AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

TeologiaArminianismo4 de 22

A Soberania de Deus e o Livre-Arbítrio Humano (Parte 1)

Diego Gonçalvesatualizado 24 min de leitura4.653 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Eu planejava escrever sobre a graça de Deus, mas decidi primeiro discutir a soberania de Deus e o livre-arbítrio humano. É um equívoco pensar que os calvinistas acreditam apenas na soberania de Deus enquanto os arminianos acreditam no livre-arbítrio, mas com soberania limitada. Isso não é correto. Ambas as posições acreditam na soberania e no livre-arbítrio*, embora signifiquem coisas diferentes com esses termos. Acredito que analisar isso ajudará a entender melhor o papel da graça de Deus. Mas primeiro, quero olhar brevemente para a onisciência de Deus em relação ao futuro. Como Deus pode conhecer o futuro?

* Os calvinistas argumentam que o homem possui livre agência (ou livre-arbítrio cativo), pois o livre-arbítrio em seu sentido amplo, na visão calvinista, sugere uma capacidade irrealista de escolher livremente Deus sem influência do pecado, enquanto a livre agência reconhece a liberdade dentro das limitações da natureza humana caída.

Retrato a óleo de Jacobus Armínio, de barba e vestes escuras de professor, sobre fundo escuro
Hieronymus van der Mij, a partir de Michiel van Mierevelt, Retrato de Jacobus Armínio, século XVIII. Óleo sobre madeira, Universidade de Leiden. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Deus e o Futuro

Um dos atributos de Deus comum a todas as teologias cristãs ortodoxas é sua onisciência. Deus sabe de tudo, não apenas no presente e no passado, mas também no futuro. Deus sabia, antes de começar a criar o universo, exatamente o que eu faria durante minha vida. Mas como Ele conhece um futuro que ainda não aconteceu? Vejamos brevemente três alternativas.

1ª alternativa: Calvinismo e Determinismo

O calvinista acredita que Deus conhece o futuro porque Ele o decretou. O determinismo é inerente à soberania de Deus segundo o calvinismo; a ideia de que nada acontece sem a direção específica de Deus. Assim, porque Deus determinou o futuro, Ele pode conhecê-lo. Acredito que é justo afirmar que essa era a compreensão de Calvino e de muitos outros. Muitos calvinistas, porém, recusam o rótulo de determinismo, que associam ao fatalismo, e preferem falar do decreto de Deus e de uma liberdade compatível com ele.

2ª alternativa: Arminianismo e Livre-Arbítrio

O arminiano acredita que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, sem que esse conhecimento as cause. Wesley explicava isso dizendo que Deus está fora do tempo e vê de uma vez o passado, o presente e o futuro (Sermão 58); Armínio usava também a noção de ciência média. Os arminianos acreditam que grande parte do futuro é decretada por Deus, mas deixam espaço para as ações de livre-arbítrio da humanidade, com Deus não violando a liberdade que deu às suas criaturas. Deus conhece todas as escolhas possíveis que eu poderia fazer, bem como quais eu realmente farei, e planeja de acordo.

3ª alternativa: Teísmo Aberto e Onisciência Limitada

O teísmo aberto ensina que Deus não conhece o futuro exaustivamente: não pode saber quais escolhas a humanidade fará e precisa esperar até que ajam para conhecer a ação. Isso ocorre principalmente porque o futuro ainda não existe. Então, como Deus poderia conhecê-lo? Esse ensino limita a onisciência de Deus e o torna falível em seus tratos com a humanidade. É possível que Ele nos direcione de uma certa maneira, mas depois descubra que, devido às ações de outros, sua orientação estava equivocada. Às vezes isso é identificado como arminianismo, mas não é.

