AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

TeologiaTeologia Sistemática41 de 45

Capítulo 41: A doutrina das últimas coisas

Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas

Diego Gonçalvesatualizado 27 min de leitura5.486 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

O estudo das últimas coisas inclui duas áreas distintas. A primeira trata do que vai acontecer com o mundo e com a humanidade inteira quando Cristo voltar. A segunda trata de cada um de nós: o que nos espera depois da morte?

O Propósito da Criação

Antes de falar do fim, vale olhar para o começo. O estudo das últimas coisas precisa se encaixar no propósito de Deus para a criação. Então, por que Deus criou o universo, esta terra e a humanidade que vive nela?

Afresco do Juízo Final na Capela Sistina, com Cristo ao centro, cercado por santos, anjos com trombetas e os mortos ressuscitando
Michelangelo, O Juízo Final, 1536-1541. Capela Sistina, Vaticano. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Algumas Respostas Insuficientes

Alguns dizem que Deus criou para mostrar toda a sua glória, e citam Isaías 43:7, onde Deus fala dos que criou “para minha glória”. A criação glorifica a Deus, sem dúvida. Mas Deus era pleno e completo desde sempre. Se precisasse da criação para mostrar a sua glória, faltaria algo nele antes de criar.

Outros dizem que a criação foi um campo de batalha, onde Deus derrotaria Satanás. Mas, se Deus é todo-poderoso, poderia destruir Satanás quando quisesse. E Satanás também é criatura: criar o universo para derrotar uma parte dele não faz sentido.

Ainda outros dizem que Deus tinha tanto amor que precisava de alguém para amar. Mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo se amam desde a eternidade. Deus não precisa de ninguém, nem mesmo para amar.

O que as Escrituras Indicam

Exatamente por que Deus criou está além do nosso conhecimento. Mas as Escrituras nos dão algumas indicações.

Para Cristo

Paulo diz que Deus “nem também é servido por mãos humanas; como que necessitasse de alguma coisa” (Atos 17:25). Deus criou sem necessidade. E diz também que “todas as coisas foram criadas por ele e para ele” (Colossenses 1:16). O universo foi criado para Cristo. Ele não precisava de nós, mas fomos criados para ele, e ele nos chama para a sua amizade: “eu tenho vos chamado de amigos” (João 15:15).

Com os Olhos no Futuro

Paulo diz que as aflições desta vida não se comparam com o que está por vir. Por isso, ele fixou os olhos no que não se vê:

“Por isso nós não prestamos atenção para as coisas visíveis, mas sim para as invisíveis; porque as coisas visíveis são temporárias, mas as invisíveis são eternas.”

(2 Coríntios 4:18, Bíblia Livre)

Em 1 Coríntios 3:10-15, Paulo fala do fundamento, que é Cristo, sobre o qual construímos. Alguns materiais são valiosos e duram, outros são baratos e passam. No dia do juízo, a obra de cada um será provada pelo fogo. Quem construiu sobre Cristo será salvo, mas quem usou materiais de pouco valor verá a sua obra queimada e sofrerá perda. A salvação é dom da graça, recebido pela fé (Efésios 2:8-9). Mas o que faço com a minha vida aqui tem consequências para a eternidade.

Para Servir e Ser Como Cristo

Na parábola dos talentos, o senhor diz ao servo: “Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te porei” (Mateus 25:21). Parece que haverá uma tarefa para cumprirmos na eternidade. Ninguém vai passar a eternidade sentado numa nuvem, tocando harpa e comendo bombom.

E João diz: “quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (1 João 3:2). Isso não quer dizer que seremos deuses, mas que seremos muito mais parecidos com Cristo do que conseguimos ser nesta vida.

Deus criou com um propósito, e esse propósito inclui uma humanidade redimida. O mundo como é hoje vai passar, mas Deus não vai jogar a sua obra fora. Paulo diz que a própria criação será “liberta da escravidão da degradação para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8:21). Hoje é uma parte minúscula da eternidade, mas vale a pena viver bem cada dia dela.

