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Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça (Parte 2)

Diego Gonçalvesatualizado 22 min de leitura4.264 palavras

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Neste texto

Este estudo continua a Parte 1, em que vimos que a graça é o favor de Deus para com quem não o merece e que a graça preveniente é a graça que vem antes da fé: o Pai atrai, o Filho ilumina e o Espírito convence, e essa obra pode ser recusada. Agora pergunto se ela está sempre ao nosso alcance, como a Igreja a entendeu ao longo da história e qual é o lugar da fé na salvação.

A Graça Preveniente Está Sempre Disponível?

Outra forma de formular essa pergunta é: “Eu sou capaz de aceitar Cristo a qualquer momento? Ou há momentos em que a graça de Deus não me capacita a responder?” Alguns acham que Armínio só via essa graça quando o evangelho é proclamado (Romanos 10:14), e que Wesley a via sempre disponível. Na verdade, os dois ensinam que a graça preveniente alcança todos, e não apenas quando o evangelho é proclamado.

Wesley não ensinava que alguém se salva sem o evangelho: a graça preveniente, que alcança todos (João 1:9; Tito 2:11), desperta a consciência e prepara o coração para ouvir a Palavra que gera a fé (Romanos 10:17). Armínio ensinava o mesmo: ordinariamente essa graça age junto com a Palavra pregada, mas o Espírito também trabalha antes e além da pregação, por caminhos que não conhecemos. A graça vem antes de tudo, e a fé vem pelo ouvir.

A Escritura mostra que Deus age antes da chegada do pregador. Ele dispôs os povos “para que buscassem ao Senhor”, porque não está “longe de cada um de nós” (Atos 17:27). Cornélio orava antes que Pedro chegasse a Cesareia (Atos 10:2-4), e de Lídia se diz que “o Senhor abriu” o seu coração “para que prestasse atenção ao que Paulo dizia” (Atos 16:14). Armínio leu essas narrativas junto com Romanos 1 e 2 como prova de que a obra preveniente do Espírito alcança os corações antes do evangelho pregado. E a palavra de Jesus desfaz a objeção de que um morto não pode ouvir: “os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aos que ao ouvirem, viverão” (João 5:25). A voz que chama é a mesma que dá a vida para ouvir.

Entre os que leram Armínio de outro modo está Carl Bangs, que ligou a graça preveniente de Armínio à pregação, ao passo que a tradição wesleyana sublinha a presença universal do Espírito. Hernández define a graça preveniente em Armínio como a obra antecedente da misericórdia de Deus, que age interiormente pela iluminação do Espírito e exteriormente pela pregação, e liberta a vontade escravizada para que a pessoa possa receber o chamado; e conclui que o seu alcance ultrapassa os lugares onde a Palavra é pregada. Nesse ponto, Armínio está mais próximo de Wesley do que se supunha. O Manual de teologia arminiana registra, entre os consensos do renascimento arminiano brasileiro, a distinção entre o arminianismo clássico e o wesleyano, com “uma leve diferença de ênfase na forma de ação da graça preveniente em cada grupo”.

No sermão Sobre operar a própria salvação (1785), o mesmo que cito no fim deste estudo, Wesley não nega que todos estejam mortos no pecado por natureza, mas afirma que isso não desculpa ninguém, porque ninguém está num estado de mera natureza, a menos que tenha extinguido o Espírito. E conclui: “nenhum homem peca porque não possua a graça, mas porque não faz uso da graça que possui” (III, 4, em Coletânea da teologia de João Wesley). Quanto aos que nunca ouviram o evangelho, preferiu deixá-los com aquele que os fez (Sobre viver sem Deus, 1790). Não obstante, fez do mundo a sua paróquia, porque a graça que vai adiante da pregação não torna a pregação dispensável.

Da Igreja Antiga à Reforma

A graça preveniente não foi inventada por Armínio. O Manual de teologia arminiana, apoiado em Silas Daniel (Arminianismo: a mecânica da salvação, 2017), vê essa graça já nos Pais anteriores a Agostinho, afirmação que pede cautela, porque eles escreveram antes que a controvérsia pelagiana tornasse precisa a doutrina do pecado original. Alister McGrath resume as três noções que Agostinho legou ao Ocidente: a graça preveniente, que prepara a vontade antes da conversão; a graça operante, pela qual Deus converte sem a cooperação do pecador; e a graça cooperante, que colabora com a vontade libertada (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. “As doutrinas da natureza humana, do pecado e da graça”). No Agostinho tardio, porém, essa graça ficou ligada à predestinação dos eleitos e à certeza de que não falha.

