
TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana17 de 30
Lição 17: Transcendência e imanência de Deus
Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 2
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os termos
- 1.1 Transcendência
- 1.2 Imanência
- 1.3 Deísmo, panteísmo e panenteísmo
- 2. A fundamentação bíblica
- 2.1 O Deus de perto e de longe
- 2.2 O Alto e Sublime que habita com o abatido
- 2.3 Nele vivemos
- 2.4 Emanuel
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 Dos Pais da Igreja à Reforma
- 3.2 Armínio
- 3.3 O deísmo e a resposta de Wesley
- 3.4 Os séculos XIX e XX: o pêndulo
- 3.5 A teologia wesleyana e o Brasil
- 4. A transcendência de Deus sobre o tempo: a presciência
- 4.1 O testemunho bíblico
- 4.2 Conhecer não é causar
- 4.3 O teísmo aberto e por que o rejeitamos
- 5. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 5.1 Afirmações
- 5.2 Comparação com outras tradições
- 5.3 Imanência não é graça preveniente
- 6. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.
Objetivos da lição
- Definir transcendência e imanência e distinguir o teísmo cristão do deísmo, do panteísmo e do panenteísmo.
- Examinar os textos bíblicos que apresentam Deus, ao mesmo tempo, acima do mundo e presente nele.
- Acompanhar o equilíbrio entre as duas verdades na história da teologia, dos Pais da Igreja à igreja brasileira.
- Estudar a presciência exaustiva como expressão da transcendência de Deus sobre o tempo e explicar por que a tradição arminiana clássica rejeita o teísmo aberto.
- Tirar as consequências das duas verdades para a adoração, a oração e a vida cristã.
Introdução
Quem cresceu no interior conhece a cena: um violeiro sentado na varanda, depois do jantar, tocando uma moda antiga. A música enche a casa inteira e, no entanto, ninguém confunde o violeiro com a música, porque ele estava ali antes da primeira nota e continuará ali depois da última. Ao mesmo tempo, a música não existe um só instante sem ele: basta que pare a mão sobre as cordas para que a varanda fique em silêncio. A comparação é imperfeita, mas guarda duas verdades que a teologia cristã sempre procurou manter juntas: Deus está acima do mundo, e o mundo não subsiste um instante sem ele.
A imaginação religiosa costuma escolher uma das duas e esquecer a outra. Para muitos, Deus é um soberano distante, indiferente às dores miúdas da vida; para outros, tornou-se uma “energia” difusa, tão misturada às árvores, às pedras e aos sentimentos que deixa de ser o Deus santo e pessoal da Escritura. A primeira imagem corresponde ao deísmo, e a segunda, ao panteísmo. A teologia cristã responde às duas com um par de termos clássicos, transcendência e imanência, que precisam ser afirmados sempre juntos.
Na lição 15 prometemos tratar aqui do deísmo e do panteísmo, e na lição 16 deixamos para esta ocasião a transcendência, a imanência e a presciência. A presciência entra aqui porque é a transcendência de Deus considerada em relação ao tempo. Doravante, a Trindade (lição 18) e os decretos (lição 19) terão esse fundamento. Da versão anterior deste texto conservamos a recusa das duas caricaturas, o relojoeiro do deísmo, o Salmo 139 e a palavra de Isaías sobre o Alto e Sublime que habita com o abatido.
1. Os termos
1.1 Transcendência
O latim transcendere (de trans, “além”, e scandere, “subir”) significa “ultrapassar”. Dizer que Deus é transcendente é afirmar que ele está acima e além de toda a criação: não depende dela para existir, não se confunde com ela e não pode ser medido por ela. A transcendência é ontológica, porque há uma distinção de ser entre o Criador, que existe por si mesmo (a asseidade da lição 16), e a criatura, que existe por ele; e é também epistemológica e moral, porque Deus excede o nosso entendimento (a incompreensibilidade da lição 15) e excede toda criatura em santidade. Não se trata de uma ideia espacial: quando a Escritura diz que Deus está “nos céus”, declara a sua superioridade sobre tudo o que existe. Langston observa que a transcendência significa que “a capacidade de Deus é inexaurível, e é sempre superior às suas atividades aqui no universo” (Esboço de teologia sistemática, 2.4).
