
TeologiaArminianismo3 de 16
A graça preveniente em Armínio: Um estudo completo
Neste texto
- 1. Leiden, 1603 a 1609: o debate
- 2. De onde vem a ideia
- 3. O ponto de partida: uma vontade presa
- 4. O que Armínio chama de graça
- 5. Como a graça age: primeiro sozinha, depois sem forçar
- O mendigo que estende a mão
- Só onde há pregação?
- 6. Uma graça para todos
- 7. Por que a graça é o centro
- Para estudar em grupo
- 1. Por que Gomarus e Armínio liam Romanos 7 de modo diferente?
- 2. Como Armínio evita o semipelagianismo?
- 3. O que a imagem do mendigo quer mostrar?
- 4. Graça operante e graça cooperante são duas graças?
- 5. Por que Hernández diz que a graça preveniente é o centro da doutrina de Armínio?
- Pequeno glossário
- A porta que abre por fora
- Fontes
Quem já ficou preso num elevador sabe que de nada adianta apertar botões ou forçar a porta. Ela só se abre por fora. Alguém precisa chegar, destravar e abrir. Sair ou permanecer lá dentro é uma decisão que vem depois.
Jacó Armínio (1559-1609) ensinava algo muito parecido sobre a salvação. Muitos pensam que o arminianismo começa pelo livre-arbítrio, como se o pecador tivesse a chave no bolso e só precisasse decidir usar. Armínio começava pela porta trancada e por quem abre do lado de fora. O nome que ele dava a essa ação de Deus é graça preveniente, ou seja, a graça que vem antes (do latim praevenire, “chegar antes”).
Este estudo se apoia nas obras de Armínio e na tese de doutorado de Abner F. Hernández, The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius (Andrews University, 2017). Hernández leu os escritos de Armínio atrás de um tema só, a graça que vem antes, e chegou a uma conclusão que desfaz muita caricatura: o centro da doutrina da salvação de Armínio é a graça preveniente, e não o livre-arbítrio. Esse é o fio deste estudo, dividido em sete partes.
1. Leiden, 1603 a 1609: o debate
Armínio estudou na Universidade de Leiden e depois em Genebra, com Teodoro de Beza, o sucessor de Calvino. Em 1588 assumiu o pastorado da Igreja Reformada de Amsterdã. Lá começou a pregar sobre a carta aos Romanos, e as mensagens sobre o capítulo 7 levantaram suspeita. Petrus Plancius, outro pastor da cidade, achou que ele estava se afastando da leitura reformada consagrada.
Em 1603 Armínio virou professor de teologia em Leiden e encontrou ali Franciscus Gomarus, professor desde 1594 e defensor firme da predestinação incondicional. Outro opositor foi Johannes Kuchlinus, que dirigia o colégio dos estudantes de teologia mantido pelos Estados da Holanda. A controvérsia girou em torno de duas coisas: quem é o homem de Romanos 7 e qual o papel da vontade humana na salvação.
Para Gomarus, dizer que um não regenerado podia lutar contra o pecado, como Paulo descreve em Romanos 7, dava poder demais à vontade humana e minava a depravação total. Armínio respondeu que não. Os seres humanos são depravados por natureza e só respondem a Deus pela graça do Espírito Santo, que converte e transforma. Ao mesmo tempo, insistia que ninguém é salvo contra a própria vontade. A vontade, libertada pela graça, consente. Armínio chegou a citar Bernardo de Claraval, em Sobre a graça e o livre-arbítrio: “Ninguém, a não ser Deus, pode dar a salvação; e nada, a não ser o livre-arbítrio, é capaz de recebê-la.”
Para Gomarus e Kuchlinus, isso era erro grave. Gomarus dizia que “Deus faz de quem não quer alguém que quer”. Kuchlinus dizia que “Deus distribui o Espírito Santo a quem ele quer, não como as pessoas querem”. Os dois negavam qualquer participação da vontade libertada na aceitação do evangelho.
