
TeologiaArminianismo2 de 24
A graça preveniente: A graça que vem antes
Neste texto
- Objetivos do estudo
- Introdução
- 1. Os termos e as distinções
- 1.1 Praevenire: a graça que chega antes
- 1.2 O sentido amplo e o sentido estrito
- 1.3 O que a graça preveniente não é
- 2. Fundamentação bíblica
- 2.1 O Deus que vem primeiro
- 2.2 O Pai que atrai
- 2.3 O Filho que ilumina
- 2.4 O Espírito que convence
- 2.5 Uma graça que pode ser recusada e que vai adiante da pregação
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 De Agostinho a Tomás de Aquino
- 3.2 Trento e a Reforma
- 3.3 Armínio e os remonstrantes
- 3.4 Wesley
- 3.5 Os sistemáticos wesleyanos
- 3.6 O arminianismo no Brasil
- 4. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 4.1 Definição
- 4.2 As operações da graça preveniente
- 4.3 As tradições em comparação
- 4.4 Objeções e respostas
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Objetivos do estudo
- Definir a graça preveniente (gratia praeveniens) e distingui-la da natureza, da graça comum e da regeneração.
- Expor o seu fundamento bíblico como obra do Deus triúno: o Pai que atrai, o Filho que ilumina e o Espírito que convence.
- Acompanhar a doutrina de Agostinho e Orange a Armínio, a Wesley, aos sistemáticos wesleyanos e ao arminianismo brasileiro.
- Formular a posição arminiana clássica e wesleyana sobre as operações, o alcance e a resistibilidade dessa graça e extrair as suas implicações.
Introdução
Toda mãe conversa com o filho recém-nascido muito antes de ele entender uma palavra. Fala enquanto o amamenta, canta enquanto o embala e o chama pelo nome quando ele ainda não sabe que tem um nome. Semanas depois vem o primeiro sorriso, e a família o celebra como se fosse uma conquista da criança; o sorriso, porém, é resposta, e só existe porque alguém, durante muito tempo, falou primeiro. O profeta recorreu a essa imagem para falar da fidelidade de Deus: “Pode, por acaso, uma mulher se esquecer do filho que ainda amamenta […]? Ainda que elas se esquecessem, contudo, eu não me esquecerei de ti” (Isaías 49:15). E o apóstolo resumiu a vida cristã numa frase: “Nós amamos, porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19).
A doutrina que esto estudo estuda é a reflexão sistemática sobre esse “primeiro”. Chama-se graça preveniente, isto é, a graça que vem antes de qualquer desejo, decisão ou esforço humano. Poucas doutrinas são tão decisivas para a soteriologia arminiana e tão mal compreendidas. De um lado, circula nos púlpitos brasileiros a máxima de que, se dermos um passo em direção a Deus, ele dará dez em nossa direção; a frase põe o primeiro passo no pecador, e por isso é semipelagiana. De outro lado, muitos críticos supõem que a graça preveniente seja um expediente para escapar da depravação total, quando, na verdade, ela a pressupõe.
A lição 27 estudou a vontade presa pelo pecado e libertada pela graça e deixou para esto estudo as operações da graça preveniente; a lição 35 a situou como a primeira estação do caminho da salvação. A doutrina de Armínio foi exposta com pormenor no estudo A graça preveniente em Armínio, ao qual remetemos o leitor. Aqui procuramos a doutrina na sua forma sistemática: o vocabulário, o fundamento trinitário, o desenvolvimento wesleyano e o diálogo com as outras tradições.
1. Os termos e as distinções
1.1 Praevenire: a graça que chega antes
O verbo latino praevenire significa “vir antes”, “antecipar-se”. A palavra entrou no vocabulário da graça pelo saltério latino. Onde a Vulgata lê misericordia eius praeveniet me, a Bíblia Livre traduz: “O Deus que tem bondade para comigo me antecederá” (Salmos 59:10). O hebraico usa ali o verbo qādam, “ir à frente”, “vir ao encontro”. Agostinho aproximou esse salmo de outro, “o bem e a bondade me seguirão todos os dias de minha vida” (Salmos 23:6), e daí tirou o par que a teologia ocidental conservaria: a misericórdia de Deus nos previne para que sejamos curados e nos segue para que, curados, tenhamos vigor (Sobre a natureza e a graça, 31, 35). No Enchiridion (32), a fórmula ganhou a sua forma mais breve: a graça previne quem não quer, para que queira, e segue quem quer, para que não queira em vão.