Escatologia

Escatologia é o nome técnico do estudo das últimas coisas. A palavra vem do grego eschatos, que quer dizer “último”. Mas há alguma razão prática para estudar o fim do mundo? Paulo nos dá algumas em 1 Tessalonicenses 4:13-18. A primeira é que não fiquemos tristes “como os outros que não têm esperança” quando um irmão morre. A segunda é o consolo e o ânimo: “Portanto consolai-vos uns aos outros com essas palavras” (versículo 18). E João acrescenta uma terceira: “todo aquele que tem nele essa esperança purifica a si mesmo, como também ele é puro” (1 João 3:3). Quem espera Cristo procura viver como ele.

Calvino achava que a esperança da ressurreição sustenta toda a vida cristã. Num mundo cheio de lutas, quem não olha para o fim desanima:

Por cima e por baixo, à frente e atrás, somos cercados de tentações tão fortes que a nossa mente não as aguentaria se não estivesse presa à vida celestial. Por isso, só fez progresso sólido no evangelho quem se acostumou a meditar sempre na bendita ressurreição.

(João Calvino, Institutas, III.25.1, tradução nossa)

Já Estamos nos Últimos Dias

Muita gente pensa que os “últimos dias” ainda vão começar. Mas o Novo Testamento diz que eles começaram com a vinda de Jesus. Deus “nestes últimos dias falou a nós por meio do seu Filho” (Hebreus 1:2). No Pentecostes, Pedro disse que o derramamento do Espírito era o cumprimento da promessa de Joel para “os últimos dias” (Atos 2:17). E João escreveu, no primeiro século: “Filhinhos, é a última hora” (1 João 2:18).

Isso quer dizer que o Reino de Deus já chegou, mas ainda não chegou por inteiro. Jesus disse que, quando ele expulsava demônios, “o Reino de Deus já chegou sobre vós” (Mateus 12:28). Mas ele também nos ensinou a orar: “Venha o teu Reino” (Mateus 6:10). Os teólogos chamam isso de “já e ainda não”. Cristo já venceu o pecado e a morte na cruz e na ressurreição. Mas a vitória completa só vai aparecer quando ele voltar. Vivemos entre essas duas vindas.

Maneiras de Ler as Profecias

Há várias maneiras de entender as passagens bíblicas sobre o fim da história.

  • Futurista: as profecias do fim, inclusive boa parte do Apocalipse, ainda vão se cumprir, nos anos que antecedem a volta de Jesus.
  • Preterista: a palavra vem do latim e quer dizer “passado”. Muitas profecias falavam de fatos daquela época. Mateus 24 se cumpriu, em grande parte, na destruição de Jerusalém, no ano 70, e o Apocalipse animava os cristãos perseguidos por Roma.
  • Historicista: o Apocalipse descreve, em ordem, a história da Igreja, dos apóstolos até o fim. Foi a leitura preferida dos reformadores, e muitos deles viam no papado o anticristo.
  • Simbólica: o Apocalipse mostra, acima de tudo, verdades que valem para todas as épocas: a luta constante entre o povo de Deus e o mal, e a certeza de que Cristo vencerá.

Minha Própria Visão

Eu tendo a ver as profecias do fim como parcialmente cumpridas no primeiro século, com muitos elementos simbólicos que valem para toda a história da Igreja. Mas o centro delas ainda está no futuro: a volta de Cristo, a ressurreição, o juízo e a nova criação. Acredito, porém, que se podem apresentar bons argumentos para as outras leituras em pelo menos algumas passagens. O mais importante é não perder de vista o que todas as leituras cristãs confessam juntas: Jesus vai voltar.

A Volta de Cristo

O evento central da escatologia é a segunda vinda de Jesus. É a sua volta que esperamos, e é a sua volta que dá início aos acontecimentos finais. Desde os primeiros séculos, os cristãos confessam no Credo que ele “virá para julgar os vivos e os mortos”. A volta de Jesus é certa, será inesperada, pessoal e visível, gloriosa e única.

É Certa

As Escrituras afirmam a certeza da volta de Cristo. Jesus prometeu aos discípulos que iria preparar um lugar para eles e acrescentou: “outra vez virei, e vos tomarei comigo, para que vós também estejais onde eu estiver” (João 14:3). Em Mateus 24:30-31, ele disse que voltaria de modo visível e reuniria os seus escolhidos de todo o mundo. E Paulo garantiu à igreja de Tessalônica que o Senhor desceria do céu para reunir os que são dele, tanto os mortos quanto os vivos (1 Tessalonicenses 4:15-17). Podemos esperar com confiança a volta de Cristo.

