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Capítulo 43: A segunda vinda de Cristo e o milênio

Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas

Diego Gonçalves26 min de leitura5.272 palavras

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Neste texto

Jesus prometeu que voltaria. Mas para que ele volta, o que vem antes da sua vinda e o que a Bíblia quer dizer com os mil anos de Apocalipse 20?

A Promessa da Volta

No capítulo anterior, vimos o que acontece com cada pessoa quando ela morre. Agora passamos para o lado coletivo das últimas coisas: o que vai acontecer com o mundo quando Cristo voltar. No Capítulo 41, vimos que essa volta é certa, pessoal, visível, gloriosa e única, e que a hora dela é desconhecida. Aqui vamos olhar esses pontos mais de perto e depois tratar das perguntas que mais dividem os cristãos.

A volta de Cristo aparece em quase todos os livros do Novo Testamento, e os cristãos de todas as tradições a confessam juntos. Paul Enns, que discorda de nós em vários pontos sobre o fim, lembra isso:

Embora haja diferenças nos detalhes, a volta de Cristo é uma doutrina que os evangélicos têm em comum. Ela tem destaque nas Escrituras: é mencionada mais de trezentas vezes no Novo Testamento, com capítulos inteiros dedicados a ela e até a maior parte de alguns livros.

(Paul Enns, The Moody Handbook of Theology, cap. 26, tradução nossa)

Vinda, Aparecimento e Revelação

Os apóstolos usam três palavras gregas para a volta de Jesus. A mais comum é parousia, que quer dizer “presença” ou “chegada”. No mundo grego, ela era usada para a visita oficial de um rei a uma cidade. A segunda é epiphaneia, “aparecimento”: vivemos “aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (Tito 2:13). A terceira é apokalypsis, “revelação”, o ato de tirar o véu, usada quando Paulo fala do dia em que “o Senhor Jesus aparecer do céu com os anjos de seu poder” (2 Tessalonicenses 1:7). O Rei que partiu vai chegar, o que hoje está escondido vai aparecer, e o véu vai cair. As três palavras falam do mesmo acontecimento. Nenhuma delas é reservada para uma vinda secreta.

Por que Cristo Volta?

A primeira vinda de Jesus foi para tirar o pecado. A segunda é para completar o que ele começou. “Cristo, que se ofereceu uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá pela segunda vez, sem pecado, aos que o esperam, para a salvação” (Hebreus 9:28).

Ele volta para buscar os seus: “outra vez virei, e vos tomarei comigo, para que vós também estejais onde eu estiver” (João 14:3). Volta para ressuscitar os mortos, porque cada um ressuscita “em sua ordem; Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, em sua vinda” (1 Coríntios 15:23). Volta para julgar, porque Deus “tem estabelecido um dia em que ele julgará ao mundo em justiça por meio do homem a quem determinou” (Atos 17:31). O mesmo Jesus que foi julgado injustamente por Pilatos vai sentar no trono como juiz de todos.

E volta para completar a vitória. Cristo já venceu na cruz, mas a vitória ainda não apareceu por inteiro. “Convém que ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo, que será aniquilado, é a morte” (1 Coríntios 15:25-26). Pedro disse que o céu recebe Jesus “até os tempos da restauração de todas as coisas” (Atos 3:21). A volta de Cristo é o começo dessa restauração.

Uma Volta que Todos Verão

Alguns grupos ensinam que Jesus já voltou de modo invisível. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, dizem que ele voltou em 1914. Outros dizem que a segunda vinda é apenas espiritual e acontece quando alguém o recebe no coração. Jesus avisou: “se vos disserem: ‘Eis que ele está no deserto’, não saiais; ‘Eis que ele está em um recinto’, não creiais. Porque, assim como o relâmpago, que sai do oriente, e aparece até o ocidente, assim também será a vinda do Filho do homem” (Mateus 24:26-27). Ninguém precisa avisar o outro que houve um relâmpago. Todos veem. “Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Apocalipse 1:7). Calvino mostrou o consolo que há nisso:

Como na terra o seu reino está, de certo modo, escondido sob a humildade da carne, a fé é chamada, com toda a razão, a pensar na presença visível que ele mostrará no último dia. Pois ele descerá do céu de forma visível, do mesmo modo como foi visto subir, e aparecerá a todos com a majestade do seu reino.

