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Lição 26: Pecado original e depravação total

Curso de Teologia Sistemática, parte 2

Diego Gonçalves25 min de leitura4.998 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.

Objetivos da lição

  • Definir pecado original, culpa (reatus), corrupção, depravação total e incapacidade, e distinguir as teorias sobre a transmissão do pecado de Adão.
  • Examinar os textos bíblicos sobre a solidariedade da raça em Adão e em Cristo, em especial Romanos 5:12-21, e os que tratam das crianças.
  • Acompanhar a doutrina desde a controvérsia entre Agostinho e Pelágio até Armínio, Wesley e a teologia wesleyano-arminiana, inclusive no Brasil.
  • Expor a posição arminiana clássica e wesleyana: corrupção total e herdada, condenação da raça em Adão e graça livre em Cristo, que alcança todos e salva as crianças que morrem antes da idade do discernimento.
  • Distinguir essa posição do pelagianismo, do semipelagianismo e das demais tradições cristãs.

Introdução

Quem já morou em casa com caixa d’água conhece a cena. A água chega barrenta à torneira da cozinha, e não adianta trocar a torneira nem o filtro da pia, porque a água de todas as torneiras desce do mesmo reservatório, e é lá em cima que está o problema. Jó fez a mesma constatação com outras palavras: “Quem tirará algo puro do imundo? Ninguém” (Jó 14:4).

Na lição 25, estudamos a natureza, a origem e a extensão do pecado. Ficou para esta lição a pergunta mais difícil da hamartiologia: por que todos pecamos? A resposta cristã clássica chama-se pecado original e envolve três questões: o que herdamos de Adão (culpa, corrupção ou ambas), até onde vai essa corrupção (a depravação total) e o que acontece com quem morre antes de poder pecar por si mesmo, as crianças pequenas. A vontade caída e a sua libertação pela graça ficam para a lição 27. Seguimos a ordem de Wiley, Pope e Watson e desenvolvemos o estudo introdutório que o site já publicou, A doutrina da depravação total. Wesley considerava o assunto decisivo: quanto à corrupção da natureza humana, “admita o Sr. isto e será cristão; negue-o e será ainda um pagão” (sermão 44, O pecado original, III, 2, em Coletânea da teologia de João Wesley).

1. Os termos e as distinções

1.1 Pecado original

A expressão latina peccatum originale firmou-se com Agostinho, a quem Juliano de Eclano chegou a acusar de tê-la inventado (Walter Brunelli, Teologia para pentecostais, vol. 3). A escolástica distinguiu o pecado original originante (originans), a transgressão de Adão no Éden, do pecado original originado (originatum), a condição em que nasce cada descendente dele. Armínio emprega a mesma distinção ao escrever que o pecado original “não é aquele pecado real” pelo qual Adão transgrediu a lei (Certos artigos a serem diligentemente examinados, “Sobre o pecado original”, 1). Wesley preferia falar de pecado que habita (inbeing sin), expressão que põe o acento na corrupção presente, e não na origem dela (Randy Maddox, Responsible Grace, cap. 3).

1.2 Culpa e corrupção

A teologia ocidental distinguiu dois aspectos do pecado original. A culpa (reatus) é a obrigação de sofrer a pena; Armínio a descreve como “a sujeição a duas mortes”, a temporal e a eterna. A corrupção (vitium, corruptio) é o estado da natureza, que ele chama de privatio, “a retirada da justiça e santidade primitivas” (Debates públicos VII, 15). A pergunta sobre a culpa é jurídica (estamos condenados por causa de Adão?), e a pergunta sobre a corrupção é, por assim dizer, médica (nascemos doentes?). A maior parte das divergências entre as tradições está na primeira.

