
TeologiaArminianismo6 de 22
Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça (Parte 1)
Neste texto
Resumo
Até agora, o que discutimos sobre a soteriologia arminiana? Deus ama todos no mundo e deu seu Filho como expiação por todos nós. No entanto, os benefícios da expiação só são concedidos àqueles que creem. Mas a humanidade é uma raça caída e espiritualmente morta; totalmente depravada e incapaz de entender, reconhecer ou tomar qualquer iniciativa para aceitar os benefícios da expiação. Como não podemos dar o primeiro passo em direção a Deus, Ele toma a iniciativa. Ele nos capacita a responder à sua oferta de salvação. A chave para isso é a graça.
Graça
O que é graça, especificamente a graça de Deus? Thomas Oden, nas páginas iniciais de seu livro “O Poder Transformador da Graça”, define graça como
“o favor mostrado por Deus aos pecadores. É a boa vontade divina oferecida àqueles que nem merecem nem podem esperar ganhá-la. É a disposição divina de trabalhar em nossos corações, vontades e ações, de modo a comunicar ativamente o amor auto-doador de Deus pela humanidade.”
Thomas Oden em “O Poder Transformador da Graça”
A graça não é uma entidade ou outro objeto. É uma característica definidora do relacionamento de Deus conosco. É somente por causa da graça de Deus, sua disposição favorável para conosco, que somos capazes de nos submeter a Deus e viver para Ele.
A graça de Deus, ou favor, impacta nossas vidas de várias maneiras. A graça de Deus nos capacita a crer. Ela nos capacita a ser salvos. Ela nos capacita a viver vidas santas e piedosas. E nos capacita a servir dentro de sua igreja. Embora alguns falem sobre diferentes tipos de graça, como farei aqui, na realidade, todos são apenas diferentes maneiras pelas quais a graça de Deus está operando em nossas vidas, não diferentes tipos de graça. A graça de Deus nos capacita a ser o que nunca poderíamos ser por conta própria.
Graça Preveniente
Graça preveniente é o termo que os arminianos usam para descrever a graça de Deus que nos capacita a crer. A palavra preveniente significa “que vem antes”, ou a graça de Deus que chega até nós antes de crermos. Essa graça de Deus torna possível que nos submetamos ao chamado de Deus em nossas vidas. É pela graça preveniente de Deus que a fé é possível. Sem essa ação graciosa por parte de Deus, eu seria incapaz de me voltar para Ele.
Em Romanos 10:20, Paulo cita Isaías, onde Deus diz: “Fui achado por aqueles que não me procuravam; revelei-me àqueles que não perguntavam por mim”. Não é por esforço nosso que encontramos Deus. Podemos buscar, mas por conta própria, não encontraremos Deus. Ele é achado por aqueles que não o procuram e revelado àqueles que não perguntam. Deus inicia o contato. Sem sua iniciativa, estamos indefesos. Isso é graça preveniente.
Esse movimento atravessa a Bíblia inteira. A primeira pergunta depois do pecado não foi feita pelo homem, mas por Deus: “E o SENHOR Deus chamou ao homem, e lhe disse: ‘Onde estás?’” (Gênesis 3:9). Desde então, a direção nunca se inverteu. Paulo descreve a humanidade caída com as palavras do salmista, “ninguém há que busque a Deus” (Romanos 3:11), e lembra que Deus nos deu vida “estando nós ainda mortos em nossas ofensas” (Efésios 2:5). E João resume tudo numa frase: “Nós amamos, porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19).
De Onde Vem o Nome
O verbo latino praevenire quer dizer “vir antes”, “antecipar-se”, e entrou no vocabulário da graça pelo saltério latino. Onde a Vulgata lê misericordia eius praeveniet me, a Bíblia Livre traduz: “O Deus que tem bondade para comigo me antecederá” (Salmos 59:10). O hebraico usa ali o verbo qādam, “ir à frente”, “vir ao encontro”. Agostinho aproximou esse salmo de outro, “o bem e a bondade me seguirão todos os dias de minha vida” (Salmos 23:6), e tirou daí o par que a teologia ocidental conservaria: a misericórdia de Deus nos previne para que sejamos curados e nos segue para que, curados, tenhamos vigor (Sobre a natureza e a graça, 31, 35). No Enchiridion (32), a fórmula ficou ainda mais breve: a graça previne quem não quer, para que queira, e segue quem quer, para que não queira em vão.
