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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana16 de 30

Lição 16: Os atributos de Deus: grandeza e bondade

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 2

Diego Gonçalves25 min de leitura4.977 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.

Objetivos da lição

  • Definir o que a teologia chama de atributos ou perfeições de Deus e explicar a doutrina da simplicidade divina.
  • Apresentar as classificações dos atributos, com destaque para a divisão de H. Orton Wiley em atributos absolutos, relativos e morais.
  • Examinar a fundamentação bíblica da grandeza e da bondade de Deus, de Êxodo 34 à primeira carta de João.
  • Estudar a santidade e o amor como centro da natureza moral de Deus, segundo Armínio, Wesley e a teologia wesleyana posterior.
  • Comparar a posição wesleyana com outras tradições e com Charles Finney e Vincent Cheung.

Introdução

Em muitas famílias brasileiras houve um avô pedreiro cujas mãos, grossas de cal e de cimento, levantavam paredes ao longo da semana e, no domingo à tarde, seguravam com cuidado o neto recém-nascido. Quem só conhecia a obra temia aquelas mãos; quem só as via no colo do bebê não imaginava o peso que carregavam. Para conhecer o avô era necessário saber as duas coisas, e saber também que a força e a ternura eram de um homem só.

A doutrina dos atributos de Deus lida com uma dificuldade semelhante, porque a imaginação religiosa costuma separar o que a Escritura mantém unido e oscila entre duas caricaturas. Numa delas, Deus é um monarca cósmico, todo-poderoso e distante, que pouco se importa com as dores miúdas da vida; na outra, é um avô bonachão, cheio de boas intenções, porém incapaz de intervir contra a violência e a injustiça do mundo. A primeira guarda a grandeza e perde a bondade; a segunda guarda uma bondade sentimental e perde a grandeza, e com ela a própria bondade, porque um amor sem poder não salva ninguém.

Na lição 15 estudamos a existência de Deus, a sua cognoscibilidade e os seus nomes, e vimos que o nome proclamado a Moisés é uma descrição de caráter: “SENHOR, SENHOR, forte, misericordioso, e piedoso” (Êxodo 34:6). Esta lição desenvolve esse caráter, conservando da versão anterior do texto a recusa das duas caricaturas e o encontro da grandeza e da bondade de Deus na cruz. A transcendência, a imanência e a presciência ficam para a lição 17; a Trindade, para a lição 18; os decretos, para a lição 19.

1. Os termos

1.1 Atributo e perfeição

O latim attributum designa o que se atribui a um sujeito, e a teologia chama de atributos de Deus as qualidades pelas quais ele se dá a conhecer. Muitos preferem falar de perfeições, para evitar a impressão de acessórios acrescentados a Deus de fora, e Wesley usa as duas palavras como sinônimos: “nós geralmente chamamos estas perfeições de atributos de Deus” (A unidade do ser divino, 1789, em Coletânea da teologia de João Wesley, cap. 2). A. B. Langston resume a função deles numa fórmula feliz: “os elementos componentes constituem o ser; os atributos revelam o ser” (Esboço de teologia sistemática, 2.2).

1.2 A simplicidade divina

A tradição acrescenta uma advertência. Deus não é composto de partes, e os seus atributos não são porções dele, como se uma parte de Deus fosse justa e outra misericordiosa: essa é a doutrina da simplicidade (simplicitas). Agostinho a resumiu dizendo que Deus é chamado simples porque “é o que tem” (A cidade de Deus, XI, 10): o ser humano tem sabedoria e pode perdê-la, ao passo que Deus é a sua sabedoria.

Armínio adota a doutrina nos debates privados que dedicou à natureza de Deus. À essência divina não se pode acrescentar nenhum atributo “diferente dela em realidade”, mas apenas um modo de eminência, pelo qual ela “engloba e excede todas as perfeições de todas as coisas”; por conseguinte, ela é “simples e infinita”, e por isso eterna, incomensurável e imutável (As obras de Armínio, vol. 2, Debates privados, XV, 6-7). Distinguimos os atributos, portanto, segundo a capacidade limitada da nossa mente. Wesley tira daí uma consequência que reencontraremos adiante: os atributos de Deus “são inseparavelmente ligados, não podem ser divididos nem por um momento” (A predestinação calmamente considerada, 1752).