(João Calvino, Institutas, II.16.17, tradução nossa)

Hoje, o Reino de Cristo parece pequeno. A igreja é fraca, sofre e muitas vezes é desprezada. Isso vai mudar no dia em que o Rei aparecer.

Os Sinais da Vinda

Os discípulos perguntaram a Jesus: “que sinal haverá da tua vinda, e do fim da era?” (Mateus 24:3). Ele respondeu com o longo sermão de Mateus 24 e 25. Mas começou com um aviso: “Permanecei atentos, para que ninguém vos engane” (Mateus 24:4). Os sinais foram dados para nos manter firmes, e não para alimentar a curiosidade.

O Evangelho a Todas as Nações

O primeiro sinal é positivo. “Este Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mateus 24:14). Quando os discípulos perguntaram se Jesus ia restaurar o reino a Israel naquele tempo, ele mudou o assunto para a tarefa deles: “vós sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia, e Samaria, e até ao último lugar da terra” (Atos 1:8). O tempo entre as duas vindas é o tempo da pregação. E, se a volta parece demorar, Pedro explica: “O Senhor não é tardio em sua promessa (como alguns a consideram tardia); mas ele é paciente para conosco, não querendo que alguns pereçam, mas sim que todos venham ao arrependimento” (2 Pedro 3:9).

Sofrimento e Falsos Cristos

Jesus também falou de guerras, fomes, terremotos, perseguição e falsos profetas. “Se levantarão falsos cristos e falsos profetas; e farão tão grandes sinais e prodígios que, se fosse possível, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24:24). Mas disse que essas coisas são apenas “o começo das dores” e que “ainda não é o fim” (Mateus 24:6-8). Guerras e terremotos acontecem desde o primeiro século. Quem usa cada notícia do jornal para marcar a data da volta de Cristo já errou muitas vezes e vai continuar errando.

A Grande Tribulação

Jesus falou de um tempo de “grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá” (Mateus 24:21). Essa “aflição” é a que chamamos de grande tribulação. Alguns entendem que ela se cumpriu na guerra contra Roma, que terminou com a destruição de Jerusalém no ano 70. Lucas parece apoiar essa leitura: “quando virdes a Jerusalém cercada de exércitos, sabei então, que próxima está sua desolação” (Lucas 21:20). Outros entendem que ela fala de um período futuro de sete anos, a partir da última “semana” de Daniel 9:27. Outros ainda veem as duas coisas: a queda de Jerusalém foi um primeiro cumprimento e uma amostra de uma aflição final, antes do fim.

Eu fico com esta última leitura. Jesus juntou no mesmo sermão o fim do templo e o fim do mundo, como os profetas faziam, olhando dois picos de montanha que, de longe, parecem um só. E a aflição sempre fez parte da vida da Igreja. “No mundo tereis aflição; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33). A multidão vestida de branco do Apocalipse é formada pelos “que vieram da grande tribulação” (Apocalipse 7:14). Os cristãos perseguidos na Nigéria ou na Coreia do Norte não precisam que alguém lhes explique o que é tribulação.

O Anticristo

João é o único autor da Bíblia que usa a palavra “anticristo”. E ele a usa de um jeito que surpreende quem só conhece os filmes sobre o fim do mundo: “como ouvistes que o anticristo vem, já agora muitos anticristos chegaram” (1 João 2:18). Para João, anticristo é todo aquele “que nega que Jesus é o Cristo” (1 João 2:22).