1.3 Depravação total e incapacidade

A depravação total é a doutrina de que a corrupção herdada atinge a pessoa inteira, entendimento, afeições, vontade e corpo, sem deixar nenhuma faculdade como reserva de bondade. “Total”, neste sentido, é extensivo, e não intensivo. Charles Sherlock lembra que o termo não afirma que não reste bem algum no ser humano, mas nega que alguma dimensão da vida, nem mesmo a razão, tenha ficado fora do alcance do pecado (A doutrina da humanidade, cap. 7). O batista A. B. Langston disse o mesmo de modo mais simples: o homem natural “nunca é tão ruim como pode ser, mas, realmente, é sempre ruim” (Esboço de teologia sistemática, “A doutrina do pecado”, 8.1). Don Thorsen observa que, para Calvino, a depravação era mais extensiva que intensiva, e que é neste ponto que Wesley mais concorda com ele (Calvin vs. Wesley, cap. 3 e apêndice).

Da depravação total segue a incapacidade total: o ser humano caído não pode, por si mesmo, pensar, querer nem fazer o que é verdadeiramente bom diante de Deus, e muito menos crer. A incapacidade diz respeito ao bem espiritual; não nega que o não regenerado seja capaz de honestidade no trabalho ou de afeto pelos filhos, mas nega que ele possa, por suas forças, voltar-se para Deus.

1.4 As teorias da transmissão

Como a condição de Adão chega até nós? O realismo, que remonta a Agostinho, ensina que toda a humanidade estava em Adão e pecou nele. O federalismo, ou imputação imediata, da teologia reformada do século XVII, vê em Adão o cabeça representativo cuja culpa Deus imputa diretamente a cada descendente. A imputação mediata, da escola de Saumur, ensina que a culpa nos é imputada por causa da corrupção herdada (Sherlock, A doutrina da humanidade, apêndice). A origem da alma, ligada a essas teorias, foi tratada na lição 23.

2. A fundamentação bíblica

2.1 Em Adão e em Cristo: Romanos 5

O texto central é a comparação que Paulo faz entre Adão e Cristo:

Portanto, assim como por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os seres humanos, porque todos pecaram. Pois, antes da Lei, o pecado já existia no mundo; porém, quando não há Lei, o pecado não é considerado. Mas a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual era uma figura daquele que estava para vir.

Romanos 5:12-14

A expressão grega eph’ hō pantes hēmarton significa “porque todos pecaram”. A Vulgata a traduziu por in quo omnes peccaverunt, “em quem todos pecaram”. O argumento de Paulo, porém, não depende dela. A morte reinou “até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão”, e Wesley inclui aí as crianças (Notas explicativas, Romanos 5:14, em Coletânea). Se a morte é o salário do pecado (Romanos 6:23) e alcança quem ainda não pecou por si, ela o alcança como consequência do pecado de Adão.

O centro do texto, contudo, está no contraste: “o dom gratuito não é como a transgressão” (5:15). Paulo afirma que a obra de Cristo alcança a mesma extensão da queda:

Portanto, assim como uma transgressão resultou em condenação sobre todos os seres humanos, assim também um ato de justiça resultou em justificação da vida sobre todos os seres humanos. Pois, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos serão justificados.

Romanos 5:18-19

Wesley chamou Adão e Cristo de “pessoa pública e representante federal da humanidade”, um fonte do pecado e da morte, o outro da justiça e da vida (Notas, Romanos 5:14). O paralelo reaparece em 1 Coríntios 15:22: “assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados”. A leitura arminiana leva a sério essa simetria, como veremos na seção 4.

2.2 Desde o ventre

O Antigo Testamento descreve a corrupção humana como anterior aos atos. Davi confessa: “Eis que em perversidade fui formado, e em pecado minha mãe me concebeu” (Salmos 51:5); o salmo não acusa a mãe nem a concepção, mas reconhece que o pecado do salmista é mais antigo que o adultério que ele confessa. Antes do dilúvio, “todo desígnio dos pensamentos dos seus corações era só mau continuamente” (Gênesis 6:5), e depois dele Deus constata que “o intento do coração do ser humano é mau desde sua juventude” (Gênesis 8:21). O dilúvio lavou a terra, mas não lavou o coração.

