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TeologiaArminianismo1 de 22

Uma Introdução à Soteriologia Arminiana

Diego Gonçalvesatualizado 9 min de leitura1.631 palavras

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Neste texto

Este artigo é uma introdução à soteriologia arminiana, ou o estudo da salvação. É o primeiro de uma série de artigos e serve tanto como uma introdução quanto como um índice para os demais artigos da série.

O que é um arminiano?

Você é um arminiano? (Faça o teste para descobrir clicando aqui). Talvez sua primeira reação seja pensar nos armênios, um grupo étnico cuja terra natal está perto da Turquia. Embora os nomes soem parecidos, a grafia é diferente e são dois grupos totalmente distintos.

Gravura em moldura oval com o retrato de Jacobus Arminius, de barba, golilha branca e casaco de pele
Reinier Vinkeles, a partir de desenho de Jacobus Buys, Retrato de Jacobus Arminius, 1786. Rijksmuseum, Amsterdã. CC0, via Wikimedia Commons.

Você pode pensar que o arminianismo é qualquer coisa que não seja o calvinismo, ou que beira a heresia. Mas ambos estão errados. A soteriologia arminiana é frequentemente mal compreendida tanto por seus críticos quanto por seus defensores. E muito do que é rotulado como arminianismo é na verdade outra coisa.

O arminianismo não é um sistema teológico completo como o calvinismo. O arminianismo trata apenas da soteriologia, o estudo da salvação. Fora isso, é compatível com a teologia protestante em geral, inclusive a reformada, exceto nos aspectos soteriológicos.

Jacob Arminius

O arminianismo é um sistema de crença que surgiu da Reforma Protestante. Deriva dos ensinamentos de Jacob Arminius, um teólogo holandês que viveu de 1560 a 1609. Arminius foi educado na tradição reformada, ou calvinista.

Mas Arminius lutou com a doutrina calvinista da predestinação absoluta, a de que Deus, segundo Seus próprios propósitos, sem considerar quaisquer condições ou qualidades das pessoas afetadas, elegeu alguns para a salvação e, direta ou indiretamente, condenou o restante da humanidade à danação. Como resultado de seu estudo, ele rejeitou os ensinamentos calvinistas sobre a predestinação incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível.

Um equívoco comum é que o principal objetivo de Arminius era promover o livre-arbítrio humano. Mas isso não é verdade. Ele estava principalmente preocupado com a natureza de Deus. Ele via a soteriologia calvinista de sua época como diminuindo o amor de Deus e substituindo-o por um Deus que arbitrariamente escolhia salvar alguns e condenar outros. Afirmar que a graça é resistível punha a responsabilidade pelo pecado humano no homem, e não em Deus. E isso tornava possível uma oferta real de salvação a todos os que a recebessem pela fé, uma oferta que também poderia ser rejeitada.

Os Remonstrantes e John Wesley

Pouco depois da morte de Arminius, um grupo de seus seguidores produziu os Cinco Artigos da Remonstrância. Alguns anos depois, a Igreja Reformada Holandesa, no Sínodo de Dort, rotulou o arminianismo como herético e respondeu com os Cânones de Dort (1618-1619), em cinco capítulos, que muito depois foram resumidos no acrônimo inglês TULIP, do início do século 20.

Mas o arminianismo não morreu ali. John Wesley mais tarde defendeu os ensinamentos de Jacob Arminius. Hoje, muitos, se não a maioria, dos protestantes são pelo menos um pouco arminianos.

Arminianismo Mal Compreendido

Infelizmente, a maioria do que se lê ou se proclama sobre o arminianismo vem de fontes calvinistas que parecem não entender realmente o arminianismo. Muitas vezes isso acontece porque conheceram o arminianismo apenas pelo que dizem dele os seus críticos. Geralmente, associam-no incorretamente ao semipelagianismo.

O semipelagianismo afirma que o ser humano é capaz de dar, sem a graça, o primeiro passo da fé em direção a Deus. E, uma vez que isso acontece, Deus intervém para ajudar o crente a crescer por meio da graça. Isso foi identificado como heresia no Concílio de Orange, em 529.

Mas isso não é o que a soteriologia arminiana clássica (derivada dos ensinamentos de Arminius) ensina. É verdade, porém, que muitas pessoas, mesmo em igrejas evangélicas hoje, são na verdade semipelagianas. E muitas delas pensam que são arminianas, e preciso admitir que eu estava entre elas até recentemente. Sempre me considerei arminiano, ao menos no que diz respeito à soteriologia, porque sabia que não acreditava na maneira calvinista de entender a soberania, a predestinação e a eleição. No fundo, eu tomava o arminianismo como o simples oposto do calvinismo. Quando comecei a estudar o arminianismo de verdade, percebi que há muito mais do que isso.

Diferenças entre Calvinismo e Arminianismo

Jacob Arminius e John Wesley depois dele eram completamente protestantes. Eles diferiam da tradição reformada, ou calvinista, apenas em sua compreensão de como a graça opera para levar o homem à fé em Cristo.

