
EstudosEstudos em Gênesis10 de 20
Gênesis 1 e as cosmologias antigas: o sol perde o trono
O que Gênesis 1 fez com os deuses da criação
Neste estudo
- Um mundo com o céu cheio de gente
- O sol no Egito, na Mesopotâmia e em Ugarit
- O que Gênesis 1 faz, dia após dia
- Quando foi escrito, e por quem
- Como os primeiros leitores entenderam
- De onde vem a autoridade para ordenar o mundo?
- A objeção do mundo desencantado
- O que muda para quem vive como criatura
- De volta ao homem que esperava o amanhecer
Antes de o dia nascer, um homem sai de casa numa cidade antiga da Mesopotâmia e espera, de pé, o primeiro clarão avermelhado se erguer atrás das montanhas. Para ele, aquilo que sobe no horizonte não é uma bola de fogo distante: é alguém, um deus com nome, com vontade e com um trono. É exatamente esse mundo que Gênesis 1 vai colocar de cabeça para baixo, quando sol, lua, mar e animais deixam de ser poderes divinos e passam a ser criaturas de um único Criador.
Temos como comparar, porque as cosmologias vizinhas sobreviveram em tábuas de argila desenterradas nas ruínas da Assíria, do Egito e da Síria, e o texto hebraico de Gênesis está diante de nós para ser lido palavra por palavra. Neste estudo vamos primeiro ouvir com respeito o que esses povos acreditavam, depois observar, dia após dia, o que Gênesis fez com cada um daqueles deuses, e por fim perguntar o que muda para quem vive como criatura entre criaturas.
Um mundo com o céu cheio de gente
Para entender o que Gênesis 1 está fazendo, precisamos primeiro entrar no mundo em que ele foi lido, e esse mundo tinha o céu cheio de gente.
Em 1849, escavadores ingleses começaram a retirar das ruínas de Nínive, no norte do atual Iraque, milhares de tábuas de argila que tinham pertencido à biblioteca do rei Assurbanipal. As tábuas ficaram anos guardadas no Museu Britânico, quebradas, misturadas e sem tradução, até que um jovem funcionário chamado George Smith, que tinha aprendido sozinho a ler a escrita cuneiforme, começou a juntar os pedaços. Em 1872, ele leu diante de uma plateia de estudiosos um relato babilônico do dilúvio, e a notícia correu o mundo, porque pela primeira vez se ouvia uma história parecida com a da Bíblia vinda de fora dela.
Entre os textos que Smith e os seus sucessores reconstruíram estava um poema em sete tábuas, chamado pelos estudiosos de Enuma Elish, por causa das duas primeiras palavras, que significam “quando no alto”. Ele conta que, no princípio, existiam apenas as águas: Apsu, a água doce, e Tiamat, o mar salgado, misturados um no outro, sem nome, sem céu e sem terra.
Dessa mistura nascem gerações de deuses, cada vez mais numerosos e mais barulhentos, e o barulho deles perturba o sono do velho Apsu. Ele decide destruir os próprios descendentes, mas um deles, o deus Ea, descobre o plano, adormece Apsu com um encantamento e o mata, construindo a sua morada sobre o corpo do pai. É nessa morada que nasce Marduk, o deus da cidade da Babilônia, descrito no poema como o mais alto, o mais forte e o mais belo de todos os deuses.
Tiamat, o mar, fica sabendo da morte de Apsu e se levanta em fúria. Ela dá à luz um exército de monstros, serpentes de veneno, dragões, homens-escorpião e touros gigantes, e entrega o comando a um deus chamado Kingu, junto com as tábuas do destino. Os deuses mais jovens tremem de medo, e dois deles são enviados para enfrentá-la, um após o outro, e ambos voltam sem coragem de olhar para ela.
Então Marduk se oferece, com uma condição clara: se vencer, será rei de todos os deuses para sempre, e a palavra dele será a última. Os deuses aceitam, testam o poder dele fazendo uma constelação desaparecer e reaparecer à sua ordem, e o enviam para a guerra. Marduk prende Tiamat numa rede, sopra os ventos para dentro da boca aberta dela, atravessa o corpo do mar com uma flecha e, com as duas metades desse cadáver, faz o céu e a terra.
Na quinta tábua, ele organiza o mundo: fixa as estrelas, determina o lugar da lua e do sol, estabelece os meses e o calendário. Na sexta, cria os seres humanos com o sangue de Kingu, o deus derrotado, e o poema explica o motivo com toda a franqueza: para que os homens fizessem o trabalho pesado e os deuses pudessem descansar. Depois disso os deuses constroem a Babilônia como morada de Marduk, e o poema termina recitando os cinquenta nomes que proclamam a soberania dele.