Calvinismo

  • Deus conhece o futuro porque o decretou
  • Soberania entendida como determinação de tudo
  • Muitos calvinistas afirmam uma liberdade compatível com o decreto

Arminianismo

  • Deus conhece todo o futuro sem causá-lo
  • Decreta muito, mas não viola a liberdade que deu
  • Conhece as escolhas possíveis e as reais, e planeja de acordo

Teísmo aberto

  • Deus não conhece o futuro de modo exaustivo
  • O futuro ainda não existe para ser conhecido
  • Limita a onisciência e torna Deus falível
Como Deus conhece o futuro? Três respostas

Soberania e Livre-Arbítrio no Calvinismo, de uma Perspectiva Arminiana

Como mencionado acima, a soberania para o calvinista envolve determinismo. Nada acontece em toda a criação sem o decreto de Deus. Todo evento no mundo natural, bem como cada ação do homem, acontece sob a direção de Deus. Então, onde entra o livre-arbítrio humano nisso? Os calvinistas defendem o que chamam de livre-arbítrio compatibilista, ou livre-agência que é compatível com o determinismo. Isso significa que Deus me fez de tal maneira que eu escolho livremente fazer o que Ele quer que eu faça. No entanto, como não posso escolher de outra forma, isso dificilmente parece ser livre-arbítrio.

Deus é Responsável pelo Nosso Pecado?

Porque Deus determina especificamente tudo o que acontecerá, parece que Ele também é responsável por tudo, incluindo o pecado. A maioria dos calvinistas tenta se distanciar da ideia de que Deus causa o pecado. Mas acredito que é uma consequência inevitável do determinismo.

A resposta deles à questão do pecado é difícil de seguir, mas é algo assim: o homem é totalmente depravado e incapaz de fazer qualquer bem sem a graça de Deus. Deus não força as pessoas a pecar. Mas, desde a queda em Adão, elas pecam por vontade própria, e Deus, no seu decreto, as deixa nesse estado (o que eles chamam de preterição). Portanto, a responsabilidade por seu pecado é inteiramente delas, e não de Deus. Essencialmente, isso soa para o arminiano como Deus nos dizendo para pegar uma bola em sua mão. Depois, Ele a segura tão alto que não podemos alcançá-la e nos culpa por não conseguir.

Visões Diferentes da Predestinação

Talvez a questão mais significativa em relação ao determinismo seja a visão calvinista da predestinação. Para o calvinista, a predestinação diz respeito à salvação. Nesta visão, Deus predestinou algumas pessoas para a salvação, mas não outras. A predestinação dos eleitos por Deus não é baseada em nada que possam fazer. Em vez disso, Deus, em sua sabedoria divina e maneiras insondáveis, simplesmente os escolheu. As confissões reformadas afirmam que Deus elege uns e deixa os outros, condenando-os pelo seu pecado. Muitos calvinistas rejeitam a ideia de uma reprovação simétrica à eleição, mas, na minha opinião, é isso que sua compreensão de predestinação implica, quer chamem assim ou não.

Para o arminiano, isso soa como Deus deixando sem remédio pessoas que poderia salvar e condenando-as por um pecado do qual só Ele poderia livrá-las. O calvinista responde que elas são condenadas “pelo seu pecado” (Confissão de Westminster 3.7), mas a dificuldade permanece. Isso as torna responsáveis por algo que eram incapazes de alcançar por conta própria, algo que Ele poderia dar a elas, mas cujo meio retém.

Muitos arminianos veem no determinismo divino o risco de fazer de Deus um mestre de marionetes. Ele puxaria os cordões da humanidade e tornaria Deus responsável por tudo o que acontece na criação, incluindo o pecado e o mal. É difícil ver um Deus amoroso e misericordioso nisso.

Soberania e Livre-Arbítrio no Arminianismo

Armínio rejeitou essa visão de soberania, não por um desejo de livre-arbítrio, mas por entender que ela atingia o caráter de Deus. Como reconciliar um Deus santo, justo e amoroso com um que é o autor do pecado? Um que responsabiliza a humanidade por algo que ela não pode evitar. O livre-arbítrio humano, em vez de estar no centro do arminianismo, é uma maneira de transferir a responsabilidade pelo pecado de Deus para a humanidade. Porque a humanidade é responsável por seu próprio pecado, Deus pode punir justamente o pecado sem prejudicar sua santidade.