O Tempo É Desconhecido

A data e a hora da volta de Jesus são desconhecidas. Quando os discípulos perguntaram, ele respondeu: “Não pertence a vós saber os tempos ou estações que o Pai pôs em sua própria autoridade” (Atos 1:7). E disse ainda: “daquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, a não ser meu Pai somente” (Mateus 24:36). Paulo escreveu que “o dia do Senhor virá como um ladrão de noite” (1 Tessalonicenses 5:2).

Muitos tentaram marcar a data, e todos erraram. Em 1763, quando alguns anunciaram que o mundo acabaria numa certa noite, Wesley pregou em Londres contra a ideia, foi se deitar na hora de sempre e dormiu tranquilo. A hora está nas mãos de Deus, e ele não a revelou.

É Pessoal e Visível

Jesus não vai apenas enviar os seus anjos. Ele mesmo virá: “o mesmo Senhor descerá do céu” (1 Tessalonicenses 4:16). E a sua volta será corporal e visível. Alguns dizem que a segunda vinda é apenas espiritual, ou que ela já aconteceu. Na ascensão, os anjos disseram aos discípulos: “Este Jesus, que foi tomado de vós acima ao céu, assim virá, da maneira como o vistes ir ao céu” (Atos 1:11). Ele subiu em corpo e voltará da mesma maneira. E Jesus disse que “todas as tribos da terra […] verão ao Filho do homem, que vem sobre as nuvens do céu” (Mateus 24:30). Não haverá nada de secreto na sua volta.

É Gloriosa

A primeira vinda de Jesus foi humilde, numa estrebaria em Belém. A segunda será diferente. Ele virá “com poder e grande glória” (Mateus 24:30). Ele se assentará “sobre o trono de sua glória” (Mateus 25:31). E descerá “com grande aclamação, com voz de arcanjo, e com trombeta de Deus” (1 Tessalonicenses 4:16).

É Única

Alguns ensinam uma segunda vinda em duas etapas. Primeiro, Jesus viria em segredo para levar a igreja, no chamado arrebatamento. Depois, sete anos mais tarde, viria de modo visível. Não encontro apoio bíblico para essa ideia. Mateus 24:30-31 e 1 Tessalonicenses 4:16-17 falam de uma volta para buscar os escolhidos que é visível e barulhenta, com trombeta e aclamação. Quando Paulo diz que “seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar o Senhor no ar” (1 Tessalonicenses 4:17), ele está falando desse mesmo dia, e não de uma vinda secreta.

Os Sinais da Vinda

Jesus falou de sinais que acompanhariam a história até a sua volta. O evangelho seria pregado a todas as nações: “este Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mateus 24:14). Haveria guerras, fomes e terremotos, mas ele avisou: “Olhai que não vos espanteis; porque é necessário, que isto aconteça, mas ainda não é o fim” (Mateus 24:6). Paulo falou de uma grande apostasia e do aparecimento do “homem da injustiça” (2 Tessalonicenses 2:3), que a tradição cristã liga ao anticristo de que fala João. E João acrescenta que “já agora muitos anticristos chegaram” (1 João 2:18).

Esses sinais não servem para calcular datas, e sim para nos manter acordados. Jesus terminou o seu sermão sobre o fim com parábolas sobre vigilância, como a das dez virgens. Sobre isso, veja também Parábola das dez virgens: como esperar a volta de Jesus.

O Milênio

A volta de Jesus, a ressurreição e o juízo são ensinados com clareza nas Escrituras. Mas os cristãos montaram vários esquemas para organizar as passagens sobre o fim, e o que mais os separa é a leitura de Apocalipse 20:1-10. Nesses versículos, Satanás é amarrado por mil anos e lançado no abismo, “para que não mais enganasse às nações”. Os que foram mortos por causa de Jesus “viveram e reinaram com Cristo por mil anos” (Apocalipse 20:4), e isso é chamado de “a primeira ressurreição”. Depois dos mil anos, Satanás é solto, engana as nações e levanta um exército contra o povo de Deus, mas é derrotado e lançado no lago de fogo.