Paulo fala de alguém parecido, sem usar a palavra. Antes do dia do Senhor, “primeiro venha a apostasia, e se manifeste o homem da injustiça, o filho da perdição” (2 Tessalonicenses 2:3). Ele diz que “o mistério da injustiça já opera” e que o Senhor destruirá esse injusto “pelo aparecimento de sua vinda” (2 Tessalonicenses 2:7-8). Alguns Pais da Igreja esperavam um governante perseguidor no fim. Os reformadores, quase todos, viram no papado o “homem da injustiça”, porque o papa tomava para si o lugar de Cristo na Igreja. Armínio pensava assim (Debates públicos, XXI.12). Muitos evangélicos de hoje esperam um líder mundial que vai perseguir a Igreja nos anos finais.

Minha própria visão junta o que João e Paulo dizem. O espírito do anticristo age em toda a história, em todo poder e em todo ensino que se levanta contra Cristo. E é bem possível que ele chegue ao auge numa figura final, que Cristo vai destruir quando voltar. Mas a Bíblia não nos manda descobrir o nome dele nem desconfiar de cada político. Ela nos manda não ser enganados e permanecer em Cristo. Sobre isso, veja também 2 Tessalonicenses 2: Consolo diante do pânico do fim.

Ele Pode Vir a Qualquer Momento?

Se há sinais que precisam acontecer antes, como Jesus pode dizer que virá “na hora que não esperais” (Mateus 24:44)? O Novo Testamento segura as duas coisas. A vinda é sempre próxima: “Fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tiago 5:8). E há coisas que precisam acontecer antes. Mas os sinais que Jesus deu estão presentes de algum modo desde o primeiro século. Por isso nenhuma geração de cristãos pôde dizer: “ainda há tempo, posso esperar”. O que Jesus pede de todos é a mesma coisa:

“Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia o vosso Senhor virá. Porém sabei isto: se o dono de casa soubesse a que hora da noite o ladrão viria, vigiaria, e não deixaria invadir a sua casa. Portanto também vós estai prontos, porque o Filho do homem virá na hora que não esperais.”

(Mateus 24:42-44, Bíblia Livre)

Sobre isso, veja também Parábola das dez virgens: como esperar a volta de Jesus.

O Arrebatamento

Poucos assuntos causam tanta discussão nas igrejas do Brasil quanto o arrebatamento. A palavra traduz o verbo de 1 Tessalonicenses 4:17:

“Pois o mesmo Senhor descerá do céu com grande aclamação, com voz de arcanjo, e com trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro; Em seguida nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar o Senhor no ar, e assim estaremos com o Senhor para sempre.”

(1 Tessalonicenses 4:16-17, Bíblia Livre)

Todos os cristãos que levam a Bíblia a sério creem no arrebatamento. Os crentes vivos serão transformados “em um momento, em um piscar de olhos, à última trombeta” (1 Coríntios 15:52) e se juntarão aos que ressuscitaram. A discussão é sobre quando isso acontece em relação à grande tribulação.

As Posições

  • Antes da tribulação. Cristo vem sem ser visto pelo mundo, tira a igreja da terra e, sete anos depois, volta com ela de modo visível. A ideia foi ensinada nos anos 1830 pelo irlandês John Nelson Darby e se espalhou pela Bíblia de Referência Scofield, de 1909. Paul Enns a defende. Os argumentos são que “Deus não nos destinou para a ira” (1 Tessalonicenses 5:9), que a igreja não aparece na terra nos capítulos 4 a 19 do Apocalipse e que a tribulação seria um tempo de Deus tratar com Israel. No Brasil, é a posição de muitas igrejas pentecostais e batistas.
  • No meio ou antes da ira. Posições menores colocam o arrebatamento no meio dos sete anos, ou um pouco antes dos juízos finais de Deus.
  • Depois da tribulação. A igreja passa pela tribulação e é arrebatada na única volta de Cristo. Esta foi a visão da Igreja antiga e é defendida hoje por estudiosos como George Ladd. Amilenistas e pós-milenistas também creem numa só volta, depois da aflição.
  • Arrebatamento parcial. Só os crentes mais fiéis seriam levados. Essa ideia faz da tribulação uma espécie de purgatório na terra e esquece que é o sangue de Cristo que nos prepara para encontrá-lo. A maioria dos cristãos a rejeita, e com razão.

