
TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana22 de 30
Lição 22: Anjos, Satanás e demônios
Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 2
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os termos e as distinções
- 1.1 Anjos
- 1.2 Satanás, o diabo e os demônios
- 2. A fundamentação bíblica
- 2.1 Criaturas espirituais a serviço de Deus
- 2.2 A queda dos anjos
- 2.3 O adversário na história da salvação
- 2.4 A vitória de Cristo
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 Dos Pais da Igreja à Reforma
- 3.2 Armínio
- 3.3 Wesley
- 3.4 A modernidade e o Brasil
- 4. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 4.1 Afirmações
- 4.2 A queda dos anjos, a graça e a redenção
- 4.3 A vitória de Cristo e a expiação
- 4.4 Dois contrastes: Cheung e Finney
- 4.5 As outras tradições
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.
Objetivos da lição
- Definir os termos da angelologia e da demonologia (malʾāk, angelos, śāṭān, diabolos, daimonion) e situar a doutrina na obra criadora de Deus.
- Reunir o testemunho bíblico sobre os anjos, a queda de Satanás e dos seus anjos e a atividade dos demônios.
- Acompanhar a história da doutrina, dos Pais da Igreja a Armínio, Wesley e a igreja brasileira.
- Expor a posição arminiana clássica e wesleyana, com ênfase na vitória de Cristo, e tirar dela as consequências para a vida cristã.
Introdução
Muitos de nós aprendemos, antes mesmo de saber ler, uma pequena oração ensinada pela avó: “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador”. Em muitas casas brasileiras, sobre a cama das crianças, havia também um quadro conhecido: dois meninos atravessam uma ponte quebrada sobre um rio, e atrás deles, sem que percebam, um anjo de asas abertas os protege. A imagem diz algo verdadeiro, porque a Escritura fala de anjos que guardam os pequeninos (Mateus 18:10). Mas os anjos da Bíblia fazem tremer quem os vê, recusam a adoração e apontam sempre para Deus; e a mesma Bíblia fala de anjos que caíram, de um adversário que acusa e de uma vitória conquistada na cruz.
Diante do assunto, a igreja costuma oscilar entre os dois erros que C. S. Lewis descreveu no prefácio de Cartas de um diabo a seu aprendiz: não acreditar nos demônios ou acreditar neles com um interesse excessivo e doentio (ver a resenha do livro no site). Para evitar os dois, nenhuma regra é mais útil do que a de Armínio: as coisas que nos foram escritas a respeito da condição dos anjos, e que devemos receber pela fé, “são extremamente poucas, em número” (Apologia contra os 31 artigos, art. XX, em As obras de Armínio, vol. 1). Diremos o que a Escritura diz e calaremos onde ela cala.
A lição 20 tratou da criação e da providência, e a lição 21 perguntou como Deus governa o mal sem ser o seu autor. Aqui estudamos as criaturas espirituais, fiéis e rebeldes, antes de passar ao ser humano (lições 23 e 24) e ao pecado (lições 25 e 26). A expiação fica para a lição 32, e o milênio e o juízo final para as lições 48 e 49.
1. Os termos e as distinções
1.1 Anjos
O hebraico malʾāk e o grego angelos significam “mensageiro”, humano ou celestial. Agostinho observou que “anjo” é nome de ofício, e não de natureza: quanto à natureza, são espíritos, e tornam-se anjos quando enviados (Comentário aos Salmos, 103, I, 15). A Escritura os chama também de “filhos de Deus” (Jó 1:6), santos e “exércitos” (Salmos 103:21), de onde vem o título “SENHOR dos Exércitos”. Menciona os querubins (Gênesis 3:24), os serafins (Isaías 6:2-3), o arcanjo Miguel (Judas 9) e Gabriel, “que fico presente diante de Deus”, como ele mesmo se apresenta (Lucas 1:19). Rafael aparece apenas no livro de Tobias, que as igrejas protestantes não recebem no cânon (ver Livro de Tobias: anjos, demônios e os livros apócrifos).
