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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana19 de 30

Lição 19: Os decretos de Deus, a presciência e a predestinação

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 2

Diego Gonçalves25 min de leitura4.993 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.

Objetivos da lição

  • Definir decreto, presciência, predestinação, eleição e reprovação e explicar as distinções clássicas sobre a vontade e o conhecimento de Deus.
  • Reunir o testemunho bíblico sobre o propósito eterno de Deus em Cristo e sobre a sua vontade de que todos sejam salvos.
  • Acompanhar a história da doutrina, de Agostinho ao Sínodo de Dort, com atenção ao supralapsarismo, ao infralapsarismo e ao conhecimento médio.
  • Expor os quatro decretos de Armínio e a sua recepção em Wesley e na teologia wesleyana.
  • Explicar por que a teologia arminiana clássica não adota nenhum dos dois esquemas reformados e tirar as consequências pastorais da doutrina.

Introdução

Em muitas casas brasileiras, o almoço de domingo começa muito antes de alguém chegar. Na véspera a carne já está temperada, de manhã a toalha boa sai do armário e, quando o primeiro parente toca a campainha, a mesa já está posta. Quem chega não preparou nada: encontra pronto o que outro decidiu, comprou e cozinhou. A pergunta desta lição é a mesma que um convidado poderia fazer diante daquela mesa: para quem ela foi posta? A teologia chama de decretos o propósito eterno com que Deus preparou a salvação antes da fundação do mundo, e a discussão sobre a ordem e o alcance desses decretos dividiu, desde o século XVI, irmãos que confessam o mesmo Credo.

O assunto não interessa apenas aos especialistas. Muitos crentes já se perguntaram se estão entre os eleitos. A doutrina dos decretos decide se o convite do evangelho é sincero, se Deus pode ser chamado de autor do pecado e onde o crente deve procurar a certeza da salvação. Neste sentido, Armínio podia dizer que a predestinação, corretamente entendida, é “o fundamento do cristianismo, da salvação e da sua certeza” (Declaração de Sentimentos, I, 5).

A lição pertence à doutrina do Pai, e não à da salvação, porque a controvérsia é, antes de tudo, sobre o caráter de Deus; foi o lugar que lhe deram os escolásticos reformados, e Randy Maddox expõe Wesley da mesma maneira (Responsible Grace, cap. 2). Na lição 17 deixamos para cá a relação entre a presciência e a eleição, e na lição 18 lembramos que o primeiro decreto de Armínio é a designação do Filho como Mediador. A eleição condicional em Cristo, com a exegese de Romanos 9, terá lição própria (lição 37), assim como a providência (lições 20 e 21) e a graça preveniente (lição 36).

1. Os termos e as distinções

1.1 Decreto, presciência e predestinação

Um decreto de Deus é o propósito eterno pelo qual ele determina o que fará e o que permitirá na criação, na providência e na redenção. O latim decretum traduz o hebraico ʿēṣâ, “conselho”, e os gregos boulē, “conselho”, e prothesis, “propósito”, palavra que Paulo emprega para a decisão primordial de Deus em Romanos 8:28 e Efésios 1:11 (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, art. “Presciência”). Armínio ensinou que os decretos são atos internos, “realizados pelo livre-arbítrio de Deus, sem nenhuma necessidade absoluta”, e que “um decreto, por si mesmo, não impõe nenhuma necessidade de alguma coisa ou evento” (Artigos que devem ser diligentemente examinados, “Sobre o decreto de Deus”, 1 e 5, em As obras de Armínio, vol. 2).

A presciência (prognōsis, verbo proginōskō, “conhecer de antemão”) é o conhecimento que Deus tem do futuro. A predestinação (proorizō, de horizō, “delimitar”, palavra que nos deu “horizonte”) é a determinação prévia de um destino, e nas suas seis ocorrências no Novo Testamento o destino é a cruz (Atos 4:28), a conformidade com o Filho (Romanos 8:29-30), a glória (1 Coríntios 2:7), a adoção (Efésios 1:5) e a herança (Efésios 1:11). A eleição (eklogē) é a escolha de pessoas ou de um povo, e a reprovação, o decreto acerca dos que não serão salvos, que os reformados entendem como preterição, o ato de “passar por alto” alguns. Para a tradição reformada, a eleição é incondicional, e a presciência é o próprio amor eletivo de Deus; para a tradição arminiana, a eleição é condicional e em Cristo, e a presciência é o conhecimento certo daqueles que, pela graça, haveriam de crer.

