessalonicenses 4:13-14, Bíblia Livre)
Paulo não proíbe a tristeza. Ele proíbe a tristeza sem esperança. O cristão chora no velório, como Jesus chorou diante de Lázaro. Mas chora sabendo que a separação é por pouco tempo. Quando o filho de Davi morreu, o rei disse: “Eu vou a ele, mas ele não voltará a mim” (2 Samuel 12:23). Por isso o velório e o sepultamento de um crente podem ser, ao mesmo tempo, um momento de dor e um culto de esperança.
Preparar-se para Morrer
Moisés orou: “Ensina-nos a contar nossos dias de tal maneira que alcancemos um coração sábio” (Salmos 90:12). Lembrar que vamos morrer é sabedoria, e não morbidez. O rico da parábola fez grandes planos, mas ouviu de Deus: “Louco, esta noite te pedirão tua alma; e o que tens preparado, de quem será?” (Lucas 12:20).
A melhor preparação para morrer é viver hoje com Cristo. Quem pertence a ele na vida também pertence a ele na morte. Paulo, perto do fim, podia dizer: “Lutei a boa luta, terminei a carreira, guardei a fé. Desde agora a coroa da justiça me está reservada” (2 Timóteo 4:7-8). E nada, nem mesmo a morte, “poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8:38-39).
Conclusão
A morte é a separação entre o corpo e a alma. Ela entrou no mundo pelo pecado e continua sendo um inimigo, mas um inimigo vencido. Cristo passou por ela e tem as chaves da morte e do Xeol. Por isso a morte do crente é a passagem para a presença do Senhor.
A alma não deixa de existir quando o corpo morre, porque Deus a sustenta. Os crentes que morrem vão imediatamente para estar com Cristo, conscientes, em descanso e em alegria, mas ainda esperando a ressurreição do corpo. Os que morrem sem Cristo também continuam conscientes, mas em sofrimento, à espera do juízo. Depois da morte, o destino de cada um está decidido.
Não sabemos tudo sobre esse tempo de espera, e não precisamos saber. Basta o que Jesus disse ao ladrão: “hoje estarás comigo”. Mas o estado intermediário é provisório. A Bíblia aponta para algo maior: o dia em que Cristo voltará, os mortos ressuscitarão e a morte será tragada pela vitória. É desse dia que trataremos nos próximos capítulos.
Fontes
- Armínio, Jacó. Apologia contra trinta e um artigos difamatórios, artigos IX e X. Em As obras de Armínio, vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Armínio, Jacó. Debates privados, XXVI. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. II.16.9; III.9.4-5; III.25.6.
- Catecismo de Heidelberg (1563), pergunta 42.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
- Wesley, John. Carta a um católico romano (1749), 7; sermão Sobre a ressurreição dos mortos, II.1. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Organização de Robert W. Burtner e Robert E. Chiles. Nashville: Abingdon, 1954.
Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas. Capítulo anterior: Capítulo 41: A doutrina das últimas coisas. Próximo capítulo: Capítulo 43: A segunda vinda de Cristo e o milênio.
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