Distingue-se dos anjos criados o Anjo do Senhor, que fala como o próprio Deus (Gênesis 16:13; Êxodo 3:2-6). O Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento o descreve como “virtualmente um aparecimento hipostático de Javé” (art. “Anjo”), e boa parte da tradição, com A. B. Langston, viu nele o Verbo antes da encarnação (Esboço de teologia sistemática, 3.1.1), como a lição 18 lembrou.
1.2 Satanás, o diabo e os demônios
O hebraico śāṭān quer dizer “adversário” e pode designar até o anjo do Senhor que se pôs no caminho de Balaão (Números 22:22); em Jó 1-2 e Zacarias 3:1-2, nomeia um ser celestial que acusa os justos, e em 1 Crônicas 21:1 aparece como nome próprio. A Septuaginta o traduziu por diabolos, de diaballō, “dividir”, “acusar”, “caluniar”. O Novo Testamento o chama ainda de Belzebu, o maligno, o “príncipe deste mundo” (João 12:31), o “deus destes tempos” (2 Coríntios 4:4) e o acusador (Apocalipse 12:10) (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, art. “Satanás”). Os demônios (daimonion) são chamados de “espíritos imundos” (Marcos 1:23) e de anjos do diabo (Mateus 25:41); na Escritura, o termo designa sempre seres maus que se apresentam como deuses aos povos: “as coisas que os gentios sacrificam, são sacrificadas para os demônios, e não a Deus” (1 Coríntios 10:20).
Angelologia e demonologia são, portanto, capítulos da doutrina da criação. Por isso a sistemática wesleyana as trata entre a criação e o ser humano, ordem que este curso segue com Watson, Pope e Wiley; e essa posição já afirma que anjos e demônios são criaturas, finitas e sujeitas a Deus.
2. A fundamentação bíblica
2.1 Criaturas espirituais a serviço de Deus
Os anjos foram criados: o salmista os convoca ao louvor “porque pela ordem dele foram criados” (Salmos 148:5), e Paulo inclui no domínio do Filho “todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam domínios, sejam governos, sejam autoridades” (Colossenses 1:16). Já existiam quando a terra foi fundada, porque “todos os filhos de Deus jubilavam” (Jó 38:7). São espíritos que não se casam (Mateus 22:30), muito numerosos, “milhões de milhões” (Daniel 7:10), e limitados como toda criatura. O texto que resume a sua natureza e a sua função está em Hebreus:
Por acaso não são todos eles espíritos servidores, enviados para auxílio dos que herdarão a salvação?
A primeira ocupação dos anjos é a adoração: diante do trono, dizem “Digno é o Cordeiro que foi morto” (Apocalipse 5:12). São mensageiros nos momentos decisivos da história da salvação (Lucas 1), servem ao Filho (Marcos 1:13; Lucas 22:43) e acompanharão a sua volta (Mateus 25:31). Interessam-se pela nossa salvação, porque “há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lucas 15:10). A ideia de um anjo da guarda pessoal se apoia em poucos textos (Mateus 18:10; Atos 12:15), que mostram o cuidado de Deus pelos pequeninos sem ensinar devoção ao anjo.
O mesmo Novo Testamento proíbe o seu culto. Paulo adverte contra o “culto aos anjos” acompanhado de “visões” (Colossenses 2:18), e o anjo diante do qual João se prostrou o repreendeu: “Olha, não faças isto! Porque eu sou um companheiro de serviço teu […]. Adora a Deus” (Apocalipse 22:9). O Filho, ao contrário, recebe a adoração dos anjos (Hebreus 1:6) e está “acima de todo governo, autoridade, poder, domínio” (Efésios 1:21).