A palavra milênio quer dizer “mil anos”. As principais visões se definem pela relação entre a volta de Cristo e esse período.

Pós-milenismo

O pós-milenismo ensina que Cristo voltará depois do milênio. O milênio seria um longo período, no fim da história da Igreja, em que o evangelho vai ganhar a maior parte do mundo para Cristo. Hoje os mil anos costumam ser vistos como simbólicos. É uma visão otimista, forte entre os puritanos e no tempo dos grandes avivamentos, com Jonathan Edwards e muitos missionários do século 19. Ela perdeu força depois das duas guerras mundiais.

Pré-milenismo

O pré-milenismo ensina que Cristo voltará antes do milênio e reinará em pessoa mil anos na terra. Esta visão foi comum nos primeiros séculos, com Papias, Justino Mártir e Irineu, e voltou a ganhar força nos últimos duzentos anos. Ela lê Apocalipse 20:1-6 de modo literal e costuma esperar que o mundo piore até a volta de Cristo. Há duas formas principais.

Pré-milenismo Dispensacionalista

Esta forma divide a segunda vinda em duas etapas: primeiro, uma vinda secreta para levar a igreja, o arrebatamento; sete anos depois, depois da grande tribulação, a vinda visível que dá início ao milênio. Ela faz parte do dispensacionalismo, um sistema do século 19 que vê Israel e a Igreja como dois povos distintos. Por isso, entende que a maior parte das profecias do fim fala de Israel. Paul Enns, autor do Moody Handbook of Theology, defende essa visão, que se espalhou pela Bíblia de Referência Scofield, por livros e filmes sobre o arrebatamento. No Brasil, ela é ensinada em muitas igrejas pentecostais e batistas. A sua grande esperança é que a igreja escape da tribulação. A sua maior dificuldade é que a Bíblia não fala de uma volta em duas etapas.

Pré-milenismo Histórico

Esta forma não divide a segunda vinda. A igreja passará pela tribulação antes da volta de Cristo e depois participará do reino de mil anos. A esperança aqui é que a igreja será guardada durante a tribulação, e não tirada dela, assim como Israel foi protegido de muitas das pragas que caíram sobre o Egito.

Amilenismo

O amilenismo ensina que não haverá um reino literal de mil anos na terra. O nome engana um pouco, porque o amilenista crê no milênio. Ele apenas o entende de outra forma. Para ele, os mil anos são um número simbólico para todo o tempo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Satanás foi amarrado quando Jesus o venceu na cruz, e por isso o evangelho agora alcança as nações. Os santos que morreram reinam com Cristo no céu, e a igreja vive sob o seu governo na terra. Esta visão lê Apocalipse 20 como o resto do livro, isto é, como linguagem cheia de símbolos.

Nesta visão, haverá uma só volta de Cristo, seguida da ressurreição de todos os mortos, do juízo final e da nova criação, tudo como parte de um mesmo grande acontecimento. Como todas as outras visões, o amilenismo crê que Cristo vai voltar, que reunirá a sua igreja (o “arrebatamento”, no sentido de ela ser levada ao encontro do Senhor) e que julgará o mundo. Esta visão vem de Agostinho e foi a posição de Lutero, de Calvino e da maior parte da Reforma. A Confissão de Augsburgo, de 1530, rejeitou a ideia de um reino terreno dos santos antes da ressurreição dos mortos (artigo XVII).

A Posição Deste Site sobre o Milênio

Este site é amilenista. Cremos que Cristo reina desde a sua ressurreição e ascensão, que os mil anos de Apocalipse 20 representam o tempo da Igreja e que a sua volta será uma só, visível e gloriosa, seguida da ressurreição de todos, do juízo e da nova criação. Respeitamos os irmãos pré-milenistas e pós-milenistas, que confessam a mesma esperança: Jesus vai voltar. Os argumentos de cada visão serão vistos com mais calma no Capítulo 43.

O que Acontece Depois Desta Vida?

O segundo lado das últimas coisas é muito mais pessoal. O que acontece comigo depois que eu morrer? É bem provável que o meu fim pessoal chegue antes da volta de Cristo.