Para Armínio, os dois deixavam de ver o ponto central. Para ele, a questão toda se resolvia com uma pergunta: como uma pessoa depravada recebe a liberdade de responder à oferta da salvação? E a resposta dele era sempre a mesma: pela obra do Espírito Santo, na graça preveniente. A capacidade de responder a Deus não sai de um livre-arbítrio solto. Ela nasce da graça que vem antes.
2. De onde vem a ideia
Armínio não inventou a graça preveniente. A ideia tem uma história longa, e ela ajuda a entender o que ele quis e o que ele não quis dizer.
Em primeiro lugar, Agostinho de Hipona. Contra Pelágio, Agostinho ensinou que, depois da queda, a vontade humana perdeu a capacidade de querer o bem espiritual. Por isso a graça precisa vir antes, curar a vontade e começar a conversão. O Concílio de Orange, em 529, confirmou isso contra os que hoje chamamos de semipelagianos: até o começo da fé, o primeiro desejo de crer, é dom da graça. Orange, porém, não ensinou uma graça irresistível, e ainda condenou quem diz que Deus predestina alguém para o mal.
Em segundo lugar, a Idade Média. Tomás de Aquino distinguiu a graça preveniente da subsequente (Suma teológica I-II, q. 111, a. 3). Mais tarde, a escola nominalista, com Gabriel Biel, espalhou uma máxima: facere quod in se est, “fazer o que está em si”. Quem fizesse o melhor que pudesse com as próprias forças naturais receberia a graça. Isso põe o primeiro passo no ser humano, e é semipelagianismo.
O historiador Richard Muller chegou a aproximar Armínio de Biel, porque Armínio também falou de quem “faz o que pode” e recebe mais graça. Keith Stanglin respondeu que a diferença é justamente a graça preveniente. Para Biel, o ser humano faz o que está nele com as forças naturais e por isso recebe a graça. Para Armínio, ele só consegue fazer alguma coisa porque a graça preveniente já foi dada antes.
Em terceiro lugar, a Reforma. Lutero e Calvino afirmaram com força a escravidão da vontade, e Calvino ensinou que a graça dada aos eleitos não falha. Filipe Melanchthon, nos Loci da maturidade, falou de uma vontade que acompanha a obra da Palavra e do Espírito. Os anabatistas também afirmavam que a graça vem antes e que a pessoa alcançada por ela pode responder.
E Luis de Molina, o jesuíta espanhol? Os inimigos de Armínio o acusavam de molinista, mas Molina via a graça como ajuda a uma vontade que estava só enfraquecida. Armínio não seguiu esse caminho: para ele, a graça liberta uma vontade que estava perdida.
Hernández mostra que Armínio está em continuidade com Agostinho, Orange, Melanchthon e os anabatistas no essencial: a graça vem antes de qualquer querer humano. E está com Orange, contra o último Agostinho, quando afirma que essa graça pode ser recusada. A conclusão da tese é que Armínio construiu a doutrina principalmente a partir de fontes reformadas e protestantes, e não de fontes católicas.
3. O ponto de partida: uma vontade presa
Quem acha que Armínio era otimista sobre o ser humano precisa ler o que ele escreveu. John Wesley dizia que ninguém, “nem o próprio João Calvino”, afirmou o pecado original e a justificação pela fé com mais força do que Armínio (A pergunta “O que é um arminiano?” respondida, 1770).
Nas Disputas públicas (XI), Armínio descreve o estado do ser humano caído assim: “Nesse estado, o livre-arbítrio do homem para o verdadeiro bem não está só ferido, mutilado, enfermo, torto e enfraquecido, mas também aprisionado, destruído e perdido.” Por si, a vontade caída só é livre para o mal. Na Declaração de Sentimentos (1608), ele diz o mesmo de outro jeito: no estado de queda, o homem não é capaz, “por si mesmo e de si mesmo”, de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom, e precisa ser regenerado e renovado por Deus em Cristo, pelo Espírito Santo. Paulo diz o mesmo: “vós estáveis mortos em vossas ofensas e pecados” (Efésios 2:1).