O Concílio de Orange (529) declarou, na sua conclusão, que em toda obra boa não somos nós que começamos, mas Deus, sem nenhum mérito precedente, primeiro nos inspira a fé e o amor. O concílio não afirmou, contudo, a irresistibilidade da graça, e anatematizou a predestinação para o mal. Tomás de Aquino conservou o par preveniente e subsequente (Suma teológica, I-II, q. 111, a. 3). Mais tarde, o Concílio de Trento ensinou que o início da justificação nos adultos procede da “graça preveniente de Deus por Jesus Cristo”, que chama sem nenhum mérito e pode ser rejeitada (sessão VI, cap. 5; cânon 3). A divergência protestante está no que vem depois: a vontade apenas enfraquecida, a graça ligada ao batismo e a cooperação que se converte em mérito.

Entre os reformadores, as respostas variaram. Calvino reservou aos eleitos a graça eficaz, que regenera infalivelmente. A Fórmula de Concórdia (1577) atribuiu a conversão somente ao Espírito, pela Palavra, mas ensinou que muitos não se convertem porque resistem a essa obra (Declaração sólida, II e XI). O anabatista Balthasar Hubmaier ensinou que a graça vem antes, liberta a vontade e pode ser recusada. Na Inglaterra, o artigo X dos Trinta e Nove Artigos (1563) declarou que não podemos fazer boas obras agradáveis a Deus “sem a graça de Deus por Cristo, que nos previne para que tenhamos boa vontade”, palavras que Wesley conservou no artigo VIII dos Artigos de Religião metodistas (1784).

Postas lado a lado, as tradições se aproximam e se afastam em pontos claros. Com os reformados, partilhamos a convicção de que Deus começa a salvação; deles nos separa a ideia de uma graça comum sem direção salvífica para todos e de uma graça eficaz, que não pode ser recusada, reservada aos eleitos. Com os luteranos, partilhamos a universalidade e a resistibilidade da graça, embora a Concórdia ligue essa obra aos que ouvem a Palavra. Com os católicos, partilhamos a convicção de que nada começa sem a graça preveniente, mas não a ideia de que a cooperação da vontade se torne mérito. Do semipelagianismo, que dá o auxílio a quem já deu o primeiro passo, nos separamos inteiramente.

Armínio, Wesley e os Wesleyanos

Armínio fez da graça preveniente, como mostrou Hernández, o princípio que organiza toda a sua soteriologia. Numa das disputas que presidiu em Leiden, descreveu as duas faces dessa graça. Ela move “fisicamente” o entendimento e a inclinação, “de modo que ele não possa ser afetado de outra maneira com a sua percepção”, mas não produz o consentimento “exceto moralmente, ou seja, pelo modo de persuasão”. E a graça cooperante “não difere, nem em tipo nem em eficácia, daquela graça instigadora e comovedora, que é chamada de preventiva e operante, sendo, porém, a mesma graça continuada” (Disputas privadas, LXX, 5-6, em As obras de Armínio, vol. 2). A primeira frase descreve a operação inicial, que é só de Deus; a segunda, a continuidade de uma única graça. É a doutrina que ele resumiu na Declaração de Sentimentos (1608), citada no fim deste estudo, e que a Remonstrância (1610, arts. 3 e 4) repetiu. No artigo 3, a Remonstrância chama de nascer de novo a renovação do entendimento e da vontade que vem antes da fé, e no artigo 4 diz que essa graça pode ser resistida, ponto que explico na Parte 1 deste estudo. Para os textos do próprio Armínio sobre o assunto, veja o estudo A graça preveniente em Armínio.