1.2 A vontade e o conhecimento de Deus

A vontade de Deus é uma só, mas a teologia a distingue segundo os seus objetos (Armínio, Debates privados, XIX). A vontade de beneplácito, ou decretiva, é aquilo que Deus decide fazer ou permitir; a vontade de sinal, ou preceptiva, é aquilo que ele nos manda fazer. A vontade antecedente quer alguma coisa antes de considerar o ato da criatura, como quando Deus “quer que todas as pessoas se salvem” (1 Timóteo 2:4); a vontade consequente quer alguma coisa depois de considerá-lo, como no “ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído!” (Mateus 26:24). A distinção, que vem de João Damasceno, permite dizer sem contradição que Deus quer a salvação de todos e condena os que rejeitam a sua graça.

O conhecimento de Deus é um só ato eterno, mas os escolásticos distinguiram nele três “momentos” lógicos. O conhecimento natural, ou de simples inteligência, abrange tudo o que é possível; o conhecimento livre, ou de visão, abrange tudo o que de fato existiu, existe e existirá, e a ele se reserva o nome de presciência. Entre os dois, Luis de Molina pôs o conhecimento médio (scientia media): o que cada criatura livre faria em qualquer circunstância. Armínio registrou a distinção: o conhecimento intermediário “é aquele pelo qual Ele sabe que ‘se isso acontecer, aquilo ocorrerá’”, e deve “intervir em coisas que dependem da liberdade de uma vontade criada” (Disputas públicas, IV, 43 e 45, em As obras de Armínio, vol. 1).

1.3 Supralapsarismo e infralapsarismo

Os termos vêm do latim lapsus, “queda”. No interior da teologia reformada, que afirma a eleição e a reprovação incondicionais, discutiu-se o lugar do decreto de eleger na ordem lógica dos decretos. Para o supralapsarismo, associado a Teodoro Beza, Deus decreta primeiro eleger uns e reprovar outros e só depois, como meios para executar esse decreto, criar e permitir a queda. Para o infralapsarismo, Deus decreta criar, permitir a queda e então eleger alguns dentre a massa caída, deixando os demais na condenação merecida (Alister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 14). O debate é interno à tradição reformada, e para nós importa o que os dois lados têm em comum: a eleição de indivíduos é incondicional, e a fé é consequência dela, e não condição.

2. A fundamentação bíblica

2.1 O propósito eterno de Deus

O Senhor declara “o fim desde o princípio” e diz: “Minha intenção será firme, e farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10). O exemplo maior é a cruz: Jesus foi entregue “pelo determinado conselho e conhecimento prévio de Deus” e, ao mesmo tempo, crucificado “pelas mãos de injustos” (Atos 2:23). O mesmo texto que afirma o decreto afirma a culpa dos que o executaram. Por outro lado, os fariseus “rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos” (Lucas 7:30), com a mesma palavra boulē de Atos 2:23, e Jesus lamentou sobre Jerusalém: “Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos […]; porém não quisestes!” (Mateus 23:37). O conselho de Deus que oferece a salvação pode ser recusado.

2.2 Eleitos em Cristo

Bendito seja o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor. E nos predestinou como filhos adotados por meio de Jesus Cristo para si mesmo, conforme o bom prazer de sua vontade; para louvor da glória de sua graça, a qual nos concedeu gratuitamente no Amado.

Efésios 1:3-6

A expressão que organiza o texto é “em Cristo”, “nele”, “no Amado”. A eleição não acontece fora do Filho, como se Deus escolhesse primeiro os indivíduos e depois lhes providenciasse um Salvador; acontece nele, o Eleito, que “já era conhecido desde antes da fundação do mundo” (1 Pedro 1:20). O fim da predestinação é a santidade, a adoção e o louvor da graça, e a sua causa é o “bom prazer” de Deus, e não algum mérito nosso. Nisso arminianos e calvinistas concordam. A divergência está em saber se o “nos” designa um número fixo de pessoas escolhidas incondicionalmente ou o povo de Deus, ao qual cada pessoa se une pela fé que a própria graça torna possível; Paulo dirá que os efésios foram selados com o Espírito “depois que ouvistes a palavra da verdade […] e nele crestes” (Efésios 1:13).