1.2 Imanência
O latim immanere (de in, “em”, e manere, “permanecer”) significa “permanecer em”. Dizer que Deus é imanente é afirmar que ele está presente e ativo em toda a criação, na conservação, no concurso e no governo, temas das lições 20 e 21. Também a imanência não é espacial: Deus não está espalhado pelo universo como o ar numa sala, porque “não ocupa espaço” e está presente com todo o seu ser em cada lugar, conhecendo e agindo (Langston, Esboço, 2.2).
1.3 Deísmo, panteísmo e panenteísmo
O deísmo afirma um Deus criador que, depois de dar ao mundo as suas leis, retirou-se e já não intervém nele: guarda a transcendência e perde a imanência. O panteísmo (do grego pan, “tudo”, e theos, “Deus”) identifica Deus com o todo da realidade: guarda uma imanência sem limites e perde a transcendência. A palavra foi cunhada por John Toland em 1705, e a forma moderna clássica da doutrina é a de Spinoza, cuja Ética (1677) falava de Deus sive Natura, “Deus, ou seja, a Natureza”. O panenteísmo (“tudo em Deus”), termo criado por Karl Krause em 1828, procura um meio-termo: o mundo não é Deus, mas está em Deus e lhe é necessário.
O teísmo cristão afirma, contra o deísmo, que Deus está presente e ativo no mundo; contra o panteísmo, que Deus é distinto do mundo; e contra o panenteísmo, que Deus não precisa do mundo, porque a criação é um ato livre do seu amor. Langston resumiu tudo numa fórmula: “Transcendência sem imanência nos daria deísmo, e imanência sem transcendência nos daria panteísmo”; e acrescentou que “a presença de Deus no universo é fatal ao deísmo, e a liberdade de Deus é a morte do panteísmo” (Esboço, 2.4).
2. A fundamentação bíblica
2.1 O Deus de perto e de longe
Nenhum texto reúne as duas verdades com tanta economia quanto a pergunta que Deus dirige aos falsos profetas de Jerusalém:
Por acaso sou eu Deus apenas de perto, diz o SENHOR, e não também Deus de longe? Pode alguém se esconder num esconderijo, diz o SENHOR, que eu não o veja? Por acaso não sou eu, diz o SENHOR, que encho os céus e a terra?
O hebraico opõe o Deus miqqārōb, “de perto”, ao Deus mērāḥōq, “de longe”. Os profetas da corte queriam um Deus apenas próximo, domesticado, que confirmasse os seus sonhos; o Senhor responde que é também o Deus distante e que, justamente por isso, “enche os céus e a terra”. A transcendência não afasta Deus, mas garante que nenhum esconderijo escapa ao seu olhar.
2.2 O Alto e Sublime que habita com o abatido
Porque assim diz o Alto e Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é santo: Na altura e no lugar santo habito; e também com o contrito e abatido espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos.
Os títulos rām wenissāʾ, “Alto e Sublime”, são os da visão do capítulo 6, e o verbo “habitar” (šākan) é o que a tradição judaica transformou em šekînâ, a presença de Deus no meio do seu povo. O mesmo Deus habita “na eternidade” e “com o contrito”, e o lugar que escolhe para morar na terra é o mais baixo. Os serafins de Isaías 6 proclamam as duas coisas no mesmo fôlego: “Santo! Santo! Santo é o SENHOR dos exércitos! Toda a terra está cheia de sua glória!” (Isaías 6:3). A segunda parte do livro desenvolve a transcendência contra a idolatria: o ídolo é fabricado e firmado para que “não se mova” (Isaías 40:20), ao passo que o Santo pergunta “a quem, pois, me comparareis?” e, ao mesmo tempo, chama cada estrela pelo nome (40:25-26). Nem “o céu dos céus” pode contê-lo (1 Reis 8:27).