2.2 A queda dos anjos
Dois textos falam diretamente da queda:
Porque se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, em vez disso lançando-os no inferno, entregou-os às cadeias da escuridão, tendo sido reservados para o julgamento;
Judas acrescenta que eles “não guardaram sua origem, mas deixaram sua própria habitação” (Judas 6). A Escritura não diz quando isso aconteceu, mas os anjos que pecaram foram criados bons, porque Deus viu “tudo o que havia feito, e eis que era bom em grande maneira” (Gênesis 1:31), e o diabo “não permaneceu na verdade” (João 8:44). Quanto ao pecado que os derrubou, Paulo adverte que o novo convertido não deve liderar, “para que não se torne arrogante, e caia na condenação do diabo” (1 Timóteo 3:6). A soberba é a leitura mais provável e a de quase toda a tradição.
Muitos leram a queda de Satanás em Isaías 14 e em Ezequiel 28; Orígenes aplicou os dois textos ao diabo (Sobre os princípios, I, 5, 5), e a Vulgata traduziu o “luminoso, filho do amanhecer” (Isaías 14:12) por Lucifer, que acabou virando nome próprio. Porém, os oráculos se dirigem ao rei da Babilônia e ao rei de Tiro, e o Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento lembra que a referência de Isaías “não é a Satanás mas, sim, ao rei da Babilônia” (art. “Satanás”). Esses textos descrevem reis que pretenderam ser “semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:14), soberba aparentada à de toda rebelião contra Deus, mas a doutrina não deve repousar sobre eles.
2.3 O adversário na história da salvação
A serpente “astuta” do Éden (Gênesis 3:1) é identificada com “a serpente antiga, chamada o diabo e Satanás” (Apocalipse 12:9), e Geerhardus Vos defende que houve ali uma serpente real e um poder demoníaco que se serviu dela, como os demônios que falavam pela boca dos endemoninhados (Teologia bíblica, “A Queda”). A primeira promessa da redenção é uma sentença contra ela: “esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15). No Antigo Testamento, Satanás age dentro dos limites que Deus estabelece, como vimos em Jó 1:12 (lição 21). Nos Evangelhos, o conflito se torna aberto: o diabo reivindica os reinos do mundo, “pois a mim foram entregues” (Lucas 4:6), e o Filho vence a tentação pela Palavra (ver Batismo e tentação de Jesus em Marcos 1). Os exorcismos são sinais de que o Reino chegou:
Mas se eu pelo Espírito de Deus expulso os demônios, logo o Reino de Deus já chegou sobre vós. Ou como pode alguém entrar na casa do valente, e saquear seus bens, sem primeiro amarrar ao valente? Depois disso saqueará sua casa.
Os Evangelhos, porém, não atribuem toda doença aos demônios, e Mateus distingue “os endemoninhados, epiléticos, e paralíticos” (Mateus 4:24). Depois da ressurreição, o adversário continua ativo: cega o entendimento dos incrédulos (2 Coríntios 4:4), “se transforma fingindo ser anjo de luz” (2 Coríntios 11:14) e “anda ao redor, rugindo como um leão, buscando a quem possa devorar” (1 Pedro 5:8).
2.4 A vitória de Cristo
O centro do testemunho bíblico, no entanto, não é o poder do diabo, mas a sua derrota: “Para isto o Filho de Deus se manifestou, para desfazer as obras do diabo” (1 João 3:8). O texto mais preciso é de Paulo, porque mostra como a vitória foi conquistada:
E quando vós estáveis mortos em pecados, na incircuncisão da vossa carne, Deus vos deu vida juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas. Ele riscou a certidão de nossa dívida em ordenanças, a qual era contra nós, e a removeu, cravando-a na cruz; ele despojou os domínios e autoridades, publicamente os envergonhou, e nela triunfou sobre eles.
A ordem é decisiva: primeiro o perdão e a dívida cravada na cruz, depois o despojamento dos poderes. Hebreus diz o mesmo: o Filho participou “do sangue e da carne, a fim de pela morte aniquilar ao que tinha o poder da morte, isto é, o diabo”, e “não é aos anjos que ele ajuda, mas sim, ajuda à descendência de Abraão” (Hebreus 2:14-16). O Apocalipse celebra a queda do acusador com as mesmas categorias: “já foi lançado abaixo o acusador dos nossos irmãos […]. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro, e pela palavra do testemunho deles” (Apocalipse 12:10-11). O Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento observa que Apocalipse 12 liga a queda de Satanás, que Jesus viu “como um raio” (Lucas 10:18), à vinda do próprio Cristo, o que desfaz todo dualismo: “Jesus derrotou e desarmou o diabo” (art. “Satanás”). A vitória já conquistada aguarda a consumação, quando o diabo será lançado “no lago de fogo e enxofre” (Apocalipse 20:10); até lá, “o Deus de paz esmagará Satanás em pedaços debaixo dos vossos pés” (Romanos 16:20).