Avaliando as Posições

O próprio texto de Paulo ajuda a responder. Primeiro, ele não descreve nada de secreto. Há “grande aclamação”, “voz de arcanjo” e “trombeta de Deus”. Jesus usa as mesmas imagens para a sua volta visível: ele “enviará os seus anjos com grande trombeta, e ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos” (Mateus 24:31).

Segundo, a expressão “para encontrar o Senhor” tinha um sentido conhecido. Quando uma autoridade visitava uma cidade, os moradores saíam ao encontro dela na estrada e voltavam com ela para dentro da cidade. Lucas usa a mesma palavra quando os irmãos de Roma “nos saíram ao encontro até a praça de Ápio” (Atos 28:15) para acompanhar Paulo. Na parábola das dez virgens, o grito é: “Eis o noivo! Ide ao seu encontro!” (Mateus 25:6). O arrebatamento é a igreja saindo ao encontro do Rei que chega, para acompanhá-lo na sua vinda.

Terceiro, Paulo fala da “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e à nossa reunião com ele” (2 Tessalonicenses 2:1). A “nossa reunião com ele” é o arrebatamento. E esse dia não virá “sem que primeiro venha a apostasia, e se manifeste o homem da injustiça” (2 Tessalonicenses 2:3). Os crentes de Tessalônica não deviam esperar ser tirados da terra antes disso.

E a ira de Deus? Os crentes não estão destinados a ela. Mas Deus pode guardar o seu povo no meio da aflição, como guardou Israel das pragas do Egito, sem tirá-lo de lá. Jesus orou: “Não suplico que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno” (João 17:15).

Por isso creio que haverá uma só volta de Cristo, depois da aflição, e que o arrebatamento acontece nela. Esse ponto não separa salvos de perdidos, e há irmãos fiéis em todas essas posições. Mas vale uma advertência: quem espera escapar de todo sofrimento pode se assustar quando a perseguição vier. A Igreja deve estar pronta para sofrer por Cristo, se for preciso, e para encontrá-lo, quando ele vier.

O Milênio

Chegamos ao ponto que mais divide os cristãos quando falam do fim. Tudo gira em torno de um texto só:

“E eu vi um anjo descendo do céu, tendo a chave do abismo; e uma grande corrente em sua mão; E ele deteve ao dragão, e à antiga serpente, que é o diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos. E o lançou no abismo, e ali o prendeu, e o selou sobre ele; para que não mais enganasse às nações, até que se completem os mil anos; e depois disto é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo.

E eu vi tronos, e se assentaram sobre eles, e foi concedido a eles o julgamento; e eu vi as almas daqueles que tinham sido degolados por causa do testemunho de Jesus, e por causa da palavra de Deus; e que não tinham adorado à besta, nem à imagem dela; e que não receberam a marca dela sobre suas testas, e sobre suas mãos; e eles viveram e reinaram com Cristo por mil anos. Mas os outros mortos não reviveram, enquanto não se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bendito e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes a segunda morte não tem poder; mas sim, eles serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e com ele reinarão por mil anos.”

(Apocalipse 20:1-6, Bíblia Livre)

Depois dos mil anos, Satanás é solto, engana as nações, cerca “o acampamento dos santos”, é derrotado por fogo do céu e lançado “no lago de fogo e enxofre” (Apocalipse 20:7-10). Em seguida vem o juízo do grande trono branco.

As perguntas são estas. Os mil anos vêm antes ou depois da volta de Cristo? São um período literal ou um número simbólico? O reinado acontece na terra ou no céu? As respostas formam três visões. No Capítulo 41, vimos um resumo de cada uma. Agora vamos ver os argumentos.

Pré-milenismo

O pré-milenismo ensina que Cristo voltará antes do milênio, ressuscitará os crentes e reinará em pessoa sobre a terra por mil anos. No fim, haverá a revolta final, a ressurreição dos incrédulos e o juízo. A visão é antiga. Papias, Justino Mártir e Irineu esperavam um reino de Cristo na terra. Mas a Igreja antiga não era unânime: o próprio Justino reconheceu que muitos cristãos de fé pura e piedosa pensavam de outro modo (Diálogo com Trifão, 80).

