
TeologiaArminianismo3 de 24
Livre-arbítrio e graça: A vontade libertada
Neste texto
- Objetivos do estudo
- Introdução
- 1. Os termos e as distinções
- 1.1 Vontade, arbítrio e liberdade
- 1.2 As espécies de liberdade
- 1.3 Os estados da vontade
- 1.4 Compatibilismo e liberdade libertária
- 2. A fundamentação bíblica
- 2.1 O Deus que chama à escolha
- 2.2 A vontade escrava
- 2.3 A vontade libertada
- 2.4 A graça que pode ser recusada
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 Pelágio, Agostinho e Orange
- 3.2 Da Idade Média à Reforma
- 3.3 Armínio e os remonstrantes
- 3.4 Wesley e a controvérsia com o necessitarismo
- 3.5 A teologia wesleyano-arminiana e o Brasil
- 4. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 4.1 Afirmações
- 4.2 Contra Pelágio e contra Finney
- 4.3 Contra o determinismo
- 4.4 Nem autonomia nem marionete
- 4.5 As outras tradições
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Objetivos do estudo
- Definir vontade, arbítrio e liberdade, e distinguir as espécies de liberdade.
- Reunir o testemunho bíblico sobre a vontade escrava do pecado, a vontade libertada pela graça e a responsabilidade humana diante do chamado de Deus.
- Acompanhar o debate de Pelágio e Agostinho a Lutero e Calvino, e de Armínio e Wesley à teologia wesleyano-arminiana, inclusive no Brasil.
- Expor a posição arminiana clássica e wesleyana: a vontade caída é livre apenas para o mal, e a liberdade para o bem é dom da graça, dada a todos e resistível.
- Distinguir essa posição do pelagianismo e do semipelagianismo, de um lado, e do determinismo, de outro.
Introdução
Quem já criou passarinho conhece a cena. Abre-se a porta da gaiola para limpar o bebedouro, e o canário não sai; fica no poleiro, como se as grades continuassem ali. O problema não está só na porta, mas no próprio pássaro, que se acostumou à prisão a ponto de não desejar outra coisa. Jesus descreveu a condição humana com figura semelhante: “todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34).
A lição 26 mostrou que a corrupção herdada de Adão atinge a pessoa inteira, inclusive a vontade, e deixou para esto estudo a pergunta seguinte: se a vontade está presa, em que sentido o ser humano ainda é livre e responsável? Há duas saídas fáceis, e a teologia cristã recusou as duas. A primeira diz que a vontade nunca foi presa de fato, e que basta querer o bem para fazê-lo; é a saída de Pelágio. A segunda diz que a vontade nunca será livre de fato, porque tudo o que ela quer foi determinado antes dela; é a saída do determinismo. Entre uma e outra está a doutrina que Armínio e Wesley formularam: a vontade caída é livre apenas para o mal, e a liberdade para o bem é obra da graça, que a todos alcança e a ninguém violenta.
Este estudo fecha a segunda parte do curso. A lição 21 tratou da liberdade diante da providência; aqui o assunto é a vontade diante da salvação, e as operações da graça preveniente ficam para o estudo 36.
1. Os termos e as distinções
1.1 Vontade, arbítrio e liberdade
A expressão “livre-arbítrio” traduz o latim liberum arbitrium, que vem da filosofia estoica e entrou na teologia ocidental com Tertuliano (Alister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, “As doutrinas da natureza humana, do pecado e da graça”). Armínio define o arbítrio como a faculdade da mente pela qual ela julga o que lhe é proposto e observa que a liberdade, embora seja propriedade do arbítrio, “tem raízes na compreensão e na razão” (Disputas públicas XI, 1, em As obras de Armínio, vol. 1). A vontade é a faculdade de querer; o arbítrio é a vontade enquanto decide; a liberdade é a qualidade dessa decisão.
Wesley acrescentou uma distinção útil: a vontade abrange as afeições, aquilo que amamos e desejamos, ao passo que a liberdade é a capacidade de pôr em prática ou de recusar esses desejos (Randy Maddox, Responsible Grace, cap. 3). Por isso dizia ter não só a “liberdade de contradição”, o poder de fazer ou não fazer, mas também a “liberdade de contrariedade”, o poder de agir de um modo ou do modo contrário (sermão Que é o homem?, 11, em Coletânea da teologia de João Wesley).
