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Arminianismo: Expiação para Todos

Diego Gonçalvesatualizado 13 min de leitura2.559 palavras

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Neste texto

Como foi expresso no post anterior, a humanidade é totalmente depravada e incapaz de fazer algo por conta própria para ser salva. Estamos perdidos e sem esperança no mundo (Efésios 2:12). Mas Deus é amor (1 João 4:8, 16). Ele nos ama, e não apenas alguns de nós, mas a todos no mundo inteiro (João 3:16). O desejo de Deus é que todos sejamos salvos (1 Timóteo 2:4). Que ninguém pereça, mas que todos se arrependam (2 Pedro 3:9).

Por que Deus nos ama? O motivo não está em alguma dignidade nossa (Efésios 2:9): Ele nos ama porque nos criou (Salmo 100:3). Ele nos salva por causa de sua misericórdia (Tito 3:5).

Gravura de Rembrandt: Cristo crucificado entre os dois ladrões, com raios de luz sobre a cruz e a multidão ao redor
Rembrandt, Cristo crucificado entre os dois ladrões (As três cruzes), 1653. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. CC0, via Wikimedia Commons.

Deus Toma a Iniciativa

Por causa do amor de Deus por nós e devido à nossa condição de desespero, Deus tomou a iniciativa de prover um caminho de salvação para nós. João 3:16-18 é uma das expressões mais claras do que Deus fez por nós.

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito; para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não mandou seu Filho ao mundo para que condenasse ao mundo; mas sim para que o mundo por ele fosse salvo; Quem nele crer não é condenado; mas quem não crê já está condenado; pois não tem crido no nome do unigênito Filho de Deus.”

(João 3:16-18, Bíblia Livre)

Essa passagem deixa claro que Deus nos ama; que Ele ama a todos no mundo, não apenas alguns escolhidos. Também fica claro nessa passagem que Deus fez o necessário para prover a salvação daqueles que Ele amou. Deus deu seu Filho para ser o sacrifício expiatório por todo o mundo (1 João 2:2), para provar a morte por todos (Hebreus 2:9). Jesus foi nosso cordeiro sacrificial (João 1:29) que nos livra da ira de Deus (1 Tessalonicenses 1:10) que merecíamos. Repetidamente nas Escrituras, vemos que Jesus morreu pelos pecados do mundo. Seu sacrifício foi feito por todos, não apenas por alguns.

Aplicação da Expiação

Mas, enquanto a morte de Cristo foi por todas as pessoas, os benefícios de seu sacrifício são eficazes apenas para aqueles que creem em Cristo. Como a passagem acima de João 3:16-18 deixa claro, o sacrifício de Jesus foi pelo mundo inteiro. Mas apenas aqueles que creem obterão a vida eterna. E aqueles que não creem permanecem em estado de condenação. Isso é repetido em João 3:36; aqueles que creem têm vida eterna.

Dizer que a expiação é universal não significa que todos a experimentarão. Aqueles que rejeitam o Filho permanecem sob a ira de Deus. A expiação está disponível para eles, mas eles escolheram rejeitá-la.

Quem rejeita o evangelho não se perde porque faltou sangue na cruz para cobrir os seus pecados, mas porque recusou a graça que o Senhor ofereceu. O próprio Jesus lamentou essa recusa diante de Jerusalém:

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas; porém não quisestes!”

(Mateus 23:37, Bíblia Livre)

O desejo de ajuntar era de Jesus; a recusa foi de Jerusalém.

Todos Significa Todos

Repetidamente, as Escrituras expressam o amor e a preocupação de Deus pelo mundo inteiro. Mas alguns argumentam que o mundo inteiro não é realmente o mundo inteiro. Em vez disso, são apenas representantes seletivos. Acho difícil ignorar o que parece ser o claro ensinamento da Bíblia: que Deus ama o mundo inteiro; todos aqueles que Ele criou.

Limitar o escopo de ‘todo o mundo’ a ‘todos os eleitos ao redor do mundo’ parece ser um caso de interpretar essas passagens de uma forma que apoie uma doutrina específica, a expiação limitada, em vez de permitir que a Escritura defina a doutrina.

Duas passagens parecem ser claras que a expiação foi feita para todos, embora nem todos a experimentem. 1 João 2:2 diz que Jesus “é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo.” Seu sacrifício foi por todos; pelo mundo inteiro. Mas João distingue claramente os crentes do resto do mundo aqui. Seu sacrifício foi suficiente para todos, mas aplicável apenas àqueles que creem.