1.3 As classificações

A tradição reformada distingue os atributos incomunicáveis, sem analogia na criatura (asseidade, imutabilidade, infinidade), dos comunicáveis, dos quais a criatura participa em alguma medida (sabedoria, bondade, justiça, verdade). O bispo anglicano Peter Browne, seguido por Wesley e, entre nós, por Langston, distinguia os atributos naturais, sem os quais Deus não seria Deus, dos morais, que definem o seu caráter (Randy Maddox, Responsible Grace, cap. 2).

H. Orton Wiley, no primeiro volume da Christian Theology (1940), propõe três grupos: os atributos absolutos, que pertencem a Deus considerado em si mesmo (espiritualidade, infinidade, eternidade, imensidade, imutabilidade e perfeição); os relativos, que dizem respeito à sua relação com o mundo criado (onipresença, onisciência e onipotência); e os morais, que dizem respeito à sua relação com as criaturas morais (santidade, amor e justiça, com as perfeições que deles decorrem). Adotamos essa divisão, agrupando os dois primeiros conjuntos sob o título de grandeza e o terceiro sob o de bondade. A divisão mostra que a grandeza de Deus não depende do mundo e reserva um lugar próprio para a santidade e o amor.

2. A fundamentação bíblica

2.1 A autodefinição de Deus

O texto que a própria Escritura mais retoma para descrever Deus é a proclamação que responde ao pedido de Moisés para ver a glória divina (Êxodo 33:18):

E passando o SENHOR por diante dele, proclamou: SENHOR, SENHOR, forte, misericordioso, e piedoso; tardio para a ira, e grande em benignidade e verdade; que guarda a misericórdia em milhares, que perdoa a iniquidade, a rebelião, e o pecado, e que de nenhum modo justificará ao malvado; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos, sobre os de terceira, e quarta gerações.

Êxodo 34:6-7

A fórmula reaparece nos Salmos 86, 103 e 145, em Joel 2:13 e em Jonas 4:2. Raḥûm, “misericordioso”, liga-se a reḥem, o ventre materno, e indica a compaixão de quem se comove por dentro; ḥannûn, “piedoso”, designa o favor gratuito; ḥesed, “benignidade”, é o amor leal de quem se comprometeu numa aliança; ‘ĕmet, “verdade”, é a firmeza de quem merece confiança. O mesmo texto, porém, afirma que Deus “de nenhum modo justificará ao malvado”, de modo que a justiça está dentro do nome, e não fora dele.

2.2 Grandeza e cuidado no mesmo fôlego

A Escritura raramente fala da grandeza de Deus sem falar, em seguida, do seu cuidado. O salmista põe lado a lado a cura do coração ferido e a contagem das estrelas:

Ele sara aos de coração partido, e os cura de suas dores. Ele conta o número das estrelas; chama todas elas pelos seus nomes. O nosso Senhor é grande e muito poderoso; seu entendimento é incomensurável.

Salmos 147:3-5

O “Alto e Sublime, que habita na eternidade”, habita também “com o contrito e abatido espírito” (Isaías 57:15). A grandeza de Deus não o afasta dos pequenos, mas o torna capaz de alcançá-los.

2.3 Santo, santo, santo

O hebraico qādôš, “santo”, une dois sentidos: separação, porque o santo está posto à parte, acima de toda criatura, e pureza moral, porque os olhos de Deus são “puros demais para veres o mal” (Habacuque 1:13). Na visão de Isaías, os serafins repetem três vezes a palavra, o único atributo que a Escritura eleva a esse grau: “Santo! Santo! Santo é o SENHOR dos exércitos!” (Isaías 6:3; cf. Apocalipse 4:8). O texto que melhor mostra a relação entre a santidade e o amor, contudo, é de Oseias, em que Deus fala de Israel como um pai ferido:

Como posso te abandonar, ó Efraim? Como posso te entregar, ó Israel? Como posso fazer de ti como Admá, ou te tornar como a Zeboim? Meu coração se comove dentro de mim, todas as minhas compaixões estão acesas. Não executarei o furor de minha ira, não voltarei a destruir Efraim; porque eu sou Deus, e não homem, o Santo no meio de ti; e não entrarei na cidade.

Oseias 11:8-9

A razão dada para a misericórdia é a santidade. O ser humano ofendido se vinga; o Santo se distingue de nós justamente porque o seu amor não se esgota na ofensa.