Maddox observa que Wesley leu pouco Armínio e recebeu a doutrina sobretudo da tradição anglicana e dos Pais gregos; por isso a convergência entre os dois tem valor de testemunho. Segundo Maddox, a graça preveniente tem em Wesley três dimensões (Responsible Grace, cap. 3). Em primeiro lugar, o perdão da culpa herdada de Adão, que Wesley acabou por considerar cancelada universalmente pela redenção de Cristo. Em segundo lugar, uma restauração parcial das faculdades: o entendimento recebe uma noção das coisas divinas e o discernimento entre o bem e o mal; a liberdade, ao menos um grau mínimo de restauração, sem o qual a única alternativa seria a eleição incondicional; e as afeições, os primeiros movimentos de virtude. Em terceiro lugar, os apelos de Deus a cada pessoa, as “atrações do Pai” e as “convicções” do Espírito, que podem ser abafados sem que a presença de Deus seja expulsa. Nisso está a esperança de um despertamento posterior.

Os teólogos wesleyanos que vieram depois deram forma sistemática à doutrina. John Fletcher falou de diversas “dispensações” da mesma graça de Cristo, conforme a luz concedida aos povos (Checks to Antinomianism). Richard Watson fundou a universalidade da graça na universalidade da expiação (Theological Institutes), e William Burt Pope tratou a graça preveniente no início da administração da redenção pelo Espírito (Compendium, vol. 2). H. Orton Wiley deu à doutrina a definição que se tornou padrão: a graça preveniente é a graça que “vai adiante” e prepara a alma para o estado inicial da salvação, a graça preparatória do Espírito exercida para com o homem incapaz de socorrer a si mesmo; em relação ao culpado, é misericórdia, e em relação ao impotente, poder que capacita (Christian Theology, vol. 2). A versão portuguesa da Introdução à teologia cristã de Wiley e Culbertson, citada por Brunelli, fala do homem “enfraquecido pelo pecado”; o original diz helpless, palavra mais forte, que convém preservar.

No Brasil, a doutrina chegou com o metodismo e com as igrejas de santidade. Entre os pentecostais, a expressão é menos comum, e Brunelli, ao explicar por que a graça frutifica numas pessoas e não noutras, recorre ao “coração honesto e bom” da parábola do semeador (Lucas 8:15). A teologia wesleyana acrescentaria que a própria honestidade desse coração já é fruto da graça que veio antes.

O Que a Graça Preveniente Faz

Reunindo o que vimos até aqui, podemos dizer que a graça preveniente é a obra sobrenatural do Deus triúno, aplicada pelo Espírito Santo por causa de Cristo, que vem antes de todo mérito, desejo e esforço humano, alcança todas as pessoas e as torna capazes de responder ao evangelho. Ela pressupõe a depravação total, porque só precisa de uma graça que venha antes quem nada pode por si; é universal, porque procede do amor de Deus pelo mundo e da morte de Cristo por todos; e é resistível, porque Deus chama, convence e atrai sem violentar.

A teologia wesleyana distingue quatro operações dessa graça, que não são etapas mecânicas, mas aspectos de uma só graça. Em primeiro lugar, ela ilumina a mente de quem tem “o entendimento nas trevas” (Efésios 4:18), dando-lhe a percepção de Deus e do evangelho; é a luz do Filho. Em segundo lugar, ela convence, despertando a consciência para o pecado, a justiça e o juízo (João 16:8); é a obra do Espírito que conduz ao arrependimento. Em terceiro lugar, ela liberta a vontade, que por natureza é livre apenas para o mal; segundo Armínio, nessa primeira libertação o homem se comporta de modo “puramente passivo” (Artigos a serem diligentemente examinados, XVII). Em quarto lugar, ela atrai, movendo as afeições com “cordas de amor” e chamando a pessoa a Cristo; é a atração do Pai. Liberta pela graça, a vontade pode então crer, ou resistir.

Mas e a fé?

Se a salvação é inteiramente obra de Deus, qual é o papel da fé? As Escrituras são claras de que a fé é um elemento essencial, como Romanos 3:21-31 expressa repetidamente.