1 Timóteo 4:10 expressa que o Deus vivo “é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem.” Isso distingue os crentes dos descrentes na salvação, mas ainda diz que Cristo é o salvador de todos os homens. A expressão “especialmente dos que creem” nessa passagem realmente apoia a ideia de que o sacrifício feito por todas as pessoas é apenas aplicável àqueles que creem.

A Expiação Limitada pela Voz de Quem a Defende

Para sermos justos com nossos irmãos reformados, precisamos ouvir a expiação limitada como eles mesmos a explicam. Na teologia sistemática, esse debate é conhecido como a disputa entre a expiação ilimitada, também chamada de geral, e a expiação limitada. Os reformados preferem os nomes redenção particular ou expiação eficaz, porque acham que a palavra “limitada” passa a impressão errada de que o sangue de Cristo teria pouco valor. A doutrina é o terceiro ponto do acrônimo TULIP, uma sigla em inglês que, já no século XX, passou a resumir o que foi definido no Sínodo de Dort (1618-1619).

Para a teologia reformada, a questão central não está no valor do sacrifício de Jesus, que os dois lados reconhecem como infinito, mas na intenção e no desígnio de Deus na cruz. O argumento parte da harmonia entre as pessoas da Trindade. O Pai escolhe um povo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4). O Filho vem para morrer exatamente por esse povo. O Espírito Santo aplica a salvação de forma irresistível ao coração desses mesmos eleitos.

Os defensores dessa visão se apoiam em textos em que o alcance da morte de Cristo aparece com um foco bem definido. Jesus diz que “o bom Pastor dá sua vida pelas ovelhas” (João 10:11; veja também João 10:15). Paulo escreve que “Cristo amou a Igreja, e se entregou por ela” (Efésios 5:25). E, orando ao Pai, Jesus diz: “não rogo pelo mundo, mas sim por aqueles que tu me deste, porque são teus” (João 17:9).

A preocupação calvinista é honrar a vitória de Cristo. Na visão deles, Jesus não morreu para criar uma possibilidade teórica de salvação, que dependeria de uma decisão incerta do homem para dar certo; na cruz, Ele comprou e garantiu a salvação real dos seus, incluindo o dom da própria fé e do arrependimento. Por isso, nenhum daqueles por quem Cristo derramou o seu sangue se perderá.

A tradição arminiana, e com ela as igrejas evangélicas de tradição wesleyana e batista geral, lê a intenção da cruz de outra forma. Para nós, essa intenção não se restringe a um grupo de escolhidos: Deus amou o mundo inteiro de maneira autêntica e sincera e deseja que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4). A morte de Cristo proveu uma salvação suficiente e disponível para toda a humanidade, e essa redenção se torna eficaz na vida de quem responde com arrependimento e fé. Os dois lados, portanto, não discordam sobre o valor do sangue de Cristo, mas sobre a quem Deus pretendia alcançar com ele.

Expiação Universal

Negar a universalidade da expiação é negar o claro ensino das Escrituras. A Escritura ensina que Deus quer que todos os homens sejam salvos (1 Timóteo 2:4). E que Ele deseja que ninguém pereça (2 Pedro 3:9). Não sou de forma alguma um especialista nos ensinamentos dos pais da igreja primitiva, mas de acordo com o artigo “O Alcance da Expiação nos Pais da Igreja Primitiva”, “No início do período Anteniceano, nenhum pai respeitado pode ser citado dentro de seu contexto literário como limitando o alcance da salvação, ou mais particularmente a expiação.”

A expiação universal também parece ter sido o ensino predominante da igreja, no Oriente e no Ocidente, até a Reforma. A expiação limitada aparece antes em Gottschalk de Orbais (século 9) e ganha forma de doutrina na ortodoxia reformada posterior, com Beza e o Sínodo de Dort (1618-1619); Lutero não a ensinou, e a posição do próprio Calvino ainda é debatida. Reconheço que um apelo aos Pais da Igreja e à tradição da igreja é secundário às Escrituras. Mas acredito que é significativo que a crença em uma expiação limitada parece ter se tornado doutrina só na tradição reformada posterior à Reforma, implicando que a igreja estava errada nos primeiros 15 séculos.

Por causa da depravação total da humanidade, somos incapazes de escolher crer em Cristo; ninguém responde com fé sem a ação da graça de Deus. Este será o tema de um post futuro.