Armínio mostra esse estrago em três lugares. Em primeiro lugar, a mente. Ela está escura, sem o conhecimento salvador de Deus, e as coisas do Espírito lhe parecem loucura (1 Coríntios 2:14). Em segundo lugar, os afetos. Eles estão desordenados, com ódio e aversão ao que é bom de verdade e prazer no mal. Em terceiro lugar, a vontade. Ela não tem força nenhuma (Armínio usa a palavra latina impotentia) para fazer o bem de verdade e evitar o mal.
Aqui fica clara a distância de Pelágio. Pelágio ensinava que o pecado de Adão atingiu só Adão e que a vontade humana continuou inteira, capaz de escolher o bem sem ajuda sobrenatural. Os semipelagianos admitiam que a vontade estava fraca, mas achavam que o ser humano podia dar o primeiro passo em direção a Deus. Armínio rejeitou as duas coisas. Quando o acusaram de semipelagiano, ele respondeu que a graça não pode ser excluída do começo da conversão, porque ela vem sempre antes, acompanha e segue (Apologia contra 31 artigos, art. XVII).
Por isso, para Armínio, todo movimento do ser humano em direção a Deus começa fora dele. Os teólogos falam extra nos, “fora de nós”. Não sobrou dentro de nós uma faísca de bondade esperando para ser acesa por esforço próprio. Jesus foi direto: “sem mim nada podeis fazer” (João 15:5). Armínio sublinhava que Jesus não disse “sem mim não podeis completar nada”, mas “sem mim nada podeis fazer”. Isso vale para todos nós. Ninguém começou sozinho.
4. O que Armínio chama de graça
Antes de falar de como a graça age, Armínio explica o que ele quer dizer com a palavra. Ele usa “graça” em três sentidos, e os três se completam.
Em primeiro lugar, a graça é o favor de Deus, um atributo dele: o amor gratuito com que Deus olha para pecadores que não merecem nada e quer dar a eles a salvação em Cristo. Em segundo lugar, a graça é a obra interior do Espírito Santo: a luz que ele acende na mente, o toque nos afetos, a renovação da vontade. Armínio fala de dons e de uma disposição santa que o Espírito põe em nós, mas rejeita a ideia de uma substância derramada na alma. A graça é a assistência pessoal do Espírito Santo (Apologia, art. VIII). Em terceiro lugar, a graça é a assistência contínua do Espírito, que acompanha o crente depois da conversão, guia, fortalece e guarda até o fim.
Depois Armínio dá nomes diferentes à graça conforme o que ela faz. Quando vem antes de qualquer resposta, ele chama de graça preveniente, excitante, operante, a graça “que bate à porta”. Quando acompanha e segue a resposta, chama de graça subsequente, cooperante, acompanhante, a graça “que abre e entra” (Apologia, art. XVI; Disputas privadas LXX). Ou seja, são nomes diferentes para uma graça só. A graça cooperante “não difere em espécie nem em eficácia” da preveniente: “é a mesma graça continuada”. E Armínio adverte que, sem a devida distinção desses termos, “a descida à heresia, ou à suspeita de heresia, é suave e fácil”. Ele levava as palavras a sério.
Juntando tudo, chegamos a esta definição: é a obra sobrenatural do Espírito Santo que vem antes de qualquer mérito, desejo ou esforço humano. Ela ilumina a mente com a verdade do evangelho, toca os afetos e quebra as correntes da vontade, para que a pessoa possa responder ao chamado de Deus. Ela não faz parte da natureza criada nem é capacidade natural, mas graça dada depois da queda, que vem do amor de Deus em Cristo.
Hernández observa que Armínio não fez uma exegese extensa sobre o tema e se apoiou em poucos textos. Dois aparecem juntos quase sempre.
O primeiro é João 6:44: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.” Armínio usava esse versículo para mostrar duas coisas: o pecador não consegue responder sozinho, e precisa ser trazido pela graça. Ele dizia que a graça preveniente, o bem maior, “está propriamente no evangelho” nesse texto. E chamava de crentes só os que creram em Cristo “pela bondade gratuita e peculiar de Deus”. Para Armínio, porém, esse trazer do Pai ilumina e capacita, e não arrasta à força.