Eles rejeitavam a doutrina calvinista da predestinação incondicional; que Deus escolhe salvar ou condenar a humanidade apenas com base em Sua própria escolha. Em vez disso, acreditavam na predestinação condicional, onde Deus escolhe salvar todos os que respondem a Ele com fé. Essa fé não nasce do livre-arbítrio natural, como no semipelagianismo: a graça de Deus capacita cada pessoa a responder, sem forçar uma resposta positiva.

Os outros três pontos de diferença derivam deste. A expiação limitada do calvinismo é substituída pela expiação universal. A expiação universal não significa que todos são salvos. Essa expiação é apenas aplicável àqueles que respondem com fé. Mas é disponibilizada a todas as pessoas, não apenas aos eleitos.

A graça irresistível do calvinismo, onde os eleitos não podem resistir à oferta de salvação de Deus, é rejeitada. Ela é substituída pela graça resistível, onde a oferta de salvação pode ser resistida.

E, finalmente, a possibilidade de cair da graça, que é rejeitada no calvinismo, é aceita pela maioria dos arminianos: Armínio deixou a questão em aberto, a Remonstrância (art. 5) pediu mais exame das Escrituras, e os remonstrantes posteriores e Wesley afirmaram a possibilidade da apostasia.

O que vem a seguir?

Este artigo abre uma série de posts que descreverão a soteriologia arminiana conforme ensinada por Jacob Arminius e John Wesley. O objetivo da série é duplo. Em primeiro lugar, quero compreender melhor a posição arminiana e ser capaz de descrevê-la. Em segundo lugar, quero responder a boa parte da desinformação que circula na internet sobre o que realmente constitui a soteriologia arminiana. Espero que isso sirva a quem quer saber o que o arminianismo de fato ensina.

Vou focar em seis ensinamentos específicos do arminianismo. Abaixo está o índice da série, com uma breve apresentação de cada texto:

  • Uma Introdução à Soteriologia Arminiana: este texto. Apresenta a origem do arminianismo na Reforma Protestante, nos ensinamentos de Jacob Arminius, e os pontos em que a sua soteriologia se separa do calvinismo.
  • 1. Depravação total da humanidade: Você pode se surpreender ao descobrir que o arminianismo e o calvinismo estão em total acordo sobre a doutrina da depravação total; eu sei que fiquei. Muitos pensam que a humanidade é bastante ruim, mas não tão ruim a ponto de não poder escolher aceitar a oferta de salvação de Deus. Essa é uma compreensão falsa da condição humana.
  • 2. Expiação ilimitada, Cristo morreu por toda a humanidade: João 3:16 deixa claro que Deus ama a todos no mundo, e não apenas a alguns poucos escolhidos, e que fez o necessário para prover a salvação daqueles que Ele amava. Deus deu Seu Filho para ser o sacrifício expiatório por todo o mundo (1 João 2:2), para provar a morte por todos (Hebreus 2:9).
  • 3. Soberania de Deus e livre-arbítrio (Parte 2): Muitos pensam que os calvinistas acreditam na soberania e não no livre-arbítrio, enquanto os arminianos acreditam no livre-arbítrio e numa soberania limitada. Na verdade, os dois acreditam em soberania e em livre-arbítrio, embora deem sentidos diferentes a esses termos. Investigar essa diferença ajuda a entender melhor o papel da graça de Deus.
  • 4. Somos capacitados a crer pela graça de Deus (Parte 2): A graça, ou favor, de Deus age em nossas vidas de várias maneiras. Ela nos capacita a crer, nos capacita a ser salvos, nos capacita a viver uma vida santa e piedosa e nos capacita a servir dentro da Sua igreja. Embora alguns falem de diferentes tipos de graça, como eu mesmo faço nesse texto, trata-se de diferentes maneiras de a mesma graça de Deus operar em nossas vidas, e não de tipos diferentes de graça.
  • 5. Eleição condicional, Deus escolhe aqueles que vêm a Ele com fé (Parte 2): A Bíblia ensina claramente a presciência de Deus e a eleição e a predestinação dos crentes. Mas o que esses termos significam? Deus, em Sua presciência, sabe quem responderá à graça preveniente e à Sua oferta de salvação; Ele escolhe, ou elege, esses para serem Seu povo especial; e então os predestina para serem conformes à imagem de Cristo.
  • 6. Nossa segurança em Cristo: Um crente que realmente nasceu de novo pode perder a salvação? Essa pergunta divide os arminianos, embora o arminianismo clássico sustente a possibilidade da apostasia, ou seja, de abandonar a fé salvadora.
  • Um resumo da Soteriologia Arminiana: o último estudo da série, que reúne num resumo a doutrina da salvação e mostra o que ela diz sobre a natureza de Deus.

Sobre as fontes

Sou grato à Sociedade dos Arminianos Evangélicos (Society of Evangelical Arminians) por este esboço e vou utilizar muitos de seus recursos. Também usarei “Teologia Arminiana: Mitos e Realidades” de Roger Olson e “Cristianismo Clássico: Uma Teologia Sistemática” de Thomas Oden, os “Cinco Artigos da Remonstrância”, alguns “sermões de John Wesley”, e obviamente, “As Obras de Jacó Armínio” como recursos para este estudo.

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