2.3 A presciência e a predestinação

E sabemos que todas as coisas juntamente contribuem para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo o seu propósito. Pois aos que desde antes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Romanos 8:28-30

A “corrente de ouro” começa na presciência, e Pedro chama os crentes de “escolhidos segundo o pré-conhecimento de Deus Pai” (1 Pedro 1:2). A leitura reformada entende o “conhecer de antemão” como amor eletivo, e o Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento ressalta que o verbo assume, em Paulo, “o aspecto de um relacionamento pessoal” que tem origem em Deus. A tradição arminiana não precisa negar esse matiz, porque “o Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2:19); nega que esse conhecimento seja a causa da fé. Armínio ensinava que Deus “conhece as coisas futuras, porque são futuras”, e não que elas existam porque ele as conhece (Disputas públicas, IV, 44). Wesley observou que Paulo não afirma que exatamente o mesmo número de pessoas seja chamado, justificado e glorificado, mas o método pelo qual Deus conduz os seus até o céu (Notas explicativas sobre Romanos, 8:30).

2.4 A vontade de que todos sejam salvos e os futuros condicionais

Deus “quer que todas as pessoas se salvem”, e Cristo “se deu como resgate por todos” (1 Timóteo 2:4-6); Deus não tem prazer “na morte do perverso, mas sim em que o perverso se converta de seu caminho, e viva” (Ezequiel 33:11), e é paciente, “não querendo que alguns pereçam, mas sim que todos venham ao arrependimento” (2 Pedro 3:9). A leitura reformada costuma entender “todos” como “pessoas de toda espécie” ou atribuir esses textos à vontade preceptiva; a leitura arminiana os toma como expressão da vontade antecedente de Deus, real e sincera, que se torna efetiva na graça preveniente.

A Escritura atribui a Deus também o conhecimento do que aconteceria em circunstâncias que não se realizaram. Consultado por Davi, o Senhor respondeu que Saul desceria a Queila e que os moradores da cidade o entregariam; Davi saiu, e Saul “deixou de sair” (1 Samuel 23:10-13). Jesus disse que Tiro e Sidom, se tivessem visto os milagres de Corazim e Betsaida, “há muito tempo teriam se arrependido” (Mateus 11:21). Deus conhece, portanto, os futuros condicionais; como os conhece é a questão do conhecimento médio.

3. Desenvolvimento histórico

3.1 De Agostinho à Reforma

Antes de Agostinho, os Pais ligavam a predestinação à presciência da fé, e Armínio argumentou que nenhum doutor ortodoxo dos primeiros seiscentos anos ensinou a predestinação absoluta (Declaração, I, 3, IV). Agostinho, contra Pelágio, ensinou em A predestinação dos santos (c. 429) que Deus escolhe gratuitamente, dentre a massa condenada, os que serão salvos e lhes dá a fé e a perseverança. A igreja recebeu dele a primazia da graça, mas não tudo o que se deduzia dela: o Concílio de Orange (529) afirmou que até o início da fé é dom da graça e anatematizou quem crê que alguns sejam predestinados ao mal pelo poder divino. No século IX, o sínodo de Quierzy (853) respondeu à dupla predestinação de Gottschalk de Orbais afirmando que Deus quer que todos sejam salvos.

Calvino definiu a predestinação como “o eterno decreto de Deus, pelo qual ele determinou o que desejava fazer de cada pessoa”, destinando uns à vida eterna e outros à condenação (Institutas, III, 21, 5), e confessou que o decreto era horribile, palavra que a sua tradução francesa verteu como “deve nos causar temor” (III, 23, 7). Teodoro Beza, na Tabula praedestinationis (1555), organizou a teologia a partir dos decretos e deu forma ao supralapsarismo; McGrath descreve a passagem de uma abordagem “analítica e indutiva”, que parte de Jesus Cristo, para uma abordagem “sintética e dedutiva”, que parte do decreto (cap. 14). Francisco Gomaro o ensinava em Leiden quando Armínio chegou à universidade.