O segundo é Atos 16:14: “E uma certa mulher, por nome Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, que servia a Deus; ela nos ouviu; o coração da qual o Senhor abriu, para que prestasse atenção ao que Paulo dizia.” Lídia mostra as duas mãos da graça trabalhando juntas. Por fora, Paulo pregava a Palavra. Por dentro, o Senhor abriu o coração dela. Lídia não abriu o próprio coração. Ela prestou atenção porque o Senhor abriu primeiro.
5. Como a graça age: primeiro sozinha, depois sem forçar
Este é o ponto mais fino do ensino de Armínio, e é aqui que mais se erra quando se fala do arminianismo. A graça preveniente age em dois momentos.
No primeiro momento, ela age sozinha, e o ser humano não tem como evitá-la. Armínio escreveu: “No começo da sua conversão, o homem se comporta de modo puramente passivo; ou seja, embora por um ato vital, isto é, pelo sentir, perceba a graça que o chama, não pode fazer outra coisa senão recebê-la e senti-la. Mas, quando sente a graça afetando ou inclinando a mente e o coração, ele consente livremente, de modo que, ao mesmo tempo, pode recusar o consentimento” (Artigos a serem examinados com diligência, art. XVII).
Repare na primeira frase: “puramente passivo”. Quem está morto não colabora com a própria ressurreição. O Espírito Santo começa sozinho, sem pedir licença, e liberta a vontade que estava presa. Neste ponto a obra é só de Deus. Os teólogos chamam isso de obra monergista, de um agente só.
No segundo momento, com a vontade libertada, a graça continua agindo, só que de um jeito que pode ser recusado. Ela convence, inclina, convida, mas não força. Por isso Armínio dizia, na Declaração de Sentimentos, que toda a controvérsia se reduzia a uma pergunta: “A graça de Deus é uma força irresistível?” Ele não discutia o que a graça faz. Fazia questão de dizer que reconhecia e ensinava tantas operações da graça quanto qualquer um. Discutia só o modo: se ela é irresistível ou não. E respondia, com as Escrituras, que muitos resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça oferecida. Estêvão disse isso aos líderes de Jerusalém: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51).
E Armínio não deixava sobrar nada para o ser humano se gloriar: “Atribuo à graça o início, a continuação e a consumação de todo bem.” Ele dizia que nem o regenerado consegue pensar, querer ou fazer bem algum, nem resistir a tentação alguma, sem a graça que vem antes e desperta, que acompanha e coopera.
Alguns chamam essa resposta da vontade libertada de “sinergismo”, de synergia, “trabalhar junto”. Se a palavra for usada, que seja no sentido que Roger Olson chama de sinergismo evangélico: Deus não faz uma parte e nós outra. Toda a capacidade de crer vem da graça, e a participação humana se resume a receber, aprovar e consentir, como John Mark Hicks resume a posição de Armínio. A vontade não é causa da salvação junto com a graça.
- A graça vem antesO Espírito age antes de qualquer mérito, desejo ou esforço
- A vontade é libertadaNo começo, o homem é puramente passivo; a obra é só de Deus
- O chamado é percebidoA pessoa não pode deixar de receber e sentir a graça
- Consente ou resisteA graça inclina a mente e o coração, mas não força
- CrêA fé é obra da graça e recebe sem merecer, como o mendigo
- A mesma graça continuaAcompanha e segue o crente até a consumação de todo bem
O mendigo que estende a mão
Os adversários de Armínio diziam que, se a pessoa precisa consentir, a salvação passa a depender um pouco dela, e a glória fica dividida. Armínio respondeu com uma imagem que ele não inventou (Lutero já usava parecida), mas que ficou ligada ao nome dele:
“Um homem rico dá a um mendigo pobre e faminto uma esmola com que ele possa sustentar a si e à família. Deixa de ser presente puro porque o mendigo estende a mão para receber? Pode-se dizer com propriedade que a esmola dependeu em parte da generosidade do doador e em parte da liberdade de quem recebe, ainda que este não teria a esmola se não a recebesse estendendo a mão? […] Se essas coisas não se podem dizer com verdade de um mendigo que recebe uma esmola, quanto menos se podem dizer do dom da fé, para cuja recepção são necessários muito mais atos da graça divina!” (Apologia contra 31 artigos, art. XXVII).
