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Capítulo 18: A criação e a providência
Teologia Sistemática, Parte 3: Deus
Neste texto
- O Propósito de Deus na Criação
- Por que Deus Criou?
- O Plano de Deus em Cristo
- É, Pelo Menos em Parte, Sobre Nós
- A Criação
- O que Significa Criar?
- A Extensão da Criação
- Uma Obra do Deus Triúno
- Uma Criação Boa
- A Criação na História da Igreja
- Criação e Ciência
- O que a Criação Muda em Nossa Vida
- A Providência
- O que É Providência?
- Conservação
- Concurso
- Governo
- Providência Geral e Particular
- Os Milagres
- Soberania e Liberdade
- Dois Erros a Evitar
- Conclusão
- Fontes
Neste capítulo vamos examinar a obra de Deus: o que ele fez na criação e o que ele faz hoje na providência. De onde veio o mundo, por que ele continua a existir e quem conduz a sua história?
O Propósito de Deus na Criação
Por que Deus Criou?
Alguns entendem que o propósito da criação, e da humanidade em particular, é trazer glória a Deus. É verdade que a criação traz glória a Deus. “Os céus contam a glória de Deus”, diz o salmista (Salmos 19:1), e nós também deveríamos glorificá-lo. Mas dizer que Deus criou o mundo porque precisava ser glorificado é outra coisa. Isso daria a entender que faltava algo a Deus antes da criação. E não creio que Deus tenha qualquer necessidade que nós possamos suprir.
Outras pessoas dizem que Deus criou porque precisava de alguém para amar. Deus de fato ama o que criou. Mas essa ideia também coloca uma carência em Deus. Desde a eternidade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem em perfeito amor entre si, como vimos no capítulo sobre a Trindade. Deus não estava sozinho nem incompleto.
Paulo disse aos atenienses que Deus “nem também é servido por mãos humanas; como que necessitasse de alguma coisa; porque ele é que dá a todos vida, respiração, e todas as coisas” (Atos 17:25). E os seres celestiais adoram a Deus com estas palavras: “tu criaste todas as coisas, e por causa da tua vontade elas são e foram criadas!” (Apocalipse 4:11). Deus criou porque quis, e não porque precisava. A criação é um presente da sua bondade.
O Plano de Deus em Cristo
A Bíblia não traz uma declaração completa do propósito de Deus na criação. Mas ela nos dá pistas, e uma das maiores está na abertura da carta aos Efésios:
“Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor. E nos predestinou como filhos adotados por meio de Jesus Cristo para si mesmo, conforme o bom prazer de sua vontade; para louvor da glória de sua graça, a qual nos concedeu gratuitamente no Amado.”
(Efésios 1:4-6, Bíblia Livre)
Poucos versículos depois, Paulo diz que o plano de Deus é “voltar a reunir todas as coisas em Cristo, tanto as que estão nos céus, quanto as que estão na terra” (Efésios 1:10). E em Colossenses ele afirma que todas as coisas foram criadas “por ele e para ele” (Colossenses 1:16). Cristo está no começo e no fim da criação. O mundo foi feito por meio dele e caminha para ele.
É, Pelo Menos em Parte, Sobre Nós
Notemos que fomos escolhidos em Cristo antes da criação, e notemos também para que fomos escolhidos. Ao menos uma parte do plano de Deus, a que mais nos diz respeito, é ter filhos e fazê-los crescer como seus. Não devemos confundir a nossa adoção com a condição de Jesus, que é o Filho eterno. São coisas diferentes. Mas Deus nos criou para sermos santos e irrepreensíveis, participantes da sua graça e seus filhos.
Conhecer o nosso lugar nesse plano nos ajuda a entender o que Deus faz no mundo. A sua obra começa com a criação e continua com o cuidado diário por tudo o que fez. A humanidade redimida está no centro desse propósito e, por isso, no centro da sua ação no mundo.
A Criação
O que Significa Criar?
