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Por que John Wesley rejeitou o calvinismo?
Calvino e Wesley segundo Don Thorsen: Deus, Escritura, graça, santidade e Igreja
Quão wesleyano um calvinista pode ser? O wesleyano é mais arminiano ou mais calvinista?
Você já se pegou no meio daquele debate teológico que parece não ter fim, sobre livre-arbítrio, predestinação, de quem é a culpa se algo dá errado? Boa parte da ala protestante se divide, ainda hoje, entre duas grandes maneiras de enxergar Deus e a vida com Ele. De um lado, a tradição que bebe da fonte de João Calvino. Do outro, a que se inspira em Jacó Armínio. Aqui, porém, vamos incluir um terceiro sujeito no debate: John Wesley.
Para isso, vamos usar como guia o trabalho do teólogo Don Thorsen, que escreveu um livro chamado Calvino versus Wesley. A tese central de Thorsen não é cravar quem está certo. É mostrar uma realidade curiosa que ele identificou: muita gente que se diz calvinista convicta, na prática do dia a dia, vive a fé de um jeito muito mais wesleyano. Para entender isso, precisamos olhar para o que esses dois gigantes da história da Igreja realmente pensavam: as ênfases, as cores que cada um usou para pintar o quadro do Evangelho.
Dois gigantes e uma semelhança surpreendente
Antes de apontar as diferenças, precisamos de um choque de realidade. Vivemos numa época de debates acalorados na internet, em que às vezes um lado cria uma caricatura do outro só para derrubar o espantalho. O autor do livro, mesmo sendo declaradamente wesleyano, faz questão de tirar o chapéu para Calvino. Ele mostra uma reverência genuína pelo reformador de Genebra, e isso é sinal de maturidade teológica.
Calvino (1509–1564) e Wesley (1703–1791) viveram com quase dois séculos de distância, mas tinham muito mais em comum do que imaginamos. Ambos eram filhos da Reforma Protestante. Ambos criam que a salvação é pela graça, por meio da fé. Ambos tinham a Bíblia como autoridade máxima. Wesley foi amigo de George Whitefield, um dos maiores pregadores calvinistas da história. Eles discordavam teologicamente? Sim, e muito: romperam publicamente em 1741 por causa da predestinação. Mas se reconciliaram, continuaram a trabalhar na obra de Deus, e foi Wesley quem pregou no funeral de Whitefield, em 1770.
A grande questão, segundo Thorsen, não é que um negue tudo o que o outro afirma. A diferença mora na ênfase, no tempero que cada um colocou no prato. Calvino nos deixou um sistema teológico robusto, quase uma engenharia da fé, nas Institutas da Religião Cristã. Wesley era mais um homem do campo prático. Ele não estava tão preocupado em montar o quebra-cabeça perfeito da lógica divina, mas em fazer a fé funcionar na vida real das pessoas.
Qual é a face de Deus?
Vamos começar do começo: quem é Deus? Para Calvino, a resposta começava e terminava com uma palavra: soberania. Deus não é um rei que só assiste ao jogo do camarote; Ele governa os lances. A providência, na visão de Calvino, não é uma mera permissão do que vai acontecer. É o governo ativo de Deus sobre cada átomo do universo. Tudo o que acontece, até o que chamamos de acaso, é a vontade de Deus se cumprindo.
Wesley também cria que Deus é soberano, e jamais negaria isso. Ele escreveu que, como Criador, Deus agiu em todas as coisas de acordo com a sua vontade soberana. Mas aí vem a diferença crucial. Wesley distinguia Deus agindo como Criador e Deus agindo como Governador de criaturas morais. Foi da vontade soberana de Deus criar o ser humano com uma liberdade real, para que pudesse amá-lo de volta, ou não. Essa liberdade não diminui a soberania de Deus: é a própria soberania que a estabelece, e nada acontece fora do conhecimento e do governo dele.
E qual o motivo disso? O amor. Para Wesley, todos os atributos de Deus, até mesmo o poder e a justiça, são regidos pelo seu amor. Se você perguntasse a Wesley qual é a essência de Deus, ele responderia sem pestanejar: amor. Já para Calvino, a ênfase estava na glória e na majestade de Deus, que se manifestam em seus decretos.
Veja como isso afeta a prática da fé. Quem enfatiza que tudo já está fixado no decreto eterno de Deus tende a viver a oração de um jeito diferente de quem enfatiza um Deus que escolheu dialogar e esperar uma resposta de amor. (É justo lembrar que o calvinismo histórico rejeita a ideia de um Deus que manipula fantoches: a Confissão de Westminster diz que o decreto de Deus não faz violência à vontade das criaturas.) Thorsen argumenta que, na vivência da igreja, a maioria de nós age como se as nossas escolhas importassem para Deus, e essa lógica está muito mais alinhada com a ênfase prática de Wesley.
Sola Scriptura ou quadrilátero wesleyano?