O inglês antigo conservou esse sentido no verbo prevent, e o Livro de Oração Comum anglicano, que Wesley rezou a vida inteira, pede a Deus que nos “previna” com o seu favor em todas as nossas obras. Por isso Wesley escrevia preventing grace, e a tradução brasileira de Armínio fala de “graça preventiva”. Armínio a chamou também, conforme o efeito, de excitante, operante e “que bate à porta” (Apologia, art. XVI).
1.2 O sentido amplo e o sentido estrito
Randy Maddox observa que Wesley usava a palavra em dois sentidos (Responsible Grace, cap. 3). No sentido amplo, toda graça é preveniente, porque toda ação salutar, da primeira fé ao mais alto grau de santificação, depende de um auxílio de Deus que a antecede. No sentido estrito, a expressão designa uma doutrina arminiana específica: a obra salvadora de Deus na humanidade caída antes da justificação, universal e resistível. Este estudo trata sobretudo do segundo sentido, sem esquecer o primeiro, que impede de imaginar uma fase da vida cristã em que já não precisaríamos da graça.
1.3 O que a graça preveniente não é
Convém afastar quatro equívocos. Em primeiro lugar, a graça preveniente não é natureza, nem um resto da criação que a queda teria poupado. Abner Hernández mostra que Armínio recusou uma “graça preveniente da criação” e a entendeu como dom sobrenatural, posterior à queda, procedente do amor de Deus em Cristo (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius, cap. 6); Wesley, como estudou a lição 10, chamou a consciência de dom sobrenatural, e não de dote natural.
Em segundo lugar, ela não se confunde com a graça comum da teologia reformada. Calvino distinguiu a “graça geral”, que refreia o pecado e distribui talentos a crentes e descrentes, da “graça especial”, que salva os eleitos (Institutas, II, 2, 17). Don Thorsen lembra que a graça geral de Calvino não tem direção salvífica, ao passo que a graça preveniente de Wesley se dirige à salvação (Calvin vs. Wesley, cap. 3), e Thomas Oden, citado por Walter Brunelli, diz que ela “não é meramente uma intensificação da graça comum” (Teologia para pentecostais, vol. 3).
Em terceiro lugar, ela não é a regeneração. Precede a fé e prepara para ela, ao passo que o novo nascimento acompanha a fé (lição 40). Armínio às vezes chamou de “regeneração” a libertação inicial da vontade, mas o que distingue a doutrina arminiana da reformada é que essa primeira obra é dada a todos e pode ser recusada.
Em quarto lugar, ela não é uma posse. Thomas Langford, seguido por Maddox, adverte que ela não é um objeto que o homem guarda, mas a presença atuante de Deus, e Armínio rejeitava uma graça infundida como substância para falar da “assistência do Espírito Santo” (Apologia, art. VIII).
2. Fundamentação bíblica
No sermão O caminho bíblico da salvação (1765), Wesley descreveu a primeira etapa da salvação numa frase que serve de roteiro para esta seção:
Se a tomarmos em toda a sua extensão, ela incluirá tudo o que se opera na alma por aquilo que frequentemente se chama consciência natural, mas que, mais propriamente, é a graça preveniente; todas as atrações do Pai, os desejos de Deus que, se lhes cedermos, aumentam cada vez mais; toda aquela luz com que o Filho de Deus “ilumina a todo ser humano que vem ao mundo”; todas as convicções que o seu Espírito, de tempos em tempos, opera em todo filho do homem.
Wesley, O caminho bíblico da salvação, I, 2 (tradução nossa)
A descrição é trinitária: o Pai atrai, o Filho ilumina e o Espírito convence. A graça preveniente não é uma energia anônima, mas a obra do Deus triúno que vem ao encontro do pecador.
2.1 O Deus que vem primeiro
A primeira pergunta da Bíblia depois do pecado não é feita pelo homem, mas por Deus: “E o SENHOR Deus chamou ao homem, e lhe disse: ‘Onde estás?’” (Gênesis 3:9). A partir daí, a direção nunca se inverte. Paulo descreve a humanidade caída com as palavras do salmista, “ninguém há que busque a Deus” (Romanos 3:11), e logo adiante cita Isaías: “Fui achado pelos que não me buscavam” (Romanos 10:20). E Deus nos deu vida “estando nós ainda mortos em nossas ofensas” (Efésios 2:5).