O hebraico tem várias palavras para a obra de Deus. Uma delas quer dizer “fazer”, outra quer dizer “formar”, como o oleiro forma o barro (Gênesis 2:7). Mas a palavra do primeiro versículo da Bíblia é bara, “criar”. No Antigo Testamento, o sujeito desse verbo é sempre Deus. Só Deus cria nesse sentido.
A Bíblia ensina que Deus criou o universo a partir do nada. Ele não reaproveitou materiais que já existiam. Hebreus diz: “Pela fé entendemos que o universo foi aprontado pela palavra de Deus, de maneira que as coisas que se veem não foram feitas de algo visível” (Hebreus 11:3). Paulo fala do Deus que “chama as coisas que não são como se já fossem” (Romanos 4:17). Os teólogos chamam isso de criação ex nihilo, expressão latina que quer dizer “do nada”. Isso não faz do “nada” uma espécie de matéria-prima. Quer dizer apenas que, antes da criação, só havia Deus.
Gênesis abre com essa verdade:
“No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra estava desordenada e vazia, e as trevas estavam sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz.”
(Gênesis 1:1-3, Bíblia Livre)
“Os céus e a terra” é o jeito hebraico de dizer “tudo”. Não há aqui luta entre deuses nem uma matéria eterna que resista ao Criador. Deus fala, e as coisas passam a existir. O salmista diz: “Porque ele falou, e logo se fez; ele mandou, e logo apareceu” (Salmos 33:9).
A Extensão da Criação
Tudo, da menor partícula ao maior aglomerado de galáxias, foi produzido por Deus a partir do nada. Colossenses mostra até onde vai a criação:
“porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam domínios, sejam governos, sejam autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e nele todas as coisas se mantêm.”
(Colossenses 1:16-17, Bíblia Livre)
Deus não criou apenas o universo material, mas também o mundo espiritual. Esse mundo é em grande parte um mistério para nós, mas inclui todos os anjos, tanto os que servem a Deus quanto os que seguem Satanás. O próprio Satanás é uma criatura. Ele não é um segundo deus, igual ao Criador. Neemias resume: “Tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército; a terra e tudo quanto nela há; os mares e tudo quanto neles há” (Neemias 9:6). Tudo o que existe, exceto o próprio Deus, é obra das suas mãos. Os anjos e os demônios terão um capítulo próprio mais adiante.
Uma Obra do Deus Triúno
A criação é obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Em Gênesis, o Espírito de Deus “se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1:2). Do Filho, a Palavra eterna, João diz: “Por esta foram feitas todas as coisas, e sem ela não se fez coisa nenhuma do que foi feito” (João 1:3). E Paulo distingue o Pai, “do qual são todas as coisas”, e o Senhor Jesus Cristo, “pelo qual são todas as coisas” (1 Coríntios 8:6).
Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, resumiu bem esse ensino. Ele também mostrou que Deus criou com liberdade:
A criação é um ato externo de Deus, pelo qual Ele produziu todas as coisas, a partir do nada, por si mesmo, pela sua Palavra e pelo seu Espírito. […] a criação foi produzida livre e gratuitamente, e não necessariamente, porque o Criador não estava obrigado a nada.
(Jacó Armínio, Debates privados, XXIV.3 e 7, em As obras de Armínio, vol. 2)
John Wesley pregava a mesma coisa um século e meio depois: Deus, “por sua palavra poderosa, chamou do nada todo o universo, tudo que existe” (sermão Sobre a divina providência, 8).
Uma Criação Boa
Ao fim do sexto dia, “viu Deus tudo o que havia feito, e eis que era bom em grande maneira” (Gênesis 1:31). O mundo material não é ruim em si mesmo. O corpo, a comida, a natureza e o trabalho foram feitos por um Deus bom. O mal que hoje vemos no mundo entrou depois, e não fazia parte da obra original de Deus. O próximo capítulo tratará dessa questão.