1.2 As espécies de liberdade
O passo decisivo para a clareza do debate foi dado por Armínio, ao distinguir cinco espécies de liberdade (Disputas públicas XI, 1-2): a liberdade de toda jurisdição; a liberdade do governo de um superior; a liberdade da necessidade, seja a que vem de fora, seja a de uma natureza que determina tudo absolutamente; a liberdade do pecado e do seu domínio; e a liberdade da miséria. As duas primeiras pertencem só a Deus. A terceira pertence sempre ao ser humano, porque “não pode haver qualquer vontade, se não for livre” nesse sentido. A quinta pertencia a Adão antes da queda e voltará aos redimidos na glória. A controvérsia está na quarta.
Ou seja, quando o arminiano clássico diz que o pecador perdeu o livre-arbítrio, fala da liberdade para o bem espiritual, e não da faculdade de querer; e, quando diz que a vontade continua livre de coação, não está dizendo que ela continua livre para Deus.
1.3 Os estados da vontade
Agostinho distinguiu a primeira liberdade, a de Adão no paraíso, que era “poder não pecar” (posse non peccare), da última, “muito maior”, que será “não poder pecar” (non posse peccare) (Da correção e da graça, 33). Daí a teologia posterior, inclusive a Confissão de Westminster (IX, 2-5), tirou quatro estados: inocência, queda, graça e glória. Armínio fala de três estados, o da inocência primitiva, o da corrupção e o da justiça renovada pela graça de Cristo (Disputas públicas XI, 3), e lembra que, mesmo antes da queda, Adão não podia realizar o bem “senão mediante o auxílio da graça divina” (Declaração de Sentimentos, III).
1.4 Compatibilismo e liberdade libertária
A filosofia contemporânea chama de compatibilismo a tese de que a liberdade é compatível com a determinação: somos livres quando fazemos o que queremos, ainda que o nosso querer tenha sido determinado. Na leitura que R. C. Sproul faz de Jonathan Edwards, “a vontade sempre escolhe de acordo com sua mais forte inclinação do momento”, de modo que “toda escolha é livre e toda escolha é determinada” (citado em Flávyo Henrique Costa Santos, Manual de teologia arminiana, cap. 4). A liberdade libertária é o poder de escolha contrária: nas mesmas circunstâncias, a pessoa poderia ter escolhido outra coisa.
O Manual lembra que, quanto à salvação, essa capacidade “só é possível através da manifestação da graça de Deus” (cap. 4), e Roger Olson acrescenta que o livre-arbítrio arminiano não é “a absoluta liberdade da indiferença”, mas liberdade situada, “sob a influência da natureza caída do homem, assim como do Espírito de Deus” (Teologia arminiana: mitos e realidades, citado no Manual). Neste sentido, a tradição arminiana é libertária quanto à resposta à graça, mas não atribui à natureza caída nenhuma liberdade para o bem.
2. A fundamentação bíblica
2.1 O Deus que chama à escolha
A Escritura trata o ser humano como alguém de quem Deus espera resposta. A Caim, Deus diz: “o pecado está à porta; contra ti será o seu desejo, porém tu deves dominá-lo” (Gênesis 4:7). Moisés põe diante do povo a vida e a morte: “escolhe, pois, a vida” (Deuteronômio 30:19). E a Bíblia termina com um convite: “quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Apocalipse 22:17).
Esses textos não provam que o pecador tenha força natural para atender ao chamado; Pelágio os lia assim, e errou. Provam que o chamado é sincero e que a recusa é culpa de quem recusa. Jesus chorou sobre Jerusalém: “Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas; porém não quisestes!” (Mateus 23:37). Se tudo o que Jerusalém quis tivesse sido determinado pelo próprio Deus, o lamento perderia o sentido.
2.2 A vontade escrava
Ao mesmo tempo, a Escritura descreve a vontade humana como escrava. O texto central é o diálogo de Jesus com os judeus que tinham crido nele:
Dizia, pois, Jesus aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes em minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como, pois, dizes: Sereis livres? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo, que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. E o servo não fica em casa para sempre; o Filho fica para sempre. Portanto, se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.