2.4 Deus é amor

João escreve duas frases com forma de definição, “Deus é luz, e não há nele nada de trevas” (1 João 1:5) e “Deus é amor”, e explica a segunda pela encarnação e pela cruz:

Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus por nós: que Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que por meio dele vivamos. Nisto está o amor, não que nós tenhamos amado a Deus, mas sim, que ele nos amou, e enviou seu Filho como sacrifício para perdão dos nossos pecados.

1 João 4:8-10

O grego agapē designa o amor que se dá sem ser movido pelo valor do objeto: “Deus prova o seu amor por nós através de Cristo haver morrido por nós, quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5:8). Sobre o texto, ver 1 João 4: Deus é amor e a leitura cínica da história.

3. A grandeza de Deus em si mesmo: os atributos absolutos

3.1 Espiritualidade e asseidade

“Deus é Espírito” (João 4:24): não é feito de matéria nem está preso a um lugar. A asseidade (do latim a se, “por si mesmo”) é a autoexistência de Deus: ele não recebe o ser de ninguém, “nem também é servido por mãos humanas; como que necessitasse de alguma coisa” (Atos 17:25), e “tem vida em si mesmo” (João 5:26).

3.2 Infinidade, eternidade e imensidade

A infinidade é a ausência de limites, considerada em relação ao tempo, na eternidade, e ao espaço, na imensidade. “Desde a eternidade até a eternidade tu és Deus” (Salmos 90:2). Boécio definiu a eternidade, no século VI, como “a posse inteira, simultânea e perfeita de uma vida interminável” (A consolação da filosofia, V, 6), e Armínio retoma a fórmula para definir a perfeição de Deus como “a posse interminável e, ao mesmo tempo, inteira e perfeita da essência e da vida” (Debates privados, XXIII, 1). Wesley tirava daí um consolo: para Deus “nada é pequeno ou grande, nenhuma duração é curta ou longa” (Sobre a eternidade, 1786). A imensidade é a infinidade em relação ao espaço, pois “os céus, e até o céu dos céus, não te podem conter” (1 Reis 8:27), e fundamenta a onipresença.

3.3 Imutabilidade

“Porque eu o SENHOR, não me mudo; por isso que vós, filhos de Jacó, não sois consumidos” (Malaquias 3:6); no “Pai das luzes” não há “mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Deus não muda no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos e nas suas promessas. Langston adverte que não se deve confundir imutabilidade com imobilidade: Deus não é parado como uma estátua, mas age sempre pelo mesmo motivo, que Langston chama de “santo amor” (Esboço, 2.2). A distinção ajuda a ler os textos em que Deus “se arrependeu” (Gênesis 6:6) ao lado dos que afirmam que ele “não é homem para que se arrependa” (1 Samuel 15:29): os primeiros descrevem, em linguagem humana, a reação coerente de um Deus imutavelmente santo diante da mudança da criatura, e os segundos negam que ele seja inconstante.

3.4 Perfeição, bem-aventurança e impassibilidade

A perfeição reúne todos os atributos: Deus tem todas as coisas, do modo mais perfeito, sem recebê-las de outra fonte, e dela decorre a sua bem-aventurança, o ato pelo qual desfruta da própria perfeição “com uma deleitosa satisfação” (Debates privados, XXIII, 2-4; cf. 1 Timóteo 1:11). Deus não criou o mundo por carência, e por isso o seu amor pelas criaturas é inteiramente livre.

Daqui nasce a questão da impassibilidade (do latim impassibilis, “que não sofre”). Alister McGrath lembra que a noção de um Deus imune ao sofrimento deve muito à filosofia grega e que Jürgen Moltmann, em O Deus crucificado (1972), foi ao extremo oposto (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 9). Maddox mostra que Wesley, sem desprezar as razões da tradição, conservava em Deus verdadeiros afetos (cap. 2), e Armínio atribui a Deus amor, alegria, tristeza e ira, por analogia com os afetos humanos, mas “sem qualquer paixão, uma vez que Ele é simples e imutável” (Debates privados, XX, 12). Seguimos essa linha: Deus não sofre mudanças impostas de fora nem é dominado por emoções desordenadas, mas o seu amor, a sua compaixão e a sua ira contra o mal são reais, e as palavras que os descrevem são analógicas, e não vazias.