Os pré-milenistas têm bons argumentos.

  • A ordem do Apocalipse. O capítulo 19 descreve a volta de Cristo num cavalo branco, e o capítulo 20 vem logo depois. Parece natural ler os mil anos como algo posterior à volta.
  • A palavra “viveram”. Os mártires “viveram” (versículo 4), e os outros mortos não “reviveram” até o fim dos mil anos (versículo 5). No grego, a palavra é a mesma. Se no segundo caso ela fala da ressurreição do corpo, dizem eles, deve falar disso também no primeiro.
  • As profecias do Antigo Testamento. Isaías fala de um tempo em que “o jovem morrerá aos cem anos” (Isaías 65:20). Ainda há morte, mas a vida é muito longa. Isso, dizem eles, descreve um tempo intermediário, e não o estado eterno.

Há duas formas dessa visão. O pré-milenismo histórico, de George Ladd e outros, vê a Igreja como o povo de Deus que continua Israel, crê que ela passará pela tribulação e entende que Cristo já reina hoje no céu. O pré-milenismo dispensacionalista, de Darby, Scofield e Enns, separa Israel e a Igreja, coloca o arrebatamento antes da tribulação e vê no milênio o tempo em que Deus vai cumprir ao pé da letra as promessas feitas a Israel: a terra, o trono de Davi em Jerusalém e até um templo reconstruído. No Brasil, é a visão mais conhecida, ensinada nas Assembleias de Deus e em muitas outras igrejas.

Pós-milenismo

O pós-milenismo ensina que Cristo voltará depois do milênio. Pela pregação do evangelho e pelo poder do Espírito, a maior parte do mundo se converterá, e haverá um longo tempo de paz e justiça. Os mil anos são, em geral, um número simbólico. Foi a visão de muitos puritanos, de Jonathan Edwards e, no século 19, de teólogos como Charles Hodge e B. B. Warfield. Ela se apoia nas parábolas do grão de mostarda e do fermento, que cresce “até que tudo ficasse fermentado” (Mateus 13:31-33), e em promessas como esta: “a terra se encherá de conhecimento da glória do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (Habacuque 2:14).

O pós-milenismo leva a sério o poder do evangelho e deu coragem a gerações de missionários. Mas tem dificuldade com o retrato que o Novo Testamento faz dos últimos tempos. “Nos últimos dias virão tempos difíceis” (2 Timóteo 3:1). “Quando o Filho do homem vier, por acaso ele achará fé na terra?” (Lucas 18:8). Os dias da sua vinda serão como os de Noé, quando as pessoas “comiam, bebiam, se casavam” sem perceber o juízo (Lucas 17:26-27). E o trigo e o joio crescem juntos “até a colheita” (Mateus 13:30). Nada disso descreve um mundo quase todo cristão esperando Jesus.

Amilenismo

O amilenismo ensina que não haverá um reino de mil anos na terra depois da volta de Cristo. Como vimos, o nome engana um pouco, porque o amilenista crê no milênio. Ele entende que os mil anos representam todo o tempo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Agora mesmo, Satanás está amarrado para não impedir a pregação às nações, os crentes que morreram reinam com Cristo no céu, e Cristo governa a sua Igreja na terra. Quando ele voltar, haverá a ressurreição de todos, o juízo final e a nova criação.

Esta visão foi ensinada por Agostinho no livro XX de A Cidade de Deus. Ele conta que, no começo, chegou a esperar um reino futuro dos santos, mas mudou de ideia ao estudar o texto. Desde então, foi a visão da maior parte da Igreja, de Lutero, de Calvino e da Reforma. A Confissão de Augsburgo, de 1530, rejeitou a ideia de que, antes da ressurreição dos mortos, os santos vão tomar o governo do mundo (artigo XVII). Calvino foi duro com os milenistas do seu tempo:

Pouco depois surgiram os quiliastas, que limitaram o reino de Cristo a mil anos. […] O Apocalipse, que eles citam a seu favor, não os apoia, porque o número de mil anos ali não se refere à felicidade eterna da Igreja, mas às várias agitações que a esperavam enquanto ainda luta na terra.