A última frase é a mais importante. No caso do mendigo, a mão já estava lá. No caso da fé, até a mão é graça: foi a graça preveniente que libertou a vontade para que ela pudesse se estender. Por isso Armínio dizia que a fé é propriamente obra da graça preveniente, a luz interna do Espírito que torna eficaz a luz externa da Escritura. Ninguém se gaba de ter estendido a mão para receber pão. Paulo pergunta: “E o que tens tu, que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7).
Só onde há pregação?
Por fora, Deus usa ordinariamente a pregação da Palavra. Por dentro, o Espírito ilumina a mente e toca o coração. Por isso alguns estudiosos, como Carl Bangs e John Mark Hicks, entenderam que, para Armínio, a graça preveniente é dada a todos os que ouvem a pregação, e só a eles.
Hernández mostra que Armínio foi além. A ligação entre a Palavra pregada e o Espírito é o caminho comum, mas o Espírito também trabalha antes e fora da pregação, por caminhos que não conhecemos. Armínio lia Romanos 1 assim. Paulo diz que “o que se pode conhecer de Deus é evidente a eles, porque Deus lhes manifestou”, e que o poder e a divindade de Deus “são entendidas e claramente vistas por meio das coisas criadas, para que não tenham desculpa” (Romanos 1:19-20). Para Armínio, isso só é possível por uma obra do Espírito que prepara o coração. Ele era cuidadoso: essa obra preparatória não leva à salvação em todos os casos, e a pregação continua sendo o meio ordinário. Mas ela existe, e alcança pessoas que nunca ouviram um sermão. João diz de Cristo que ele é “a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9).
6. Uma graça para todos
Por que Armínio insistia que a graça preveniente é universal? Porque ele olhava para o caráter de Deus.
Em primeiro lugar, o amor e a justiça de Deus. Para Armínio, os dois andam juntos. Deus odeia o pecado, mas ama as criaturas que fez à sua imagem. Um Deus justo não exige de alguém o que ele não tem como fazer e depois o castiga por não ter feito, sem nunca ter oferecido o remédio. Por isso o chamado do evangelho é sério, sincero, e vem acompanhado da graça interior que torna possível a resposta. Um convite feito a quem não tem nenhuma condição de aceitar, sem a graça que capacita, seria um convite falso. Paulo escreve: “a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens” (Tito 2:11).
Em segundo lugar, a cruz. Armínio ensinava que Cristo morreu por todos, e não só por um grupo de eleitos, e defendeu isso contra o puritano William Perkins (Exame do panfleto de Perkins). Deus fez aliança em Adão com toda a raça humana. A intenção universal da cruz se torna efetiva na graça preveniente, que abre a todos o caminho e lhes dá a vontade libertada para responder.
Em terceiro lugar, Romanos 7. Paulo escreve: “Pois, quanto ao ser interior, tenho prazer na Lei de Deus; mas em meus membros vejo outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende sob a lei do pecado, que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Romanos 7:22-24). Gomarus via aí o crente regenerado em luta contra o pecado que ainda habita nele. Armínio via o homem “debaixo da lei”: alguém ainda não regenerado, mas já despertado pela graça preveniente, que reconhece a bondade da lei, sente o peso do pecado e clama por libertação, antes de chegar à vida no Espírito de Romanos 8.
Isso levou Armínio a distinguir dois graus entre os não regenerados. Uns ainda não foram tocados pelos movimentos preparatórios do Espírito. Outros já estão debaixo deles: sentem o pecado, temem o juízo, desejam a libertação, mas ainda não creram. Ou seja, a graça preveniente trabalha fundo antes do novo nascimento.