2.2 O Pai que atrai
O texto clássico está no discurso sobre o pão da vida:
Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Escrito está nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Portanto todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu, esse vem a mim.
O verbo grego traduzido por “trazer” é helkō, “puxar”, “atrair”. A exegese reformada observa que ele descreve a rede arrastada para a praia (João 21:6) e conclui que a atração do Pai é eficaz e restrita aos que serão ressuscitados. A leitura arminiana nota três coisas. Jesus explica a atração como ser “ensinado por Deus”, isto é, como persuasão interior, e não coação. O mesmo verbo reaparece com objeto universal: “E eu, quando for levantado da terra, trarei todos a mim” (João 12:32). E a Septuaginta o usa em Jeremias 31:3 para o amor eterno com que Deus atrai o seu povo, cuja natureza Oseias define: “Com cordas humanas eu os puxei, com cordas de amor” (Oseias 11:4). As duas metades precisam ficar juntas: ninguém vem se não for atraído, o que exclui Pelágio; e Cristo atrai todos, o que exclui uma graça reservada a poucos.
2.3 O Filho que ilumina
O prólogo de João apresenta o Verbo como “a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9), luz que, segundo as Notas explicativas de Wesley, brilharia cada vez mais se o homem não a impedisse. A carta a Tito liga a luz universal à vinda histórica de Cristo:
Porque a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens. Ensinando-nos que, ao renunciarmos à irreverência e aos maus desejos mundanos, vivamos neste tempo presente de maneira sóbria, justa e devota.
A graça que se manifestou é “salvadora” e se manifestou “a todos os homens”, e por isso não pode ser reduzida a uma bondade providencial sem direção salvífica. O fundamento da graça preveniente é cristológico: ela é dada por causa de Cristo e em virtude da sua cruz, pela qual “um ato de justiça resultou em justificação da vida sobre todos os seres humanos” (Romanos 5:18). Hernández observa que, para Armínio, a intenção universal do sacrifício de Cristo se torna efetiva justamente na graça preveniente.
2.4 O Espírito que convence
Na última ceia, Jesus anunciou a obra do Consolador no mundo:
E vindo ele, convencerá ao mundo do pecado, e da justiça, e do juízo. Do pecado, porque não creem em mim; E da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; E do juízo, porque o Príncipe deste mundo já está julgado.
O verbo elenchō pertence ao vocabulário do tribunal: provar a culpa, convencer; e o objeto da ação do Espírito é “o mundo”. Antes do dilúvio, o Senhor já dizia: “Não brigará meu espírito com o ser humano para sempre” (Gênesis 6:3). Paulo reconhece essa obra entre os gentios, cuja consciência dá testemunho, “ora acusando-os, ora defendendo-os” (Romanos 2:15), e Wesley anotou que, quando eles procedem “por natureza”, isso acontece, “estritamente falando, pela graça preventiva” (Notas explicativas, Romanos 2:14).
2.5 Uma graça que pode ser recusada e que vai adiante da pregação
Essa graça é séria e pode ser resistida: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51); “Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas; porém não quisestes!” (Mateus 23:37). E Paulo cita o lamento divino: “Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e hostil” (Romanos 10:21), mãos que não seriam sinceras sem uma oferta real.
A Escritura mostra também que Deus age antes da chegada do pregador. Ele dispôs os povos “para que buscassem ao Senhor”, pois não está “longe de cada um de nós” (Atos 17:27). Cornélio orava antes que Pedro chegasse a Cesareia (Atos 10:2-4), e de Lídia se diz que “o Senhor abriu” o seu coração “para que prestasse atenção ao que Paulo dizia” (Atos 16:14). Armínio leu essas narrativas junto com Romanos 1 e 2 como prova de que a obra preveniente do Espírito alcança os corações antes do evangelho pregado. E a palavra de Jesus desfaz a objeção de que um morto não pode ouvir: “os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aos que ao ouvirem, viverão” (João 5:25). A voz que chama é a mesma que dá a vida para ouvir.