2.3 Nele vivemos
No Areópago, Paulo enfrentou ao mesmo tempo o divino espalhado no cosmos dos estoicos e os deuses distantes dos epicureus:
O Deus que fez o mundo, e todas as coisas que nele há; este, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos. E nem também é servido por mãos humanas; como que necessitasse de alguma coisa; porque ele é que dá a todos vida, respiração, e todas as coisas; […] Para que buscassem ao Senhor, se talvez pudessem apalpá-lo e encontrá-lo, apesar dele não estar longe de cada um de nós. Porque nele vivemos, e nos movemos, e somos; assim como também alguns de vossos poetas disseram; porque também nós somos descendência dele.
Atos 17:24-25, 27-28
O discurso começa pela transcendência (Deus não habita em templos nem necessita de nada) e chega à imanência (nele vivemos). Paulo cita o poeta estoico Arato, mas dá à citação um sentido que o estoicismo não tinha: estamos “nele” como criaturas que dependem do Criador, e não como partes de um todo divino. O Novo Testamento atribui essa ação sustentadora ao Filho, em quem “todas as coisas se mantêm” (Colossenses 1:17; o grego synestēken indica o que mantém algo coeso) e que “sustenta todas as coisas pela palavra de poder” (Hebreus 1:3). Se Deus recolhesse o seu fôlego, “toda carne juntamente expiraria” (Jó 34:14-15), e nem um pardal cai em terra “contra a vontade de vosso Pai” (Mateus 10:29).
2.4 Emanuel
A imanência de Deus alcança o seu ponto mais alto na encarnação. “E aquela Palavra se fez carne, e habitou entre nós” (João 1:14): o verbo eskēnōsen, “armou a sua tenda”, lembra o tabernáculo e a šekînâ. O Filho é “Emanuel, que traduzido é: Deus conosco” (Mateus 1:23), e o Espírito faz dos que creem o seu templo (1 Coríntios 3:16). Há “um só Deus, e Pai de todos, que é acima de todos, por meio de todos, e em todos” (Efésios 4:6), e a relação entre o Pai acima de nós, o Filho conosco e o Espírito em nós será o tema da lição 18.
3. Desenvolvimento histórico
3.1 Dos Pais da Igreja à Reforma
Os Pais conheciam tanto o divino imanente dos estoicos quanto o Deus remoto do platonismo, que precisava de intermediários para tocar a matéria. Atanásio afirmou que o Verbo, mesmo encarnado, não ficou encerrado no corpo, mas continuava em todas as coisas e, ao mesmo tempo, fora de todas elas (Sobre a encarnação do Verbo, 17). Agostinho confessou que Deus era “mais íntimo do que o meu íntimo e mais alto do que o que há de mais alto em mim” (Confissões, III, 6, 11), e a frase contém as duas verdades. Tomás de Aquino explicou que Deus está nas criaturas não como parte da sua essência, mas como o agente está naquilo sobre o que age, “por essência, por presença e por potência” (Suma teológica, I, q. 8, a. 1 e 3). Calvino recusou fazer de Deus um “criador momentâneo”, que tivesse terminado a sua obra e a deixasse correr sozinha (Institutas, I, 16, 1). Nisso arminianos e calvinistas estão de acordo; a divergência, que veremos adiante, diz respeito ao modo da ação de Deus sobre as criaturas livres.