A Morte

A morte física é inevitável para todos nós, a não ser para os que estiverem vivos quando Cristo voltar. “Está ordenado aos seres humanos morrerem uma vez, e depois disso, o juízo” (Hebreus 9:27). Mas a morte não é o fim da nossa história. As Escrituras dizem com clareza que há vida além do túmulo.

Mas a morte fazia parte da criação desde o começo? Alguns cristãos pensam que sim. Eles lembram que Adão não morreu fisicamente no dia em que comeu da árvore e entendem que Deus falava só da morte espiritual. A tradição da Igreja, porém, sempre entendeu que a morte do ser humano é fruto do pecado, e a Bíblia parece apoiar isso. Depois da queda, Deus disse a Adão: “pó és, e ao pó voltarás” (Gênesis 3:19). Paulo afirma que “por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte” (Romanos 5:12). No dia em que pecou, Adão morreu espiritualmente e começou a caminhar para a morte do corpo. Por isso a Bíblia chama a morte de “o último inimigo” (1 Coríntios 15:26). Mas, para quem está em Cristo, ela já perdeu o seu poder: “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Filipenses 1:21).

O Estado Intermediário

O que acontece com os mortos entre o dia em que morrem e o dia da ressurreição? Esse tempo é chamado de estado intermediário, e há várias visões sobre ele.

O Sono da Alma

Nesta visão, ensinada hoje pelos adventistas, a pessoa que morreu fica inconsciente, sem perceber a passagem do tempo. O apoio vem de passagens como 1 Tessalonicenses 4:13-15, onde Paulo compara a morte ao sono. Mas a Bíblia usa a imagem do sono para falar da aparência do corpo morto e da certeza de que ele vai acordar, e não para dizer que a pessoa deixou de estar consciente.

O Purgatório

Na teologia católica romana, o purgatório é um lugar de purificação temporária para os que morrem em estado de graça, mas ainda não pagaram tudo o que deviam pelos seus pecados. Os vivos podem ajudá-los com orações, missas e indulgências. O principal apoio vem de 2 Macabeus 12:39-46, um livro que os protestantes não aceitam como parte da Bíblia. Passagens como 1 Coríntios 3:11-15 também são usadas, mas ali o que passa pelo fogo é a obra do crente, e não a sua alma, e isso acontece no dia do juízo. Os reformadores rejeitaram o purgatório porque ele nega que o sangue de Cristo basta para nos purificar. Wesley disse o mesmo:

No paraíso, as almas dos bons descansarão dos seus trabalhos e estarão com Cristo, da morte até a ressurreição. Isso não tem nenhuma semelhança com o purgatório papal. Cremos, como a Igreja antiga, que ninguém sofrerá depois da morte, a não ser os que hão de sofrer para sempre.

(John Wesley, carta a George Blackall, tradução nossa)

Imediatamente com Cristo

Uma terceira visão é que, na morte, o crente vai imediatamente para a presença de Cristo. Jesus disse a um dos criminosos crucificados com ele: “hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). Paulo queria “deixar o corpo, e habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8), e dizia que “estar com Cristo” era “muito melhor” (Filipenses 1:23). O crente fica com Cristo sem o corpo, consciente e feliz, até a ressurreição. Os que morrem sem Cristo também continuam conscientes, mas em sofrimento, como o rico da parábola de Lucas 16. Esta é a visão da maior parte da Igreja e de todos os reformadores. Calvino, no entanto, advertiu contra a curiosidade:

Basta-nos saber que as almas dos crentes, terminada a sua luta, entram num descanso feliz, onde esperam com alegria a glória prometida. Tudo fica em suspenso até que Cristo apareça como Redentor.

(João Calvino, Institutas, III.25.6, tradução nossa)

Ressurreição Imediata

Uma última visão é que, na morte, o crente recebe logo o corpo glorificado. O apoio vem de 2 Coríntios 5:1-8, onde Paulo fala de dois estados: em casa no corpo e longe do Senhor, ou vestidos com a morada celestial e em casa com o Senhor. Alguns perguntam também se, depois da morte, ainda estamos dentro do tempo. Essa visão leva a sério a esperança do corpo, mas é difícil de conciliar com o Novo Testamento, que coloca a ressurreição num só dia, o da volta de Cristo: “depois os que são de Cristo, em sua vinda” (1 Coríntios 15:23).