(João Calvino, Institutas, III.25.5, tradução nossa)

Quiliastas vem de chilioi, a palavra grega para “mil”. Os pré-milenistas de hoje não dizem que a vida eterna dura só mil anos, e por isso a crítica de Calvino não atinge todos eles. Mas a leitura que ele faz do Apocalipse é a do amilenismo: os mil anos descrevem a Igreja que ainda luta, e não uma era depois da volta de Cristo. Os amilenistas têm quatro argumentos principais.

O Apocalipse Volta ao Começo Várias Vezes

O Apocalipse é um livro de visões, cheio de figuras. Ninguém pensa que Jesus é de fato um cordeiro com “sete chifres, e sete olhos” (Apocalipse 5:6). E o livro não conta a história numa linha reta. Várias vezes ele volta ao começo e mostra o mesmo tempo de outro ângulo. O capítulo 12, por exemplo, volta ao nascimento de Cristo: “o filho dela foi arrebatado para Deus e para o seu trono” (Apocalipse 12:5). Assim, o capítulo 20 pode voltar ao começo da era da Igreja, em vez de vir depois do capítulo 19.

Há um sinal disso no próprio texto. A batalha final aparece três vezes: os reis são ajuntados “à batalha daquele grande dia do Deus Todo-Poderoso” (Apocalipse 16:14); a besta e os reis se reúnem “para fazerem guerra” contra Cristo (Apocalipse 19:19); e Satanás junta as nações “em batalha” no fim dos mil anos (Apocalipse 20:8). No grego, as três passagens dizem “a batalha”, com o artigo, como de uma batalha já conhecida. Tudo indica que é a mesma batalha final, contada três vezes.

Satanás Já Foi Amarrado

Jesus usou a mesma imagem para falar do seu ministério: “como pode alguém entrar na casa do valente, e saquear seus bens, sem primeiro amarrar ao valente?” (Mateus 12:29). Pouco antes da cruz, disse: “agora será lançado fora o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, trarei todos a mim” (João 12:31-32). Na cruz, Cristo “despojou os domínios e autoridades” (Colossenses 2:15).

Satanás ainda “anda ao redor, rugindo como um leão” (1 Pedro 5:8). Mas o texto diz qual é o limite: ele foi amarrado “para que não mais enganasse às nações”. Antes de Cristo, só Israel conhecia o Deus verdadeiro. Hoje o evangelho é pregado em todas as línguas. Um cão preso numa corrente comprida ainda morde quem chega perto, mas não pode fechar a estrada.

Cristo Já Reina

O reinado de Cristo começou na sua ressurreição e ascensão. No Pentecostes, Pedro disse que Jesus, “tendo sido exaltado à direita de Deus”, foi feito “Senhor e Cristo” (Atos 2:33-36). Deus o colocou “acima de todo governo, autoridade, poder, domínio” (Efésios 1:21). Jesus disse: “eu também venci, e me sentei com meu Pai no trono dele” (Apocalipse 3:21). Armínio descreveu assim esse reinado presente:

A função régia de Cristo é uma função de mediação, pela qual, tendo sido constituído pelo Pai como Senhor sobre todas as coisas que estão no céu e na terra, e, peculiarmente, o Rei e cabeça da sua Igreja, ele governa todas as coisas e a Igreja, para a salvação dela e a glória de Deus.

(Jacó Armínio, Debates privados, XXXVII.2, em As obras de Armínio, vol. 2)

Paulo mostra o tempo desse reinado. Os de Cristo ressuscitam “em sua vinda”. Então vem o fim, “porque convém que ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo, que será aniquilado, é a morte” (1 Coríntios 15:23-26). A morte é vencida na ressurreição, que acontece na volta de Cristo. Portanto, o reinado em que ele vence os seus inimigos acontece antes da sua volta, e não depois.