Os ouvintes se julgavam livres, e Jesus muda o eixo da conversa: a escravidão que importa é a do pecado. Paulo desenvolve o mesmo raciocínio: “a quem vos apresentardes por servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis” (Romanos 6:16), e, “quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” (6:20). A liberdade do pecador é real, mas é a de quem só se move dentro da cela.
Paulo afirma que “a mentalidade da carne é inimizade contra Deus, pois não se sujeita à Lei de Deus, porque nem sequer pode” (Romanos 8:7) e que os opositores da verdade precisam que Deus lhes dê arrependimento, para que “se libertem da armadilha do diabo, em que foram presos à vontade dele” (2 Timóteo 2:26). E Jesus diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer” (João 6:44); “sem mim nada podeis fazer” (João 15:5).
2.3 A vontade libertada
A promessa da nova aliança é a cura da vontade: “tirarei de vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei meu Espírito dentro de vós, e farei com que andeis em meus estatutos” (Ezequiel 36:26-27). Paulo fala da liberdade como obra do Espírito: “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Coríntios 3:17). O texto que melhor reúne a obra de Deus e a resposta humana é este:
Portanto, meus amados, assim como sempre obedecestes, não somente na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir, conforme a sua boa vontade.
Paulo não divide a obra em duas metades, uma de Deus e outra nossa. Deus opera o querer e o agir, e justamente por isso os filipenses podem e devem exercer a sua salvação. A graça não substitui a vontade humana, mas a liberta e a põe em movimento.
2.4 A graça que pode ser recusada
Essa graça alcança todos: Cristo é “a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9), e “a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens” (Tito 2:11). E ela pode ser resistida: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51). O mesmo Jesus que disse “ninguém pode vir a mim” disse também: “não quereis vir a mim, para que tenhais vida” (João 5:40). O lado do “ninguém pode” impede o pelagianismo; o lado do “não quisestes” impede o determinismo. A doutrina da vontade libertada pela graça preveniente é a tentativa de guardar os dois.
3. Desenvolvimento histórico
3.1 Pelágio, Agostinho e Orange
Os Pais dos primeiros séculos defenderam a liberdade humana contra o fatalismo pagão e os gnósticos, como mostra o Manual de teologia arminiana (caps. 2 e 5), mas a distinção entre liberdade de escolha e liberdade para o bem só se tornou urgente com Pelágio.
McGrath explica a controvérsia com a imagem da balança. Para Pelágio, a vontade é uma balança em perfeito equilíbrio; daí a sua carta a Demetríade (413), que chama de “loucura” a queixa de quem diz que os mandamentos de Deus são difíceis demais para a fraqueza da carne. Para Agostinho, a balança continua funcionando, mas um peso foi posto no prato do mal, e ela pende sempre para esse lado. A vontade do pecador é um “livre-arbítrio cativo” (liberum arbitrium captivatum), e só a graça a torna um “livre-arbítrio libertado” (liberum arbitrium liberatum); a graça, longe de eliminar a liberdade, é o que a torna possível (McGrath, “As doutrinas da natureza humana, do pecado e da graça”). O Segundo Concílio de Orange (529) condenou a tese semipelagiana de que o início da fé vem da vontade humana, mas não afirmou a irresistibilidade da graça e rejeitou com anátema a predestinação para o mal. A tradição arminiana se reconhece nessas decisões.
3.2 Da Idade Média à Reforma
Em 1524, Erasmo de Roterdã definiu o livre-arbítrio como o poder da vontade pelo qual a pessoa pode aplicar-se ao que conduz à salvação ou afastar-se disso (Do livre-arbítrio). Lutero respondeu com Da vontade cativa (1525), comparando a vontade a um animal de carga que vai aonde Deus quer, se Deus o monta, e aonde Satanás quer, se Satanás o monta, sem escolher o cavaleiro (veja Liberdade e responsabilidade humana: O paradoxo de Lutero). Calvino distinguiu necessidade de coação: pode-se dizer que o homem tem livre-arbítrio “não porque tenha livre escolha igualmente do bem e do mal, mas porque faz o mal voluntariamente, e não por coação” (Institutas, II, 2, 7).