3.2 Armínio
Armínio, acusado em vida de diminuir a soberania de Deus, afirmou a providência com uma amplitude que surpreende quem só o conhece pela caricatura. Na Declaração de Sentimentos (1608), definiu-a como a “inspeção e supervisão de Deus, solícita, contínua e universalmente presente”, afirmou que nada no mundo acontece “fortuitamente ou por acaso” e pôs sob a providência até as ações das criaturas racionais, com uma única cautela: não concluir daí que Deus é a causa do pecado (ver a tradução da Declaração no site). Na carta a Hipólito a Collibus repetiu que a providência “está presente em todas as coisas, e as preside”, sem excetuar “nenhuma coisa particular, terrena, vil nem contingente” (As obras de Armínio, vol. 2). A imanência de Deus é, para Armínio, total; o que ele recusa é que essa presença anule a contingência das criaturas.
3.3 O deísmo e a resposta de Wesley
O deísmo nasceu na Inglaterra do século XVII, com Lord Herbert de Cherbury, e floresceu com John Toland e Matthew Tindal. A sua religião natural se reduzia a poucos artigos: a existência de Deus, a imortalidade da alma e a retribuição futura (Stanley Grenz e Roger Olson, A teologia do século 20, cap. 1). Deixou a imagem do relojoeiro que deu corda no universo e foi cuidar de outra coisa; nesse modelo, observa McGrath, “Deus não age no mundo” (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 9).
Wesley viveu no auge desse movimento e o combateu. Maddox mostra que ele recusou a tendência deísta de separar a criação de Deus como uma máquina autônoma, porque as leis da natureza eram apenas a descrição do modo como Deus ordinariamente sustenta o mundo (Responsible Grace, cap. 2); no seu dicionário, Wesley definiu o deísmo, de forma seca, como “negar a Bíblia” (cap. 1, nota 29). No sermão Sobre a onipresença de Deus (1788), argumentou que Deus age em toda parte e, portanto, está em toda parte, porque nenhum ser pode agir onde não está. E no Sermão 23 (Sobre o Sermão do Monte, III, I, 11) pediu que víssemos “o Criador no espelho de cada criatura”, advertindo que considerar qualquer coisa como separada de Deus é “uma espécie de ateísmo prático”. É o deísmo mais comum nas nossas igrejas: o de quem não nega Deus com a boca e vive como se ele não existisse (lição 15).
3.4 Os séculos XIX e XX: o pêndulo
Grenz e Olson contaram a teologia moderna como um pêndulo entre as duas verdades e advertiram que “uma ênfase excessiva na transcendência pode levar a uma teologia que é irrelevante para o contexto cultural que ela deseja alcançar, enquanto uma ênfase exagerada na imanência pode produzir uma teologia presa a uma determinada cultura” (introdução). O século XIX pendeu para a imanência: Schleiermacher fez da religião o “sentimento de absoluta dependência”, com traços panenteístas, e Hegel chegou a escrever que “sem o mundo, Deus não é Deus” (cap. 2). Depois da Primeira Guerra, o pêndulo voltou: Rudolf Otto descreveu Deus como “o totalmente outro” (O sagrado, 1917), e Karl Barth falou da “diferença qualitativa infinita” entre Deus e o ser humano (Carta aos Romanos, 1922). Na segunda metade do século, a teologia do processo de Whitehead, Hartshorne e Cobb fez de Deus e do mundo realidades interdependentes: Deus age apenas por persuasão e, como nós, “conhece o futuro apenas como uma possibilidade, nunca como uma realidade” (cap. 4). McGrath conclui que, aí, a transcendência fica reduzida a “pouco mais do que o fato de Deus sobreviver e superar às demais entidades” (cap. 9). Moltmann, em Deus na criação (1985), adotou o panenteísmo, e no Brasil Leonardo Boff fez o mesmo nas suas obras de ecoteologia.
3.5 A teologia wesleyana e o Brasil
A teologia wesleyana sistemática, de Richard Watson e William Burt Pope a H. Orton Wiley, expôs a doutrina de Deus diante desses desvios e manteve o teísmo clássico: um Deus pessoal, distinto do mundo, livre em relação a ele e presente em cada parte dele. Entre nós, Langston deu à questão a forma de uma comparação com o cafeeiro: se o mundo inteiro se enchesse de pés de café, a vida da planta não se esgotaria, porque “a vida do cafeeiro é muito maior do que a vida de um cafeeiro”, e assim Deus é muito maior que o universo em que habita (Esboço, 2.4).