A Criação na História da Igreja
Os primeiros cristãos tiveram de defender a criação a partir do nada. Muitos filósofos gregos, como Platão, pensavam que um artesão divino tinha dado forma a uma matéria que sempre existiu. E os gnósticos, um movimento que misturava ideias cristãs e pagãs, diziam que o mundo material era obra de um deus inferior e, por isso, coisa má.
Contra eles, Ireneu de Lião ensinou que há um só Deus, o Pai de Jesus Cristo, e que ele criou todas as coisas, até a própria matéria. Tertuliano escreveu contra quem dizia que a matéria era eterna, porque isso faria dela uma espécie de segundo deus. Agostinho acrescentou que o próprio tempo é criatura: o mundo foi feito com o tempo, e não dentro de um tempo que já existia antes dele (A cidade de Deus, XI.6). O Credo Niceno confessa até hoje o Deus “Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Nisso todos os cristãos concordam.
Criação e Ciência
A Bíblia traz um relato da criação em Gênesis 1 e outro em Gênesis 2. Lidos de forma bem literal, eles parecem estar em desacordo com as teorias científicas atuais. A Bíblia parece indicar que a Terra tem apenas alguns milhares de anos. Os geólogos, porém, falam de cerca de 4,5 bilhões de anos. A distância entre as duas estimativas é enorme. Por isso os cristãos têm proposto várias maneiras de ler o relato de Gênesis.
A Teoria do Intervalo
Esta teoria parte dos dois primeiros versículos da Bíblia. No versículo 1, Deus cria os céus e a terra. No versículo 2, a terra está “desordenada e vazia”. Os defensores dessa leitura dizem que o que Deus cria é perfeito, e por isso algo teria acontecido entre os dois versículos, talvez a queda de Satanás. O resto de Gênesis 1 descreveria uma recriação recente, e as provas de uma terra antiga pertenceriam à primeira criação. Muitos estudiosos do hebraico, porém, observam que o texto não indica nenhum intervalo entre os versículos.
A Teoria do Dilúvio
Esta teoria defende uma terra jovem. O dilúvio de Gênesis 6 a 8 e as grandes tempestades que vieram com ele explicariam as camadas de rocha e os fósseis que muitos leem como sinal de uma terra muito antiga.
A Teoria da Idade Aparente
Esta é outra teoria de terra jovem. Adão não foi criado como um recém-nascido, mas como um homem adulto. As árvores do terceiro dia já eram árvores crescidas. Do mesmo modo, toda a criação teria sido feita com uma aparência de bilhões de anos, embora fosse muito mais jovem. Isso incluiria a luz das estrelas distantes, criada já a caminho da Terra.
A Teoria do Dia-Era
Esta teoria parte da palavra hebraica yom, traduzida por “dia” em Gênesis 1. O sentido mais comum de yom é um dia de 24 horas, mas a palavra também pode indicar um período longo, uma época. Nessa leitura, os seis dias seriam seis grandes períodos, e Gênesis descreveria as etapas da criação, e não quanto tempo ela levou.
A Teoria do Arcabouço Literário
Nesta leitura, os seis dias são uma moldura que organiza o relato, e não uma medida de tempo. Nos dias 1 a 3, Deus forma os espaços: a luz e as trevas, as águas e o céu, a terra seca. Nos dias 4 a 6, ele os enche: os astros no céu, as aves e os peixes, os animais e o ser humano na terra. Gênesis 1 estaria mostrando quem criou e com que ordem, e não como a criação aconteceu fisicamente.
Como a Vida Chegou a Ser como É?
Há também a pergunta sobre a variedade da vida. Os cristãos se dividem principalmente em três visões. Na criação direta, Deus criou todas as espécies num período curto. No criacionismo progressivo, ele as criou diretamente, mas ao longo de um tempo longo. Na evolução teísta, as espécies se desenvolveram de um ancestral comum, mas Deus guiou todo o processo para o fim que ele queria. Há ainda a evolução naturalista, que diz que tudo veio de processos cegos, sem nenhum Criador e sem nenhum propósito. Essa última visão não cabe na fé cristã.