A Fórmula de Concórdia (1577) rejeitou o sinergismo dos discípulos de Melanchthon e comparou o homem não convertido, nas coisas espirituais, a um tronco ou a uma pedra (Declaração sólida, II). O Concílio de Trento (1547) declarou que o livre-arbítrio não se extinguiu, mas ficou “atenuado e enfraquecido”, e que, movido por Deus, coopera com a graça e pode recusá-la (sessão VI, cânones 4-5). O anabatista Balthasar Hubmaier já ensinava que a graça vem antes, liberta a vontade e pode ser recusada.
3.3 Armínio e os remonstrantes
O texto mais completo de Armínio sobre o assunto é o décimo primeiro dos debates públicos que presidiu em Leiden, Sobre o livre-arbítrio do homem e seus poderes. Ele descreve o estado da corrupção com uma força que nenhum calvinista superou:
Nesse estado, o livre-arbítrio do homem para o que é bom não somente está ferido, aleijado, enfermo, distorcido e enfraquecido; ele também está aprisionado, destruído e perdido. E seus poderes não estão somente debilitados e são inúteis (a menos que seja assistido pela graça), mas está totalmente privado de poder, exceto aqueles poderes dados pela graça divina.
Armínio, Disputas públicas XI, 7
Armínio percorre a mente escurecida (1 Coríntios 2:14), as afeições hostis a Deus (Romanos 8:7) e a capacidade de agir, impotente para o bem (João 6:44), e conclui, com João 8:36, que o livre-arbítrio “não é livre para o bem, a menos que seja libertado pelo Filho, por meio de seu Espírito” (XI, 11). Na justiça renovada, o Espírito dá nova luz, novas afeições e novos poderes, e o início, o progresso e a perseverança no bem “não vêm de nós mesmos, mas de Deus” (XI, 12-14).
A Declaração de Sentimentos (1608) diz o mesmo: no estado caído, o homem “não é capaz, por si mesmo e de si mesmo, nem de pensar, nem de querer, nem de fazer aquilo que é verdadeiramente bom”. Logo depois, Armínio atribui à graça “o início, a continuação e a consumação de todo bem” e reduz a controvérsia a uma pergunta: a graça de Deus é uma força irresistível? Os artigos terceiro e quarto da Remonstrância (1610) repetem essas palavras e acrescentam que, quanto ao modo, a graça “não é irresistível”.
Abner Hernández mostra que o centro da doutrina de Armínio é a graça, e não o livre-arbítrio, e que a libertação da vontade é a primeira operação da graça preveniente, obra do Espírito que precede qualquer resposta humana. A vontade, para ele, não estava apenas enfraquecida, à espera de auxílio, mas perdida, e precisou ser libertada (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius). O site expôs essa doutrina em A graça preveniente em Armínio: Um estudo completo.
3.4 Wesley e a controvérsia com o necessitarismo
Em 1754, Jonathan Edwards publicou A liberdade da vontade, em que a vontade segue sempre o motivo mais forte e o pecador tem a capacidade natural de fazer o que quer, mas não a capacidade moral de querer o bem. Ao ler o filósofo escocês Lorde Kames, Wesley perguntou no diário que bem faria convencer a humanidade de que somos “uma mera peça de relógio” (Diário, 23 de maio de 1774), e no mesmo ano escreveu Pensamentos sobre a necessidade, contra Kames e Edwards: se a vontade é impelida irresistivelmente, ninguém é culpado por ela, e “não pode haver bem ou mal moral, a menos que tenham liberdade, assim como vontade” (III, 7, citado por Don Thorsen, Calvin vs. Wesley, cap. 3).
Seria um erro, porém, fazer de Wesley um defensor do livre-arbítrio natural. Na conferência metodista de 1745, ele perguntou em que ponto os metodistas chegavam “à beira do calvinismo” e respondeu:
Em atribuir todo bem à livre graça de Deus; em negar todo livre-arbítrio natural e todo poder anterior à graça; e em excluir todo mérito do homem, mesmo pelo que ele tem ou faz pela graça de Deus.
Wesley, Atas de algumas conversações, 1º de agosto de 1745
Contra Richard Hill, escreveu que ele e John Fletcher “negam absolutamente o livre-arbítrio natural”, sustentam que a vontade humana é “por natureza livre apenas para o mal” e creem que “todo homem tem uma medida de livre-arbítrio que lhe foi restaurada pela graça” (Coletânea da teologia de João Wesley, “Livre-arbítrio”). Eis a fórmula wesleyana: a liberdade para o bem é graça restaurada, e não natureza remanescente. Maddox mostra que, para Wesley, a graça preveniente restaura em todos ao menos um grau mínimo de liberdade, e que a única alternativa seria a eleição incondicional com a graça irresistível (Responsible Grace, cap. 3).