Na igreja brasileira, as duas tentações têm rosto conhecido. O deísmo aparece no cristianismo nominal, que fala de Deus “lá em cima” e organiza a vida sem ele. O panteísmo aparece na espiritualidade da “energia do universo”, que chega aos púlpitos quando a fé se reduz a pensamento positivo. E há uma forma brasileira de perder a transcendência, que é domesticar Deus à nossa cultura: o dito “Deus é brasileiro” diz, sem perceber, o que Jeremias denunciava, um Deus apenas de perto, a serviço dos nossos interesses.
4. A transcendência de Deus sobre o tempo: a presciência
4.1 O testemunho bíblico
Se Deus transcende o espaço, transcende também o tempo, e conhece o futuro com a mesma certeza com que conhece o passado. Em Isaías, essa capacidade é prova da divindade do Senhor contra os ídolos:
Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; porque eu sou Deus, e nenhum outro deus há, e ninguém há semelhante a mim, que declaro o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não aconteceram; que digo: Minha intenção será firme, e farei toda a minha vontade.
Os ídolos são desafiados justamente aí: “anunciai as coisas que ainda virão, para que saibamos que vós sois deuses” (Isaías 41:23). Antes de haver “palavra alguma” na língua do salmista, Deus já sabia tudo (Salmos 139:4). O conhecimento divino alcança ações livres e até pecaminosas: Jesus anunciou a Pedro que, “antes do galo cantar”, o negaria três vezes (Mateus 26:34), e Cristo foi entregue “pelo determinado conselho e conhecimento prévio de Deus” e crucificado “pelas mãos de injustos” (Atos 2:23). O grego prognōsis, “conhecimento prévio”, corresponde ao latim praescientia, de que vem “presciência”; a sua relação com a eleição (1 Pedro 1:2) é tema da lição 19.
4.2 Conhecer não é causar
A objeção mais antiga é a de que, se Deus sabe hoje o que farei amanhã, não posso fazer outra coisa. A tradição respondeu cedo. Orígenes argumentou que quem prediz um acontecimento não é a causa dele, porque o acontecimento futuro é que é a causa da predição (Contra Celso, II, 20), e Agostinho sustentou contra Cícero que podemos afirmar ao mesmo tempo a presciência de Deus e a liberdade da vontade (A cidade de Deus, V, 9-10).
Armínio formulou a distinção com rigor escolástico. O conhecimento divino é “certo e infalível”, até “em coisas futuras e contingentes”, mas essa infalibilidade “depende da infinidade da essência de Deus, e não da sua vontade imutável”; por isso, “isto não impõe nenhuma necessidade às coisas; antes, estabelece nelas contingência”, e a presciência “não é a causa das coisas” (Debates privados, XVII, 5, 7 e 12). Wesley disse o mesmo como pregador: Deus vê tudo “por meio de um único e eterno agora”, de modo que, falando com rigor, não há nele “nem presciência, nem pós-ciência”, e só fala de presciência porque “desce à nossa capacidade” (Sermão 58, Sobre a predestinação, §15); não devemos pensar que as coisas são porque Deus as conhece, mas que ele as conhece porque elas são (§5). Don Thorsen resume: a presciência, para Wesley, “não é conhecimento causativo” (Calvin vs. Wesley, cap. 3). Langston lembra que prever a queda de quem serra o galho em que está sentado não é causar a queda (Esboço, 2.2). Richard Watson deu à resposta a forma técnica que Wiley conservou: o argumento fatalista confunde a certeza de um acontecimento com a sua necessidade. O que Deus sabe que acontecerá acontecerá certamente, mas não necessariamente, porque poderia ter sido de outro modo, e nesse caso Deus o saberia de outro modo.