4. A grandeza de Deus voltada para a criação: os atributos relativos

4.1 Onipresença

“Para onde eu escaparia de teu Espírito? E para onde fugiria de tua presença?” (Salmos 139:7). A onipresença não significa que Deus esteja espalhado pelo espaço como um gás, porque ele “não ocupa espaço” (Langston, Esboço, 2.2), mas que está presente com todo o seu ser em todo lugar, conhecendo e agindo. No sermão Sobre a onipresença de Deus (1788), Wesley insistiu nas consequências do atributo: em situação nenhuma estamos separados da graça de Deus nem livres de prestar contas a ele (Maddox, cap. 2).

4.2 Onisciência e sabedoria

O entendimento de Deus “é incomensurável” (Salmos 147:5). Armínio define-o como a faculdade pela qual Deus entende todas as coisas e pessoas que “têm, terão, tiveram, podem ter ou poderiam, hipoteticamente, ter” existência (Debates privados, XVII, 1). A onisciência é, por isso, exaustiva e inclui as decisões livres futuras. Wesley rejeitou a hipótese de que Deus tivesse escolhido não conhecer o futuro para preservar a liberdade humana, porque a Escritura afirma que as obras de Deus lhe são conhecidas desde a eternidade (Atos 15:18; Maddox, cap. 2). A presciência e a rejeição do teísmo aberto, que este site não aceita, ficam para a lição 17, e o conhecimento médio, para a lição 19. A sabedoria é a onisciência aplicada aos fins, que Paulo celebra no plano da salvação, dando glória “ao único Deus sábio” (Romanos 16:27).

4.3 Onipotência

“Pois para Deus nada será impossível” (Lucas 1:37). Para Armínio, a medida do poder divino é a vontade livre de Deus, que só deseja o que “existe, é verdadeiro e bom”; por isso são impossíveis para Deus coisas como “pecar, mentir” ou fazer que algo exista e não exista ao mesmo tempo, e ainda assim o seu poder é infinito, “porque nada pode resistir a ela” (Debates privados, XXII, 3-6). McGrath mostra o mesmo raciocínio em Anselmo, em Tomás de Aquino e em C. S. Lewis: o poder de pecar seria fraqueza, e não poder (cap. 9). É “impossível que Deus minta” (Hebreus 6:18), e “ele não pode negar a si mesmo” (2 Timóteo 2:13).

Wesley não pensava o poder de Deus separado do seu caráter: para ele, segundo Maddox, a soberania divina é capacitação, e não controle que anula a criatura, e Deus age “forte e suavemente” (Responsible Grace, cap. 2). Estes três atributos foram tratados, em registro devocional, em Atributos de Deus: onisciência, onipresença e onipotência.

5. A bondade de Deus: os atributos morais

Os atributos naturais dizem que Deus é grande; os morais dizem como ele usa a sua grandeza. Maddox observa que, em teoria, um ser poderia ser eterno, onipresente, onisciente e onipotente e, ainda assim, indiferente à humanidade ou até maligno, e que o centro da revelação cristã é a afirmação de que Deus não é assim (cap. 2).

5.1 Santidade

Langston define a santidade como “a plenitude gloriosa da excelência moral de Deus”, que não é uma qualidade só, mas “a soma de todas elas”, e acrescenta que “o que Deus faz nunca desmente o que ele é” (Esboço, 2.2). Armínio admite que a pureza da essência divina, livre de toda composição, seja o que a Escritura chama de santidade, “o que indica separação” (Debates privados, XV, 9). As duas definições se completam: a santidade é a transcendência de Deus vista do ponto de vista moral, a distância infinita que o separa de todo mal, pois Deus “está infinitamente distante de qualquer toque do mal” (Wesley, A unidade do ser divino). Diante dela Isaías só pôde dizer “Ai de mim” (Isaías 6:5).

5.2 Amor, bondade, graça e misericórdia

Armínio dedica um debate aos atributos que têm analogia com os afetos das criaturas racionais. O amor e a bondade são os “afetos primitivos”, aos quais se ligam a graça, a benignidade e a misericórdia: “O amor é anterior à bondade, com relação ao objeto, que é o próprio Deus; a bondade é anterior ao amor com relação àquele objeto que não é Deus” (Debates privados, XX, 3). A bondade, disposição de comunicar o bem, percorre quatro objetos: o nada, e o seu ato é a criação; a criatura, e o ato é a conservação; a criatura obediente, e o ato é a elevação a uma condição mais feliz; a criatura que pecou, e o ato é a libertação do pecado, que se chama misericórdia. A graça indica que Deus comunica o seu bem “não por mérito ou dívida, não por alguma causa externa” (XX, 7-8). A bondade que tirou o mundo do nada é, portanto, a mesma que vai ao encontro do pecador, antes de qualquer mérito.