Por isso fico com a visão clássica: os crentes estão com Cristo agora e receberão o corpo novo quando ele voltar. Veremos esse assunto com mais detalhe no próximo capítulo.

A Ressurreição

A morte não é o nosso estado final. Os autores do Novo Testamento esperavam uma ressurreição, em que os crentes que morreram receberão um corpo glorificado. Isso é diferente do que aconteceu com Lázaro, que voltou à vida no corpo antigo e um dia morreu de novo. A ressurreição é para uma vida eterna, num corpo que não morre mais. “Semeia-se o corpo degradável, ressuscitará capaz de nunca se degradar. Semeia-se em desonra, ressuscitará em glória” (1 Coríntios 15:42-43).

A ressurreição de Jesus é a garantia da nossa. Ele foi “feito as primícias dos que dormiram” (1 Coríntios 15:20). As primícias eram os primeiros frutos da colheita, que mostravam que o resto viria. Em 1 Tessalonicenses 4:13-18, Paulo procura consolar a igreja, ao que parece pela morte de alguns dos seus membros. E diz:

“Pois o mesmo Senhor descerá do céu com grande aclamação, com voz de arcanjo, e com trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro;”

(1 Tessalonicenses 4:16, Bíblia Livre)

E os crentes que estiverem vivos naquele dia serão transformados: “nem todos em verdade dormiremos; porém todos seremos transformados. Em um momento, em um piscar de olhos, à última trombeta” (1 Coríntios 15:51-52).

O Novo Testamento também fala de uma ressurreição dos incrédulos, mas para o juízo e a condenação. Jesus disse: “a hora vem, em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão sua voz. E sairão os que fizeram bem, para a ressurreição de vida; e os que fizeram mal, à ressurreição de condenação” (João 5:28-29). Paulo falou de uma “ressurreição dos mortos, tanto dos justos como dos injustos” (Atos 24:15). E Daniel já tinha dito que muitos ressuscitariam, “uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e o desprezo eterno” (Daniel 12:2).

Essas passagens parecem indicar uma só ressurreição geral, de todas as pessoas, no mesmo dia. Os pré-milenistas veem duas, uma antes e outra depois do milênio, por causa da “primeira ressurreição” de Apocalipse 20:5.

O Juízo Final

Depois da ressurreição vem o juízo. Deus “tem estabelecido um dia em que ele julgará ao mundo em justiça por meio do homem a quem determinou” (Atos 17:31). Esse homem é Jesus. Paulo escreve aos crentes:

“Pois todos devemos comparecer diante do Tribunal de Cristo, para que cada um receba o pagamento das coisas que fez no corpo, seja bem ou mal.”

(2 Coríntios 5:10, Bíblia Livre)

Os incrédulos também serão julgados. João viu “um grande trono branco”, e os mortos, “grandes e pequenos”, foram julgados “segundo as obras deles” (Apocalipse 20:11-12). A parábola das ovelhas e dos bodes, em Mateus 25:31-46, mostra todas as nações reunidas diante do mesmo trono, no mesmo dia. Armínio via o juízo como o último ato do reinado de Cristo:

O juízo é o último ato da função régia de Cristo, pelo qual, com justiça e sem fazer acepção de pessoas, ele pronuncia a sentença sobre todos os pensamentos, palavras, ações e omissões de todos os homens, e a executa, dando a vida eterna ou aplicando a morte eterna.

(Jacó Armínio, Debates privados, XXXVII.7, tradução nossa)

O Juízo e as Obras

Se somos salvos pela graça, por que seremos julgados pelas obras? O juízo não vai decidir pela primeira vez o destino de ninguém. O destino de cada um depende da sua relação com Cristo, e essa questão se resolve nesta vida. Para os que vieram a ele com arrependimento e fé, e permaneceram nele, o veredito é a vida eterna, que é dom da graça (Efésios 2:8-9). Para os que recusaram a oferta da salvação, o juízo termina em castigo eterno. As obras entram como testemunhas. Elas mostram se a fé era verdadeira, porque a fé verdadeira age pelo amor. Na parábola, as ovelhas são as que serviram a Cristo sem perceber, cuidando dos pequeninos.