4.3 O teísmo aberto e por que o rejeitamos
No fim do século XX, um grupo de teólogos evangélicos propôs o teísmo aberto, que ganhou nome com The Openness of God (1994), de Clark Pinnock, Richard Rice, John Sanders, William Hasker e David Basinger, e se difundiu com Gregory Boyd. Pela sua própria autocompreensão, o teísmo aberto não nega a onisciência: Deus conhece tudo o que pode ser conhecido, mas as decisões livres futuras ainda não existem e, por isso, não seriam objeto de conhecimento. Os seus defensores apelam para os textos em que Deus parece aprender (“já conheço que temes a Deus”, Gênesis 22:12), arrepender-se (Gênesis 6:6) ou mudar de planos (Jeremias 18:7-10), e querem assegurar a realidade da relação entre Deus e as criaturas, o sentido da oração e a inocência de Deus diante do mal.
A ideia tinha precedentes em Fausto Socino, no século XVI, e no metodista Lorenzo McCabe, no século XIX, e encontra na teologia do processo a sua forma filosófica mais acabada. Não é, porém, a posição arminiana. Armínio, Wesley, Watson e Wiley afirmaram a presciência exaustiva, e até Charles Finney, que este curso usa apenas como contraste, escreveu que tudo o que será “foi eternamente conhecido por Deus”, pois de outro modo “Deus não seria nem infinito, e nem onisciente” (Teologia sistemática, aula 30). Maddox registra que Wesley rejeitou expressamente a hipótese de que Deus tivesse escolhido não conhecer o futuro, e por razões exegéticas (Atos 15:18); o próprio Maddox sugere que Wesley talvez aceitasse um “Deus que se autolimita” e remete ao livro de Rice (Responsible Grace, cap. 2, nota 33). Com respeito ao intérprete, ficamos com a razão de Wesley. O Manual de teologia arminiana de Flávyo Henrique Costa Santos chama uma presciência “gradual” e um futuro tido por “construção ainda indefinida” de “caminhos muito ruins” (cap. 6).
As razões da recusa são quatro. Em primeiro lugar, a Escritura apresenta o conhecimento do futuro, inclusive das decisões livres, como marca do Deus verdadeiro contra os ídolos, e as profecias cumpridas por meio de ações livres, da negação de Pedro à entrega de Cristo, ficariam sem explicação. Em segundo lugar, os textos sobre o “arrependimento” ou a “descoberta” de Deus pertencem à linguagem pela qual ele fala de si “à maneira dos homens”, como dizia Wesley; vimos na lição 16 que descrevem a reação coerente de um Deus imutavelmente santo diante da mudança da criatura, e o mesmo livro que diz que Deus “se arrependeu” afirma que ele “não é homem para que se arrependa” (1 Samuel 15:29). Em terceiro lugar, ao fazer o conhecimento de Deus crescer com o tempo, o teísmo aberto coloca Deus dentro da história como mais um participante dela e compromete a transcendência; a sua proximidade com a teologia do processo não é coincidência. Em quarto lugar, as promessas de Deus perderiam a firmeza, porque um Deus que não sabe o que as criaturas farão não pode garantir que a sua palavra se cumprirá.
Em suma, o teísmo aberto resolve um problema que o arminianismo não tem. Ele parte do pressuposto, partilhado com o determinismo, de que conhecer o futuro equivale a fixá-lo; a tradição arminiana nega esse pressuposto e pode afirmar ao mesmo tempo a presciência exaustiva e a liberdade da criatura libertada pela graça. Ver também A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano e o estudo completo sobre a graça preveniente em Armínio.