- CriaçãoDeus cria os anjos bons, por meio do Filho
- Queda dos anjosAlguns anjos pecam por soberba e deixam a sua habitação
- PromessaA descendência da mulher ferirá a cabeça da serpente
- O Reino chegaJesus expulsa demônios pelo Espírito de Deus
- CruzCristo perdoa a dívida e despoja os poderes
- ConsumaçãoO diabo é lançado no lago de fogo
3. Desenvolvimento histórico
3.1 Dos Pais da Igreja à Reforma
Contra o fatalismo pagão, Justino falou de “homens e anjos dotados de livre-arbítrio” (Diálogo com Trifão, 88), e Ireneu, do “poder de escolha” dado ao homem “como o dera aos anjos” (Contra as heresias, IV, 37, 1), textos que o Manual de teologia arminiana de Flávyo Henrique Costa Santos recolhe. Agostinho deu à doutrina a sua forma ocidental: as duas cidades começam com os anjos que aderiram a Deus e com os que se voltaram para si mesmos (A cidade de Deus, XI, 33; XII, 1), e a má vontade dos caídos não tem causa eficiente, mas “deficiente” (XII, 7). McGrath registra que os críticos perguntaram como um anjo bom poderia tornar-se mau, pergunta diante da qual Agostinho “parece ter se calado” (Teologia sistemática, histórica e filosófica). Orígenes especulou que até o diabo seria restaurado, ideia que a igreja rejeitou nos anátemas contra o origenismo do século VI; e, por volta do ano 500, o Pseudo-Dionísio distribuiu os anjos em nove ordens (A hierarquia celeste), esquema que dominou a Idade Média.
Tomás de Aquino, o “Doutor Angélico” (ver Tomás de Aquino: vida e legado), dedicou aos anjos as questões 50 a 64 da primeira parte da Suma teológica e ensinou que a vontade dos demônios ficou obstinada no mal, porque o anjo escolhe de uma vez o que apreende (I, q. 64, a. 2). O IV Concílio de Latrão (1215) fixou a doutrina contra os cátaros: Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali, ou seja, o diabo e os outros demônios foram criados bons por Deus, mas por si mesmos se tornaram maus. Os reformadores conservaram a doutrina e cortaram a especulação: Calvino zombou de Dionísio, que escrevia como quem tivesse descido do céu, e insistiu que a malícia do diabo procede da perversão, e não da criação (Institutas, I, 14, 4 e 16); Lutero cantou no hino Castelo forte (1529) que, contra o príncipe deste mundo, ein Wörtlein kann ihn fällen, “uma palavrinha o pode derrubar”.
3.2 Armínio
Armínio dedicou aos anjos o vigésimo quinto dos seus Debates privados. Definiu-os como “substâncias meramente espirituais, criados à imagem de Deus”, para conhecer, amar e adorar o Criador e cumprir funções a respeito das outras criaturas; admitiu que há ordem entre eles, mas declarou-se “voluntariamente” ignorante das suas ordens e graus (XXV, 1 e 7). A tese decisiva para o nosso estudo é a da queda:
Alguns anjos transgrediram a lei sob a qual estavam colocados, e fizeram isso por sua própria culpa, pois eram dotados com aquela graça pela qual Deus os auxiliava, e estava preparado para auxiliá-los, e assim eram capacitados para obedecer à lei e permanecer em sua integridade.