Por isso Wesley preferia falar de “graça livre”, “livre em todos e para todos” (sermão A graça livre, 1739), a falar de “livre-arbítrio” (Thorsen, cap. 3). No sermão 85, Sobre operar a própria salvação, Wesley tira de Filipenses 2:12-13 duas conclusões: Deus opera, portanto podemos operar; Deus opera, portanto devemos operar (III, 3-7).
3.5 A teologia wesleyano-arminiana e o Brasil
Os Artigos de Religião que Wesley preparou em 1784, herança doutrinária do metodismo que chegou ao Brasil, dizem no artigo VIII:
A condição do homem depois da queda de Adão é tal que ele não pode converter-se nem preparar-se, por sua força natural e por suas obras, para a fé e a invocação de Deus; por isso, não temos poder para fazer boas obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem a graça de Deus por Cristo, que nos previne para que tenhamos boa vontade, e opera conosco quando temos essa boa vontade.
Artigos de Religião metodistas, art. VIII
Watson, Pope e Wiley conservaram a fórmula de Wesley: a liberdade para o bem espiritual é dom da graça preveniente, dado a todos por causa de Cristo (Theological Institutes; A Compendium of Christian Theology; Christian Theology, vol. 2).
No Brasil, o batista A. B. Langston rejeitou o fatalismo, o predeterminismo, o necessarianismo e o determinismo como “teorias errôneas” e lembrou que a liberdade se perde pelo mau uso: o fumante escravizado só escolhe a marca do cigarro; a liberdade ideal “só pode existir numa vida moralmente perfeita” (Esboço de teologia sistemática, “A doutrina do homem”, 7.3-7.4). O pentecostal Walter Brunelli insiste que o pecador, à luz de Romanos 7, “está debaixo de uma lei mais forte do que sua vontade”, e cita Thomas Oden: “Deus prepara a vontade e coopera com a vontade preparada” (Teologia para pentecostais, vol. 3).
Na pregação evangélica brasileira, porém, circula a frase de que “Deus é um cavalheiro” e não arromba a porta do coração (cf. Apocalipse 3:20). Ela guarda uma verdade, porque a graça não violenta a vontade, mas costuma sugerir um Deus parado do lado de fora, à espera de que o pecador tome a iniciativa. Para a teologia arminiana clássica, quem bate à porta já está agindo do lado de dentro: a batida é graça, a luz que mostra a porta é graça, e a mão que se levanta para abrir foi libertada pela graça.
4. A posição arminiana clássica e wesleyana
4.1 Afirmações
Em suma, cremos, em primeiro lugar, que Deus criou o ser humano com uma vontade verdadeiramente livre, mas dependente da graça já no estado de inocência. Em segundo lugar, que, pela queda, a vontade conservou a sua natureza de vontade, livre de coação, mas perdeu toda liberdade para o bem espiritual, de modo que o ser humano caído é por natureza livre apenas para o mal e não pode, por si mesmo, pensar, querer nem fazer o que é verdadeiramente bom, nem crer em Cristo. Em terceiro lugar, que Deus, por causa de Cristo, concede a todas as pessoas a graça preveniente, obra do Espírito Santo que ilumina a mente, desperta a consciência e liberta a vontade o bastante para que ela possa responder ao evangelho. Em quarto lugar, que essa graça não age como força irresistível: a vontade libertada pode crer, e pode também resistir. Por fim, que a fé não é mérito, porque recebe o que Deus dá, e que o início, o progresso e a consumação de todo bem pertencem a Deus.