5. A posição arminiana clássica e wesleyana
5.1 Afirmações
Em primeiro lugar, Deus é transcendente: distinto do mundo no seu ser, livre em relação a ele, incompreensível na sua grandeza e separado de todo mal na sua santidade. Em segundo lugar, Deus é imanente: presente com todo o seu ser em cada parte da criação, que conserva, acompanha e governa, de modo que nada acontece por acaso. Em terceiro lugar, as duas verdades não se opõem, porque é justamente por ser transcendente que Deus pode estar presente em toda parte sem se confundir com nada. Em quarto lugar, a transcendência sobre o tempo implica a presciência exaustiva de todo o futuro, inclusive das decisões livres, e essa presciência não é causa do que conhece. Por fim, a imanência de Deus culmina na encarnação do Filho e na habitação do Espírito.
5.2 Comparação com outras tradições
A teologia católica definiu no Concílio Vaticano I (Dei Filius, 1870) que Deus é “real e essencialmente distinto do mundo” e condenou o panteísmo, patrimônio que partilhamos. A teologia ortodoxa guarda o equilíbrio pela distinção de Gregório Palamas entre a essência de Deus, inacessível, e as energias pelas quais ele se comunica; a distinção não é nossa, mas a preocupação é comum. A tradição reformada afirma as duas verdades com o mesmo vigor, e Vincent Cheung escreve que os dois atributos “não contradizem nem diminuem um ao outro” (Teologia sistemática, cap. 3). A divergência está no fundamento da presciência: Cheung, levando ao extremo a leitura reformada, faz dela “uma forma do autoconhecimento de Deus”, um conhecimento “dos seus próprios planos” (cap. 6, “Eleitos”), de modo que Deus conhece o futuro porque o determinou. Armínio respondeu de antemão que a infalibilidade do conhecimento divino depende da infinidade da essência de Deus, e não da sua vontade (lição 19).
A tradição pentecostal recuperou para muitas igrejas brasileiras o sentido da presença do Espírito, e o seu risco é tratar essa presença como algo à disposição do fiel. Finney oferece outro contraste: afirmou a presciência, mas explicou a regeneração apenas como “persuasão moral divina” (Teologia sistemática, aula 18) e, coerente com a sua negação da depravação, reduziu a ação de Deus na alma a uma influência de fora, como a de um orador sobre o auditório. A tradição wesleyana, ao contrário, crê que o Espírito age no íntimo da pessoa antes de qualquer resposta dela.
5.3 Imanência não é graça preveniente
A presença de Deus em toda a criação, pela qual ele “dá a todos vida, respiração, e todas as coisas” (Atos 17:25), não se confunde com a graça preveniente. A imanência pertence à doutrina da criação e da providência e alcança tudo o que existe, das estrelas aos pardais. A graça preveniente pertence à doutrina da salvação: é graça sobrenatural, dada depois da queda por causa de Cristo, obra pessoal do Espírito Santo, que ilumina, convence e liberta a vontade perdida para que a pessoa possa crer. Seria semipelagiano dizer que todos, pelo simples fato de existirem em Deus, têm a capacidade natural de buscá-lo; Wesley fazia questão de dizer que a consciência “não é natural”, mas graça preveniente (Sermão 85). O mesmo Deus que está perto de cada um de nós na criação se aproxima do pecador em Cristo, com uma graça que o pecador não tinha nem poderia produzir (lição 36).
6. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, as duas verdades nos chamam à reverência e à confiança. “Deus está nos céus, e tu estás na terra; por isso, que tuas palavras sejam poucas” (Eclesiastes 5:2): a transcendência corrige a familiaridade descuidada de cultos em que Deus é tratado como parceiro de negócios, e a imanência corrige a frieza de uma religião que reverencia um Deus que nunca se aproxima.
Em segundo lugar, chamam-nos à oração. Oramos ao Deus de perto, que ouve, e ao Deus de longe, que pode atender. A presciência não torna a oração inútil, porque o Deus que conhece todo o futuro conhece desde sempre as orações do seu povo e as incluiu no governo do mundo.
Em terceiro lugar, chamam-nos ao consolo. Não há abismo nem escuridão em que estejamos fora do alcance de Deus (Salmos 139:7-12), e nenhum dos nossos dias o surpreende.