Jesus disse a Nicodemos que “o que é nascido de carne, carne é” (João 3:6), e por isso é preciso nascer de novo. Paulo descreve a condição de judeus e gentios antes da graça:

E vós estáveis mortos em vossas ofensas e pecados, nos quais antes andastes conforme o proceder deste mundo, conforme o príncipe do poder do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre esses também todos nós antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os outros. Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos),

Efésios 2:1-5

“Mortos”, “por natureza” e “filhos da ira” descrevem, respectivamente, a incapacidade, o caráter herdado da condição e a culpa. O mesmo apóstolo diz que “a mentalidade da carne é inimizade contra Deus, pois não se sujeita à Lei de Deus, porque nem sequer pode” (Romanos 8:7). O texto de Efésios, porém, não termina em “mortos”, mas em “Mas Deus”. A doutrina bíblica do pecado original nunca aparece sozinha; ela é o pano de fundo do anúncio da graça.

2.3 As crianças

A Escritura também fala de uma fase da vida anterior ao discernimento moral. Moisés diz que as crianças de Israel, que “não sabem hoje bem nem mal”, entrariam na terra que os pais rebeldes não veriam (Deuteronômio 1:39). Isaías fala do tempo antes que o menino “saiba rejeitar o mal e escolher o bem” (Isaías 7:16). Davi, diante do filho morto, diz: “Eu vou a ele, mas ele não voltará a mim” (2 Samuel 12:23). E Jesus recebeu as crianças:

Porém Jesus, vendo, indignou-se, e lhe disse: Deixai vir as crianças a mim, e não as impeçais; porque delas é o Reino de Deus. Em verdade vos digo, que qualquer um que não receber o Reino de Deus como criança, em maneira nenhuma nele entrará. Então, tomando-as entre seus braços, e pondo as mãos sobre elas, ele as abençoou.

Marcos 10:14-16

Ao lado desses textos estão os que medem a responsabilidade pela luz recebida: “quem sabe fazer o bem, e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17); “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado” (João 9:41). Nenhum deles diz que as crianças nascem sem a corrupção de Adão, o que contrariaria Salmos 51:5, mas todos mostram que Deus julga cada pessoa segundo o que ela pôde conhecer e escolher.

3. Desenvolvimento histórico

3.1 Pelágio, Agostinho e Orange

Os Pais gregos afirmaram que toda a humanidade foi afetada pela queda, mas não falaram de uma culpa herdada, e Gregório de Nissa chegou a ensinar que as crianças nascem sem pecado; no Ocidente, Cipriano de Cartago já ligava o batismo dos recém-nascidos à remissão do pecado original (Alister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, caps. 14 e 16). O monge britânico Pelágio ensinava que o pecado de Adão prejudicou só a ele, que as crianças nascem no estado em que Adão estava antes de cair e que todos pecam por imitação do mau exemplo, pelo “longo costume dos vícios” que nos infecta desde a infância (Carta a Demetríade, citada no Manual de teologia arminiana, cap. 3). Agostinho respondeu com a doutrina mais vigorosa do pecado original que a Igreja conhecera, descrevendo-o como doença hereditária que só o médico divino cura, poder que nos mantém cativos e culpa que só o perdão remove (McGrath, cap. 14). Para ele, as crianças que morrem sem batismo se perdem, ainda que com a pena mais branda de todas (McGrath, cap. 16). O Concílio de Cartago (418) condenou Pelágio e Celéstio e afirmou que as crianças contraem de Adão o pecado original.

Os monges do sul da Gália, liderados por João Cassiano, admitiam a corrupção herdada, mas atribuíam o “início da fé” (initium fidei) à vontade humana. O Segundo Concílio de Orange (529) condenou essa posição semipelagiana e declarou, no segundo cânon, que injuria a Deus quem diz que o pecado de Adão prejudicou só a ele, ou que passou aos descendentes apenas a morte do corpo, e não também o pecado, que é a morte da alma. O concílio afirmou que a graça vem antes de qualquer boa vontade, mas silenciou sobre a irresistibilidade da graça, sobre o destino das crianças não batizadas e sobre o modo de transmissão do pecado (Manual, cap. 3). Com Orange, a teologia arminiana afirma que ninguém dá o primeiro passo sem a graça.

3.2 A Idade Média e a Reforma

A escolástica definiu o pecado original sobretudo como privação da justiça original, e Pedro Lombardo suavizou a sentença de Agostinho: as crianças que morrem sem batismo sofreriam a perda da visão de Deus, e não a pena dos sentidos, ideia que recebeu o nome de limbo (McGrath, cap. 16).