Armínio, Debates privados, XXV, 12, em As obras de Armínio, vol. 2
Os anjos fiéis foram confirmados no bem pelo “aumento da graça” (XXV, 14); os caídos se fixaram no mal por uma “pertinaz obstinação” e têm prazer no que possa levar “à vergonha de Deus e à destruição de seu próximo” (XXV, 15). Sobre o seu pecado, Armínio julgou provável “o crime da soberba” (XXV, 16); negou que Deus aumente o conhecimento e o poder dos demônios quando se serve deles (XXV, 17); e concluiu que os anjos não têm mediador (conclusão, II). Na Apologia, recusou-se a fazer da confirmação dos anjos um artigo de fé e lembrou que é mais útil fazermos agora a vontade de Deus “como os anjos no céu” (art. XX).
3.3 Wesley
Wesley pregou Dos anjos bons (sermão 71, sobre Hebreus 1:14) e Dos anjos maus (sermão 72, sobre Efésios 6:12), ambos de 1783. Randy Maddox resume a sua posição: Wesley cria em Satanás e em demônios que afligem e tentam os seres humanos, mas evitou as soluções dualistas, insistiu que até Satanás foi bom e que a atividade diabólica não vai além do que Deus permite, e nunca deixou de pôr a culpa do pecado sobre o pecador (Responsible Grace, cap. 2). No sermão O objetivo da vinda de Cristo (sermão 62), chamou o diabo de “o primeiro pecador no universo”, que “foi autotentado” a atribuir-se alto valor e cedeu ao orgulho e à teimosia (I, 8-9). As obras do diabo que Cristo desfaz são o orgulho, a vontade própria e o amor ao mundo, pelos quais Satanás “virou o coração do homem do seu criador para a criatura”; o Filho de Deus traz esse coração de volta e assim “destrói as obras do diabo, restaurando o culpado ao favor, ao perdão e à paz de Deus” (III, 2-5, em Coletânea da teologia de João Wesley). Para Wesley, portanto, a vitória sobre Satanás se realiza no perdão e na santificação, e não num combate separado da salvação.
3.4 A modernidade e o Brasil
Schleiermacher reduziu os anjos e o diabo a representações sem lugar próprio na dogmática (A fé cristã, §§ 42-45), e Rudolf Bultmann escreveu, em Novo Testamento e mitologia (1941), que não se pode usar a luz elétrica e o rádio e ao mesmo tempo crer no mundo de espíritos do Novo Testamento. Grenz e Olson explicam que ele queria interpretar o mito pelo seu sentido existencial (A teologia do século 20), e os poderes do mal viraram categorias da existência humana. Depois da Primeira Guerra Mundial, o Christus Victor (1931) de Gustaf Aulén recolocou a vitória de Cristo no centro do debate sobre a expiação (McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, “A cruz como vitória”).
No Brasil, A. B. Langston observou que Satanás “caiu sem nenhuma tentação de fora”, ao passo que o ser humano foi tentado de fora, e que até na permissão de tentar o homem vemos “um dos atos de misericórdia de Deus” (Esboço de teologia sistemática, 5.3.2). Walter Brunelli aponta no meio evangélico “dois extremos”, os que dão aos anjos “posição indevida” e os que nem querem falar do assunto, e adverte que a ideia de um principado espiritual sobre cada nação, deduzida de Daniel 10:13, não tem “outras referências bíblicas que corroborem esta teoria” (Teologia para pentecostais, vol. 2). A advertência é oportuna, porque convivem entre nós os anjos da Nova Era, a batalha espiritual feita espetáculo em sessões de descarrego e, no outro extremo, igrejas que deixaram de falar do assunto.
4. A posição arminiana clássica e wesleyana
4.1 Afirmações
Em suma, cremos, em primeiro lugar, que Deus criou por meio do Filho os anjos, espíritos pessoais, finitos e santos, para adorá-lo e servir à sua vontade, e que eles ministram aos herdeiros da salvação sem jamais receber culto. Em segundo lugar, que alguns anjos, liderados por Satanás, pecaram por sua própria culpa, provavelmente por soberba, sem que Deus fosse o autor da sua queda. Em terceiro lugar, que Satanás e os demônios são criaturas, e não um princípio rival de Deus: enganam, tentam, acusam e oprimem, mas apenas dentro dos limites da permissão divina. Em quarto lugar, que Cristo, pela sua morte e ressurreição, desfez as obras do diabo, de modo que o crente, unido a ele pela fé, não vive debaixo do medo. Por fim, que essa vitória será consumada no juízo final.