Essa bondade alcança todos. “O SENHOR é bom para com todos; e suas misericórdias estão sobre todas as obras que ele fez” (Salmos 145:9), e “é a bondade de Deus que te conduz ao arrependimento” (Romanos 2:4). Por isso a tradição wesleyana vê na graça preveniente, dada a todos (Tito 2:11), uma expressão da bondade universal de Deus (lição 36). Contra a reprovação incondicional, Wesley lembrou que a Escritura não diz que Deus é justiça ou que Deus é verdade, embora ele seja justo e verdadeiro em todos os seus caminhos, mas diz que “Deus é amor” (A predestinação calmamente considerada, citada por Don Thorsen, Calvin vs. Wesley, cap. 1).

5.3 Justiça, verdade e fidelidade

“Ele é a Rocha, sua obra é perfeita, pois todos os seus caminhos são justos” (Deuteronômio 32:4). O hebraico ṣedeq e o grego dikaiosynē designam a retidão de quem age conforme a norma, e em Deus a norma é a sua própria natureza. Armínio distingue a justiça universal, pela qual Deus administra todas as coisas corretamente, e a particular, pela qual dá a cada um o que lhe é devido, nas obras e nas palavras; entre as palavras, coloca a verdade, a sinceridade e a fidelidade. E conclui que a justiça de Deus não permite condenar uma criatura que nunca pecou, nem salvar quem persevera nos seus pecados, e que a justiça e a misericórdia não devem ser consideradas opostas (Debates privados, XXI). Wesley acrescentava que a justiça pressupõe criaturas responsáveis: “Nosso Deus é justo em todos os seus procedimentos; não ceifa onde não semeou” (A predestinação calmamente considerada, na Coletânea, cap. 2).

No meio das ruínas de Jerusalém, o profeta confessou: “grande é a tua fidelidade” (Lamentações 3:23). “Deus é fiel”, frase comum em adesivo de carro no Brasil, fala de quem cumpre as suas promessas e as suas advertências, e não da garantia de que todos os nossos desejos serão atendidos.

6. Santidade e amor como centro: o santo amor

6.1 Existe um atributo central?

Se os atributos são inseparáveis, faz sentido perguntar qual é o centro? A teologia reformada, sem negar o amor, costuma organizar a doutrina de Deus em torno da soberania e da glória. Vincent Cheung recusa a pergunta e sustenta que nenhum atributo pode ser “mais importante que outro” (Teologia sistemática, cap. 3, “Os atributos de Deus”). Charles Finney, no extremo oposto, reduziu os atributos morais a um só: “a benevolência é toda a virtude em Deus”, e a justiça e a fidelidade seriam apenas “benevolência vista em relações específicas” (Teologia sistemática, aula 9).

Wesley deu outra resposta. Comentando 1 João 4:8, chamou o amor de “atributo reinante” de Deus, o atributo “que derrama uma glória amável sobre todas as suas outras perfeições” (Notas explicativas sobre o Novo Testamento, citado por Maddox, cap. 2, e por Thorsen, cap. 1), e Thorsen resumiu a ênfase no título do capítulo que lhe dedica: em Wesley, Deus é “mais amor do que soberania”. Maddox ressalva que essa primazia não opõe o amor à justiça, mas fundamenta a justiça no amor, entendido como amor santo, que respeita o valor e a responsabilidade de quem é amado (cap. 2).

6.2 A síntese wesleyana

A expressão “amor santo” tornou-se a chave da doutrina de Deus na tradição wesleyana. Kenneth Collins fez dela o eixo da sua exposição de Wesley (Teologia de John Wesley: o amor santo e a forma da graça), e Pope e Wiley agruparam as perfeições morais em torno da santidade e do amor. Langston, embora batista, deu uma formulação que um wesleyano assinaria: “Deus não seria santo se não fora amor, e não seria amor se não fora santo”; “a santidade é o coração do amor, e o amor o coração da santidade”. Um amor sem santidade seria indulgência, e uma santidade sem amor, pureza fria. Por isso, conclui Langston, “Deus, por ser amor, quer dar ao homem a santidade” (Esboço, 2.2). A frase liga a doutrina de Deus à da salvação: a perfeição cristã, que a tradição wesleyana entende como amor perfeito recebido pela fé (lição 41), é a comunicação do santo amor de Deus à criatura.