3. Desenvolvimento histórico
3.1 De Agostinho a Tomás de Aquino
O Manual de teologia arminiana, apoiado em Silas Daniel (Arminianismo: a mecânica da salvação, 2017), vê a graça preveniente já nos Pais anteriores a Agostinho, afirmação que pede cautela, porque eles escreveram antes que a controvérsia pelagiana tornasse precisa a doutrina do pecado original. Alister McGrath resume as três noções que Agostinho legou ao Ocidente: a graça preveniente, que prepara a vontade antes da conversão; a graça operante, pela qual Deus converte sem a cooperação do pecador; e a graça cooperante, que colabora com a vontade libertada (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. “As doutrinas da natureza humana, do pecado e da graça”). No Agostinho tardio, porém, essa graça ficou ligada à predestinação dos eleitos e à certeza de que não falha. O Concílio de Orange (529) declarou, na sua conclusão, que em toda obra boa não somos nós que começamos, mas Deus, sem nenhum mérito precedente, primeiro nos inspira a fé e o amor; não afirmou, contudo, a irresistibilidade da graça e anatematizou a predestinação para o mal. Tomás de Aquino conservou o par preveniente e subsequente (Suma teológica, I-II, q. 111, a. 3).
3.2 Trento e a Reforma
O Concílio de Trento ensinou que o início da justificação nos adultos procede da “graça preveniente de Deus por Jesus Cristo”, que chama sem nenhum mérito e pode ser rejeitada (sessão VI, cap. 5; cânon 3). A divergência protestante está no que vem depois: a vontade apenas enfraquecida, a graça ligada ao batismo e a cooperação que se converte em mérito.
Calvino reservou aos eleitos a graça eficaz, que regenera infalivelmente. A Fórmula de Concórdia (1577) atribuiu a conversão somente ao Espírito, pela Palavra, mas ensinou que muitos não se convertem porque resistem a essa obra (Declaração sólida, II e XI). O anabatista Balthasar Hubmaier ensinou que a graça vem antes, liberta a vontade e pode ser recusada. Na Inglaterra, o artigo X dos Trinta e Nove Artigos (1563) declarou que não podemos fazer boas obras agradáveis a Deus “sem a graça de Deus por Cristo, que nos previne para que tenhamos boa vontade”, palavras que Wesley conservou no artigo VIII dos Artigos de Religião metodistas (1784).
3.3 Armínio e os remonstrantes
Armínio fez da graça preveniente, como mostrou Hernández, o princípio que organiza toda a sua soteriologia. Numa das disputas que presidiu em Leiden, descreveu as duas faces dessa graça. Ela move “fisicamente” o entendimento e a inclinação, “de modo que ele não possa ser afetado de outra maneira com a sua percepção”, mas não produz o consentimento “exceto moralmente, ou seja, pelo modo de persuasão”; e a graça cooperante “não difere, nem em tipo nem em eficácia, daquela graça instigadora e comovedora, que é chamada de preventiva e operante, sendo, porém, a mesma graça continuada” (Disputas privadas, LXX, 5-6, em As obras de Armínio, vol. 2). A primeira frase descreve a operação inicial, que é só de Deus; a segunda, a continuidade de uma única graça.
Hernández define a graça preveniente em Armínio como a obra antecedente da misericórdia de Deus, que age interiormente pela iluminação do Espírito e exteriormente pela pregação, e liberta a vontade escravizada para que a pessoa possa receber o chamado; e conclui que o seu alcance ultrapassa os lugares onde a Palavra é pregada. Na Declaração de Sentimentos (1608), Armínio atribuiu à graça o início, a continuação e a consumação de todo bem, e a Remonstrância (1610, arts. 3 e 4) repetiu que ninguém tem a fé salvadora de si mesmo e que a graça não é irresistível.
3.4 Wesley
Maddox observa que Wesley leu pouco Armínio e recebeu a doutrina sobretudo da tradição anglicana e dos Pais gregos, e a convergência entre os dois tem, por isso, valor de testemunho. Segundo Maddox, a graça preveniente tem em Wesley três dimensões (Responsible Grace, cap. 3). Em primeiro lugar, o perdão da culpa herdada de Adão, que Wesley acabou por considerar cancelada universalmente pela redenção de Cristo, como estudou o estudo 26. Em segundo lugar, uma restauração parcial das faculdades: o entendimento recebe uma noção das coisas divinas e o discernimento entre o bem e o mal; a liberdade, ao menos um grau mínimo de restauração, sem o qual a única alternativa seria a eleição incondicional; e as afeições, os primeiros movimentos de virtude. Em terceiro lugar, os apelos de Deus a cada pessoa, as “atrações do Pai” e as “convicções” do Espírito, que podem ser abafados sem que a presença de Deus seja expulsa, e nisso está a esperança de um despertamento posterior.