“Mas agora, independentemente da Lei, a justiça de Deus se manifestou, tendo testemunho da Lei e dos Profetas; isto é, a justiça de Deus por meio da fé em Jesus Cristo, para todos os que creem; pois não há diferença; porque todos pecaram, e estão destituídos da glória de Deus; e são justificados gratuitamente pela sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus propôs Jesus por sacrifício de reconciliação, pela fé em seu sangue, para demonstrar a sua justiça. Ele deixou de considerar os pecados antes cometidos, sob a paciência de Deus, para demonstrar a sua justiça neste presente tempo, a fim de que ele seja justo, e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde, pois, está o orgulho? Este é excluído. Por qual lei? A das obras? Não, mas sim, pela Lei da fé. Concluímos, portanto, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da Lei. Por acaso Deus é somente dos judeus, e não também dos gentios? Certamente que dos gentios também; já que há um só Deus, que justificará pela fé os circuncisos, e por meio da fé os incircuncisos. Por acaso anulamos a Lei pela fé? De maneira nenhuma. Pelo contrário, confirmamos a Lei.”

(Romanos 3:21-31, Bíblia Livre)

De Onde Vem a Fé?

Ao ler esta passagem, vemos a ênfase que Paulo coloca na fé. Mas se somos totalmente depravados, incapazes de fazer qualquer bem espiritual, de onde vem a fé? Para o calvinista, a fé é dom dado somente aos eleitos: Deus regenera o coração, e a pessoa, renovada, crê de livre vontade; os eleitos “vêm livremente, sendo feitos dispostos pela sua graça” (Confissão de Westminster 10.1). O arminiano pergunta se uma fé que não poderia deixar de vir é ainda a resposta pessoal que as Escrituras pedem.

Mas isso é realmente fé? Se Deus decidiu me salvar incondicionalmente, independentemente de qualquer coisa que eu seja ou faça, então não entendo por que Ele exigiria fé e a daria para mim. A fé não pareceria ter nenhum papel real em minha salvação; é apenas um enfeite.

Distinguindo Fé e Obras

Mas as Escrituras distinguem entre fé e obras. Romanos 4:3 e Gálatas 3:6 ambos citam Gênesis 15:6, expressando que “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça.” Abraão simplesmente acreditou que o que Deus lhe disse era verdade, e foi justificado. Romanos 4:5 então diz que “para aquele que não trabalha, mas confia em Deus que justifica o ímpio, sua fé lhe é creditada como justiça.”

A fé nos é creditada como justiça, e é especificamente contrastada com obras. Fé e obras não são a mesma coisa. Gálatas 3:10-14 contrasta a fé com as obras da lei. A justificação não vem por obedecer à lei, mas pela fé. A fé não é uma “obra” da minha parte; ao contrário, é uma rendição.

O arminiano diria que Deus capacita a fé em mim. Sua graça preveniente libera minha vontade para ser capaz de aceitar a salvação de Deus ou resistir a ela. Sou capaz de exercer fé verdadeira por causa da graça de Deus operando em mim. Mas isso não faz da fé uma “obra” da minha parte, algo que eu tenha de fazer para ser salvo? Jacob Arminius responde a essa pergunta com o seguinte em “A Apologia ou Defesa de Jacob Arminius”:

Uma Analogia

“Para explicar o assunto, empregarei uma comparação, que, no entanto, confesso ser muito dissímil; mas sua dissimilitude é muito favorável aos meus sentimentos. Um homem rico dá, a um mendigo pobre e faminto, esmolas pelas quais ele pode sustentar a si e sua família. Deixa de ser um presente puro, porque o mendigo estende a mão para recebê-lo? Pode-se dizer com propriedade que ‘a esmola dependia em parte da LIBERALIDADE do Doador, e em parte da LIBERDADE do Recebedor,’ embora este último não teria possuído a esmola a menos que a tivesse recebido estendendo a mão? Pode-se corretamente dizer, PORQUE O MENDIGO ESTÁ SEMPRE PREPARADO PARA RECEBER, que ‘ele pode ter a esmola, ou não tê-la, como desejar?’ Se essas afirmações não podem ser verdadeiramente feitas sobre um mendigo que recebe esmolas, quanto menos podem ser feitas sobre o dom da fé, para o recebimento do qual são necessários muito mais atos de Graça Divina!”

Jacó Armínio, Apologia contra os 31 artigos, art. XXVII (As obras de Jacó Armínio)

Receber é uma Obra?