Os reformadores voltaram a Agostinho. A Confissão de Augsburgo (1530) ensinou que o vício de origem é verdadeiramente pecado e condena os que não renascem pelo batismo e pelo Espírito Santo (art. II). Calvino definiu o pecado original como “depravação e corrupção hereditária da nossa natureza, difundida por todas as partes da alma” (Institutas, II, 1, 8). O Concílio de Trento (1546) declarou que o batismo remove tudo o que tem verdadeiramente razão de pecado e que a concupiscência que permanece não é pecado propriamente dito. A Confissão de Westminster (1647) ensina que a culpa do primeiro pecado foi imputada a toda a posteridade de Adão (VI, 3) e que as crianças eleitas que morrem na infância são salvas por Cristo (X, 3), e os Cânones de Dort pedem aos pais piedosos que não duvidem da salvação dos filhos que Deus leva na infância (I, 17).

3.3 Armínio e os remonstrantes

Armínio afirmou o pecado original com toda a clareza. No sétimo dos Debates públicos, escreveu que o primeiro pecado “é comum a toda a raça humana e a toda à sua posteridade”, que estava nos lombos de Adão, e que por isso todos são “por natureza filhos da ira”, sujeitos à morte temporal e eterna e desprovidos da justiça original, males sob os quais “permaneceriam oprimidos para sempre, a menos que fossem libertos por Jesus Cristo” (VII, 16). A Declaração de Sentimentos (1608) e o terceiro artigo da Remonstrância (1610) dizem o mesmo. Por isso Wesley pôde escrever que ninguém, “nem o próprio João Calvino”, afirmou o pecado original em termos mais fortes que Armínio (O que é um arminiano?, 1770), e Abner Hernández mostra que até teólogos calvinistas reconheceram a ortodoxia dele neste ponto (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius, cap. 4).

Quanto à natureza do pecado original, Armínio julgou “muito mais provável” que ele consista propriamente na ausência da justiça original, suficiente para produzir quaisquer pecados, e considerou inútil discutir se ele se propaga pela alma ou pelo corpo (Disputas privadas XXXI, 10-11). Na Apologia contra os 31 artigos (1609), explicou que o pecado original é pecado, mas não pecado atual, e que Deus o inflige como pena do pecado de Adão, e “nós nEle” (art. XXXI).

Sobre as crianças, foi cauteloso. Atribuíram-lhe a tese de que “o pecado original não condena homem nenhum” e de que todas as crianças que morrem sem pecado atual são salvas. Ele respondeu que as teses eram de um colega, Borrius, e expôs as razões dele: Deus fez com Adão, e depois em Cristo, uma aliança de graça que inclui a sua posteridade, e seria mais severo com as crianças do que com os demônios, que pecaram em pessoa. Armínio não fez dessas razões um dogma, mas declarou que elas “têm grande importância” e que quem afirma o contrário deve refutá-las antes de acusar alguém de heresia (Apologia, arts. XIII-XIV). Em outro texto, disse que o pecado original pode sujeitar à morte eterna e que a sua culpa pode ser removida de todos por Cristo, distinguindo a obtenção desses benefícios da sua aplicação (Nove perguntas, 1605, III). E contra Perkins perguntou: “quem ousa negar que muitos tolos e crianças são salvos?”, acrescentando que isso não acontece “sem a graça da salvação” (Exame do panfleto de Perkins). Os remonstrantes posteriores, como Simão Episcópio e, sobretudo, Filipe van Limborch, trataram a corrupção herdada como inclinação, e não como pecado propriamente dito, e nisso se afastaram de Armínio.

3.4 Wesley

No século XVIII, o ministro inglês John Taylor publicou A doutrina bíblica do pecado original (1740), que a negava, e Wesley respondeu com o seu tratado mais longo, A doutrina do pecado original segundo a Escritura, a razão e a experiência (1757). Ao argumento de que bastaria educar bem as crianças, respondeu que conhecia pais sábios e virtuosos que criaram os filhos com todo o cuidado “desde a primeira madrugada da razão”, e as crianças mostraram maus sentimentos antes de poderem adquirir maus hábitos (II). Sobre a representação de Adão, recusou brigar por palavras: os termos “representante” e “cabeça federal” não são bíblicos, mas a realidade é, e não fere a justiça de Deus, já que todos podem recobrar no segundo Adão o que perderam no primeiro (III, 6). Sobre o modo da transmissão, respondeu com franqueza: “não sei dizer” (III, 7).