4.2 Contra Pelágio e contra Finney
Essa posição se opõe ao pelagianismo, que nega a corrupção da vontade, e ao semipelagianismo, que reconhece a doença mas deixa ao ser humano o primeiro passo. Charles Finney, lido neste curso apenas como contraste, mostra onde passa a linha. Para ele, a “capacidade natural” de obedecer a Deus “é idêntica à liberdade da vontade” (Teologia sistemática, aula 20). Por isso, depois de descrever com exatidão a doutrina metodista da “capacidade da graça”, segundo a qual a humanidade perdeu em Adão todo poder de obedecer a Deus e o recebe de novo, por causa da expiação, pela influência do Espírito dada a todos, Finney conclui: “Esta doutrina de uma capacidade da graça é um absurdo” (aula 21). A recusa dele esclarece o que a teologia wesleyana afirma. Deus não ordena o impossível, mas o possível vem da graça, e não da natureza; o pecador é responsável porque a graça o alcançou, e não porque guardou uma força que a queda não teria tocado.
Pela mesma razão, quando se diz que no pecador resta “um arbítrio no íntimo”, como o próprio Manual chega a escrever (cap. 4), é preciso esclarecer, com Armínio, que o que resta é a faculdade de querer, livre de coação, e não um poder para o bem espiritual.
4.3 Contra o determinismo
Do outro lado está o determinismo. Vincent Cheung, também lido apenas como contraste, afirma que “o homem não tem livre arbítrio”, que “somente Deus possui livre arbítrio” e que Deus é “a causa definitiva e imediata” de todos os eventos, “sejam físicos ou mentais” (Teologia sistemática, seção sobre a eleição). A objeção arminiana é teológica. Se toda volição humana, inclusive a pecaminosa, é causada imediatamente por Deus, torna-se impossível explicar como ele não é autor do pecado.
Por justiça, a teologia reformada confessional não se reconhece nesse determinismo. A Confissão de Westminster afirma que a vontade humana tem uma liberdade natural que “não é forçada” (IX, 1), e os Cânones de Dort declaram que a graça da regeneração não age nos homens “como em troncos e pedras”, mas vivifica, cura e corrige a vontade, dobrando-a “suave e poderosamente” (III/IV, 16). A divergência entre arminianos e reformados não está em saber se a graça liberta a vontade, ponto em que concordamos, mas em saber se essa libertação é irresistível e dada só aos eleitos, ou resistível e oferecida a todos.
4.4 Nem autonomia nem marionete
A palavra “sinergismo”, de synergia, “trabalho conjunto”, sugere duas forças somadas e deve ser usada com cautela. Se for usada, que seja no sentido que Olson chama de sinergismo evangélico: toda a capacidade de crer vem da graça, e a pessoa não acrescenta nada à salvação, apenas deixa de resistir à graça que a liberta. Armínio ilustrou isso com o mendigo que estende a mão para receber a esmola: ninguém diria que a esmola deixou de ser presente porque foi recebida, e, no caso da fé, até a mão estendida é obra da graça (Apologia contra os 31 artigos, art. XXVII). A vontade libertada não é autônoma, porque não se libertou sozinha, nem marionete, porque responde de verdade e pode recusar.
4.5 As outras tradições
Ortodoxos e católicos falam de uma liberdade ferida ou enfraquecida, mas não destruída, que coopera com a graça, e a teologia católica liga essa cooperação a uma doutrina do mérito que os protestantes rejeitam. Luteranos e reformados afirmam a escravidão da vontade e a graça eficaz irresistível para os eleitos. A tradição arminiana e wesleyana concorda com eles quanto à escravidão da vontade e à exclusão de todo mérito, diverge da teologia católica e ortodoxa quanto a uma vontade apenas enfraquecida e diverge dos reformados quanto ao modo e ao alcance da graça que liberta. Entre os pentecostais brasileiros, a pregação é amplamente arminiana, e Brunelli afirma que a oportunidade da graça “é oferecida indistintamente a todos” (vol. 3).
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, a doutrina da vontade libertada orienta a evangelização. Pregamos a todos porque a graça alcança todos, e não porque contamos com uma força natural no ouvinte; por isso a pregação não depende de pressão emocional nem se cala por fatalismo. Paulo pede que se instrua “com mansidão aos que se opõem, pois talvez Deus lhes dê arrependimento” (2 Timóteo 2:25).
Em segundo lugar, ela ilumina o cuidado pastoral. Muitas pessoas chegam à igreja presas a vícios e ouvem que basta “decidir” mudar. A experiência delas confirma Romanos 7: “o querer está em mim; porém o fazer o bem, não” (7:18). A resposta cristã não é desprezar a vontade, mas anunciar o Filho que liberta e oferecer os meios de graça, a oração, as Escrituras, a Ceia e a comunhão dos irmãos, pelos quais a liberdade recebida cresce.