Tudo bem, Deus é amor. Mas como eu sei disso? Aqui entramos no território da autoridade. Os dois concordam que a Bíblia é a regra suprema de fé e prática. Ambos fincaram a bandeira do sola Scriptura, “somente a Escritura”.
Calvino foi um mestre nisso. Ele desenvolveu uma leitura da Bíblia que buscava o sentido natural, histórico e literal do texto, sem caçar significados ocultos ou alegorias mirabolantes: ler o que está escrito, no contexto. Esse método está na base do que a maioria das igrejas sérias usa hoje. E Calvino insistia que é o testemunho interno do Espírito Santo que nos convence de que a Escritura é Palavra de Deus.
Wesley dava um passo além na hora de interpretar e aplicar essa Bíblia. A Escritura é primária, sim, mas Deus nos deu outras ferramentas para entendê-la. É o que hoje chamamos de quadrilátero wesleyano (o nome foi dado pelo estudioso metodista Albert Outler, no século XX). Imagine um banco de quatro pernas. A perna principal, a mais grossa, que sustenta tudo, é a Bíblia. Mas o banco fica mais firme com as outras três.
- A tradição: o que a Igreja aprendeu e confessou ao longo de dois mil anos. Não podemos ignorar os pais da Igreja.
- A razão: Wesley dizia que renunciar à razão é renunciar à religião. Uma fé que manda você desligar o cérebro é uma fé falsa.
- A experiência: a fé não é só concordar com uma lista de doutrinas. É conhecer o amor de Deus de forma pessoal, o testemunho do Espírito de que somos filhos de Deus (Romanos 8:16).
As três pernas não estão no mesmo nível da Escritura: elas ajudam a entendê-la e a vivê-la, e são julgadas por ela. Calvino também valorizava os pais da Igreja e a piedade, mas a sua ênfase recaía no que a Palavra ensina. Wesley queria saber, além disso, como a Palavra funciona na vida da pessoa comum. Essa abertura para a experiência e a razão torna a abordagem wesleyana mais intuitiva para o crente que luta para encaixar os dramas da vida numa teologia muito rígida.
Livre agência ou vontade libertada?
Agora a coisa fica mais delicada. Vamos falar da graça e da capacidade humana de responder a Deus.
Calvino ensinava que a graça que regenera é eficaz: por causa do pecado, o ser humano está espiritualmente morto, e um morto não consegue responder a nada. Logo, se Deus quer salvar alguém, Ele o regenera, lhe dá vida, e essa pessoa inevitavelmente vai responder com fé. Os calvinistas posteriores, a partir do Sínodo de Dort (1618–1619), chamaram isso de graça irresistível. E, dentro dessa lógica, se Deus escolheu uns, não escolheu outros. É a doutrina da eleição incondicional e da predestinação. Calvino dizia que querer sondar o porquê é se atormentar à toa, pois é um segredo de Deus.
Wesley olhava para isso e dizia: isso não bate com o Deus de amor que vejo em Jesus. Ele cria firmemente na graça preveniente. “Preveniente” vem de prevenir, no sentido antigo de “chegar antes”. Antes de você sequer pensar em Deus, a graça dele já estava lá, agindo sobre a ferida do pecado original, restaurando a sua capacidade de ouvir, de entender, de querer. É como se Deus desse um remédio a toda a humanidade por causa da cruz de Cristo. Esse remédio não salva automaticamente, mas acorda do coma espiritual.
E aqui está um ponto muito importante. Wesley não gostava muito do termo “livre-arbítrio”. Ele preferia falar em “graça livre”. Por quê? Porque sabia que, sem a intervenção divina, a nossa vontade está escravizada pelo pecado. Não temos liberdade natural para escolher Deus. Mas, pela graça preveniente, Deus restaura em cada pessoa uma medida de capacidade de resposta. Os estudiosos wesleyanos chamam isso de “vontade libertada”. Não é que você, por si mesmo, tenha poder para decidir. É que Deus, na sua graça, liberta a sua vontade o suficiente para que você possa, genuinamente, dizer sim ou não ao convite do Evangelho. Nas palavras do próprio Wesley, há “uma medida de livre-arbítrio sobrenaturalmente restaurada a cada homem”. Note: sobrenaturalmente restaurada. Vem de Deus, não de nós. A obra da salvação é de Deus do começo ao fim; a fé não é mérito, é a mão vazia que recebe.
Para Wesley, a presciência de Deus, o fato de Ele saber quem vai crer, não é a causa da salvação. Deus conhece todo o futuro, mas esse conhecimento não força o futuro. Ele nos quer filhos na aliança, não robôs programados para amar.
Aqui está o cerne da diferença prática. No sistema calvinista, a segurança da salvação repousa na firmeza do decreto de Deus. No sistema wesleyano, repousa na fidelidade do caráter amoroso de Deus, e pede de nós uma resposta contínua, um andar diário na graça, que é ela mesma sustentada pela graça.
Mortificação ou vivificação?