Langston explica ainda por que o mesmo amor parece produzir efeitos opostos: o sol derrete o gelo e endurece o barro, e é sempre o mesmo sol. O que o pecador experimenta como ira é a reação do santo amor ao pecado que destrói a criatura amada; Armínio diz que o ódio de Deus à iniquidade “flui” necessariamente do seu amor (Debates privados, XX, 6).

6.3 O encontro na cruz

A cruz é o lugar em que a santidade e o amor, a justiça e a misericórdia se encontram sem que nenhum deles seja diminuído. Deus propôs Jesus “por sacrifício de reconciliação, pela fé em seu sangue, para demonstrar a sua justiça”, “a fim de que ele seja justo, e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:25-26). Ali a santidade de Deus não fez de conta que o pecado não existia, porque Cristo levou sobre si a pena que nos cabia, e o amor de Deus providenciou de graça o substituto, que é o próprio Filho. A teologia arminiana clássica e wesleyana entende essa obra como satisfação penal de alcance universal, tema da lição 32.

Aqui a redução de Finney mostra o seu custo: se a justiça é apenas benevolência a serviço do bem público, a cruz deixa de ser satisfação da justiça de Deus e passa a ser uma demonstração para sustentar o governo moral, segundo a teoria governamental que ele expôs (aula 13) e que o site descreve, mas não adota. Tomás de Aquino formulou o equilíbrio clássico ao dizer que a obra da justiça divina sempre pressupõe a da misericórdia e se funda nela (Suma teológica, I, q. 21, a. 4).

7. A posição arminiana clássica e wesleyana

7.1 Afirmações

A posição deste curso cabe em quatro afirmações. Em primeiro lugar, Deus é simples, e os seus atributos são perfeições de uma única vida divina, distintas para o nosso entendimento e inseparáveis em Deus. Em segundo lugar, a grandeza de Deus, inclusive a sua presciência exaustiva, não precisa ser atenuada para dar lugar à liberdade da criatura. Em terceiro lugar, a natureza moral de Deus tem o seu centro no santo amor, de modo que a santidade e o amor se qualificam mutuamente e a justiça e a misericórdia nunca se opõem. Em quarto lugar, o poder de Deus é sempre o poder do seu caráter: o Deus soberano exerce a sua soberania sem ser autor do pecado, chamando, capacitando e libertando pela graça que vem antes de toda resposta humana.

7.2 Comparação com outras tradições

A teologia católica definiu no Vaticano I que Deus é “absolutamente simples e imutável” (Dei Filius, cap. 1), patrimônio que partilhamos e que o próprio Armínio usa com liberdade. A tradição reformada confessa os mesmos atributos, e a divergência não está na lista, mas na relação dos atributos com os decretos: quando a soberania é entendida como determinação de todas as coisas, inclusive da queda e da incredulidade, os arminianos objetam, com Wesley, que a bondade e a justiça de Deus ficam comprometidas. É uma divergência entre irmãos, que examinaremos na lição 19. Karl Barth, que definiu Deus como aquele “que ama em liberdade” (Dogmática eclesiástica, II/1), manteve unidas a bondade e a grandeza a partir da revelação em Cristo.

Quanto aos contrastes, Finney tem razão ao insistir em que Deus é amor e governa moralmente, mas a redução da santidade e da justiça à benevolência, somada à confiança na capacidade natural do ser humano, desemboca numa teologia em que a graça perde a primazia. Cheung tem razão ao afirmar a unidade dos atributos, mas, ao recusar qualquer primazia ao amor e defender uma impassibilidade sem reservas, deixa pouco espaço para o Deus de Oseias, cujo coração “se comove”. A tradição wesleyana recusa as duas saídas: a santidade não se dissolve no amor, e o amor não é um atributo entre outros, mas aquele que dá cor a todos eles.

8. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, a doutrina dos atributos nos chama à adoração. Os serafins não discutem a santidade de Deus; eles a cantam. A igreja que estuda os atributos e não adora fez da doutrina erudição, e a que adora sem conhecê-los canta, muitas vezes, a um deus da própria imaginação.

Em segundo lugar, chama-nos à confiança, porque o Deus que conta as estrelas é o que cura os corações partidos. Por isso a doutrina corrige dois desvios frequentes entre nós: o fatalismo do “Deus quis assim”, dito diante de toda tragédia, como se o poder de Deus fosse indiferente à justiça, e a pregação que trata a bondade de Deus como obrigação de atender aos nossos desejos, como se a onipotência estivesse a serviço da nossa vontade. O primeiro guarda a grandeza e perde a bondade; o segundo guarda uma bondade de balcão e perde a grandeza e a santidade.

Em terceiro lugar, chama-nos à santidade. “Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16) não é um peso posto sobre ombros fracos, mas a promessa de um Deus que, por ser amor, quer dar-nos aquilo que ele é; a ética cristã é imitação do seu caráter, em misericórdia, justiça, verdade e fidelidade.

Em quarto lugar, chama-nos à evangelização, porque, se o Senhor é bom para com todos, ninguém está fora do alcance do seu amor.

Por fim, chama-nos a manter unido o que Deus uniu. Quem só conhecia a obra temia as mãos do avô pedreiro, e quem só as via no colo do neto não sabia da sua força. Nós sabemos mais, porque as mãos que sustentam o universo foram estendidas numa cruz e ali mostraram, ao mesmo tempo, a força que vence o pecado e a ternura que recebe o pecador. Que o Senhor nos livre de um Deus apenas temido e de um Deus apenas sentimental, e nos conceda conhecer, adorar e imitar o Deus santo que é amor.

Síntese

  1. Os atributos ou perfeições de Deus são as qualidades pelas quais ele se dá a conhecer; por causa da simplicidade divina, são inseparáveis em Deus e distintos apenas para o nosso entendimento.
  2. Seguindo Wiley, distinguimos os atributos absolutos, que pertencem a Deus em si mesmo, os relativos, que dizem respeito à sua relação com o mundo, e os morais, que definem o seu caráter.
  3. A Escritura apresenta a grandeza e a bondade de Deus sempre juntas, desde a proclamação do nome em Êxodo 34 até a afirmação de que Deus é amor em 1 João 4.
  4. A imutabilidade é a firmeza do caráter de Deus, e não imobilidade; Deus não sofre mudanças impostas de fora, mas o seu amor e a sua ira contra o mal são reais.
  5. Na tradição wesleyana, o centro da natureza moral de Deus é o santo amor: o amor é o atributo reinante, e a santidade o qualifica, de modo que a justiça e a misericórdia nunca se opõem.
  6. A cruz é o lugar em que a santidade e o amor de Deus se encontram: Cristo satisfez a justiça divina, e Deus se mostrou justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Questões para revisão

  1. O que a teologia entende por atributos de Deus, e o que significa a doutrina da simplicidade divina?
  2. Compare as principais classificações dos atributos. Que vantagem tem a divisão de Wiley?
  3. Como distinguir imutabilidade de imobilidade, e como ler os textos em que se diz que Deus “se arrependeu”?
  4. Descreva os quatro objetos da bondade divina segundo Armínio e a relação entre amor, bondade, graça e misericórdia.
  5. Por que Wesley chamou o amor de atributo reinante, e como Maddox e Langston explicam a relação entre santidade e amor?
  6. Em que a posição wesleyana difere das de Finney e de Cheung quanto ao centro da natureza moral de Deus?
  7. Que desvios da religiosidade brasileira a doutrina dos atributos ajuda a corrigir?

Bibliografia

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  • POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres, 1880.
  • THORSEN, Don. Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice. Nashville: Abingdon, 2013.
  • WESLEY, John. A predestinação calmamente considerada (1752); Notas explicativas sobre o Novo Testamento (1755); sermões Sobre a eternidade (1786), Sobre a onipresença de Deus (1788) e A unidade do ser divino (1789).
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. 3 vols. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1940-1943.
  • Para contraste: FINNEY, Charles G. Teologia sistemática; CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 15: A doutrina de Deus: existência e conhecimento. Próxima: Lição 17: Transcendência e imanência de Deus.

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