Uma Alta Visão da Soberania

Contrariamente à opinião popular nos círculos calvinistas, o arminianismo tem uma alta visão da soberania de Deus. De certa forma, até mais alta que a dos calvinistas. Para o arminiano, a soberania de Deus significa que nada acontece no universo que Deus não permita. Na verdade, muito, se não a maioria, do que acontece é decretado por Deus. Mas acreditamos que Deus deu ao homem um livre-arbítrio limitado, embora corrompido pela queda. Uma vontade capaz de fazer escolhas reais.

Nossa depravação nos impede de escolher crer em Cristo. Mas somos capazes de escolher livremente a cor da camisa que vamos usar, o que vamos comer no jantar, para onde vamos nas férias ou com quem vamos nos casar. No entanto, não importa quais escolhas façamos, Deus as conhecia antes da criação. E Ele trabalha através delas para realizar seu propósito na criação. Para o arminiano, Deus permite o pecado, mas não o decreta. Mas mesmo ao permitir o pecado, Ele o usa para realizar seu propósito. Deus também previne o mal gratuito se o bem não puder resultar disso.

O que Queremos Dizer com Livre-Arbítrio

Muito da confusão neste debate vem de usarmos a mesma palavra para coisas diferentes. Quando digo que a depravação nos impede de crer em Cristo, mas não de escolher a cor da camisa, estou distinguindo duas liberdades, e por isso é útil dar nome a cada uma.

Vontade, arbítrio e liberdade

A expressão “livre-arbítrio” traduz o latim liberum arbitrium, que vem da filosofia estoica e entrou na teologia ocidental com Tertuliano (Alister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, “As doutrinas da natureza humana, do pecado e da graça”). Armínio define o arbítrio como a faculdade da mente pela qual ela julga o que lhe é proposto e observa que a liberdade, embora seja propriedade do arbítrio, “tem raízes na compreensão e na razão” (Disputas públicas XI, 1, em As obras de Armínio, vol. 1). Ou seja, a vontade é a faculdade de querer; o arbítrio é a vontade enquanto decide; a liberdade é a qualidade dessa decisão.

Wesley acrescentou uma distinção útil: a vontade abrange as afeições, aquilo que amamos e desejamos, ao passo que a liberdade é a capacidade de pôr em prática ou de recusar esses desejos (Randy Maddox, Responsible Grace, cap. 3). Por isso ele dizia ter não só a “liberdade de contradição”, o poder de fazer ou não fazer, mas também a “liberdade de contrariedade”, o poder de agir de um modo ou do modo contrário (sermão Que é o homem?, 11, em Coletânea da teologia de João Wesley).

As cinco espécies de liberdade

Armínio deu o passo decisivo para a clareza do debate ao distinguir cinco espécies de liberdade (Disputas públicas XI, 1-2). Em primeiro lugar, a liberdade de toda jurisdição; em segundo, a liberdade do governo de um superior. Essas duas pertencem só a Deus. Em terceiro lugar, a liberdade da necessidade, seja a que vem de fora, seja a de uma natureza que determina tudo absolutamente. Essa pertence sempre ao ser humano, porque “não pode haver qualquer vontade, se não for livre” nesse sentido. Em quarto lugar, a liberdade do pecado e do seu domínio. Por fim, a liberdade da miséria, que Adão tinha antes da queda e que voltará aos redimidos na glória.

A controvérsia está na quarta. Quando o arminiano clássico diz que o pecador perdeu o livre-arbítrio, fala da liberdade para o bem espiritual, e não da faculdade de querer; e, quando diz que a vontade continua livre de coação, não está dizendo que ela continua livre para Deus. É isso que está por trás do exemplo da camisa e do jantar: a terceira liberdade continua conosco, e a quarta só a graça devolve.