O que É Artigo de Fé
A fé na criação não depende de uma teoria científica. A ciência descreve como as coisas funcionam. A doutrina da criação responde por que existe alguma coisa e quem a fez. Por isso não tomamos nenhuma das cronologias acima como artigo de fé. O site discute a questão em Criação em sete dias literais? O propósito de Gênesis 1-2 e em Gênesis 1 e as cosmologias antigas.
É artigo de fé que Deus criou todas as coisas a partir do nada, pela sua Palavra e pelo seu Espírito; que o mundo que ele fez era bom; que o ser humano foi criado à imagem de Deus; e que nada no universo é fruto de um acaso sem propósito.
O que a Criação Muda em Nossa Vida
A doutrina da criação tem várias consequências. Se o universo, este planeta e a vida que há nele fossem um mero acidente, nada disso teria muito valor. Mas, se tudo foi feito por um Criador com um propósito, tudo tem valor, para o Criador e para nós.
Uma explicação puramente natural da nossa existência também não explica por que somos capazes de observar o mundo e de entendê-lo. Já um universo criado por um Deus sábio, que quer ser conhecido, seria ordenado e possível de ser estudado, e é exatamente isso que encontramos.
Por fim, se a criação foi obra do acaso, que propósito haveria na minha existência? Eu estaria aqui por pouco tempo e depois iria embora, e nada do que eu fizesse teria valor duradouro. Mas, se Deus me criou com um propósito, tenho uma razão para existir. Quem eu sou e o que eu faço importam.
A Providência
O que É Providência?
A doutrina da criação trata do ato de Deus de trazer à existência tudo o que existe. A providência é a ação contínua de Deus para sustentar o que criou e conduzi-lo ao propósito que ele determinou.
A palavra vem do latim e quer dizer “ver antes” e também “prover”. A Bíblia tem um belo exemplo. Quando Isaque perguntou onde estava o cordeiro para o sacrifício, Abraão respondeu: “Deus se proverá de cordeiro para o holocausto, filho meu” (Gênesis 22:8). Depois que Deus proveu o carneiro, Abraão chamou aquele lugar de “O SENHOR proverá” (Gênesis 22:14). A providência é isso: Deus vê o que precisamos e cuida de nós.
Deus não fez o mundo e depois se afastou dele. João Calvino, o reformador de Genebra, insistia nesse ponto:
Fazer de Deus um Criador de um momento só, que terminou de uma vez toda a sua obra, seria frio e pobre. […] Quando a fé aprende que ele é o Criador de todas as coisas, deve concluir logo que ele é também o seu governador e preservador perpétuo, por uma providência particular, que sustenta, alimenta e cuida de cada coisa que fez.
(João Calvino, Institutas, I.16.1, tradução nossa)
Os teólogos costumam dividir a providência em três partes: a conservação, o concurso e o governo. Vamos ver cada uma.
- ConservaçãoDeus mantém em existência tudo o que criou
- ConcursoDeus age junto com as criaturas, que agem de verdade
- GovernoDeus dirige todas as coisas ao fim que propôs
- MilagresDeus age acima do curso comum da natureza
Conservação
A primeira parte da providência é a conservação. Deus mantém em existência tudo o que criou. Em Colossenses 1:17, Paulo diz que em Cristo “todas as coisas se mantêm”. Hebreus 1:3 diz que o Filho “sustenta todas as coisas pela palavra de poder”. O verbo grego indica uma ação contínua. Deus não deu um empurrão inicial no mundo e depois o deixou andar sozinho. Ele o sustenta a cada instante.
O mundo não tem vida própria, independente de Deus. Paulo disse em Atenas: “nele vivemos, e nos movemos, e somos” (Atos 17:28). E o salmo 104, depois de descrever os animais da terra e do mar, diz:
“Todos eles aguardam por ti, que lhes dês seu alimento a seu tempo devido. O que tu dás, eles recolhem; tu abres tua mão, e eles se fartam de coisas boas. Quando tu escondes teu rosto, eles ficam perturbados; quando tu tiras o fôlego deles, logo eles morrem, e voltam ao seu pó. Tu envias o teu fôlego, e logo são criados; e assim tu renovas a face da terra.”