Maddox mostra que a ênfase de Wesley mudou quanto à culpa. Nos anos centrais do ministério, ele afirmou a culpa herdada, mas insistiu que ninguém seria condenado apenas pelo pecado de Adão; mais tarde, em carta a John Mason (21 de novembro de 1776), declarou que essa culpa foi cancelada universalmente, como um dos benefícios da redenção de Cristo (Responsible Grace, cap. 3). Ao preparar os Artigos de Religião para os metodistas (1784), conservou do artigo anglicano a afirmação da corrupção, mas suprimiu a frase segundo a qual ela merece, em toda pessoa nascida neste mundo, a ira de Deus e a condenação. O artigo VII ficou assim: “O pecado original não consiste em seguir a Adão (como falam em vão os pelagianos), mas é a corrupção da natureza de todo homem gerado naturalmente da descendência de Adão, pela qual o homem está muito afastado da justiça original e é, por sua própria natureza, inclinado ao mal, e isso continuamente”. A corrupção ficou intacta; o que mudou foi a compreensão da culpa à luz da expiação universal. Por isso Wesley ensinava que ninguém está no puro estado natural, porque a graça preveniente já alcança todos (sermão 85, Sobre operar a própria salvação, III, 4).

3.5 A teologia wesleyano-arminiana e o Brasil

John Fletcher e Richard Watson defenderam a corrupção humana contra o otimismo do seu tempo, e Watson, Pope e Wiley concordam em dois pontos: a raça inteira caiu em Adão e está corrompida, e a raça inteira foi alcançada pela redenção de Cristo antes de qualquer escolha pessoal, de modo que ninguém se perde só pelo pecado de Adão. Wiley conta entre os benefícios incondicionais da expiação a salvação dos que morrem na infância (Christian Theology, vol. 2). Alguns metodistas do século XIX foram além e falaram de uma depravação sem culpa, à qual Deus deveria, por justiça, um socorro do Espírito.

É essa forma que A. B. Langston combate sob o nome de “teoria de Armínio”: há uma dádiva universal do Espírito, segundo João 1:9, mas não uma dívida, porque diante da justiça pura só merecemos a condenação (Esboço, “A doutrina do pecado”, 7.2). A resposta é justa, mas não atinge Armínio, para quem a promessa feita logo depois da queda “não foi feita nem por dívida, nem por promessa, mas pela graça que precedeu a promessa” (Exame do panfleto de Perkins). O próprio Langston ensina que a criança é “pecadeira” por natureza, mas que, se morrer antes da idade do pecado pessoal, “será salva pela graça de Deus mediante o sacrifício de Jesus Cristo” (8.2.2). O pentecostal Walter Brunelli afirma que “há uma tolerância divina até uma idade que não se pode definir” (vol. 3). Nas igrejas evangélicas brasileiras, sobretudo batistas e pentecostais, os pais costumam apresentar os filhos pequenos ao Senhor no culto, em vez de batizá-los, prática que supõe a confiança de que essas crianças estão sob a graça de Cristo.

4. A posição arminiana clássica e wesleyana

4.1 Afirmações

Em suma, cremos, em primeiro lugar, que Adão foi o cabeça natural e representativo da raça e que, pela sua transgressão, todos os seus descendentes nascem privados da justiça original e corrompidos em toda a sua natureza, com exceção de Jesus Cristo, concebido pelo Espírito Santo e sem pecado. Em segundo lugar, que essa corrupção é total na extensão: atinge o entendimento, as afeições, a vontade e o corpo, de modo que ninguém pode, por si mesmo, pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom, nem crer em Cristo. Em terceiro lugar, que a raça inteira está em Adão sob condenação e que a raça inteira está em Cristo sob o dom gratuito, que trouxe “justificação da vida sobre todos os seres humanos” (Romanos 5:18), de modo que ninguém é condenado só pela culpa de Adão. Em quarto lugar, que esse dom alcança todos pela graça preveniente, que vem antes de qualquer resposta humana (João 1:9; Tito 2:11) e é graça sobrenatural, e não capacidade natural. Em quinto lugar, que a condenação final recai sobre os pecados pessoais e a rejeição da graça oferecida (João 3:18-19). Por fim, que as crianças que morrem antes da idade do discernimento, e as pessoas que nunca a alcançam pela sua condição mental, são salvas pela graça de Cristo, sem mérito próprio e sem depender de rito algum.