No sermão Sobre operar a nossa própria salvação (1785), Wesley não nega que todos estejam mortos no pecado por natureza, mas afirma que isso não desculpa ninguém, porque ninguém está num estado de mera natureza, a menos que tenha extinguido o Espírito; e conclui: “nenhum homem peca porque não possua a graça, mas porque não faz uso da graça que possui” (III, 4, em Coletânea da teologia de João Wesley). Quanto aos que nunca ouviram o evangelho, preferiu deixá-los com aquele que os fez (Sobre viver sem Deus, 1790); não obstante, fez do mundo a sua paróquia, porque a graça que vai adiante da pregação não a torna dispensável.
3.5 Os sistemáticos wesleyanos
John Fletcher falou de diversas “dispensações” da mesma graça de Cristo, conforme a luz concedida aos povos (Checks to Antinomianism). Richard Watson fundou a universalidade da graça na universalidade da expiação (Theological Institutes), e William Burt Pope tratou a graça preveniente no início da administração da redenção pelo Espírito (Compendium, vol. 2).
H. Orton Wiley deu à doutrina a definição que se tornou padrão: a graça preveniente é a graça que “vai adiante” e prepara a alma para o estado inicial da salvação, a graça preparatória do Espírito exercida para com o homem incapaz de socorrer a si mesmo; em relação ao culpado, é misericórdia, e em relação ao impotente, poder que capacita (Christian Theology, vol. 2). A versão portuguesa da Introdução à teologia cristã de Wiley e Culbertson, citada por Brunelli, fala do homem “enfraquecido pelo pecado”; o original diz helpless, palavra mais forte, que convém preservar.
3.6 O arminianismo no Brasil
No Brasil, a doutrina chegou com o metodismo e com as igrejas de santidade. Entre os pentecostais, a expressão é menos comum, e Brunelli, ao explicar por que a graça frutifica numas pessoas e não noutras, recorre ao “coração honesto e bom” da parábola do semeador (Lucas 8:15); a teologia wesleyana acrescentaria que a própria honestidade desse coração já é fruto da graça que veio antes. O Manual de teologia arminiana de Flávyo Henrique Costa Santos (2021) registra, entre os consensos do renascimento arminiano brasileiro, a distinção entre o arminianismo clássico e o wesleyano, com “uma leve diferença de ênfase na forma de ação da graça preveniente em cada grupo”. Alguns intérpretes, como Carl Bangs, ligaram a graça preveniente de Armínio à pregação, ao passo que a tradição wesleyana sublinha a presença universal do Espírito; Hernández mostra que, nesse ponto, Armínio está mais próximo de Wesley do que se supunha.
4. A posição arminiana clássica e wesleyana
4.1 Definição
Em suma, cremos que a graça preveniente é a obra sobrenatural do Deus triúno, aplicada pelo Espírito Santo por causa de Cristo, que vem antes de todo mérito, desejo e esforço humano, alcança todas as pessoas e as torna capazes de responder ao evangelho. Ela pressupõe a depravação total, porque só precisa de uma graça que venha antes quem nada pode por si; é universal, porque procede do amor de Deus pelo mundo e da morte de Cristo por todos; e é resistível, porque Deus chama, convence e atrai sem violentar. Ela não se confunde com a natureza, com a graça comum ou com a regeneração, mas constitui o começo da salvação, que pode ser recebido pela fé ou recusado pela incredulidade.
4.2 As operações da graça preveniente
A teologia wesleyana distingue quatro operações, que não são etapas mecânicas, mas aspectos de uma só graça. Em primeiro lugar, a graça preveniente ilumina a mente escurecida (Efésios 4:18), dando-lhe a percepção de Deus e do evangelho; é a luz do Filho. Em segundo lugar, ela convence, despertando a consciência para o pecado, a justiça e o juízo (João 16:8); é a obra do Espírito que conduz ao arrependimento. Em terceiro lugar, ela liberta a vontade, que por natureza é livre apenas para o mal; segundo Armínio, nessa primeira libertação o homem se comporta de modo “puramente passivo” (Artigos a serem diligentemente examinados, XVII). Em quarto lugar, ela atrai, movendo as afeições com “cordas de amor” e chamando a pessoa a Cristo; é a atração do Pai. Liberta pela graça, a vontade pode então crer, e a fé que nasce desse encontro é, como dizia Armínio, a mão vazia do mendigo, que recebe sem merecer.