Como é a vida cristã depois da conversão? Aqui as diferenças ficam muito nítidas no dia a dia.
Calvino descrevia o arrependimento como duas partes: a mortificação, morrer para o pecado, e a vivificação, viver para Deus (Institutas III.3). Mas o peso da sua pregação caía sobre a batalha constante para matar o pecado que ainda habita em nós. Ele via as provações e o sofrimento como ferramentas que o próprio Deus usa para nos manter humildes, quebrantados e dependentes, e não esperava que o crente chegasse, nesta vida, a se ver livre do pecado que habita nele. É uma visão que, por vezes, pode parecer pesada.
Wesley, por outro lado, era um otimista da graça. Ele pregava a santidade de coração e vida. Olhava para textos como “sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16) e levava isso a sério. Ele cria que, pela graça, é possível ter vitória sobre o pecado habitual, amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo. Ele chamava isso de perfeição cristã: não uma perfeição absoluta de nunca errar um cálculo ou esquecer um compromisso, mas uma perfeição no amor, uma pureza de intenção em que o coração está totalmente inclinado para Deus.
Enquanto o foco de Calvino estava em suportar a aflição que Deus ordenou para nos purificar, Wesley enfatizava os meios de graça: oração, ceia, leitura da Bíblia, jejum, visitar os enfermos. Para ele, eram canais pelos quais Deus derrama mais do seu amor na nossa vida, e quem os usa não é passivo, mas coopera com o Espírito Santo que já está agindo nele.
Thorsen nota que, na prática, a maioria das igrejas evangélicas incentiva os seus membros a buscarem ativamente o crescimento, a mudarem de comportamento e a buscarem os dons. Esse ativismo piedoso é herança direta da espiritualidade prática de Wesley.
A Igreja e o mundo
Por fim, vamos ver como essas teologias moldaram a visão de Igreja e de ministério.
Calvino tinha uma visão magisterial. Ele cria numa estreita cooperação entre Igreja e Estado: as leis civis deveriam proteger a verdadeira religião. A igreja verdadeira era conhecida pela pregação pura da Palavra e pela correta administração dos sacramentos. A ênfase estava na ortodoxia, a crença correta, e a estrutura era centrada no ofício pastoral ordenado, exclusivamente masculino.
Wesley, embora tenha permanecido anglicano até morrer, rompeu várias dessas barreiras na prática. A igreja não podia ser apenas um lugar onde se prega a doutrina certa. Tinha que ser um lugar onde se vive o amor certo, o que podemos chamar de ortocardia, e se pratica a ação certa, a ortopraxia. Para ele, era melhor ter um crente simples, cheio de amor, do que um teólogo brilhante cheio de orgulho.
Isso se desdobrou em duas áreas práticas:
- O ministério com os pobres. Wesley foi obcecado pela “santidade social”. Não adiantava cantar sobre o céu e fechar os olhos para o sofrimento ao redor.
- A participação de leigos e mulheres. Diante do avivamento, Wesley não tinha pastores ordenados suficientes. Então fez o que era impensável para a época: autorizou pregadores leigos e, a partir de 1771, reconheceu em mulheres como Sarah Crosby e Mary Bosanquet um “chamado extraordinário” para pregar. Ele via o fruto do Espírito na vida delas e a necessidade urgente da obra.
Wesley também cria que os dons do Espírito não tinham data de validade: se escassearam na história, dizia ele, foi porque o amor de muitos esfriou, não porque Deus os tivesse retirado. Enquanto a igreja calvinista histórica se concentrou na pureza doutrinária e na estrutura, o movimento wesleyano se concentrou na mobilidade missionária e no cuidado com o próximo.
Vivendo a tensão
Depois dessa viagem, com quem ficamos? Quem está certo? A provocação de Don Thorsen não é para escolhermos um lado e queimarmos os livros do outro. É perceber que vivemos numa tensão.
Calvino nos deu uma espinha dorsal teológica. Ele nos ensinou que Deus é Deus, e nós não somos. Ele nos deu uma reverência profunda pela soberania divina, que nos impede de cair num humanismo barato em que o homem é o centro de tudo. A sua teologia é um escudo contra o sentimentalismo vazio.
Wesley nos deu pernas para andar e mãos para servir. Ele nos lembrou que o Deus soberano é amor, e que esse amor não nos trata como peças de xadrez, mas como filhos e filhas chamados a participar da festa da salvação. A sua teologia é um remédio contra a frieza doutrinária que esquece o coração partido do mundo.
Como disse no começo, a tese central do livro é que, no varejo da vida, a maioria de nós ora como wesleyano. Oramos esperando que Deus ouça e responda, cremos que as nossas escolhas importam e que o amor vence o medo. Que possamos aprender com os dois: ter a profundidade de Calvino para entender as Escrituras e o calor de Wesley para vivê-las no amor a Deus e ao próximo.
Para ir mais fundo: Don Thorsen, Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice (Abingdon Press, 2013).
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