Em quarto lugar, chamam-nos a uma relação justa com a criação. Porque a natureza não é Deus, não lhe prestamos culto, e a idolatria consiste em servir “à criatura mais do que ao Criador” (Romanos 1:25); porque Deus a sustenta e se alegra nela, não a tratamos como depósito de recursos sem dono.
Por fim, chamam-nos à santidade cotidiana e a uma missão equilibrada. Ver o Criador no espelho de cada criatura inclui o trabalho, a mesa e a família, e a igreja que guarda as duas verdades não se torna irrelevante para o povo nem refém da cultura, a exemplo do Deus que se fez carne e entrou na nossa história sem se confundir com ela.
Voltemos à varanda do interior. O violeiro não é a música, e por isso ninguém o adora quando a moda termina; a música, porém, não dura um compasso sem a mão dele sobre as cordas. Nós sabemos mais do que a comparação pode dizer, porque o Deus que sustenta o mundo veio habitar entre nós e nos chama pelo nome. Que o Senhor nos livre do Deus distante do deísmo e do deus difuso das “energias”, e nos conceda viver sob as duas verdades ao mesmo tempo: tremendo diante da majestade do Santo e, no instante seguinte, descansando no cuidado de um Pai que nunca esteve longe de nenhum de nós.
Síntese
- A transcendência é a superioridade e a distinção de Deus em relação a toda a criação; a imanência é a sua presença e atividade em toda a criação. Nenhuma das duas é espacial, e a Escritura afirma as duas juntas.
- Transcendência sem imanência produz o deísmo; imanência sem transcendência produz o panteísmo; o panenteísmo, ao tornar o mundo necessário a Deus, compromete a liberdade da criação.
- A perda de uma das duas verdades provoca reações que caem no extremo oposto; Armínio afirmou uma providência universal, e Wesley combateu o deísmo do seu tempo.
- A presciência exaustiva é a transcendência de Deus em relação ao tempo: Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, e esse conhecimento é certo, mas não é causa do que conhece.
- A tradição arminiana clássica rejeita o teísmo aberto, porque contraria o testemunho bíblico sobre o futuro livre, lê literalmente a linguagem antropopática e compromete a transcendência de Deus e a firmeza das suas promessas.
- A imanência de Deus na criação não se confunde com a graça preveniente, que é graça sobrenatural, dada em Cristo pelo Espírito, e que liberta a vontade para crer.
Questões para revisão
- Defina transcendência e imanência e explique por que nenhuma das duas é espacial.
- Distinga deísmo, panteísmo e panenteísmo e explique a fórmula de Langston.
- Como Jeremias 23:23-24, Isaías 57:15 e Atos 17:24-28 articulam as duas verdades?
- Como Wesley respondeu ao deísmo, e o que queria dizer com “ateísmo prático”?
- Por que, segundo Armínio, a presciência não impõe necessidade às coisas? Qual é a diferença entre certeza e necessidade?
- Apresente o teísmo aberto pela sua própria autocompreensão e as razões pelas quais a tradição arminiana clássica o rejeita.
- Por que a imanência de Deus não deve ser confundida com a graça preveniente?
- Que formas de deísmo prático e de panteísmo difuso você identifica na igreja brasileira?
Bibliografia
- AGOSTINHO. Confissões; A cidade de Deus. ATANÁSIO. Sobre a encarnação do Verbo. ORÍGENES. Contra Celso. TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica, I. CALVINO, João. As Institutas, I.
- ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- GRENZ, Stanley J.; OLSON, Roger E. A teologia do século 20: Deus e o mundo numa era de transição. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
- LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP.
- MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
- McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
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- Para contraste: FINNEY, Charles G. Teologia sistemática; CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática.
Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 16: Os atributos de Deus: grandeza e bondade. Próxima: Lição 18: A Trindade.
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