Um Só Dia para a Ressurreição e o Juízo

Fora de Apocalipse 20, o Novo Testamento sempre junta a volta de Cristo, a ressurreição de todos, o juízo e a nova criação. Todos os que estão nos sepulcros sairão na mesma “hora”, uns para a vida e outros para a condenação (João 5:28-29). Jesus ressuscita os que creem “no último dia” (João 6:40). As ovelhas e os bodes são separados no mesmo julgamento, quando o Filho do homem vier na sua glória (Mateus 25:31-46). O alívio dos crentes e o castigo dos incrédulos acontecem “quando o Senhor Jesus aparecer do céu” (2 Tessalonicenses 1:7-10). E no dia do Senhor “os céus se desfarão com grande estrondo” (2 Pedro 3:10), e esperamos “novos céus e nova terra” (2 Pedro 3:13). Não sobra espaço para mil anos de vida comum na terra entre a volta de Cristo e a nova criação.

A Primeira Ressurreição

E os mártires que “viveram e reinaram com Cristo”? João viu “as almas” deles, a mesma expressão de Apocalipse 6:9, onde ele viu “debaixo do altar as almas dos que foram mortos”. São crentes que morreram e agora estão vivos com Cristo, em tronos. Para o mundo, eles perderam. No céu, eles reinam.

A “primeira ressurreição” pode ser essa entrada na vida com Cristo, ou o novo nascimento, quando o pecador passa da morte para a vida. Jesus falou das duas ressurreições no mesmo discurso: de uma que já acontece, “a hora vem, e agora é, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus” (João 5:25), e de outra, no futuro, quando “todos os que estão nos sepulcros ouvirão sua voz” (João 5:28). O próprio texto de Apocalipse fala de duas mortes, a primeira e a segunda, e pode falar também de duas maneiras de viver. Quanto a Isaías 65:20, o versículo está dentro de uma profecia sobre “novos céus e nova terra” (Isaías 65:17). O profeta usa imagens da vida do seu tempo para descrever uma felicidade que ainda não tinha palavras para descrever.

E Israel?

Muito da discussão depende de outra pergunta: o que acontece com as promessas feitas a Israel? O dispensacionalismo diz que Deus tem dois povos e dois planos, e que as promessas da terra e do trono de Davi serão cumpridas ao pé da letra com o Israel nacional, no milênio.

No Capítulo 38, vimos que Deus tem um só povo, uma só oliveira, na qual judeus e gentios que creem estão enxertados. As promessas a Abraão se cumprem em Cristo, porque “todas as promessas nele são ‘sim’” (2 Coríntios 1:20). E crescem nesse cumprimento. Abraão recebeu “a promessa de ser herdeiro do mundo” (Romanos 4:13), e os mansos “herdarão a terra” (Mateus 5:5). O trono de Davi é o trono em que Cristo já se assentou.

Isso não quer dizer que Deus se esqueceu do povo judeu. “O endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios tenha entrado; e assim, todo o Israel será salvo” (Romanos 11:25-26). Muitos intérpretes, de várias tradições, esperam uma grande conversão de judeus a Cristo antes do fim. Armínio contava “o retorno ou a restauração dos judeus, pela fé” entre os frutos do reinado de Cristo (Debates privados, XXXVII.8). E Wesley comentou:

Israel, portanto, nem é total nem finalmente rejeitado. […] Mas haverá uma colheita ainda maior entre os gentios, quando todo o Israel entrar. […] Na realidade, o Libertador já chegou: mas não o pleno fruto da sua vinda.

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Romanos 11:25-26)

Essa esperança não precisa de um reino de mil anos. Os judeus que se converterem entrarão no mesmo povo e pela mesma porta que os gentios: a fé em Jesus, o Messias.