Em terceiro lugar, ela forma a vida cristã. Porque Deus opera em nós o querer e o agir, podemos e devemos exercer a nossa salvação com temor e tremor, e a liberdade recebida não é licença: “Somente não useis a liberdade como oportunidade para a carne; em vez disso, servi-vos uns aos outros pelo amor” (Gálatas 5:13).
Em quarto lugar, ela nos guarda do orgulho, porque até a mão que recebeu foi libertada por Deus, e do desespero, porque a graça que alcança quem ainda não crê é sincera. Isso vale para todos nós: “pela graça de Deus sou o que sou” (1 Coríntios 15:10).
Voltemos à gaiola. O canário que não sai pela porta aberta é um retrato honesto de cada um de nós, que aprendemos a amar as grades. Deus não se contentou em abrir a porta por fora; o seu Espírito entra na gaiola, desperta o desejo esquecido do céu e devolve às asas a força de voar, e, ainda assim, não arrasta ninguém para fora. “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Senhor, que nos chamaste quando ainda amávamos a nossa prisão, perdoa as vezes em que preferimos o poleiro conhecido à liberdade que nos ofereces; firma em nós a vontade que libertaste, para que não voltemos ao jugo da escravidão, e faze-nos usar a liberdade para servir uns aos outros em amor, por Jesus Cristo, o Filho que permanece para sempre na casa do Pai.
Síntese
- A vontade humana nunca deixa de ser vontade, livre de coação, mas, depois da queda, perdeu a liberdade do pecado e do seu domínio e é, por natureza, livre apenas para o mal.
- A Escritura afirma que ninguém pode vir a Cristo se o Pai não o trouxer e que muitos não quiseram vir; a doutrina da vontade libertada pela graça preveniente guarda as duas afirmações.
- Armínio descreveu o livre-arbítrio do pecador como “aprisionado, destruído e perdido” para o bem e atribuiu à graça o início, a continuação e a consumação de todo bem; a divergência com o calvinismo está no modo da graça, que ele julgava resistível.
- Wesley negou todo livre-arbítrio natural e afirmou que a todos é restaurada pela graça uma medida de liberdade; a responsabilidade humana se funda na graça, e não na natureza.
- A posição arminiana clássica rejeita tanto o pelagianismo e o semipelagianismo quanto o determinismo que faz de Deus a causa imediata de toda volição.
Questões para revisão
- Quais são as cinco espécies de liberdade distinguidas por Armínio, e qual delas está no centro da controvérsia?
- Explique a diferença entre compatibilismo e liberdade libertária, e em que sentido a tradição arminiana é libertária.
- Como João 8:31-36 e Romanos 6:16-20 descrevem a escravidão da vontade e a sua libertação?
- Compare a imagem da balança em Pelágio e em Agostinho, e explique as expressões liberum arbitrium captivatum e liberum arbitrium liberatum.
- Por que Wesley disse que os metodistas chegavam “à beira do calvinismo”, e em que ponto se afastavam dele?
- Por que a crítica de Finney à “capacidade da graça” revela a diferença entre a teologia wesleyana e o semipelagianismo?
- Que correções a teologia arminiana clássica faria à frase “Deus é um cavalheiro e não arromba a porta do coração”?
Bibliografia
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- ARMÍNIO, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608).
- A Remonstrância (1610).
- Artigos de Religião metodistas (1784); Cânones de Dort; Confissão de Fé de Westminster; Fórmula de Concórdia; Concílio de Trento, sessão VI.
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
- HERNÁNDEZ, Abner F. The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius. Tese (Doutorado). Berrien Springs: Andrews University, 2017.
- LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP, 1980.
- MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
- McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
- SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
- THORSEN, Don. Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice. Nashville: Abingdon, 2013.
- WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829; POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres, 1880; WILEY, H. Orton. Christian Theology. Vol. 2. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1941.
- WESLEY, John. Sermões A graça livre, Sobre operar a própria salvação e Que é o homem?; Atas de 1745; Pensamentos sobre a necessidade (1774); em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
- Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática, aulas 20 e 21.
- Arminianismo
- Teologia
- Livre-arbítrio