Os estados da vontade

Agostinho distinguiu a primeira liberdade, a de Adão no paraíso, que era “poder não pecar” (posse non peccare), da última, “muito maior”, que será “não poder pecar” (non posse peccare) (Da correção e da graça, 33). Daí a teologia posterior, inclusive a Confissão de Westminster (IX, 2-5), tirou quatro estados da vontade: inocência, queda, graça e glória. Armínio fala de três, o da inocência primitiva, o da corrupção e o da justiça renovada pela graça de Cristo (Disputas públicas XI, 3), e lembra que, mesmo antes da queda, Adão não podia realizar o bem “senão mediante o auxílio da graça divina” (Declaração de Sentimentos, III). Ou seja, nem no paraíso a vontade humana fazia o bem sem a graça.

Compatibilismo e liberdade libertária

Mencionei acima o livre-arbítrio compatibilista dos calvinistas. A filosofia contemporânea chama de compatibilismo a tese de que a liberdade é compatível com a determinação: somos livres quando fazemos o que queremos, ainda que o nosso querer tenha sido determinado. Na leitura que R. C. Sproul faz de Jonathan Edwards, “a vontade sempre escolhe de acordo com sua mais forte inclinação do momento”, de modo que “toda escolha é livre e toda escolha é determinada” (citado em Flávyo Henrique Costa Santos, Manual de teologia arminiana, cap. 4). A liberdade libertária é o poder de escolha contrária: nas mesmas circunstâncias, a pessoa poderia ter escolhido outra coisa.

O Manual lembra que, quanto à salvação, essa capacidade “só é possível através da manifestação da graça de Deus” (cap. 4), e Roger Olson acrescenta que o livre-arbítrio arminiano não é “a absoluta liberdade da indiferença”, mas liberdade situada, “sob a influência da natureza caída do homem, assim como do Espírito de Deus” (Teologia arminiana: mitos e realidades, citado no Manual). Nesse sentido, a tradição arminiana é libertária quanto à resposta à graça, mas não atribui à natureza caída nenhuma liberdade para o bem.

Predestinação e Livre-Arbítrio na Soteriologia Arminiana

Os arminianos também acreditam em uma forma de predestinação. Mas, em vez de ser por um decreto incondicional, Deus predestina com base em sua presciência de quem responderá à sua oferta de graça. A predestinação, em vez de determinar a salvação, diz respeito àqueles que são salvos. Todos os que aceitam a oferta de graça de Deus são predestinados a serem conformes à imagem de Cristo. Aqueles que resistem à sua graça enfrentam a condenação. Não porque Deus queira que sejam condenados, mas porque escolheram rejeitar a oferta de salvação de Deus.

Em contraste com o livre-arbítrio compatibilista (livre-agência) do calvinismo, os arminianos acreditam numa liberdade real de escolha (libertária): a capacidade de fazer escolhas diferentes das que realmente fiz. Diante de Deus, porém, essa liberdade só existe como vontade libertada pela graça. O livre-arbítrio humano é totalmente depravado e totalmente incapaz de fazer qualquer coisa que agrade a Deus. Sem a atuação da graça de Deus, não posso agradá-lo. E nisso estamos de acordo com os calvinistas. Mas Deus, por causa de Cristo, dá a cada um de nós uma medida de graça que vem antes de qualquer resposta nossa, a graça preveniente: ela desperta a consciência e nos torna capazes de fazer o bem e de responder a Ele. Por causa dessa graça, que não é capacidade natural, mas dom sobrenatural, podemos ser justamente responsabilizados por nossos pecados. Embora eu seja totalmente corrupto, a graça de Deus me capacita a fazer boas escolhas morais, e por isso não tenho desculpa.