Em quarto lugar, a eleição. Na Declaração de Sentimentos, Armínio expôs quatro decretos de Deus. O primeiro foi nomear seu Filho, Jesus Cristo, como Mediador, Redentor e Salvador. O segundo, receber em seu favor os que se arrependem e creem em Cristo, e perseveram até o fim. O terceiro, dar os meios suficientes e eficazes para o arrependimento e a fé. O quarto, salvar e condenar pessoas determinadas, com base na presciência pela qual Deus sabia, desde a eternidade, quem pela graça preveniente creria e pela graça subsequente perseveraria. Ou seja, a eleição é em Cristo e condicional. A fé prevista é a condição que recebe, e não o mérito que causa.
E o conhecimento médio? Armínio dividia o conhecimento de Deus em três: o conhecimento natural de tudo o que poderia ser, o conhecimento médio (scientia media) do que seria em cada circunstância, e o conhecimento livre do que será (Disputas públicas IV). Os estudiosos discutem se ele era molinista de verdade ou se só usou a distinção. Em todo caso, Armínio afirmava uma presciência completa e infalível de tudo o que vai acontecer, e por isso o arminianismo clássico rejeita o chamado teísmo aberto. E, no ponto da graça, ele não seguiu Molina.
7. Por que a graça é o centro
Em 2014, W. Brian Shelton publicou um livro sobre a graça preveniente e chamou Armínio e Wesley de “artesãos da graça preveniente”. Só que dedicou duas páginas a Armínio e concluiu que ele “não desenvolveu a fundo” a doutrina, tentando apenas conciliar o livre-arbítrio com a soberania de Deus. Hernández mostra o contrário. Lida a obra inteira, a graça preveniente aparece como o princípio que organiza toda a doutrina da salvação de Armínio. Ela faz três coisas ao mesmo tempo.
Em primeiro lugar, ela fecha a porta ao pelagianismo. Nenhuma capacidade natural pode querer ou fazer o bem espiritual sem a ação prévia e sobrenatural do Espírito Santo.
Em segundo lugar, ela explica como alguém morto em delitos e pecados pode ser chamado a responder ao evangelho: não por força própria, mas porque o Espírito libertou a vontade.
Em terceiro lugar, ela guarda a glória só para Deus. O começo, a capacitação, a continuação e a consumação da salvação vêm da graça. Ao ser humano cabe receber sem merecer, ou resistir e responder por ter resistido.
A tabela abaixo resume as quatro posições que estavam na mesa no tempo de Armínio:
| Pelagianismo | Semipelagianismo | Calvinismo (Gomarus) | Armínio | |
|---|---|---|---|---|
| A vontade depois da queda | Inteira, capaz do bem por natureza | Enfraquecida, mas capaz do primeiro passo | Escravizada, sem capacidade para o bem | Presa, destruída e perdida para o bem |
| Quem começa a salvação | O ser humano | O ser humano, e Deus ajuda | Deus, com graça irresistível nos eleitos | Deus, pela graça preveniente que liberta a vontade |
| Como a graça age | Como lei e exemplo, por fora | Como ajuda a quem já começou | Sem falhar, só nos eleitos | Só de Deus no começo; depois pode ser recusada |
| O papel da vontade | Causa da salvação | Dá o primeiro passo e coopera | Passiva na regeneração | Libertada pela graça, recebe ou resiste |
| A quem a graça alcança | Não é necessária | A quem se esforça | Só aos eleitos | A todos, pelo amor e pela justiça de Deus |
Repare na terceira e na última coluna. Calvinistas e Armínio concordam que Deus começa a salvação e que a vontade caída não tem força para o bem. Eles divergem em duas coisas: se essa graça pode ser recusada e se ela é dada a todos.
Para estudar em grupo
1. Por que Gomarus e Armínio liam Romanos 7 de modo diferente?
Gomarus via em Romanos 7 o crente regenerado lutando contra o pecado, e achava que pôr essa luta num não regenerado contrariava a depravação total. Armínio via o homem debaixo da lei: não regenerado, mas já despertado pela graça preveniente, que reconhece a bondade da lei e sente a própria impotência antes da libertação de Romanos 8.