3.2 Armínio

No Debate amistoso com Francisco Júnio (1597), Armínio argumentou que a eleição se faz “em Cristo, como o Mediador entre Deus e os homens pecadores”, e que, portanto, os eleitos são considerados por Deus como pecadores, porque “aqueles que não são pecadores não precisam de um Reconciliador e Redentor” (réplica à 11ª proposição, em As obras de Armínio, vol. 3). O argumento atinge o supralapsarismo no ponto central, e Armínio o fez sem conceder nada à capacidade humana: “A graça reivindica para si mesma, tudo, na geração; mas reivindica, ainda mais veementemente, tudo na regeneração” (réplica à 12ª proposição).

A exposição mais conhecida está na Declaração de Sentimentos (1608). Armínio descreveu um esquema supralapsário e dois infralapsários e concluiu que os últimos, embora pretendam evitar que Deus apareça como autor do pecado, caem “no mesmo inconveniente” que o primeiro, porque também fazem da queda um meio necessário para executar o decreto (I, 4). Em seguida, declarou a sua opinião:

I. O primeiro decreto absoluto de Deus concernente à salvação do homem pecador é aquele pelo qual ele decretou designar seu Filho, Jesus Cristo, como Mediador, Redentor, Salvador, Sacerdote e Rei […].

II. O segundo decreto preciso e absoluto de Deus é aquele em que ele decretou receber em seu favor os que se arrependem e creem e, em Cristo, por amor dele e por meio dele, efetuar a salvação desses penitentes e crentes que perseverassem até o fim; mas deixar no pecado e sob a ira todos os impenitentes e incrédulos […].

III. O terceiro decreto divino é aquele pelo qual Deus decretou administrar de maneira suficiente e eficaz os meios que eram necessários para o arrependimento e a fé […].

IV. A estes sucede o quarto decreto, pelo qual Deus decretou salvar e condenar certas pessoas em particular. Este decreto tem o seu fundamento na presciência de Deus, pela qual ele conheceu desde toda a eternidade os indivíduos que, mediante a sua graça preveniente, haveriam de crer e, mediante a sua graça subsequente, haveriam de perseverar […].

Declaração de Sentimentos, I, 5

A ordem é deliberada. Cristo vem primeiro, não como executor de uma escolha feita antes dele, mas como fundamento de toda a predestinação. Somente o quarto decreto diz respeito às pessoas em particular, e até a fé prevista nele é obra da graça. Nos Debates privados, Armínio chamou essa predestinação de “evangélica” e explicou que a graça que a motiva “exclui toda causa que possa ser imaginada como capaz de ter se originado do homem”; Cristo é “a fundação dessa predestinação”, e não apenas o executor de um decreto anterior (XL, 3-4).

3.3 Molina, a Remonstrância e Dort

Em 1588, Molina publicou a Concordia, em que o conhecimento médio permitia a Deus escolher as circunstâncias em que os seus propósitos se cumprem sem forçar ninguém. Armínio usou a categoria, e os estudiosos discordam sobre o peso disso: Richard Muller o considera, nesse ponto, um molinista; outros julgam que ele diverge de Molina. Abner Hernández o chama de “mais biblicista do que molinista” e mostra a diferença decisiva: Molina pensava numa vontade enfraquecida, que a graça auxilia, e Armínio, numa vontade perdida para o verdadeiro bem, que a graça preveniente liberta (The Doctrine of Prevenient Grace).

Os seguidores de Armínio resumiram a doutrina no primeiro artigo da Remonstrância (1610): Deus, “por um decreto eterno e imutável, em Jesus Cristo”, determinou, “dentre o gênero humano caído no pecado”, salvar em Cristo os que, “pela graça do Espírito Santo”, haveriam de crer e perseverar. O Sínodo de Dort (1618-1619) definiu a eleição como escolha incondicional de um número certo de pessoas dentre o gênero humano caído, com a reprovação como preterição (Cânones de Dort, I, 7 e 15). A fórmula é infralapsária moderada, mas o sínodo não condenou o supralapsarismo de Gomaro. A Confissão de Westminster (1647) ensinou que Deus ordenou tudo quanto acontece, porém “de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura” (III, 1).