(Salmos 104:27-30, Bíblia Livre)
Jó diz a mesma coisa sobre o ser humano: se Deus “recolhesse para si seu espírito e seu fôlego, toda carne juntamente expiraria, e o ser humano se tornaria em pó” (Jó 34:14-15). Podemos ver nas forças da natureza, como a gravidade e as forças que mantêm unidos os átomos, a mão de Deus que sustenta o universo. Se ele as retirasse, o universo simplesmente deixaria de existir.
Concurso
A segunda parte da providência tem um nome menos conhecido: concurso. A palavra vem do latim concursus, que quer dizer “correr junto”. O concurso é a ação pela qual Deus age junto com as criaturas naquilo que elas fazem.
O fogo aquece, a semente brota, a pessoa pensa e decide. Essas coisas acontecem de verdade, e as criaturas são causas reais do que fazem. Em Gênesis, Deus manda, mas é a terra que “produziu erva verde” (Gênesis 1:12). Ao mesmo tempo, nenhuma criatura age sem Deus. Ele é a causa primeira de tudo, e as criaturas são causas segundas. Paulo mostra os dois lados juntos quando diz aos filipenses: “exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir” (Filipenses 2:12-13). O crente age, e Deus age nele.
Por isso o cristão não despreza os meios. Quem fica doente ora e também procura o médico. Quem planta pede a chuva a Deus e também prepara a terra. Calvino lembrava que o crente agradece a Deus como o autor principal dos benefícios que recebe, mas também honra as pessoas por meio de quem esses benefícios chegaram (Institutas, I.17.9). Deus costuma agir por meio das coisas e das pessoas que ele criou.
Os teólogos protestantes concordam que o concurso é real e que Deus nunca é o autor do pecado. Eles divergem sobre o modo como Deus age junto com a vontade humana. Muitos reformados ensinam que Deus move a vontade antes de ela se decidir, sem tirar dela a espontaneidade. Armínio ensinava que o concurso de Deus com a vontade acontece “por um ato que não é anterior, mas simultâneo” (Artigos que devem ser diligentemente examinados, em As obras de Armínio, vol. 2). A questão tem relação com a graça e a conversão, que estudaremos na parte sobre a salvação.
Governo
A terceira parte da providência é o governo. Deus dirige todas as coisas ao fim que ele propôs. “O SENHOR firmou o seu trono nos céus, e seu reino domina sobre tudo” (Salmos 103:19). Nabucodonosor, o rei da Babilônia, depois de ser humilhado, reconheceu que Deus “faz no exército do céu, e nos habitantes da terra segundo sua vontade; ninguém há que possa deter sua mão” (Daniel 4:35). E Paulo diz que Deus “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).
Armínio explicou esse governo com cuidado na sua Declaração de Sentimentos, de 1608. Ele queria deixar claro que não diminuía em nada a providência:
[…] declaro que ela preserva, regula, governa e dirige todas as coisas, e que nada no mundo acontece fortuitamente ou por acaso. […] apenas devemos observar uma distinção entre as boas ações e as más, dizendo que “Deus quer e realiza as boas ações”, mas que “apenas permite livremente as que são más”.
(Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos, II)
Há pelo menos quatro áreas em que a Bíblia fala do governo de Deus.
Na Natureza
Deus governa os processos naturais que sustentam a vida na terra. Paulo disse aos moradores de Listra que Deus
“não tenha deixado a si mesmo sem testemunho, fazendo o bem desde o céu, dando-nos chuvas, e tempos frutíferos, e enchendo nossos corações de alimento e alegria.”