4.2 A queda dos anjos, a graça e a redenção
A queda dos anjos é o primeiro caso do que a lição 21 chamou de permissão divina. Deus criou espíritos capazes de amá-lo livremente, deu-lhes graça suficiente para permanecerem e não impediu a transgressão a que alguns se inclinaram. A teologia arminiana não dissolve o mistério da iniquidade, mas se recusa a dizer que Deus decretou essa queda e a tornou necessária, porque então ele seria autor do primeiro pecado do universo. Com Armínio, dizemos que os anjos caíram “por sua própria culpa”; com Wesley, que o diabo foi “autotentado”. A tese de Armínio sobre os anjos fiéis também ensina: eles não permaneceram firmes pela força da sua natureza, mas pela graça que Deus lhes aumentou. Até no céu, entre criaturas que nunca pecaram, a estabilidade no bem é obra da graça; quanto mais entre nós.
A Escritura diz também que Deus “não perdoou aos anjos que pecaram” (2 Pedro 2:4). Armínio entendeu que Deus quis tratá-los “segundo a estrita justiça” (Debates privados, XXV, 10), e a tradição acrescentou que caíram sem tentador externo (Langston) e que a sua escolha ficou fixada (Tomás). Seja qual for a razão, o Verbo se fez carne, e não anjo, e é à raça humana que a graça preveniente foi dada por causa de Cristo, que morreu por todos os homens (1 Timóteo 2:6).
4.3 A vitória de Cristo e a expiação
Aulén opôs a vitória sobre os poderes às teorias “legais” da expiação, e McGrath observa que a sua tese não explica por que a cruz derrota as forças do mal. A tradição arminiana e wesleyana responde com Colossenses 2:14-15: os poderes são despojados porque a dívida foi cancelada. Maddox mostra que Wesley evitou o modelo do resgate pago ao diabo e citou a sua nota a Colossenses 1:14: a paixão voluntária do Senhor aplacou a ira do Pai, obteve perdão e aceitação para nós “e, consequentemente, dissolveu o domínio e o poder que Satanás tinha sobre nós por meio dos nossos pecados” (Responsible Grace, cap. 4). O acusador perde a sua acusação quando Deus justifica o pecador pela justiça de Cristo. Neste sentido, a satisfação penal e a vitória sobre Satanás não são teorias rivais, mas a mesma obra vista do lado da culpa e do lado do cativeiro; a lição 32 voltará ao assunto.
4.4 Dois contrastes: Cheung e Finney
Vincent Cheung, lido aqui apenas como contraste, afirma que Deus é “a causa definitiva e imediata de todas as ‘moções’ ou eventos, sejam físicos ou mentais” (Teologia sistemática, seção sobre a eleição, nota 26). Se é assim, Deus causa cada mentira do pai da mentira, e a distinção bíblica entre a vontade de Deus e a rebelião dos anjos desaparece. Charles Finney, também só como contraste, erra pelo lado oposto. Na aula sobre “A capacidade da graça”, usa os demônios contra a doutrina wesleyana de que a capacidade de obedecer a Deus vem da graça: se a liberdade se perdesse com o primeiro pecado, os demônios já não seriam culpados, e “você também pode culpar os ventos e as ondas pelos males que os demônios às vezes fazem” (Teologia sistemática, aula 21). O argumento supõe que a responsabilidade exige um poder natural para o bem. Armínio responde que o livre-arbítrio do homem caído para o que é bom está “aprisionado, destruído e perdido”, embora continue livre para o mal (Debates públicos, XI, 7, em As obras de Armínio, vol. 1). Os demônios pecam livremente porque a sua vontade se fixou no mal; o pecador humano, por si, também só é livre para o mal, e só a graça preveniente o liberta para crer (lição 27).