Visões Contrastantes da Soberania

A visão calvinista da soberania é ‘soberania por decreto’. O calvinista recusa a imagem do mestre de marionetes, porque afirma que o decreto não violenta a vontade das criaturas (Confissão de Westminster 3.1); para o arminiano, porém, é difícil ver como esse decreto difere disso na prática.

A visão arminiana é mais a de um ‘maestro soberano’. Deus é como um maestro de orquestra que trabalha para harmonizar a música de cada músico em sua visão. Cada membro da orquestra é independente e contribui com suas próprias notas. Mas o maestro tem um plano que está realizando. E ele trabalha para juntar todas as partes díspares em um todo magnífico. Ao maestro humano não é garantido o sucesso; Deus, porém, não falhará: seu plano será bem-sucedido.

Mas por quê?

Então, por que o Deus soberano concederia à humanidade a capacidade de fazer escolhas livres em vez de simplesmente direcionar todos os nossos assuntos? Acredito que isso está relacionado ao seu propósito na criação. Por que Ele criou o universo? Acredito que foi para produzir a igreja. Em Apocalipse 21, vemos um novo céu e uma nova terra criados. E no centro desta nova criação está Jerusalém, a Noiva de Cristo, a Igreja.

Acredito que Deus está usando a criação atual como um lugar não apenas para produzir a igreja, mas também para desenvolvê-la para o que está por vir. O desenvolvimento de nosso caráter agora é importante. E que melhor maneira de fazer isso do que nos permitir fazer escolhas, incluindo erros? De certa forma, somos como crianças agora. O que seremos ainda não é conhecido. Mas acredito que Deus nos criou para um propósito especial. E, como um Pai amoroso, Ele está nos guiando ao longo do caminho. Que melhor maneira de nos moldar do que nos permitindo fazer escolhas em vez de simplesmente sermos programados? Realmente tenho dificuldade em entender o propósito de um universo determinista. Por que Deus não poderia simplesmente pular essa fase, acelerar a programação e começar seus eleitos na nova criação?

O Propósito de Deus

Nada que aconteceu na história do universo foi uma surpresa para Deus. Ele sabia, antes de nos criar, que rejeitaríamos seu senhorio e seguiríamos nosso próprio caminho. Seu plano de redenção não foi uma tentativa de nos reconquistar depois que frustramos seu plano. Era o plano desde o início (1 Pedro 1:18-20). Deus quer que aqueles que respondam a Ele o façam com fé (Hebreus 11:6), não porque sejam obrigados.

Por conta própria, somos incapazes de responder com fé. Mas a graça de Deus permite que a humanidade se submeta a Deus ou continue a resistir a Ele. É pela fé, capacitada pela graça, que podemos entrar em um relacionamento com Deus. Esse relacionamento continuará pelo resto da eternidade. Deus criou a humanidade com livre-arbítrio por uma razão; Ele quer que escolhamos livremente servi-lo e amá-lo, bem como desenvolver a maturidade. E acredito que o exercício de nossas vontades agora, enquanto nos desenvolvemos, está nos preparando para a eternidade e sua tarefa para nós lá.

Até aqui tratamos da soberania de Deus, da sua presciência, da predestinação e do sentido da expressão livre-arbítrio. Na Parte 2, veremos como a Escritura descreve a vontade presa pelo pecado e libertada pela graça, como a igreja pensou essa questão de Pelágio e Agostinho até os herdeiros de Wesley e o que essa doutrina muda na vida cristã.