Suficiente para Todos, Eficaz para os que Creem

Curiosamente, a fórmula mais equilibrada para lidar com essa tensão não nasceu na Reforma nem na controvérsia com os remonstrantes, mas na Idade Média. No século XII, o teólogo Pedro Lombardo escreveu que Cristo se ofereceu por todos quanto à suficiência do preço, mas só pelos eleitos quanto à eficácia (Sentenças, livro III, distinção 20). Reformados e arminianos acolheram essa fórmula, cada um a seu modo. Para os arminianos, que entendem a eleição como condicional e em Cristo, os eleitos são os que creem.

Os próprios Cânones de Dort (capítulo II, artigo 3) afirmam que o sacrifício do Filho de Deus tem valor infinito, mais do que suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro. Do lado arminiano, ninguém ensina que a morte de Jesus salva alguém automaticamente: ela só tem eficácia na vida daqueles que são unidos a Cristo pela fé. É o que diz o Artigo 2 da Remonstrância, citado mais abaixo: ninguém desfruta realmente do perdão dos pecados, exceto o crente.

Os dois lados concordam, portanto, que ninguém é salvo sem fé em Jesus. Concordam também que o inferno não estará cheio de pessoas que queriam desesperadamente ser salvas, mas não puderam, porque Cristo não morreu por elas. Quem está em Cristo foi alcançado pela graça; quem se perde tropeçou na própria incredulidade.

A Expiação e a Pregação do Evangelho

Longe de ser uma disputa fria entre intelectuais, essa discussão toca em pontos sensíveis da nossa fé: o caráter do amor de Deus, a eficácia do sacrifício da cruz e a urgência da evangelização. E, quando descemos do debate para a vida da igreja, essa doutrina não deve paralisar o nosso testemunho, mas impulsioná-lo.

Nenhum pregador precisa subir ao púlpito tentando adivinhar quem são os eleitos antes de pregar. A ordem de Jesus para a igreja é clara e universal: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). Por isso, podemos olhar nos olhos de qualquer pessoa, seja o vizinho da porta ao lado, o colega de trabalho ou o pior criminoso de uma prisão, e anunciar com integridade: Deus ama você, Cristo pagou na cruz o preço pelos pecadores, e, se você se arrepender e crer no Senhor Jesus, o sangue dele é mais do que suficiente para perdoar o seu passado e dar a você a vida eterna.

“As coisas secretas pertencem ao SENHOR nosso Deus” (Deuteronômio 29:29). A nós cabe proclamar as boas-novas com amor, generosidade e urgência, descansando na promessa de que o evangelho “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). Isso vale para todos nós que um dia fomos alcançados por essa graça.

Referências Bíblicas para a Doutrina da Expiação Universal

Deus…

  • … ama toda a humanidade – João 3:16
  • … deseja que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade – 1 Timóteo 2:4
  • … não deseja que ninguém pereça, mas que todos se arrependam – 2 Pedro 3:9

Cristo…

Citações sobre a Doutrina Arminiana da Expiação Universal

O pacto em que Deus entrou com nosso Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, consistia, da parte de Deus, na exigência de uma ação a ser realizada e na promessa de uma imensa recompensa. Da parte de Cristo, nosso Sumo Sacerdote, consistia na aceitação da Promessa e em um compromisso voluntário de realizar a Ação. Primeiro, Deus exigiu dele que entregasse sua alma como uma vítima em sacrifício pelo pecado (Isaías 53:11), que desse sua carne pela vida do mundo (João 6:51) e que pagasse o preço da redenção pelos pecados e pela escravidão da raça humana.

As Obras de Jacob Arminius – Vol. 1, Oração IV: O Sacerdócio de Cristo

“De acordo com isso, Jesus Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todos os homens e por cada homem, de modo que ele obteve para todos eles, por sua morte na cruz, a redenção e o perdão dos pecados; no entanto, ninguém desfruta realmente deste perdão dos pecados, exceto o crente, de acordo com a palavra do Evangelho de João 3:16, ‘Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.’ E na Primeira Epístola de 1 João 2:2: ‘E ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.’”

Artigo 2 dos Cinco Artigos da Remonstrância

O que vem a seguir?

Este artigo foi o segundo estudo de uma série de posts que descreverão a soteriologia arminiana conforme ensinada por Jacob Arminius e John Wesley. Vou focar em seis ensinamentos específicos do arminianismo:

Sobre as Fontes

Sou grato à Sociedade dos Arminianos Evangélicos por este esboço e vou utilizar muitos de seus recursos. Também usarei “Teologia Arminiana: Mitos e Realidades” de Roger Olson e “Cristianismo Clássico: Uma Teologia Sistemática” de Thomas Oden, os “Cinco Artigos da Remonstrância”, alguns sermões de John Wesley e, obviamente, “As Obras de Jacó Armínio” como recursos para este estudo.

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