3.4 Wesley e a teologia wesleyana

Wesley pregou A graça livre (1739) contra a predestinação incondicional: se ela é verdadeira, “toda a pregação é vã”, e a doutrina tende a destruir a santidade, o conforto da religião e o zelo pelas boas obras (§§ 10-25, em Coletânea da teologia de João Wesley). Em A predestinação calmamente considerada (1752), distinguiu a eleição de pessoas para uma obra especial, como Ciro e os doze, que não garante a salvação, já que Judas também foi escolhido, e a eleição para a felicidade eterna, que é condicional e cujo decreto está expresso na promessa de Marcos 16:16, decreto que “Deus não pode mudar e o homem não pode resistir” (§§ 16-17). Na disposição do estado eterno das pessoas, “não somente a soberania, mas a justiça, a misericórdia e a verdade mantêm as rédeas” (§§ 50-54).

Maddox mostra que a objeção mais característica de Wesley era a incompatibilidade da predestinação incondicional com a natureza de Deus, com a imparcialidade da sua justiça, a sinceridade dos seus convites e, sobretudo, o seu amor universal: os calvinistas pensavam Deus a partir do modelo do monarca soberano, e Wesley, a partir do pai amoroso (cap. 2). Por isso Wesley retirou dos Artigos de Religião metodistas (1784) o artigo XVII da Igreja da Inglaterra, sobre a predestinação, e leu as menções bíblicas aos decretos como “representação popular” do conhecimento infalível e da sabedoria imutável de Deus (Notas explicativas sobre Romanos, 8:29). Richard Watson distinguiu a eleição para um serviço, a eleição de nações para privilégios religiosos e a eleição pessoal para a vida eterna, que é condicional (Theological Institutes), e H. Orton Wiley definiu a predestinação como o propósito gracioso de Deus de salvar a humanidade da ruína, propósito que abrange provisoriamente todos e está condicionado somente à fé em Cristo (Christian Theology, vol. 2).

3.5 O século XX e o Brasil

Karl Barth refez a doutrina a partir de Cristo, o Deus que elege e o ser humano eleito, e também o único verdadeiramente rejeitado (Stanley Grenz e Roger Olson, A teologia do século 20, cap. 3). Carl Bangs notou que Barth “redescobriu” um ponto de Armínio, Cristo como fundamento do decreto (Manual de teologia arminiana, cap. 6); em Barth, porém, a eleição de todos em Cristo resvala no universalismo, e em Armínio ela se torna pessoal pela fé. Emil Brunner chegou a uma fórmula que um arminiano pode assinar: “Crer em Jesus Cristo e ser um dos eleitos é a mesma coisa” (Grenz e Olson, cap. 3). No fim do século o molinismo voltou com William Lane Craig.

No Brasil, a maior parte das igrejas evangélicas, das Assembleias de Deus aos metodistas e nazarenos, é arminiana na prática. A tradução das Obras de Armínio pela CPAD (2015) e o Manual de teologia arminiana de Flávyo Henrique Costa Santos (2021) começaram a mudar esse quadro, e o Manual adverte que a eleição, em Armínio, é mais que uma “mera expectativa” de Deus diante das decisões humanas (cap. 6). Na literatura pentecostal aparece às vezes a ideia de que o infralapsarismo é a posição arminiana (Walter Brunelli, Teologia para pentecostais, vol. 3, apresentação), mas os dois termos pertencem ao debate entre reformados.

4. A posição arminiana clássica e wesleyana

4.1 Afirmações

Em primeiro lugar, Deus tem um propósito eterno, sábio e imutável, e nada acontece fora do seu conhecimento e do seu governo. Em segundo lugar, os decretos são livres e não impõem necessidade às coisas: Deus decreta fazer o bem e permitir o mal, e não é autor do pecado. Em terceiro lugar, o primeiro decreto da salvação é a designação de Cristo como Mediador, e a predestinação é cristocêntrica desde a raiz. Em quarto lugar, o decreto de salvar os que creem e de condenar os incrédulos é peremptório e imutável, e não há reprovação incondicional. Em quinto lugar, Deus decretou dar a todos os meios suficientes da graça, e a graça preveniente alcança todas as pessoas. Por fim, a eleição de pessoas em particular repousa sobre a presciência de quem, pela graça, creria e perseveraria; a fé prevista não é causa meritória da eleição, mas a condição, possibilitada pela graça, pela qual a pessoa recebe a salvação preparada em Cristo. O que Deus sabe que acontecerá acontecerá certamente, mas não necessariamente (Watson; Wiley).