4.3 As tradições em comparação
| Tradição | A graça antes da fé | A quem alcança | Pode ser recusada? |
|---|---|---|---|
| Semipelagianismo | Auxílio a quem já deu o primeiro passo | A quem se esforça | Sim |
| Catolicismo (Trento) | Graça preveniente que chama sem mérito; a vontade enfraquecida coopera, e a cooperação se torna mérito | Oferecida a todos; ordinariamente ligada ao batismo | Sim |
| Luteranismo (Concórdia) | O Espírito converte pela Palavra; o homem não coopera na conversão | Os que ouvem a Palavra | Sim, pela resistência |
| Reformados (Dort, Westminster) | Graça comum sem direção salvífica; graça eficaz que regenera os eleitos | Comum, a todos; eficaz, aos eleitos | A eficaz, não |
| Arminianismo clássico e wesleyano | Graça sobrenatural que ilumina, convence, liberta e atrai | Todos, por causa de Cristo | Sim |
Com os reformados, partilhamos a convicção de que Deus começa a salvação, e os Cânones de Dort reconhecem que o chamado do evangelho é sério (III/IV, 8-9); com os luteranos, a universalidade e a resistibilidade da graça; com os católicos, a convicção de que nada começa sem a graça preveniente.
4.4 Objeções e respostas
A primeira objeção afirma que uma graça que liberta todos esvazia a depravação total. Ela faz o contrário, porque supõe um ser humano incapaz de qualquer passo sem ela. Por isso convém não atenuar o ponto de partida: quando o Manual sugere que Efésios 2:1 não descreve “uma incapacidade absoluta”, a formulação de Armínio, para quem a vontade está “aprisionada, destruída e perdida” (Disputas públicas, XI), é mais segura.
A segunda objeção pergunta, com 1 Coríntios 4:7, “quem te faz diferentemente superior?”: se a graça é dada a todos e uns creem e outros não, a diferença estaria no homem, que teria do que se gloriar. Armínio respondeu com a imagem do mendigo: ninguém diz que a esmola deixou de ser presente porque o pobre estendeu a mão, e no caso da fé até a mão estendida é obra da graça (Apologia, art. XXVII). O mesmo versículo continua: “o que tens tu, que não tenhas recebido?” A única coisa que o homem faz por si mesmo, nessa história, é resistir, e ninguém se gloria de não ter recusado um presente. Por isso a salvação é inteiramente obra de Deus, e a condenação, responsabilidade do homem.
A terceira objeção é a de Charles Finney, lido neste curso apenas como contraste. Finney rejeitou a “capacidade da graça” como “um absurdo”: se o homem perdeu em Adão o poder de obedecer, Deus seria injusto em exigir obediência sem restituí-lo, e restituí-lo seria dívida, e não graça (Teologia sistemática, aula 21). O argumento supõe que Deus devia à raça caída uma nova oportunidade. Armínio negou essa premissa ao escrever que a promessa feita logo depois da queda (Gênesis 3:15) “não foi feita nem por dívida, nem por promessa, mas pela graça que precedeu a promessa” (Exame do panfleto de Perkins, em As obras de Armínio, vol. 3). Deus poderia ter deixado a humanidade como deixou os anjos caídos, pois “não é aos anjos que ele ajuda, mas sim, ajuda à descendência de Abraão” (Hebreus 2:16); que não o tenha feito é graça de Cristo, e não direito da criatura.
A quarta objeção vem do determinismo. Vincent Cheung, também lido apenas como contraste, entende o chamado interno não como “um convite” que se possa aceitar ou rejeitar, mas como uma “intimação” dirigida somente aos eleitos, e afirma que Deus endurece “os não-eleitos” contra o evangelho pregado (Teologia sistemática, “Chamado eficaz”). A teologia arminiana responde com o juramento de Deus, que não tem “prazer na morte do perverso” (Ezequiel 33:11), e com o propósito de que “todas as pessoas se salvem” (1 Timóteo 2:4); um chamado sem graça interior para os não eleitos dificilmente corresponde às mãos estendidas “todo o dia”.