Repare no que essa história está dizendo. O mundo não foi feito do nada: foi feito de um corpo vencido, e a ordem nasceu de uma guerra. A humanidade existe para servir, e a cidade da Babilônia é o centro do universo porque o deus dela venceu.
Textos rituais mais tardios indicam que esse poema era recitado inteiro durante a festa de ano novo da Babilônia, diante da estátua de Marduk. Não era apenas uma história antiga guardada numa prateleira, mas a verdade oficial de um império, repetida todo ano para lembrar quem mandava no céu e, por consequência, na terra.
Seria injusto tratar isso como uma fábula ingênua. Esses textos estavam tentando responder, com seriedade, às perguntas mais difíceis que uma pessoa pode fazer: por que o mundo é violento, por que a vida humana é tão trabalhosa, e por que o caos parece sempre pronto a voltar. Quem já viu o Tigre e o Eufrates saírem do leito e levarem uma aldeia inteira entende por que o mar recebeu o rosto de uma deusa furiosa.
O sol no Egito, na Mesopotâmia e em Ugarit
E o sol? No Egito, ele era o próprio coração da religião. Rá atravessava o céu num barco durante o dia e, durante a noite, descia ao mundo dos mortos para enfrentar a serpente do caos, Apófis, que tentava engolir a luz. Cada amanhecer era uma vitória renovada, e cada noite, uma batalha que ninguém podia dar por vencida antes de o sol aparecer de novo.
Houve um momento em que o Egito quase chegou a algo diferente, e vale a pena parar nele, porque ajuda a entender o que Gênesis fez e o que Gênesis não fez. Por volta do século XIV a.C., um faraó chamado Amenhotep IV mudou o próprio nome para Akhenaton, fechou os grandes templos dos outros deuses e construiu uma cidade nova no deserto, hoje chamada Amarna. Ali ele concentrou todo o culto numa única divindade: Aton, o disco solar, representado como um círculo do qual descem raios terminados em pequenas mãos. Um hino atribuído a ele, encontrado gravado numa tumba da cidade, diz que, quando o disco se põe, a terra fica em trevas como se estivesse morta, e que toda a vida acorda quando ele se levanta.
Muitos estudiosos, desde o início do século XX, notaram semelhanças entre esse hino e o Salmo 104, que também descreve os animais saindo à noite e os homens indo ao trabalho quando o sol nasce. Se houve influência direta, ou apenas um imaginário comum daquela região, é debatido, e não vamos afirmar mais do que a evidência sustenta.
Mas repare no que Akhenaton fez e no que ele não fez. Reduziu o número de deuses, e por isso alguns o chamam de primeiro monoteísta da história, embora outros prefiram termos mais cautelosos. O que ele não fez foi retirar o sol do trono. Aton continuava sendo o próprio disco no céu, adorado ao ar livre, e o faraó era o único que podia falar em nome dele. A reforma durou pouco. Depois da morte de Akhenaton, os templos foram reabertos, o nome dele foi apagado dos monumentos, e o Egito voltou aos seus muitos deuses. O sol tinha ganhado um trono ainda maior por alguns anos e depois voltou a dividi-lo com os outros. Em nenhum momento deixou de ser deus.
Na Mesopotâmia, o deus sol, Shamash, era o guardião da justiça, porque via tudo o que acontecia sob o céu. No alto da estela onde o rei Hamurábi gravou as suas leis, por volta do século XVIII a.C., é Shamash quem aparece sentado num trono, entregando ao rei os símbolos da autoridade. A justiça humana tinha um fiador celeste, e esse fiador era o sol.
Na cidade de Ugarit, na costa da atual Síria, tábuas encontradas a partir de 1929 contam a história do deus Yam, o Mar, e do seu combate com Baal, o senhor da tempestade, pelo direito de reinar sobre os deuses. Os mesmos textos mencionam um monstro marinho de sete cabeças chamado Lotan, cujo nome os estudiosos aproximam do Leviatã da Bíblia.
Pense nisso por um momento. O sol tinha trono. O mar tinha nome, exército e um monstro de sete cabeças. Os grandes animais das profundezas estavam a serviço de uma deusa. E os seres humanos existiam para servir a esses poderes, porque tinham sido feitos justamente para isso.
O que Gênesis 1 faz, dia após dia
Agora abra Gênesis 1 e leia devagar, dia após dia.
O texto começa com uma frase que não tem paralelo em nenhuma daquelas tábuas: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1:1). Não há água anterior a Deus, não há casal de divindades, não há nascimento de deuses e não há guerra. Há apenas um Criador, e um verbo hebraico, bará, que na Bíblia só tem Deus como sujeito.