4.2 A ordem dos decretos comparada

A ordem é lógica, e não temporal (o quadro segue, com ajustes, o do Manual de teologia arminiana, cap. 6):

SupralapsarismoInfralapsarismoAmiraldismoArminianismo
1eleger alguns e reprovar os demaiscriarcriarcriar
2criarpermitir a quedapermitir a quedapermitir a queda
3permitir a quedaeleger alguns e preterir os demaisprover em Cristo salvação suficiente para todosdesignar Cristo Redentor e decretar salvar os que creem
4prover a salvação para os eleitosprover a salvação para os eleitoseleger alguns para a graça eficazdar a todos os meios suficientes e eleger os que, pela graça, creriam

O amiraldismo, de Moisés Amyraut, põe como nós a provisão universal antes da eleição, e o infralapsarismo considera como nós o ser humano caído; ambos, porém, mantêm a eleição incondicional.

4.3 Por que nem supra nem infra

A recusa arminiana não nasce de otimismo sobre a natureza humana, e sim de quatro razões teológicas. A primeira é cristológica: nos dois esquemas, a escolha dos indivíduos precede logicamente a designação do Mediador, e Cristo se torna o meio de executar um decreto feito sem ele, quando a Escritura diz que fomos escolhidos “nele”. A segunda diz respeito ao caráter de Deus: Armínio julgava a doutrina repugnante à sabedoria, à justiça e à bondade divinas, porque apresenta Deus querendo condenar e, para isso, querendo criar, “embora a criação seja o primeiro egresso [ou saída] da bondade de Deus para com as suas criaturas” (Declaração, I, 3, VII). A terceira diz respeito ao pecado: se a queda é meio necessário para executar o decreto, fica difícil negar que Deus seja a sua causa (I, 4). A quarta é pastoral: o evangelho manda pregar a todos, e uma reprovação incondicional faz do convite, para muitos, uma oferta que Deus nunca quis que fosse aceita.

Os irmãos reformados, segundo a sua própria autocompreensão, não pretendem fazer de Deus autor do pecado, afirmam com Westminster que o decreto estabelece as causas segundas e a responsabilidade humana e veem na eleição incondicional a garantia de que a salvação é toda de Deus. A preocupação é legítima, e nós a partilhamos. A divergência fica marcada como divergência: cremos que a salvação é toda de Deus, do começo ao fim, sem que a graça seja irresistível nem restrita aos eleitos, porque a fé que recebe o dom nada acrescenta a ele, como a mão do mendigo nada acrescenta ao pão que lhe é dado.

Vincent Cheung, que este curso usa apenas como contraste, mostra até onde o supralapsarismo pode ir: para ele, é “a posição bíblica”, e o fato de Deus decretar eventos maus “somente quer dizer que é direito seu assim agir” (Teologia sistemática, caps. 3 e 4). Charles Finney erra pelo lado oposto: funda a eleição no “melhor sistema de meios” para o bem do universo e supõe que Deus previu “quantos e quem Ele poderia salvar através do melhor arranjo possível” (Teologia sistemática, aula 30). Como Finney atenua a depravação, a eleição se torna o cálculo de quem seria persuadido. Nem o determinismo de Cheung nem o moralismo de Finney representam a posição deste curso.

4.4 O conhecimento médio

Aceitamos que Deus conhece os futuros condicionais, porque a Escritura o afirma, e reconhecemos que Armínio usou a categoria do conhecimento médio. Não adotamos, porém, o molinismo como sistema, por duas razões. A primeira é que, no molinismo, Deus escolhe o mundo a ser criado sabendo quem nele creria e pode, pela escolha das circunstâncias, determinar quem será salvo; o resultado se aproxima de uma eleição incondicional por outro caminho, e por isso Roger Olson e Robert Picirilli o julgam incompatível com o arminianismo clássico. A segunda é que a graça de Molina auxilia uma vontade enfraquecida, ao passo que a graça preveniente de Armínio e de Wesley liberta uma vontade cativa. O molinismo é um interlocutor respeitável, mas não é a posição deste curso.

4.5 Outras tradições

A tradição católica, depois da controvérsia De auxiliis, admite tanto a escola tomista quanto a molinista. A tradição luterana, na Fórmula de Concórdia (1577), afirma a eleição gratuita dos filhos de Deus sem uma reprovação correspondente. Entre os batistas brasileiros, A. B. Langston ensinava que o predestinado é o êxito da obra de Deus, e não os atos das pessoas (Esboço de teologia sistemática, 2.9), ênfase que, para nós, precisa ser completada pela graça que liberta a vontade.

5. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, a certeza da salvação está em Cristo. Quem está em Cristo pela fé está entre os eleitos, e a certeza vem do testemunho do Espírito (lição 40), sem que precisemos espiar decretos ocultos. Em segundo lugar, a pregação pode ser oferecida a todos com sinceridade: se Deus “quer que todas as pessoas se salvem”, podemos dizer a qualquer pessoa, nas periferias, nas aldeias e nos presídios, que Cristo morreu por ela. Em terceiro lugar, a doutrina nos ensina humildade. Armínio desejava que ninguém avançasse além do ponto em que os juízos de Deus “foram claramente revelados nas Escrituras” (Declaração, I, 5), e Moisés já dizia que “as coisas secretas pertencem ao SENHOR nosso Deus: mas as reveladas são para nós e para nossos filhos para sempre” (Deuteronômio 29:29). Por fim, a doutrina nos chama à santidade, porque fomos escolhidos em Cristo “para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4).

Voltemos à mesa do domingo. Quem chega não preparou nada e encontra tudo pronto; não tem do que se gloriar, e ninguém pensaria que o convidado, por ter aceitado o convite, cozinhou o almoço. Assim é a salvação: o Pai a decretou em Cristo, o Filho a realizou na cruz, e o Espírito nos convida e nos dá a capacidade de vir. O servo da parábola foi enviado com uma só mensagem: “Vinde, que tudo já está preparado” (Lucas 14:17). Senhor, ensina-nos a descansar no teu propósito eterno em Cristo e a anunciá-lo a todos, porque a tua mesa foi posta para o mundo inteiro.

Síntese

  1. Os decretos de Deus são o seu propósito eterno, livre e imutável; eles não impõem necessidade às coisas, e Deus não é autor do pecado.
  2. A presciência de Deus é exaustiva e certa, inclusive quanto às decisões livres e aos futuros condicionais, mas não é causa do que conhece.
  3. A predestinação é cristocêntrica: o primeiro decreto é a designação de Cristo como Mediador, e a eleição se dá nele.
  4. Armínio expôs quatro decretos: Cristo como Redentor, a salvação dos que creem e perseveram, a administração dos meios suficientes da graça e a eleição de pessoas segundo a presciência de quem, pela graça, creria e perseveraria.
  5. A teologia arminiana não adota o supralapsarismo nem o infralapsarismo, porque ambos fazem a eleição incondicional e tornam Cristo executor de um decreto anterior; também não adota o molinismo como sistema.
  6. Wesley e a teologia wesleyana leram a predestinação a partir do amor universal de Deus, e a certeza da eleição se encontra em Cristo, pela fé e pelo testemunho do Espírito.

Questões para revisão

  1. Defina decreto, presciência, predestinação, eleição e reprovação, e explique a distinção entre vontade antecedente e consequente.
  2. Quais são os três “momentos” do conhecimento divino, e o que 1 Samuel 23:10-13 e Mateus 11:21 ensinam sobre o conhecimento de Deus?
  3. Qual é a diferença entre o supralapsarismo e o infralapsarismo, e o que os dois têm em comum?
  4. Enuncie os quatro decretos de Armínio e explique por que Cristo ocupa o primeiro lugar.
  5. Por que Armínio afirmava que os esquemas infralapsários caem “no mesmo inconveniente” que o supralapsário?
  6. Como Wesley distinguiu os sentidos da eleição, e por que retirou o artigo XVII dos Artigos de Religião metodistas?
  7. Por que a teologia arminiana clássica reconhece o conhecimento dos futuros condicionais, mas não adota o molinismo como sistema?

Bibliografia

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  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Declaração de Sentimentos; Disputas públicas IV; Debates privados XIX e XL; Artigos que devem ser diligentemente examinados; Debate amistoso com Francisco Júnio).
  • ARMÍNIO, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608). Tradução completa. Diário do Diego, 2026.
  • A Remonstrância (1610). Tradução e notas. Diário do Diego, 2026.
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel.
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  • Cânones de Dort (1619); Confissão de Fé de Westminster (1647).
  • Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova (art. “Presciência”).
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  • Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 18: A Trindade. Próxima: Lição 20: A obra de Deus: criação e providência.

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