O inglês antigo conservou esse sentido no verbo prevent, e o Livro de Oração Comum anglicano, que Wesley rezou a vida inteira, pede a Deus que nos “previna” com o seu favor em todas as nossas obras. Por isso Wesley escrevia preventing grace, e a tradução brasileira de Armínio fala de “graça preventiva”. Armínio também a chamou, conforme o efeito, de excitante, operante e “que bate à porta” (Apologia, art. XVI).
Randy Maddox observa que Wesley usava a palavra em dois sentidos (Responsible Grace, cap. 3). No sentido amplo, toda graça é preveniente, porque toda ação que conduz à salvação, da primeira fé ao mais alto grau de santificação, depende de um auxílio de Deus que vem antes dela. No sentido estrito, a expressão nomeia uma doutrina arminiana específica: a obra salvadora de Deus na humanidade caída antes da justificação, universal e resistível. É desse segundo sentido que este estudo trata, mas o primeiro não pode ser esquecido, porque nos impede de imaginar uma fase da vida cristã em que já não precisaríamos da graça. É o que eu disse acima: não são tipos diferentes de graça, mas maneiras diferentes pelas quais a mesma graça opera.
O Que a Graça Preveniente Não É
Quatro confusões costumam aparecer quando o assunto é a graça preveniente, e convém afastá-las logo.
Em primeiro lugar, a graça preveniente não é natureza, como se fosse um resto da criação que a queda tivesse poupado. Abner Hernández mostra que Armínio recusou uma “graça preveniente da criação” e a entendeu como dom sobrenatural, posterior à queda, que procede do amor de Deus em Cristo (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius, cap. 6). Wesley, do mesmo modo, chamou a consciência de dom sobrenatural, e não de dote natural, como vimos ao estudar a revelação geral.
Em segundo lugar, ela não se confunde com a graça comum da teologia reformada. Calvino distinguiu a “graça geral”, que refreia o pecado e distribui talentos a crentes e descrentes, da “graça especial”, que salva os eleitos (Institutas, II, 2, 17). Don Thorsen lembra que a graça geral de Calvino não tem direção salvífica, ao passo que a graça preveniente de Wesley se dirige à salvação (Calvin vs. Wesley, cap. 3). E Thomas Oden, citado por Walter Brunelli, diz que ela “não é meramente uma intensificação da graça comum” (Teologia para pentecostais, vol. 3).
Em terceiro lugar, ela não é a regeneração no sentido que a teologia reformada dá à palavra, uma obra que só os eleitos recebem e que não pode deixar de produzir a fé. O que distingue a doutrina arminiana da reformada é que essa primeira obra é dada a todos e pode ser recusada. O vocabulário, porém, varia de uma tradição para outra, e o próprio artigo 3 da Remonstrância descreve essa obra como um nascer de novo. Por isso volto ao assunto logo abaixo.
Em quarto lugar, ela não é uma posse. Thomas Langford, seguido por Maddox, adverte que ela não é um objeto que o homem guarda, mas a presença atuante de Deus. Armínio também rejeitava uma graça infundida como substância e preferia falar da “assistência do Espírito Santo” (Apologia, art. VIII).
A Graça Preveniente e o Novo Nascimento
O artigo 3 da Remonstrância (1610), que cito inteiro no fim deste estudo, afirma que o homem, no estado de pecado, não pode por si mesmo pensar, querer ou fazer nada que seja verdadeiramente bom, e que “é necessário que ele nasça de novo de Deus em Cristo, através de seu Espírito Santo, e seja renovado em entendimento, inclinação, ou vontade, e todos os seus poderes”. Ou seja, na linguagem de Armínio e dos remonstrantes, a graça que vem antes renova o entendimento e a vontade, e essa renovação inicial, que precede o querer o bem e a fé, é descrita como nascer de novo. Trata-se da regeneração em sentido amplo, ou inicial. E o artigo 4 acrescenta que essa graça não é irresistível.
As tradições usam essas palavras de modos diferentes, e convém ver cada uma pela sua própria linguagem.