O juízo também vai determinar recompensas e castigos. Como vimos em 1 Coríntios 3, a obra de cada crente será provada. Alguns receberão recompensa, e outros sofrerão perda, mesmo sendo salvos. E Jesus disse que o servo que conhecia a vontade do seu senhor e não a fez “será muito espancado”, enquanto o que não sabia “será pouco espancado” (Lucas 12:47-48). Haverá graus de recompensa e graus de castigo.

Uma coisa é certa: depois da morte, não há chance de mudar o resultado. Hoje é o tempo de buscar a Deus.

O Estado Final

Todos os que já viveram vão para um de dois destinos. Ou passarão a eternidade na presença de Deus, ou ficarão para sempre separados dela. “E estes irão ao tormento eterno, porém os justos à vida eterna” (Mateus 25:46). Os que permanecerem fiéis a Cristo até o fim passarão a eternidade com Deus. Todos os outros passarão a eternidade longe dele.

O Céu e a Nova Criação

O céu, mais do que um lugar, é estar na presença de Deus. Deus enche toda a criação, então, em certo sentido, estamos sempre na sua presença. Mas, nesta vida, não conseguimos perceber essa presença por inteiro. Na era que virá, veremos Deus em toda a sua glória.

A Bíblia também mostra que o nosso destino final não é uma vida sem corpo, flutuando nas nuvens. Deus vai renovar tudo. “Segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que a justiça habita” (2 Pedro 3:13). João viu a nova Jerusalém descer do céu e ouviu: “Eis que o tabernáculo de Deus está com os seres humanos; e com eles habitará” (Apocalipse 21:3). No fim, Deus não leva os seus para longe da criação. Ele vem morar com eles numa criação renovada. Wesley descreveu assim essa nova criação:

Haverá uma libertação maior do que tudo isso, porque não haverá mais pecado. E, para coroar tudo, haverá uma união íntima e sem interrupção com Deus, uma comunhão constante com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo, pelo Espírito, e uma alegria contínua no Deus Trino e em todas as criaturas nele.

(John Wesley, sermão A nova criação, 18, tradução nossa)

Haverá descanso, e haverá alegria na presença de Deus. “Agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face” (1 Coríntios 13:12). Deus “limpará toda lágrima dos olhos deles; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem mais haverá dor” (Apocalipse 21:4). Mas acredito também que teremos trabalho a fazer, como vimos na parábola dos talentos. E, como “na ressurreição, nem se tomam, nem se dão em casamento” (Mateus 22:30), o casamento pertence a esta vida. Vou reconhecer a minha esposa no céu, mas não seremos mais casados. A nossa comunhão, porém, será ainda maior.

O Inferno

O inferno é o estado final dos que morrem sem Cristo. Nada nas Escrituras indica que alguém possa passar do inferno para o céu depois da morte. Ao contrário, há boas razões para crer que isso não pode acontecer. Na parábola do rico e de Lázaro, Abraão diz ao rico:

“E, além de tudo isto, um grande abismo está posto entre nós e vós, para os que quisessem passar daqui para vós não possam; nem também os daí passarem para cá.”

(Lucas 16:26, Bíblia Livre)

O inferno é um estado permanente. A única maneira de escapar dele é se arrepender e aceitar a oferta da salvação enquanto ainda estamos nesta vida. Deus não quer que ninguém se perca. Cristo morreu por todos, e a porta está aberta para todo aquele que crer.

O castigo é eterno, embora possa haver graus de castigo, como já vimos (Lucas 12:47-48).

A Natureza do Castigo

Há duas visões principais sobre a natureza do castigo dos incrédulos.

Tormento Consciente Eterno

Esta tem sido a visão da Igreja ao longo da sua história, embora parte do modo como o inferno é retratado venha de fontes fora da Bíblia, como o Inferno de Dante. Jesus fala de ser “lançado no fogo do inferno, onde seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga” (Marcos 9:47-48). A palavra que ele usa é Geena, o nome de um vale perto de Jerusalém onde se queimava o lixo da cidade. E o Apocalipse diz dos que adoram a besta:

“também o tal beberá do vinho da ira de Deus, que foi posto sem mistura no cálice de sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e diante do Cordeiro. E a fumaça do tormento deles sobe para todo o sempre; e não têm descanso de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e se alguém recebe a marca de seu nome.”