4.5 As outras tradições
A tradição reformada concorda conosco no essencial, e com Calvino recusamos a especulação sobre as hierarquias celestes. A tradição católica afirma, com Latrão IV, a bondade da criação dos anjos e a queda livre dos demônios, e ensina que a vida humana é cercada pela proteção e pela intercessão dos anjos (Catecismo da Igreja Católica, §§ 328-336 e 391-395); divergimos da invocação dos anjos, que o Novo Testamento não autoriza. As igrejas pentecostais lembram com razão que o conflito espiritual é real e que os demônios são expulsos em nome de Jesus (Lucas 10:17; Atos 16:18); a divergência mais séria é com as práticas neopentecostais que fazem do diabo o protagonista do culto e tratam o crente como alguém sob maldição, quando ele está em Cristo.
Há também uma divergência escatológica. O dispensacionalismo e o pré-milenismo leem a prisão de Satanás “por mil anos” (Apocalipse 20:2-3) como acontecimento futuro. A posição amilenista deste curso a lê à luz de Mateus 12:29: o valente foi amarrado na primeira vinda de Cristo, “para que não mais enganasse às nações”, e por isso o evangelho avança entre os povos, até que ele seja “solto por um pouco de tempo” e finalmente julgado (lição 48).
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, a doutrina nos chama à sobriedade. Não podemos negar o que a Escritura afirma sobre o mundo espiritual, nem acrescentar o que ela não diz; a curiosidade sobre nomes, hierarquias e estratégias dos demônios não edifica, porque “as coisas secretas pertencem ao SENHOR nosso Deus: mas as reveladas são para nós” (Deuteronômio 29:29). Em segundo lugar, a doutrina dos anjos nos devolve à adoração. Não oramos aos anjos nem esperamos deles revelações; oramos ao Pai, em nome do Filho, e confiamos que ele “ordenou aos anjos quanto a ti” (Salmos 91:11).
Em terceiro lugar, a batalha espiritual se trava com as armas que Deus deu: verdade, justiça, evangelho da paz, fé, salvação e Palavra, “orando em todo tempo com toda oração e súplica no Espírito” (Efésios 6:14-18). Os meios de graça que Wesley ensinou, a oração, as Escrituras, a Ceia, o jejum e a comunhão cristã, são o modo ordinário de resistir ao adversário: “Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tiago 4:7). Só resiste ao diabo quem está sujeito a Deus, e isso vale para todos nós, porque a tentação mais perigosa quase sempre vem como mentira sobre Deus ou acusação que nos tira a certeza do perdão.
Em quarto lugar, a doutrina nos impede de demonizar pessoas. “Temos de lutar não contra carne e sangue” (Efésios 6:12): o vizinho de outra religião, o adepto das religiões afro-brasileiras ou o adversário político não são o inimigo, mas pessoas por quem Cristo morreu e que a graça preveniente alcança. O ministério de libertação, quando necessário, se faz em nome de Jesus, com discernimento, sem espetáculo e sem desprezar o cuidado médico, porque o próprio Evangelho distingue o endemoninhado do enfermo. Por fim, a doutrina nos dá descanso: o crente não precisa temer feitiço, maldição ou espírito, porque “nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem o presente, nem o futuro, nem poderes, nem altura, nem profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8:38-39).
Voltemos ao quadro sobre a cama das crianças. Há nele uma verdade: o Pai cuida dos pequeninos e tem servos que fazem a sua vontade. Mas convém lembrar que, no deserto, foi o diabo quem citou a Jesus o Salmo 91: “Mandará a seus anjos acerca de ti” (Mateus 4:6), e Jesus respondeu que não se deve tentar o Senhor. A nossa segurança não está no anjo atrás da ponte, mas no Senhor dos anjos, que atravessou a morte e venceu o adversário por nós. Senhor, livra-nos do maligno, guarda-nos da curiosidade vã e do medo, e ensina-nos a fazer a tua vontade assim na terra como os anjos a fazem no céu, até o dia em que esmagarás Satanás debaixo dos pés do teu povo.