Em primeiro lugar, para Armínio e os remonstrantes, a graça preveniente inclui essa renovação inicial que o artigo 3 chama de nascer de novo. Armínio às vezes chamou de “regeneração” a libertação inicial da vontade, e por isso, nessa linguagem, há uma regeneração começada antes da fé. Ela é obra de Deus, e não do homem, mas pode ser recusada, e quem a recusa não chega a crer.
Em segundo lugar, Wesley e a tradição wesleyana distribuem as palavras de outro modo. Chamam de graça preveniente a obra anterior à fé, que devolve ao pecador a capacidade de responder a Deus, e reservam “novo nascimento” ou “regeneração” para a obra que acompanha a justificação pela fé. Nesse vocabulário, a graça preveniente precede a fé e prepara para ela, ao passo que o novo nascimento acompanha a fé.
Em terceiro lugar, o calvinismo reformado, que lembro aqui só para contraste, entende a regeneração como obra monergista, ou seja, realizada somente por Deus, sem a cooperação da vontade humana. Ela é irresistível, porque sempre alcança o seu efeito, e vem antes da fé, que é o seu fruto. Nessa teologia, todo regenerado crê, e quem não foi eleito não recebe essa graça.
Comparadas assim, as duas primeiras posições concordam na substância e diferem no vocabulário. Armínio e Wesley ensinam uma graça que vem antes da fé, renova o entendimento e a vontade o bastante para que o pecador possa crer e capacita sem forçar. O que muda é o nome e a ordem dos termos: o que os remonstrantes chamam de nascer de novo, em sentido inicial, Wesley chama de graça preveniente, e o que Wesley chama de novo nascimento vem junto com a fé que justifica. Nos dois casos, a separação em relação ao calvinismo fica no mesmo ponto: a primeira obra da graça é dada a todos e pode ser recusada.
Deus Nos Atrai para Si Mesmo
Em João 6:44, Jesus disse que “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair.” E Ele expressou o mesmo pensamento logo depois em João 6:65, quando disse: “Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido.” A atração de Deus para com Cristo é resultado de sua graça para conosco e é o que o arminiano entende pelo termo graça preveniente. Sem a atração ou capacitação de Deus, somos incapazes de vir a Cristo. Isso contrasta com o semipelagianismo, que ensina que o ser humano dá o primeiro passo em direção a Deus e, depois disso, Deus assume e faz o resto. Mas nós não podemos dar o primeiro passo. Só depois que Deus me capacita, sou capaz de responder positivamente ao seu convite.
Isso tem consequência prática. Circula nos púlpitos brasileiros a máxima de que, se dermos um passo em direção a Deus, Ele dará dez em nossa direção. A frase põe o primeiro passo no pecador, e por isso é semipelagiana. Ao mesmo tempo, muitos críticos supõem que a graça preveniente seja um expediente para escapar da depravação total, quando, na verdade, ela a pressupõe. Por isso convém não atenuar o ponto de partida. Quando o Manual de teologia arminiana de Flávyo Henrique Costa Santos sugere que Efésios 2:1 não descreve “uma incapacidade absoluta”, a formulação de Armínio, para quem a vontade está “aprisionada, destruída e perdida” (Disputas públicas, XI), é mais segura.
Mas quem é atraído? Deus só atrai aqueles que estão predestinados, ou Ele atrai todos? Em João 12:32, Jesus disse: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.” Uma das consequências da crucificação de Jesus é que Ele atrairia todos a si mesmo. Jesus não está atraindo apenas aqueles que foram predestinados, ou de todos os tipos de pessoas; Ele está atraindo todos no mundo. Mas a atração do Pai é diferente da atração do Filho? Como são o mesmo Deus, pareceria razoável que aqueles que o Pai atrai são os mesmos que o Filho atrai.
O verbo grego que João usa nos dois textos é helkō, que quer dizer “puxar”, “atrair”. A exegese reformada observa que ele descreve a rede arrastada para a praia (João 21:6) e conclui que a atração do Pai é eficaz e restrita aos que serão ressuscitados no último dia. A leitura arminiana nota três coisas. Em primeiro lugar, o próprio Jesus explica a atração, no versículo seguinte, como ser ensinado por Deus: “Escrito está nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Portanto todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu, esse vem a mim” (João 6:45). Ou seja, trata-se de persuasão interior, e não de coação. Em segundo lugar, o mesmo verbo reaparece com objeto universal em João 12:32. Em terceiro lugar, a Septuaginta usa esse verbo em Jeremias 31:3 para o amor eterno com que Deus atrai o seu povo, e Oseias define a natureza dessa atração: “Com cordas humanas eu os puxei, com cordas de amor” (Oseias 11:4). As duas metades precisam ficar juntas: ninguém vem se não for atraído, o que exclui Pelágio, e Cristo atrai todos, o que exclui uma graça reservada a poucos.