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, a doutrina transforma a evangelização. Nunca chegamos primeiro: quando Pedro entrou na casa de Cornélio, o Espírito já estava lá. Isso nos livra da ansiedade, porque a conversão não depende da nossa eloquência, e da manipulação, porque não precisamos arrancar decisões. O apelo não é o lugar onde o homem começa a salvação, mas o lugar onde responde a uma graça que o precedeu.
Em segundo lugar, ela dá à missão esperança sem tirar dela a urgência, porque a graça preveniente é graça de Cristo e conduz a Cristo, e não um caminho paralelo de salvação nas religiões do mundo.
Em terceiro lugar, ela consola os que oram por alguém afastado: a consciência que ainda acusa é sinal de que o Espírito ainda contende com aquela vida.
Em quarto lugar, ela nos adverte. Porque a graça é resistível, os apelos de Deus podem ser abafados, e a Escritura não diz “amanhã”, mas “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hebreus 3:7-8).
Em quinto lugar, ela nos ensina a humildade: se até o primeiro desejo de Deus foi dom, não há lugar para orgulho espiritual.
Voltemos à mãe que conversa com o recém-nascido. O primeiro sorriso da criança é resposta verdadeira, e ninguém diria que foi a mãe que sorriu por ela; mas toda a família sabe quem falou primeiro. A doutrina da graça preveniente diz isso e diz mais: no nosso caso, a criança não estava apenas adormecida, mas morta, e a voz que a chamou foi a mesma que lhe deu vida para ouvir. Senhor, que nos buscaste quando não te buscávamos e nos chamaste quando nem sabíamos o teu nome: previne-nos com o teu favor em tudo o que fizermos, acompanha-nos com o teu contínuo auxílio, não permitas que endureçamos o coração à tua voz e completa em nós a obra que a tua graça começou.
Síntese
- A graça preveniente é a graça que vem antes de todo mérito, desejo e esforço humano; o termo nasce da leitura que Agostinho fez de Salmos 59:10 e 23:6, e a doutrina afirma que Deus toma sempre a iniciativa da salvação.
- Ela não é natureza, nem a graça comum da teologia reformada, nem a regeneração, nem uma posse humana, mas a presença atuante do Espírito, dada por causa de Cristo.
- A Escritura a apresenta como obra do Deus triúno: o Pai atrai (João 6:44-45; 12:32), o Filho ilumina (João 1:9; Tito 2:11) e o Espírito convence o mundo (João 16:8-11).
- Essa graça ilumina a mente, convence a consciência, liberta a vontade e atrai as afeições; a primeira libertação da vontade é obra só de Deus, e a resposta que se segue pode ser a fé ou a resistência.
- Armínio fez dela o princípio organizador da sua soteriologia, e Wesley a desenvolveu como perdão da culpa herdada, restauração parcial das faculdades e apelos pessoais de Deus.
- A doutrina exclui o pelagianismo e o semipelagianismo, porque o primeiro passo é de Deus, e exclui uma graça reservada aos eleitos, porque é oferecida a todos e pode ser recusada.
Questões para revisão
- De onde vem o termo “graça preveniente”, e que relação Agostinho estabeleceu entre Salmos 59:10 e Salmos 23:6?
- Quais são as diferenças entre a graça preveniente, a graça comum da teologia reformada e a regeneração?
- Como Wesley descreve a graça preveniente em termos trinitários, e que textos bíblicos correspondem a cada pessoa da Trindade?
- Como a leitura arminiana interpreta o verbo helkō em João 6:44, à luz de João 6:45 e de João 12:32?
- O que Armínio quer dizer ao afirmar que a graça cooperante é “a mesma graça continuada” da graça preveniente?
- Quais são, segundo Randy Maddox, as três dimensões da graça preveniente em Wesley?
- Como a teologia arminiana responde à objeção de que, se a graça é dada a todos, quem crê teria do que se gloriar, e ao argumento de Finney contra a “capacidade da graça”?
Bibliografia
- AGOSTINHO. Sobre a natureza e a graça; Enchiridion.
- ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- ARMÍNIO, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608). Tradução no Diário do Diego, 2026.
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
- CALVINO, João. As institutas da religião cristã (1559).
- CONCÍLIO DE TRENTO. Decreto sobre a justificação, sessão VI (1547).
- Cânones de Dort (1619); Fórmula de Concórdia (1577); Trinta e Nove Artigos (1563).
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- FLETCHER, John. Checks to Antinomianism (1771-1775).
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