Síntese
- Os anjos são criaturas espirituais, pessoais e finitas, criadas por meio do Filho para adorar a Deus e servir à sua vontade; ministram aos herdeiros da salvação e não devem receber culto.
- Satanás e os demônios são anjos criados bons que se tornaram maus por sua própria culpa, provavelmente por soberba; Deus não é autor da sua queda, e eles agem apenas dentro dos limites da permissão divina.
- A doutrina da queda dos anjos se apoia sobretudo em 2 Pedro 2:4, Judas 6, João 8:44 e 1 Timóteo 3:6; Isaías 14 e Ezequiel 28 se dirigem a reis humanos.
- Na cruz, Cristo cancelou a dívida do pecado e despojou os poderes, de modo que a satisfação penal e a vitória sobre Satanás são a mesma obra (Colossenses 2:13-15; Apocalipse 12:10-11).
- Com Armínio e Wesley, rejeitamos tanto o determinismo que faz de Deus a causa de todo evento quanto o moralismo que atribui ao pecador um poder natural para o bem; a firmeza dos anjos fiéis e a libertação do pecador são obra da graça.
- Diante do mundo espiritual, a vida cristã é sóbria, adoradora e confiante: o crente resiste ao diabo sujeito a Deus, e nada o separa do amor de Deus em Cristo.
Questões para revisão
- Explique os termos malʾāk, angelos, śāṭān, diabolos e daimonion, e a observação de Agostinho sobre o “nome de ofício”.
- Quais são as funções dos anjos fiéis segundo a Escritura, e por que o Novo Testamento proíbe o seu culto?
- Quais textos fundamentam a doutrina da queda dos anjos, e por que convém cautela no uso de Isaías 14 e Ezequiel 28?
- Como Armínio explica a queda dos anjos e a confirmação dos anjos fiéis, e que relação isso tem com a permissão divina?
- Segundo Colossenses 2:13-15 e a nota de Wesley a Colossenses 1:14, como se relacionam o perdão dos pecados e a vitória sobre Satanás?
- Por que o argumento de Finney sobre os demônios não atinge a doutrina wesleyana da graça?
- Como a leitura amilenista entende a prisão de Satanás em Apocalipse 20?
- Que critérios bíblicos devem orientar a igreja brasileira diante das práticas de batalha espiritual?
Bibliografia
- AGOSTINHO. A cidade de Deus, XI-XII; Comentário aos Salmos, 103.
- AQUINO, Tomás de. Suma teológica, I, qq. 50-64.
- ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Debates privados XXV; Debates públicos XI; Apologia contra os 31 artigos, art. XX).
- AULÉN, Gustaf. Christus Victor. Londres: SPCK, 1931.
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 2. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
- BULTMANN, Rudolf. Novo Testamento e mitologia (1941).
- CALVINO, João. As Institutas, I, 14.
- Catecismo da Igreja Católica; IV Concílio de Latrão (1215), constituição Firmiter.
- Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova (arts. “Anjo”, “Demônio”, “Satanás”).
- GRENZ, Stanley J.; OLSON, Roger E. A teologia do século 20. São Paulo: Cultura Cristã.
- LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP.
- LEWIS, C. S. Cartas de um diabo a seu aprendiz. São Paulo: Martins Fontes.
- MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
- McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
- POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres, 1880.
- SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
- VOS, Geerhardus. Teologia bíblica: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Cultura Cristã.
- WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
- WESLEY, John. Sermões 62, 71 e 72; Notas explicativas sobre o Novo Testamento. Em: Coletânea da teologia de João Wesley.
- WILEY, H. Orton. Christian Theology. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1940-1943.
- Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática.
Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 21: Providência, liberdade e o problema do mal. Próxima: Lição 23: A doutrina da humanidade.
- Teologia
- Sistemática
- Doutrina de Deus
- Anjos e Demônios