Como Ele Nos Atrai
Como essa atração ocorre? Em João 16:8-11, Jesus disse do Espírito Santo que “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.” O Espírito Santo traz convicção de pecado; da nossa falta de justiça; e da consciência do juízo vindouro por causa do nosso pecado. Isso é algo que, em nosso estado naturalmente depravado, seríamos incapazes de experimentar. A convicção do pecado e do juízo vindouro não é feita apenas para nos atormentar. Mas o Espírito Santo, ao mesmo tempo em que traz convicção, também nos capacita a responder.
O verbo que Jesus usa ali, elenchō, pertence ao vocabulário do tribunal: provar a culpa, convencer. E o objeto da ação do Espírito é “o mundo”. Essa obra é antiga. Antes do dilúvio, o Senhor já dizia: “Não brigará meu espírito com o ser humano para sempre” (Gênesis 6:3). Paulo a reconhece entre os gentios, cuja consciência dá testemunho, “ora acusando-os, ora defendendo-os” (Romanos 2:15), e Wesley anotou que, quando eles procedem “por natureza”, isso acontece, “estritamente falando, pela graça preventiva” (Notas explicativas, Romanos 2:14).
O Espírito convence, e o Filho ilumina. O prólogo de João apresenta o Verbo como “a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9), luz que, segundo as Notas explicativas de Wesley, brilharia cada vez mais se o homem não a impedisse. A carta a Tito liga essa luz universal à vinda histórica de Cristo:
“Porque a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens. Ensinando-nos que, ao renunciarmos à irreverência e aos maus desejos mundanos, vivamos neste tempo presente de maneira sóbria, justa e devota.”
(Tito 2:11-12, Bíblia Livre)
A graça que se manifestou é “salvadora” e se manifestou “a todos os homens”, e por isso não pode ser reduzida a uma bondade providencial sem direção salvífica. O fundamento da graça preveniente é o próprio Cristo: ela é dada por causa dele e em virtude da sua cruz, pela qual “um ato de justiça resultou em justificação da vida sobre todos os seres humanos” (Romanos 5:18). Hernández observa que, para Armínio, a intenção universal do sacrifício de Cristo se torna efetiva justamente na graça preveniente.
O evangelho de João deixa claro que todas as três pessoas da Trindade estão envolvidas na atração ou capacitação para nós. Deus ama o mundo inteiro (João 3:16) e não quer que ninguém pereça (1 Timóteo 2:4; 2 Pedro 3:9). Deus sabe que somos incapazes por conta própria, então Ele faz o que é necessário para nos capacitar a ser salvos.
Wesley reuniu essa obra trinitária numa só frase, no sermão O caminho bíblico da salvação (1765), ao descrever a primeira etapa da salvação:
“Se a tomarmos em toda a sua extensão, ela incluirá tudo o que se opera na alma por aquilo que frequentemente se chama consciência natural, mas que, mais propriamente, é a graça preveniente; todas as atrações do Pai, os desejos de Deus que, se lhes cedermos, aumentam cada vez mais; toda aquela luz com que o Filho de Deus ‘ilumina a todo ser humano que vem ao mundo’; todas as convicções que o seu Espírito, de tempos em tempos, opera em todo filho do homem.”
John Wesley, O caminho bíblico da salvação, I, 2 (tradução nossa)
O Pai atrai, o Filho ilumina e o Espírito convence. A graça preveniente não é uma energia anônima, mas a obra do Deus triúno que vem ao encontro do pecador.
A Graça é Resistível?