2. Como Armínio evita o semipelagianismo?
Afirmando que, no começo da conversão, o ser humano é “puramente passivo”. O primeiro passo é de Deus, e não do homem. O Espírito liberta a vontade sem a cooperação dela, e só depois a pessoa consente ou resiste.
3. O que a imagem do mendigo quer mostrar?
Que receber um presente não faz dele uma conquista. Estender a mão não divide o mérito com quem dá. E, no caso da fé, até a mão estendida é obra da graça, porque foi a graça que libertou a vontade.
4. Graça operante e graça cooperante são duas graças?
Não. A graça é uma só, com nomes diferentes conforme o efeito. A operante vem antes, bate à porta e liberta. A cooperante acompanha e segue a resposta da vontade libertada. Para Armínio, é “a mesma graça continuada”.
5. Por que Hernández diz que a graça preveniente é o centro da doutrina de Armínio?
Porque é ela, e não o livre-arbítrio, que liga a depravação total à responsabilidade humana. Ela explica como um morto no pecado pode responder ao evangelho e garante que a salvação, do começo ao fim, dependa da iniciativa e do favor de Deus.
Pequeno glossário
Graça preveniente (gratia praeveniens): A graça que vem antes. Obra do Espírito Santo que antecede qualquer mérito, desejo ou esforço humano e começa a salvação.
Graça operante e graça cooperante (gratia operans, gratia cooperans): Nomes da mesma graça. A operante age antes da resposta humana e liberta a vontade. A cooperante acompanha a vontade libertada no consentimento, na conversão e na santificação.
Facere quod in se est: “Fazer o que está em si.” Máxima medieval de Gabriel Biel: quem fizesse o melhor com as próprias forças receberia a graça. Armínio a usou num sentido oposto, porque o ser humano só faz alguma coisa por causa da graça já recebida.
Impotentia: A falta de força da vontade caída para fazer o bem de verdade e evitar o mal.
Vontade libertada: A vontade depois que a graça preveniente quebra o cativeiro do pecado. Ela é diferente de um livre-arbítrio natural, porque é uma liberdade dada e sustentada pela graça.
Scientia media: Conhecimento médio. O conhecimento que Deus tem do que cada pessoa faria em cada circunstância. Armínio usou a distinção, e os estudiosos discutem quanto ele dependeu de Molina.
Extra nos: “Fora de nós.” A salvação começa fora da natureza humana caída, na graça de Deus.
A porta que abre por fora
Voltemos ao elevador. Quem estava preso não abriu a porta. Não destravou, não forçou, não deu o primeiro passo. Alguém veio de fora e abriu. E, quando a porta abre, ainda é possível ficar lá dentro, com medo ou com orgulho. Mas ninguém que saiu vai dizer que se libertou sozinho.
É isso que Armínio queria dizer. A obra da salvação é de Deus do começo ao fim. A graça vem antes, liberta, chama, acompanha e completa. A nós cabe só receber, e até isso é graça.
Tomara que não passemos a vida discutindo quem segurava a chave, enquanto a porta já está aberta.
Senhor, obrigado porque vieste antes de nós. Quando estávamos presos e nem sabíamos pedir socorro, tu abriste a porta. Guarda-nos de resistir à tua graça. Amém.
Fontes
- Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos (1608); Disputas públicas IV, XI e XVII; Disputas privadas LXX; Apologia contra 31 artigos (1609), arts. VIII, XVI, XVII e XXVII; Artigos a serem examinados com diligência, art. XVII; Exame do panfleto de Perkins. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols e William Bagnall, 3 vols. (1825-1875).
- Remonstrância (1610), arts. 3 e 4, tradução neste site.
- Abner F. Hernández, The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius (tese de doutorado, Andrews University, 2017).
- Keith D. Stanglin, Arminius on the Assurance of Salvation (Brill, 2007); Keith D. Stanglin e Thomas H. McCall, Jacob Arminius: Theologian of Grace (Oxford, 2012).
- Roger E. Olson, Teologia arminiana: mitos e realidades (Reflexão, 2013).
- John Wesley, The Question, “What is an Arminian?” Answered (1770).
- Arminianismo
- Teologia