4.2 Nem Pelágio nem Cassiano

Essa posição está longe do pelagianismo, porque afirma a corrupção herdada e a incapacidade total, e longe do semipelagianismo, porque não deixa no ser humano nenhuma faísca de bondade com que ele possa dar o primeiro passo. O que a graça de Cristo remove para toda a raça é a condenação herdada, e não a corrupção; a criança que cresce continua precisando de arrependimento, fé, novo nascimento e santificação, e só os alcança pela graça. Também não dizemos que Deus devia essa graça a alguém: ela nasceu no Éden como promessa gratuita (Gênesis 3:15), e Wesley a chamou de graça “livre em todos e para todos” (sermão 110, A graça livre). Falar de graça livre para as crianças significa que a salvação dos pequenos depende inteiramente do sangue de Cristo, e não da sua inocência, que não têm, nem do batismo, que a Escritura não liga a eles.

Ao mesmo tempo, quem pensa que as crianças nascem puras pensa como Pelágio, e não como Armínio. A idade do discernimento não é uma data fixa, e a Bíblia não a define; ela marca o momento, que só Deus conhece, em que a pessoa passa a responder à luz que recebe, e essa luz já é graça.

4.3 Contrastes

Charles Finney, lido neste curso apenas como contraste, negava que a natureza humana fosse pecaminosa antes da escolha; falar de natureza pecaminosa seria “fazer do pecado um vírus físico”. Por isso entendia que os infantes “não são nem pecaminosos nem santos” até se tornarem agentes morais (Teologia sistemática, aula 16). Essa posição retoma, em termos modernos, a antropologia de Pelágio: torna a graça desnecessária para as crianças e reduz o pecado à escolha, quando a Escritura fala de uma condição anterior aos atos.

Vincent Cheung, também lido apenas como contraste, defende a imputação imediata e afirma que a culpa imputada de Adão é “por si mesma suficiente para condenar”; para ele, Adão representou toda a raça, mas Cristo, apenas os eleitos (Teologia sistemática, “A queda do homem” e “Expiação”). A teologia arminiana responde com a simetria de Romanos 5:18 e de 1 Coríntios 15:22: o segundo Adão alcança tanto quanto o primeiro, e o dom gratuito “não é como a transgressão” porque é mais abundante (Romanos 5:15, 20).

4.4 As outras tradições

As igrejas ortodoxas falam de pecado ancestral e entendem que herdamos de Adão sobretudo a mortalidade, e não a culpa (Sherlock, apêndice). A Igreja Católica ensina que o pecado original é “contraído” e não “cometido”, que a natureza humana foi ferida, mas não totalmente corrompida, e que o batismo remove a culpa; as crianças que morrem sem batismo, ela as confia à misericórdia de Deus (Catecismo da Igreja Católica, 404-405 e 1261). Luteranos e reformados afirmam, como nós, a corrupção total e a incapacidade, e em geral a culpa imputada; os reformados ligam a salvação das crianças à eleição. A tradição arminiana e wesleyana concorda com os reformadores sobre a corrupção e a incapacidade, diverge da teologia católica quanto a uma natureza apenas ferida e diverge dos calvinistas ao dar ao remédio de Cristo, quanto à condenação herdada, a mesma extensão da queda.

5. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, a doutrina do pecado original nos ensina a humildade. Nenhum de nós começou neutro, e isso vale para o pregador e para quem escreve estas linhas; por isso a pregação do evangelho não apela a uma bondade escondida no ouvinte, mas à graça que já o alcança.