Calvinistas e arminianos concordam que a humanidade é depravada e que a salvação é possível apenas através da obra graciosa de Deus em nosso favor. Onde eles diferem, porém, é na resistibilidade da graça de Deus. Os calvinistas argumentarão que, se a graça de Deus te atrai a Ele, você não pode resisti-la, o que eles chamam de graça irresistível. O arminiano, por outro lado, acredita que a obra graciosa de Deus em nosso favor é resistível. Podemos recusar a oferta de Deus e, em vez disso, continuar em nosso estado pecaminoso e caído. Podemos resistir a Deus, não porque somos mais fortes que Ele, mas porque Ele nos permite.
Graça Resistível
O que as Escrituras dizem sobre isso? A graça de Deus é resistível? Uma das passagens mais claras está em Atos 7:51, quando Estêvão confronta os líderes religiosos judeus. Ele lhes diz: “Povos teimosos! Vocês sempre resistem ao Espírito Santo! Vocês são iguais aos seus antepassados!” O povo judeu resistiu ao Espírito Santo, e a resistência marcou a história da nação. Ao longo da história de Israel, vemos Deus chamando o povo, e o povo quase tão frequentemente resistindo a Ele. Se a vontade de Deus, seu convite gracioso para nós, não fosse resistível, o Antigo Testamento teria uma leitura bem diferente.
Em Mateus 22:1-14, Jesus contou a parábola do banquete de casamento. Nesta parábola, várias pessoas são convidadas para o banquete. E, de fato, todos foram finalmente convidados. Mas nem todos puderam desfrutar do banquete; muitos resistiram ao chamado e se recusaram a vir, ou vieram de maneira inadequada. No final da parábola, Jesus disse que “muitos são chamados, mas poucos escolhidos.” A parábola ensina que mais pessoas são convidadas para o reino do que as que entram. O convite de Deus para a salvação é resistível.
Jesus disse o mesmo sobre Jerusalém: “Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas; porém não quisestes!” (Mateus 23:37). E Paulo cita o lamento de Deus sobre Israel: “Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e hostil” (Romanos 10:21). Essas mãos estendidas não seriam sinceras sem uma oferta real.
Vincent Cheung, que leio aqui apenas como contraste, entende o chamado interno não como “um convite” que se possa aceitar ou rejeitar, mas como uma “intimação” dirigida somente aos eleitos, e afirma que Deus endurece “os não-eleitos” contra o evangelho pregado (Teologia sistemática, “Chamado eficaz”). A teologia arminiana responde com o juramento de Deus, que não tem “prazer na morte do perverso” (Ezequiel 33:11), e com o propósito de que “todas as pessoas se salvem” (1 Timóteo 2:4). Um chamado sem graça interior para os não eleitos dificilmente corresponde às mãos estendidas “todo o dia”. Os próprios Cânones de Dort reconhecem que o chamado do evangelho é sério (III/IV, 8-9).
Uma Graça Magnificada
Alguns argumentarão que, se a graça de Deus é resistível, ela é de alguma forma diminuída, que não é tão poderosa. Isso seria verdade se Deus estivesse tentando nos forçar a aceitar sua vontade. Mas se Deus quer nos permitir fazer uma escolha, então sua graça deve ser resistível. Ela é resistível não por fraqueza, mas porque Ele assim escolhe. Na visão arminiana, a graça de Deus é magnificada porque alcança todas as pessoas. Não é limitada em escopo a apenas alguns.
Até aqui vimos o que é a graça, de onde vem o nome graça preveniente, o que ela não é, como Deus nos atrai e por que essa graça pode ser recusada. Na Parte 2 deste estudo, pergunto se ela está sempre ao nosso alcance, percorro a sua história da Igreja antiga até Armínio e Wesley e trato do lugar da fé, que recebe a salvação sem fazer dela uma obra nossa.
Para estudar em grupo
- De onde vem o termo “graça preveniente”, e que relação Agostinho viu entre Salmos 59:10 e Salmos 23:6?
- Em que a graça preveniente se distingue da graça comum da teologia reformada? E como Armínio e os remonstrantes, Wesley e o calvinismo reformado relacionam essa graça com a regeneração?
- Como Wesley descreve a obra do Pai, do Filho e do Espírito na graça preveniente, e que textos bíblicos correspondem a cada um?
- Como João 6:45 e João 12:32 ajudam a entender o verbo “atrair” de João 6:44?
Referências Bíblicas
- João 6:44 – Ninguém pode vir a Cristo se o Pai não o atrair.
- João 12:32 – Jesus atrai todas as pessoas a si mesmo.