(Apocalipse 14:10-11, Bíblia Livre)

O tormento é eterno, e tormento supõe consciência.

Aniquilacionismo

O aniquilacionismo ensina que, no fim, os incrédulos vão deixar de existir, talvez depois de um tempo de castigo. Foi sempre uma visão minoritária, e muitos a consideram um erro grave, mas alguns evangélicos respeitados, como o inglês John Stott, se inclinaram a ela. Os aniquilacionistas lembram que o Novo Testamento fala muito de destruição. Os que não conhecem a Deus “serão punidos com o castigo da eterna perdição” (2 Tessalonicenses 1:9). Para eles, essa perdição é deixar de existir, e é eterna porque não tem volta. Eles também leem o fogo que não se apaga como um fogo que consome tudo o que cai nele, como em Ezequiel 20:47, onde a chama “não se apagará”, mas as árvores são queimadas.

Há também quem diga que um Deus de amor não poderia castigar para sempre, ou que o castigo eterno é desproporcional a pecados cometidos no tempo. Mas esses são argumentos de sentimento, que não se apoiam nas Escrituras. Calvino respondeu que o pecado ofende um Deus cuja majestade e justiça são eternas (Institutas, III.25.5).

Avaliando as Visões

Os argumentos dos aniquilacionistas merecem atenção, mas a visão tradicional me parece mais fiel ao Novo Testamento. Em Mateus 25:46, a vida e o castigo são chamados de eternos na mesma frase. Se a vida dos justos não acaba, é difícil dizer que o castigo dos ímpios acaba. E, em Apocalipse 20:10, o diabo, a besta e o falso profeta “serão atormentados dia e noite para todo o sempre”. O inferno é uma realidade terrível, e foi por isso que Jesus falou tanto dele: para que ninguém precise ir para lá. Voltaremos a esse assunto no Capítulo 44.

Conclusão

Deus criou o mundo com um propósito, e esse propósito será cumprido. A história não anda em círculos nem caminha para o nada. Ela caminha para a volta de Cristo. Desde a sua primeira vinda, vivemos nos últimos dias. O Reino já chegou, mas ainda vai se mostrar por inteiro.

Jesus vai voltar de modo pessoal, visível e glorioso, num dia que ninguém conhece. Os crentes discordam sobre o milênio, mas todos esperam a mesma volta. Quem morre em Cristo vai estar com ele e espera a ressurreição do corpo. Na volta de Cristo, todos vão ressuscitar e comparecer diante dele. Os que permaneceram nele entrarão na vida eterna, numa criação renovada. Os que rejeitaram a sua graça vão ficar para sempre longe dele.

Essa esperança muda a vida de agora. Ela nos consola diante da morte, nos ajuda a viver em santidade e nos manda anunciar o evangelho enquanto há tempo. “Visto, pois, que todas estas coisas estão para serem desfeitas, de que maneira vós deveis ser em santo comportamento e piedade” (2 Pedro 3:11). E ela nos ensina a orar como a Igreja ora desde o começo: “Amém! Sim, vem, Senhor Jesus!” (Apocalipse 22:20).

Nos próximos capítulos, veremos cada um desses assuntos com mais detalhe: a morte e o estado intermediário, a volta de Cristo e o milênio, e por fim a ressurreição, o juízo e o estado eterno.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Debates privados, XXXVII. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. III.25.1, 5 e 6.
  • Confissão de Augsburgo (1530), artigo XVII.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • Wesley, John. Carta a George Blackall; A nova criação (sermão 64), 18; Diário, 28 de fevereiro de 1763. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Organização de Robert W. Burtner e Robert E. Chiles. Nashville: Abingdon, 1954.

Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas. Capítulo anterior: Capítulo 40: Ministério, governo e missão da Igreja. Próximo capítulo: Capítulo 42: A morte e o estado intermediário.

140pal/min