(Atos 14:17, Bíblia Livre)
Deus faz isso por toda a vida na terra, e não apenas pelo seu povo. Ele “faz seu sol sair sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Hoje entendemos os processos físicos que produzem a chuva e fazem crescer as plantações. Mas entender como a chuva se forma não tira Deus de cena. Ele sustenta esses processos e, às vezes, segura a chuva ou a envia. Tiago 5:17-18 lembra a oração de Elias pela chuva, quando ele procurava trazer Israel de volta para Deus. Jesus também mostrou esse domínio quando “repreendeu os ventos e o mar. E houve grande calmaria” (Mateus 8:26).
Nas Nações
Em Atenas, Paulo disse:
“E de um sangue ele fez toda nação humana, para habitarem sobre a face da terra, determinando os tempos desde antes ordenados, e os limites da morada deles.”
(Atos 17:26, Bíblia Livre)
Deus está envolvido no surgimento e na queda das nações e dos povos. Ele levanta reis e os remove. Ele é o grande condutor da história, mesmo quando os governantes não o reconhecem.
Na Vida Pessoal
Em 1 Coríntios 4:7, Paulo pergunta:
“Pois quem te faz diferentemente superior? E o que tens tu, que não tenhas recebido? E se o recebeste, por que te orgulhas, como se não o tivesse recebido?”
(1 Coríntios 4:7, Bíblia Livre)
Sou o que sou, não por algo que eu tenha feito nem por algo que meus pais fizeram, mas porque Deus me criou e me deu tudo o que tenho. E o cuidado de Deus chega aos menores detalhes. Jesus disse:
“Não se vendem dois pardais por uma pequena moeda? Mas nem um deles cairá em terra contra a vontade de vosso Pai. E até os cabelos de vossas cabeças estão todos contados. Assim, não tenhais medo; mais valeis vós que muitos pardais.”
(Mateus 10:29-31, Bíblia Livre)
Nas Escolhas Humanas
Deus também governa as ações das pessoas, sem tirar delas a responsabilidade. “O coração do homem planeja seu caminho, mas é o SENHOR que dirige seus passos” (Provérbios 16:9). E ainda: “A sorte é lançada no colo, mas toda decisão pertence ao SENHOR” (Provérbios 16:33).
A Bíblia dá exemplos claros. Os irmãos de José o venderam como escravo, mas anos depois José lhes disse: “Vós pensastes mal sobre mim, mas Deus o encaminhou para o bem” (Gênesis 50:20). Deus usou a Assíria como “a vara de minha ira” contra o Israel infiel, embora o rei assírio “não pense assim, nem pretenda isso seu coração” (Isaías 10:5-7). O rei agia por ambição própria e seria julgado por isso. E na cruz, Herodes, Pilatos e os povos se juntaram contra Jesus “para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho desde antes tinha determinado para acontecer” (Atos 4:28). Nem por isso eles foram inocentes.
Esses textos mostram que Deus governa até as ações más sem ser o autor do mal que há nelas. Ele permite o pecado, o limita e o faz servir aos seus propósitos, mas a culpa é de quem o comete. Como isso funciona, e por que Deus permite o mal, é o assunto do próximo capítulo.
Providência Geral e Particular
Até onde vai o governo de Deus? Ele cuida só do quadro geral ou também dos detalhes? A Bíblia responde que cuida de tudo. O Deus que conta os cabelos da nossa cabeça não governa só por leis gerais.
No século XVIII, muitos pensadores ingleses adotaram o deísmo. Para eles, Deus criou o mundo como um relojoeiro faz um relógio: dá corda e depois o deixa funcionar sozinho. John Wesley, o pregador inglês que deu início ao movimento metodista, combateu essa ideia. Ele anotou no seu diário que a doutrina de uma providência particular estava “absolutamente fora de moda na Inglaterra” (6 de julho de 1781), mas nunca deixou de pregá-la. Ele também ensinava, seguindo um escritor piedoso, que o cuidado de Deus tem graus:
O círculo exterior inclui todos os filhos dos homens […]. Ele faz com que o Sol se levante sobre todos. […] No 2° círculo, Ele coloca toda a sua Igreja Cristã visível […]. Mas o terceiro círculo, o mais interno, inclui somente a Igreja invisível de Cristo, todos os verdadeiros cristãos […]. Ele os guarda como a menina dos seus olhos.