- João 16:8 – O Espírito Santo veio para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo.
- Romanos 2:4-5 – A bondade de Deus nos leva ao arrependimento, nossa teimosia nos leva à ira.
- Tito 2:11 – A graça de Deus traz salvação a todos os homens.
- 2 Crônicas 36:15-16 – Deus repetidamente alcança Israel, mas eles rejeitam e enfrentam a ira de Deus.
- Lucas 7:30 – Os fariseus rejeitaram o propósito de Deus para si mesmos.
- Lucas 13:34 – Jerusalém não quis ser reunida a Jesus como uma galinha reúne seus pintinhos.
- Isaías 66:4 – Deus chama, mas eles não respondem. Seu chamado é resistível.
- Atos 7:51 – Estêvão acusa os líderes religiosos de resistir a Deus.
- Gênesis 3:9 – Depois da queda, é Deus quem chama o homem.
- Salmos 59:10 – O Deus que tem bondade para comigo me antecederá.
- Oseias 11:4 – Deus atrai o seu povo com cordas de amor.
- João 1:9 – O Verbo é a luz que ilumina todo ser humano.
- João 6:45 – A atração do Pai é ensino: quem ouviu e aprendeu do Pai vem a Cristo.
- Romanos 5:18 – Um ato de justiça resultou em justificação da vida sobre todos.
- Mateus 23:37 – Jesus quis reunir Jerusalém, mas ela não quis.
Citações
“Que o homem não tem graça salvadora por si mesmo, nem pela energia de seu livre-arbítrio, uma vez que, no estado de apostasia e pecado, ele, de si mesmo, não pode pensar, querer ou fazer nada que seja verdadeiramente bom (como a fé salvadora é eminentemente); mas é necessário que ele nasça de novo de Deus em Cristo, através de seu Espírito Santo, e seja renovado em entendimento, inclinação, ou vontade, e todos os seus poderes, para que possa entender corretamente, pensar, querer e efetuar o que é verdadeiramente bom, de acordo com a Palavra de Cristo, João 15:5, ‘Sem mim nada podeis fazer.’”
Artigo 3 – Cinco artigos da Remonstrância
É esse artigo que está por trás do que eu disse sobre a graça preveniente e o novo nascimento: o “nascer de novo” de que ele fala é a renovação do entendimento e da vontade que vem antes da fé, e o artigo 4 da mesma Remonstrância acrescenta que essa graça pode ser resistida.
“Arminius estava preocupado não apenas para que Deus não fosse feito o autor do pecado, mas também para que o relacionamento Deus-humano não fosse meramente mecânico, mas genuinamente pessoal. Para ele, a doutrina calvinista elevada reduzia a pessoa sendo salva a um autômato e o relacionamento Deus-pessoa ao nível do relacionamento entre uma pessoa e um instrumento. Portanto, ele precisava deixar espaço para resistência, mas nunca deu a entender que a pessoa sendo salva se tornava uma causa da salvação. Ele negou isso veementemente.”
William Gene Witt, Criação, Redenção e Graça na Teologia de Jacob Arminius (Tese de doutorado, Universidade de Notre Dame, 1993, pp. 629-30)
Sobre as fontes
Agradeço à Sociedade dos Arminianos Evangélicos por este esboço e utilizarei muitos de seus recursos. Também usarei “Teologia Arminiana: Mitos e Realidades” de Roger Olson e “Cristianismo Clássico: Uma Teologia Sistemática” de Thomas Oden, os “Cinco Artigos da Remonstrância”, alguns sermões de John Wesley e, naturalmente, “As Obras de Jacó Armínio” como recursos para este estudo.
Para o vocabulário, a base bíblica e a história da graça preveniente, recorri também a estas obras:
- AGOSTINHO. Sobre a natureza e a graça; Enchiridion.
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
- CALVINO, João. As institutas da religião cristã (1559).
- Cânones de Dort (1619).
- HERNÁNDEZ, Abner F. The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius. Tese de doutorado. Andrews University, 2017.
- MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
- SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. Editora Reflexão, 2021.
- THORSEN, Don. Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice. Nashville: Abingdon, 2013.
- WESLEY, John. O caminho bíblico da salvação (1765); Notas explicativas. Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
- Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática.
- Blog
- Teologia
- Arminianismo