Referências Bíblicas

  • “Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus.” – Salmo 90:2
  • “Pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou poderes ou governantes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste.” – Colossenses 1:16-17
  • “Grande é o nosso Senhor e poderoso em força; não há limite para o seu entendimento.” – Salmo 147:5
  • “Nada em toda a criação está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descoberto e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos de prestar contas.” – Hebreus 4:13
  • “Jesus olhou para eles e disse: ‘Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis.’” – Mateus 19:26
  • “Tua, Senhor, é a grandeza e o poder e a glória e a majestade e o esplendor, pois tudo o que há nos céus e na terra é teu. Teu, Senhor, é o reino; tu estás acima de tudo. A riqueza e a honra vêm de ti; tu dominas sobre todas as coisas. Em tuas mãos estão a força e o poder para exaltar e dar força a todos.” – 1 Crônicas 29:11-12
  • “Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado.” – Jó 42:2
  • “O Senhor faz tudo o que lhe agrada, nos céus e na terra, nos mares e em todas as suas profundezas.” – Salmo 135:6
  • “Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade, a fim de que nós, os que primeiro esperamos em Cristo, sejamos para o louvor da sua glória.” – Efésios 1:11-12
  • “O Senhor faz tudo com um propósito; até os ímpios para o dia do castigo.” – Provérbios 16:4
  • “Pois aqueles que Deus de antemão conheceu, ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou.” – Romanos 8:29-30
  • “E o Senhor Deus ordenou ao homem: ‘Você é livre para comer de qualquer árvore do jardim; mas não deve comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque quando dela comer, certamente você morrerá.’” – Gênesis 2:16-17
  • “O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como alguns julgam. Em vez disso, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.” – 2 Pedro 3:9
  • “Consequentemente, quem se rebela contra a autoridade está se rebelando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trarão condenação sobre si mesmos.” – Romanos 13:2
  • “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele mesmo providenciará um escape, para que o possam suportar.” – 1 Coríntios 10:13

Citações

“Eu digo então que, embora todas as coisas sejam ordenadas pelo conselho e arranjo certo de Deus, para nós, no entanto, elas são fortuitas, — não porque imaginamos que a Fortuna governa o mundo e a humanidade, e vira todas as coisas de cabeça para baixo ao acaso (que pensamento sem coração esteja longe de todo coração cristão); mas como a ordem, método, fim e necessidade dos eventos, estão, em sua maior parte, escondidos no conselho de Deus, embora seja certo que são produzidos pela vontade de Deus, eles têm a aparência de serem fortuitos, sendo essa a forma sob a qual se apresentam a nós, seja considerada em sua própria natureza, seja estimada de acordo com nosso conhecimento e julgamento. Suponhamos, por exemplo, que um comerciante, depois de entrar em uma floresta na companhia de indivíduos confiáveis, se afasta imprudentemente de seus companheiros e se perde até cair em um covil de ladrões e ser assassinado. Sua morte não só foi prevista pelo olho de Deus, mas também foi fixada por seu decreto.”

– João Calvino, Institutas da Religião Cristã 1.16.9

“Se certas palavras e formas de expressão não são empregadas nelas, que são capazes de ser entendidas de maneiras diferentes e fornecem ocasião para disputas. Assim, por exemplo, no Artigo 14 da Confissão [Holandesa], lemos as seguintes palavras, ‘nada é feito sem a ordenação de Deus’; se pela palavra ‘ordenação’ se significa ‘que Deus designa coisas de qualquer tipo para serem feitas,’ esse modo de enunciação é errôneo, e segue-se como consequência dele, que Deus é o autor do pecado. Mas se significa ‘que, seja o que for que seja feito, Deus ordena para um bom fim,’ os termos em que é concebido são, nesse caso, corretos.” – Jacob Arminius, Declaração de Sentimentos X.4

“A compreensão de Deus é uma faculdade de sua vida, que é a primeira em natureza e em ordem, e pela qual Ele entende distintamente todas as coisas e tudo o que agora tem, terá, teve, pode ter, ou poderia hipoteticamente ter, qualquer tipo de ser; pela qual Ele também entende distintamente a ordem que todas e cada uma delas possuem entre si, as conexões e as várias relações que têm ou podem ter; não excluindo nem mesmo aquela entidade que pertence à razão, e que existe, ou pode existir, apenas na mente, imaginação e enunciação.”