Em segundo lugar, ela orienta a educação cristã dos filhos. Pelágio pensava que o mal se aprende pelo exemplo; Wesley observou que ele aparece antes do exemplo. O bom exemplo e a instrução são indispensáveis, mas não bastam, e os pais cristãos oram pelo novo nascimento dos filhos.

Em terceiro lugar, ela consola os pais que perderam filhos pequenos. A esperança deles não está na inocência da criança nem num rito que não puderam realizar, mas no Cristo que tomou as crianças nos braços e as abençoou. Com Davi, podem dizer: “Eu vou a ele”.

Em quarto lugar, ela livra a igreja da presunção de quem pensa que um rito realizado na infância garante a salvação do adulto, e do desespero de quem imagina um Deus que condena criancinhas por um pecado que não cometeram. Em Adão, ninguém peca sozinho; em Cristo, a graça também alcança a raça inteira, “porque a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens” (Tito 2:11). A obra da salvação é de Deus do começo ao fim.

Voltemos à caixa d’água. Nenhum de nós consegue limpar o reservatório de onde descem as águas do próprio coração; trocar as torneiras, corrigindo este ou aquele hábito, não alcança a fonte. Mas Deus não esperou que subíssemos até lá. Prometeu pelo profeta que “naquele dia haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os moradores de Jerusalém, contra o pecado e a impureza” (Zacarias 13:1), e abriu essa fonte no lado de Cristo. Senhor, que nos conheces desde o ventre e não te envergonhas de nós, perdoa a corrupção que herdamos e a que acrescentamos com as nossas próprias mãos; guarda as crianças que trazemos ao teu altar e as que já levaste para junto de ti; cria em nós um coração puro, pela fonte aberta em Jesus Cristo, o segundo Adão, nosso Senhor.

Síntese

  1. O pecado original é a condição em que todos os descendentes de Adão nascem, com exceção de Jesus Cristo: privados da justiça original e corrompidos em toda a sua natureza.
  2. A depravação é total na extensão, e não na intensidade: nenhuma faculdade escapou ao pecado, e ninguém pode, por si mesmo, fazer o bem espiritual nem crer.
  3. Armínio e Wesley afirmaram a culpa e a corrupção herdadas e entenderam, à luz de Romanos 5:18, que a condenação herdada de Adão é alcançada pelo dom gratuito de Cristo para toda a raça.
  4. A condenação final recai sobre os pecados pessoais e a rejeição da graça preveniente, oferecida a todos.
  5. As crianças que morrem antes da idade do discernimento são salvas pela graça de Cristo, sem mérito e sem depender do batismo.
  6. Essa posição recusa tanto o pelagianismo e o semipelagianismo, que atenuam a corrupção, quanto a ideia de que a culpa de Adão basta para condenar quem nunca pôde pecar.

Questões para revisão

  1. Explique a diferença entre pecado original originante e originado, e entre culpa (reatus) e corrupção.
  2. Em que sentido a depravação é “total”? Use as observações de Sherlock e de Langston.
  3. Como Romanos 5:12-19 descreve a relação entre Adão, Cristo e a humanidade, e que peso tem a expressão “sobre todos os seres humanos” no versículo 18?
  4. Compare as posições de Pelágio, de Agostinho e do Concílio de Orange sobre o pecado original e o início da fé.
  5. O que Armínio ensinou sobre o pecado original nos Debates públicos VII e na Apologia, e como tratou a questão das crianças?
  6. Como a compreensão de Wesley sobre a culpa herdada mudou ao longo da vida, e o que o artigo VII dos Artigos de Religião metodistas conserva?
  7. Por que a posição de Charles Finney sobre os infantes é incompatível com a teologia arminiana clássica?

Bibliografia

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  • WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
  • WESLEY, John. Sermões 44, 85 e 110; A doutrina do pecado original segundo a Escritura, a razão e a experiência (1757); Notas explicativas sobre o Novo Testamento, em Coletânea da teologia de João Wesley; O que é um arminiano? (1770).
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. Vol. 2. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1941.
  • Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática. Anterior: Lição 25: A doutrina do pecado. Próxima: Lição 27: Livre-arbítrio e graça: A vontade libertada.

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