A Posição Deste Site

Este site é amilenista. Cremos que Cristo reina desde a sua ressurreição e ascensão, que os mil anos de Apocalipse 20 representam o tempo da Igreja e que a sua volta será uma só, visível e gloriosa, depois da aflição. Nesse dia, a Igreja será arrebatada ao seu encontro, todos os mortos ressuscitarão, o mundo será julgado e Deus fará novos céus e nova terra. É a visão de Agostinho e da Reforma, e a que nos parece mais fiel ao conjunto do Novo Testamento. O resumo das três visões está no Capítulo 41.

Muitos irmãos que amamos, entre eles a maior parte dos pentecostais do Brasil, são pré-milenistas. Não fazemos disso uma questão de comunhão. Todos cremos que Jesus vai voltar em pessoa, que os mortos vão ressuscitar e que ele vai julgar o mundo e reinar para sempre.

A Volta de Cristo e a Vida de Hoje

A Bíblia nunca fala da volta de Cristo só para satisfazer a curiosidade. Sempre tira daí uma lição para agora. A primeira é a santidade: “todo aquele que tem nele essa esperança purifica a si mesmo, como também ele é puro” (1 João 3:3). Quem espera uma visita importante arruma a casa.

A segunda é a missão. Na ascensão, os anjos perguntaram aos discípulos: “por que estais olhando para o céu?” (Atos 1:11). Eles tinham trabalho a fazer. A Igreja não espera Jesus de braços cruzados. Pedro diz que vivemos “esperando, e tendo pressa para a vinda do dia de Deus” (2 Pedro 3:12).

A terceira é a paciência. “Sede pacientes até a vinda do Senhor. Eis que o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência” (Tiago 5:7). O agricultor do sertão não vê a chuva chegando, mas prepara a terra porque confia que ela vem. E, quando as coisas ficarem mais difíceis, Jesus manda olhar para cima: “levantai vossas cabeças, porque vosso resgate está perto” (Lucas 21:28).

Por fim, a volta de Cristo não deve produzir pânico nem especulação. Ninguém precisa decifrar notícias, códigos de barra ou chips para saber se Jesus está perto. Ele está perto, e isso basta. Quem é de Cristo vive esperando o próprio Cristo, e não o anticristo.

Conclusão

Jesus vai voltar. A Bíblia chama esse dia de vinda, aparecimento e revelação. Ele virá em pessoa, de modo visível e glorioso, para buscar os seus, ressuscitar os mortos, julgar o mundo e vencer o último inimigo.

Antes disso, o evangelho será pregado a todas as nações, e a Igreja vai conhecer aflição, falsos profetas e o espírito do anticristo, que já está no mundo. Os cristãos discordam sobre o momento do arrebatamento e sobre os mil anos de Apocalipse 20. Os pré-milenistas esperam um reino de Cristo na terra depois da sua volta. Os pós-milenistas esperam um mundo cristianizado antes dela. Os amilenistas, como nós, creem que os mil anos são o tempo da Igreja, em que Cristo já reina e Satanás está amarrado para não impedir a pregação.

O mais importante é o que todos confessamos juntos. O Rei que hoje está escondido aos olhos do mundo vai aparecer, e todo olho o verá. Até lá, vigiamos, servimos, pregamos e oramos com a Igreja de todos os tempos: “Amém! Sim, vem, Senhor Jesus!” (Apocalipse 22:20).

No próximo capítulo, veremos o que acontece quando ele vier: a ressurreição dos mortos, o juízo final e o estado eterno.

Fontes

  • Agostinho. A Cidade de Deus, livro XX.
  • Armínio, Jacó. Debates privados, XXXVII. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Armínio, Jacó. Debates públicos, XXI. Em As obras de Armínio, vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. II.16.17; III.25.5.
  • Confissão de Augsburgo (1530), artigo XVII.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008. Cap. 26.
  • Justino Mártir. Diálogo com Trifão, 80.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, notas a Romanos 11:25-26.

Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas. Capítulo anterior: Capítulo 42: A morte e o estado intermediário. Próximo capítulo: Capítulo 44: Ressurreição, juízo final e estado eterno.

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