– Jacob Arminius, Disputa Pública 4 Sobre a Natureza de Deus

“Embora a compreensão de Deus seja certa e infalível, não impõe qualquer necessidade às coisas, pelo contrário, estabelece nelas uma contingência. Pois, sendo uma compreensão não apenas da coisa em si, mas também de seu modo, deve conhecer a coisa e seu modo tal como ambos são; e, portanto, se o modo da coisa é contingente, Ele o conhecerá como contingente; o que não pode ser feito, se esse modo da coisa for alterado em um necessário, mesmo unicamente pela razão da compreensão divina.”

– Jacob Arminius, Disputa Pública 4 Sobre a Natureza de Deus

“E, primeiro, olhemos para toda a obra de Deus na salvação do homem; considerando-a desde o início, o primeiro ponto, até que termine na glória. O primeiro ponto é a presciência de Deus. Deus previu aqueles em cada nação que creriam, desde o início do mundo até a consumação de todas as coisas. Mas, para lançar luz sobre essa questão obscura, deve-se observar bem que, quando falamos da presciência de Deus, não falamos de acordo com a natureza das coisas, mas à maneira dos homens. Pois, se falarmos propriamente, não há tal coisa como presciência ou pós-ciência em Deus. Todo o tempo, ou melhor, toda a eternidade, (para os filhos dos homens,) estando presente a Ele de uma vez, Ele não conhece uma coisa de um ponto de vista de eternidade a eternidade. Como todo o tempo, com tudo o que nele existe, está presente com Ele de uma vez, assim Ele vê de uma vez, tudo o que foi, é ou será, até o fim dos tempos. Mas observe: Não devemos pensar que são porque Ele os conhece. Não: Ele os conhece porque são. Assim como eu (se me for permitido comparar as coisas dos homens com as coisas profundas de Deus) agora sei que o sol brilha: No entanto, o sol não brilha porque eu sei, mas eu sei porque ele brilha. Meu conhecimento pressupõe que o sol brilha; mas não causa isso de forma alguma. Da mesma forma, Deus sabe que o homem peca; pois Ele sabe todas as coisas: No entanto, não pecamos porque Ele sabe, mas Ele sabe porque pecamos; e seu conhecimento pressupõe nosso pecado, mas não o causa de forma alguma. Em uma palavra, Deus, olhando para todas as eras, desde a criação até a consumação, como um momento, e vendo de uma vez o que está nos corações de todos os filhos dos homens, conhece cada um que crê ou não, em cada era ou nação. No entanto, o que Ele conhece, seja fé ou descrença, não é causado de forma alguma pelo seu conhecimento. Os homens são tão livres em crer ou não crer como se Ele não soubesse de forma alguma.”

– John Wesley, Sermão 58 – Sobre a Predestinação

Para estudar em grupo

  1. Quais são as cinco espécies de liberdade que Armínio distingue, e qual delas está no centro da controvérsia?
  2. Qual é a diferença entre compatibilismo e liberdade libertária, e em que sentido a tradição arminiana é libertária?

Sobre as fontes

Sou grato à Sociedade dos Arminianos Evangélicos por este esboço e vou utilizar muitos de seus recursos. Também usarei “Teologia Arminiana: Mitos e Realidades” de Roger Olson e “Cristianismo Clássico: Uma Teologia Sistemática” de Thomas Oden, os “Cinco Artigos da Remonstrância”, alguns “sermões de John Wesley, e obviamente, “As Obras de Jacó Armínio” como recursos para este estudo.

Os dados completos de algumas das obras citadas nesta primeira parte são estes:

  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Disputas públicas XI; Apologia contra os 31 artigos).
  • ARMÍNIO, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608).
  • Confissão de Fé de Westminster.
  • MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
  • McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
  • SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
  • WESLEY, John. Sermões A graça livre, Sobre operar a própria salvação e Que é o homem?; Atas de 1745; Pensamentos sobre a necessidade (1774); em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.

140pal/min