(John Wesley, sermão Culto divino, I.9, em Coletânea da teologia de João Wesley)
Deus cuida de todas as criaturas, cuida de um modo especial da sua igreja e cuida com ternura ainda maior dos que lhe pertencem de verdade. Armínio dizia algo parecido: o cuidado de Deus é maior com um ser humano do que com um bezerro, e maior ainda com os fiéis (Debates privados, XXVIII.10).
Os Milagres
A Bíblia mostra que Deus costuma agir pelo curso comum da natureza. Mas às vezes ele age de modo extraordinário. Armínio distinguia os atos comuns da providência, que seguem o curso da natureza, dos atos extraordinários, feitos “além, acima ou, também, de maneira contrária a essa ordem” (Debates privados, XXVIII.9). Aí estão os milagres.
Se existe um Criador que conduz a criação para um fim, é de esperar que haja milagres. E milagres verdadeiros são um sinal claro de um Deus que age com propósito. Mas o que é exatamente um milagre? Há três explicações principais.
Leis Ainda Desconhecidas
Alguns acham que os milagres são acontecimentos naturais, produzidos por leis da natureza que ainda não conhecemos. Um dia nós as descobriríamos e poderíamos usá-las também. O problema é que essa ideia tira dos milagres o seu caráter de sinal, de ação pessoal de Deus.
Leis Suspensas
Outros veem os milagres como a quebra das leis naturais. Quando acontece um milagre, Deus suspenderia as leis que o impediriam, pelo tempo necessário, e depois as restabeleceria. Essa visão tem o mérito de mostrar que Deus está acima das leis que ele mesmo criou.
Uma Força Sobrenatural
Uma terceira explicação usa uma comparação simples. A gravidade é uma força da natureza que eu não posso quebrar. Mas, quando levanto um objeto, eu me oponho a ela de um modo limitado. Do mesmo modo, quando realiza um milagre, Deus age com um poder sobrenatural que se soma às forças naturais e as supera. As leis não são quebradas, apenas vencidas por um poder maior. Esta explicação me parece a melhor.
Soberania e Liberdade
As Escrituras deixam claro que Deus é soberano. Mas também mostram que o ser humano tem uma liberdade real, ainda que limitada. Repetidas vezes a Bíblia nos chama a crer em Deus (Atos 16:31), a anunciar o evangelho (Mateus 28:19-20), a viver em santidade (1 Pedro 1:15-16) e a amar o próximo (João 13:34-35). Esses chamados supõem que nossas escolhas importam.
Como juntar as duas coisas? Os cristãos têm dado respostas diferentes.
Tudo Determinado
Alguns entendem que Deus determina todos os detalhes da vida, inclusive cada decisão que tomamos. Citam Efésios 1:11 e o Salmo 139:16: “tudo estava escrito em teu livro; até os dias estavam determinados quando nenhum deles ainda havia”. Na forma mais dura dessa visão, a liberdade humana é uma ilusão. Os críticos observam que, assim, Deus seria responsável também pelo pecado. Muitos leem Calvino desse modo, mas o próprio Calvino negava que Deus fosse o autor do pecado e ensinava que os ímpios não têm desculpa, porque pecam por vontade própria (Institutas, I.18.4).
Uma forma mais suave dessa visão diz que Deus age em nossa vida de tal modo que tomamos livremente as decisões que ele quer que tomemos. Diante de um prato de que gosto e de outro que detesto, sempre escolherei o primeiro. Tenho a opção de escolher qualquer um, mas nunca escolherei o segundo, porque fui formado assim. A pergunta é: quantos desses fatores Deus teria arranjado para garantir a minha escolha?