O homem rico dá esmolas a um mendigo, e o mendigo as aceita. O presente aqui é exclusivamente uma obra do homem rico? Ou a disposição do mendigo de receber o presente lhe dá parte do crédito? Os arminianos concordariam que o presente é exclusivamente obra do homem rico. Da mesma forma, o dom da salvação, incluindo a vontade livre que capacita a fé, é totalmente obra de Deus, e toda a glória pertence somente a Ele. E, assim como o mendigo poderia ter rejeitado o presente do homem rico, nossa “vontade liberada pela graça” nos permite rejeitar o dom de Deus. A fé é um dom de Deus, mas é uma fé livre que não é constrangida a crer.

O mesmo raciocínio responde a uma objeção antiga, tirada de 1 Coríntios 4:7: “Pois quem te faz diferentemente superior?” Se a graça é dada a todos, e uns creem e outros não, a diferença estaria no homem, e ele teria do que se gloriar. Porém o versículo continua: “E o que tens tu, que não tenhas recebido?” No caso da fé, até a mão estendida do mendigo é obra da graça. A única coisa que o homem faz por si mesmo, nessa história, é resistir, e ninguém se gloria de não ter recusado um presente. Por isso a salvação é inteiramente obra de Deus, e a condenação, responsabilidade do homem.

Uma Graça Que Deus Não Devia

Há também a objeção que vem do lado oposto. Charles Finney, que leio aqui apenas como contraste, rejeitou a “capacidade da graça” como “um absurdo”: se o homem perdeu em Adão o poder de obedecer, Deus seria injusto em exigir obediência sem restituí-lo, e restituí-lo seria dívida, e não graça (Teologia sistemática, aula 21). O argumento supõe que Deus devia à raça caída uma nova oportunidade. Armínio negou essa premissa ao escrever que a promessa feita logo depois da queda (Gênesis 3:15) “não foi feita nem por dívida, nem por promessa, mas pela graça que precedeu a promessa” (Exame do panfleto de Perkins, em As obras de Armínio, vol. 3). Deus poderia ter deixado a humanidade como deixou os anjos caídos, pois “não é aos anjos que ele ajuda, mas sim, ajuda à descendência de Abraão” (Hebreus 2:16). Que não o tenha feito é graça de Cristo, e não direito da criatura.

O Que Isso Muda Para Nós

A graça que vem antes tem consequências para a fé, para a igreja e para a vida. Em primeiro lugar, ela transforma a evangelização. Nós nunca chegamos primeiro: quando Pedro entrou na casa de Cornélio, o Espírito já estava lá. Isso nos livra da ansiedade, porque a conversão não depende da nossa eloquência, e da manipulação, porque não precisamos arrancar decisões. O apelo não é o lugar onde o homem começa a salvação, mas o lugar onde responde a uma graça que o precedeu.

Em segundo lugar, ela dá à missão esperança sem tirar dela a urgência, porque a graça preveniente é graça de Cristo e conduz a Cristo, e não um caminho paralelo de salvação nas religiões do mundo.

Em terceiro lugar, ela consola os que oram por alguém afastado: a consciência que ainda acusa é sinal de que o Espírito ainda contende com aquela vida.

Em quarto lugar, ela nos adverte. Porque a graça é resistível, os apelos de Deus podem ser abafados, e a Escritura não diz “amanhã”, mas “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hebreus 3:7-8).

Em quinto lugar, ela nos ensina a humildade. Se até o primeiro desejo de Deus que tivemos foi dom, não há lugar para orgulho espiritual, e isso vale para todos nós.

É Somente Pela Graça

Os cinco solas da Reforma Protestante definem os princípios fundamentais do movimento. Esses cinco solas são:

  • Sola Scriptura: somente a Escritura
  • Sola fide: somente a fé
  • Sola gratia: somente a graça
  • Solus Christus: somente Cristo
  • Soli Deo gloria: glória somente a Deus

Os arminianos sustentam esses princípios bíblicos tão firmemente quanto qualquer calvinista ou luterano. Proclamamos que a salvação é somente pela graça, por meio da fé, somente em Cristo.