Soberania que Concede Liberdade
Outros entendem que Deus, no exercício da sua soberania, decidiu dar ao ser humano uma liberdade real. Isso é um uso da soberania de Deus, e não um limite a ela. A liberdade é real, dentro dos limites que Deus decidiu permitir. Deus governa tudo e cumpre o seu propósito, mas o faz levando em conta as decisões verdadeiras das suas criaturas. Armínio dizia que a providência não pode contrariar a criação: ao governar o ser humano, Deus respeita a vontade que ele mesmo lhe deu (Artigos que devem ser diligentemente examinados).
Na minha opinião, esta visão explica melhor o que a Bíblia diz sobre a soberania de Deus e sobre a liberdade humana. Ela também mostra uma soberania maior, porque Deus cumpre o seu plano mesmo agindo com e por meio de outros agentes livres. A pergunta de como esse governo se relaciona com a salvação de cada pessoa foi tratada no capítulo anterior, sobre os decretos de Deus e a predestinação.
Dois Erros a Evitar
A doutrina da providência nos guarda de dois erros opostos. O primeiro é o do acaso: a ideia de que o mundo anda sozinho, à mercê da sorte, e de que Deus está longe ou ausente. Esse é o erro do deísmo e também do descrente que vê no universo apenas matéria e acidente. Contra ele, a Bíblia mostra um Pai que alimenta as aves do céu (Mateus 6:26) e conta os nossos cabelos.
O segundo erro é o do destino: a ideia de que tudo está fixado por uma força cega e de que as nossas escolhas não fazem diferença. Muitos brasileiros falam assim sem perceber: “se era para ser, vai ser”, “estava escrito”. O cristão não vive assim: ele ora, trabalha, planeja e diz, como ensina Tiago, “Se o Senhor quiser, e vivermos, faremos isso ou aquilo” (Tiago 4:15). Também não vive com medo de horóscopos, de dias de azar ou de forças ocultas. Quem governa o mundo é o Pai de Jesus Cristo.
Conclusão
O que podemos saber sobre a obra de Deus? Primeiro, Deus criou todas as coisas a partir do nada, pela sua Palavra e pelo seu Espírito. Ele criou com liberdade, não por necessidade, e tudo o que fez era bom. No centro do seu propósito está Cristo e uma humanidade redimida.
Segundo, Deus não abandonou o que criou. Ele conserva tudo em existência a cada instante. Age junto com as criaturas, que agem de verdade. E governa todas as coisas, das maiores às menores, para o fim que propôs, querendo e realizando o bem e permitindo o mal, do qual não é autor. Às vezes ele age acima do curso comum da natureza, nos milagres.
Essa doutrina traz conforto para a vida diária. Ela nos ensina gratidão, porque tudo o que temos recebemos de Deus. Ela nos chama a cuidar da criação, que pertence a ele e que um dia será “liberta da escravidão da degradação” (Romanos 8:21). E ela nos livra da ansiedade, porque “sabemos que todas as coisas juntamente contribuem para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28). Isso não promete uma vida sem dor, mas garante que nenhuma dor está fora das mãos do Pai. Calvino tinha razão quando escreveu:
[…] a ignorância da providência é a maior de todas as misérias, e o conhecimento dela traz a mais alta felicidade.
(João Calvino, Institutas, I.17.11, tradução nossa)
Fontes
- Agostinho. A cidade de Deus, XI.6.
- Armínio, Jacó. Debates privados, XXIV e XXVIII; Artigos que devem ser diligentemente examinados. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Armínio, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608), II.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. I.16.1; I.17.9; I.17.11; I.18.4.
- Credo Niceno-Constantinopolitano (381).
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
- Ireneu de Lião. Contra as heresias, II; Tertuliano. Contra Hermógenes.
- Wesley, John. Sermões Sobre a divina providência e Culto divino; Diário, 6 de julho de 1781. Em Coletânea da teologia de João Wesley.
Teologia Sistemática, Parte 3: Deus. Capítulo anterior: Capítulo 17: Os decretos de Deus e a predestinação. Próximo capítulo: Capítulo 19: A providência e o problema do mal.
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