Para estudar em grupo

  1. O que Armínio quis dizer ao afirmar que a graça cooperante é “a mesma graça continuada”?
  2. Quais são, segundo Randy Maddox, as três dimensões da graça preveniente em Wesley?
  3. Como responder a quem diz que, se a graça é dada a todos, quem crê teria do que se gloriar? E ao argumento de Finney de que uma graça que capacita seria dívida, e não graça?

Referências Bíblicas

  • João 5:24 – Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna. Ele não entra em julgamento, mas passou da morte para a vida.
  • Romanos 1:16 – O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.
  • Efésios 2:8-9 – A salvação é um dom de Deus por sua graça.
  • Atos 16:14 – O Senhor abriu o coração de Lídia para responder ao evangelho.
  • Atos 17:27 – Deus não está longe de cada um de nós.
  • Atos 18:27 – Apolo ajudou aqueles que, pela graça, creram.
  • Romanos 4:3 – Abraão creu, e sua fé foi creditada como justiça.
  • Romanos 4:5 – A fé não é uma obra salvadora.
  • Atos 10:2-4 – Deus já agia na vida de Cornélio antes da chegada de Pedro.
  • Hebreus 3:7-8 – Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações.

Citações

“Desta forma, atribuo à graça o começo, a continuidade e a consumação de todo o bem, e até tal ponto que um homem, embora já regenerado, não pode conceber, querer ou fazer qualquer bem sem essa graça preveniente e excitante, esta graça que segue e coopera. A partir desta declaração, ficará claro que de maneira alguma faço injustiça à graça, atribuindo, como se diz de mim, muito ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão: ‘a graça de Deus é uma certa força irresistível?’ Isto é, a controvérsia não se refere às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça, (pois reconheço e inculco tantas dessas ações ou operações quanto qualquer homem já fez,) mas refere-se apenas ao modo de operação, se é irresistível ou não. Com respeito a isso, acredito, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.”

Jacob Arminius, Uma Declaração dos Sentimentos de Arminius

John Wesley, no sermão Sobre operar a própria salvação (Sermão 85), lembra que todo bem que há em nós, e todo bem que fazemos, tem Deus como autor, porque é Ele quem opera em nós tanto o querer como o realizar (Filipenses 2:13).

“A graça trabalha à nossa frente para nos atrair à fé, para começar seu trabalho em nós. Mesmo a primeira intuição frágil de convicção de pecado, a primeira insinuação de nossa necessidade de Deus, é obra da graça preveniente, que nos atrai gradualmente para desejar agradar a Deus. A graça está trabalhando silenciosamente no ponto do nosso desejo, nos levando com o tempo ao desespero por nossa própria injustiça, desafiando nossas disposições perversas, de modo que nossas vontades distorcidas gradualmente parem de resistir à graça de Deus.”

Thomas C. Oden, Cristianismo Bíblico de John Wesley (Grand Rapids, Zondervan, 1994, p. 246)

O que vem a seguir?

Este artigo foi o quarto estudo de uma série de posts que descreverão a soteriologia arminiana conforme ensinada por Jacob Arminius e John Wesley. Vou tratar de seis ensinamentos específicos do arminianismo:

Sobre as fontes

Nesta segunda parte, além de As Obras de Jacó Armínio, recorri a estas obras:

  • ARMÍNIO, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608). Tradução no Diário do Diego, 2026.
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
  • CONCÍLIO DE TRENTO. Decreto sobre a justificação, sessão VI (1547).
  • Fórmula de Concórdia (1577); Trinta e Nove Artigos (1563).
  • DANIEL, Silas. Arminianismo: a mecânica da salvação. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
  • FLETCHER, John. Checks to Antinomianism (1771-1775).
  • HERNÁNDEZ, Abner F. The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius. Tese de doutorado. Andrews University, 2017.
  • McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd, 2005.
  • MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
  • POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres, 1880.
  • SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. Editora Reflexão, 2021.
  • TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica, I-II, q. 111.
  • WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
  • WESLEY, John. Sobre operar a nossa própria salvação (1785); Sobre viver sem Deus (1790). Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. Vol. 2. Kansas City: Beacon Hill, 1941.
  • WILEY, H. Orton; CULBERTSON, Paul T. Introdução à teologia cristã. Casa Nazarena de Publicações.
  • Para contraste: FINNEY, Charles. Teologia sistemática.

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