O versículo seguinte descreve a terra “sem forma e vazia”, com trevas sobre a face do abismo (Gn 1:2). A palavra hebraica para abismo, tehom, lembra na sonoridade o nome de Tiamat, e alguns estudiosos veem aí um parentesco de vocabulário entre as línguas da região, enquanto outros consideram a semelhança apenas casual. O que importa é o que o texto faz com esse abismo: não o combate, não lhe dá rosto nem voz. Diz apenas que o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
No primeiro dia, Deus fala, e a luz existe (Gn 1:3). Não há esforço, não há ferramenta, não há corpo de ninguém sendo usado como matéria-prima. A separação entre luz e trevas é feita por decreto, e o dia e a noite recebem nomes, como quem batiza o que lhe pertence.
No segundo dia, o texto fala de um firmamento que separa as águas de cima das águas de baixo. É preciso ser honesto aqui: essa é a maneira antiga de descrever o mundo, um céu sólido segurando um oceano superior, e o texto usa a imagem que os seus primeiros leitores conheciam. Ele não está ensinando astronomia. Está dizendo quem colocou cada coisa no lugar.
No terceiro dia, Deus fala, as águas se ajuntam num só lugar, e ele lhes dá um nome: mares (Gn 1:9-10). Onde os babilônios ouviam o rugido de Tiamat e os ugaríticos viam Yam disputando o trono, o leitor de Gênesis ouve apenas uma ordem, e a ordem é obedecida. No mesmo dia surgem a vegetação e as árvores, cada uma com a semente da sua espécie.
Então chega o quarto dia, e com ele o detalhe que muitos estudiosos consideram o mais impressionante de todo o capítulo. Quando o texto chega ao sol e à lua, ele se recusa a dizer os nomes deles. Fala apenas de “dois grandes luzeiros, o maior para governar o dia e o menor para governar a noite” (Gn 1:16), como quem descreve duas lâmpadas penduradas numa parede. Em hebraico, a palavra para sol é shemesh, quase idêntica ao nome do deus Shamash, e o texto simplesmente não a usa. Se isso foi uma escolha deliberada para evitar o nome de um deus, ou apenas um estilo de escrita, é uma questão de interpretação, e é honesto dizer que não podemos provar a intenção do autor. Mas o efeito, para quem conhecia as histórias vizinhas, é difícil de ignorar.
E há algo ainda mais estranho na ordem dos dias. A luz é criada no primeiro dia, e o sol só aparece no quarto. Basílio de Cesareia, um bispo do século IV, comentou esse detalhe nas suas pregações sobre os seis dias da criação e sugeriu que a luz veio antes justamente para que ninguém pensasse que ela pertencia ao sol. Basílio estava lendo o texto muitos séculos depois, e a leitura dele é testemunho, não prova, mas ele percebeu algo que os antigos leitores talvez também percebessem: em Gênesis, o sol chega tarde, e chega como funcionário.
O versículo 14 dá aos luzeiros uma tarefa: servir de sinais para as estações, os dias e os anos (Gn 1:14). É quase a mesma tarefa que Marduk atribui aos astros na quinta tábua do Enuma Elish, e essa semelhança é reveladora. Nos dois textos os astros marcam o calendário. A diferença é que num deles o sol é um deus recebendo um cargo, e no outro é um objeto recebendo uma função. O texto usa a palavra “governar” para os luzeiros, e isso importa. Eles não são apagados, nem humilhados, nem descritos como inúteis. Recebem um governo real sobre o dia e a noite, mas recebem esse governo de alguém, e um governo delegado é uma coisa muito diferente de um trono próprio.
No quinto dia, o texto diz que Deus criou “os grandes animais marinhos” (Gn 1:21). A palavra hebraica, tanninim, é a mesma usada em outros textos para os monstros do mar, as criaturas do caos. Aqui eles não são inimigos vencidos: são criaturas feitas de propósito, abençoadas e mandadas a se multiplicar. O Salmo 104 chega a dizer que o Leviatã, o primo bíblico do monstro de sete cabeças de Ugarit, foi formado para brincar nas águas (Sl 104:26). Leia de novo com calma. O monstro que os vizinhos temiam virou um animal que brinca.
No sexto dia vêm os animais da terra, cada um segundo a sua espécie, e depois os seres humanos. Eles não são feitos do sangue de um deus derrotado para carregar o peso do trabalho divino. São feitos à imagem de Deus, homem e mulher, e recebem a criação como responsabilidade, não como castigo (Gn 1:26-27). Essa expressão, imagem de Deus, tinha um sentido concreto naquele mundo. Os reis do Oriente Antigo mandavam erguer estátuas de si mesmos em regiões distantes, para que a imagem representasse a autoridade do rei onde ele não estava. Muitos intérpretes leem Gênesis 1 à luz disso: o ser humano é colocado no mundo como representante de um Rei que continua sendo o dono, e não como dono por conta própria. É uma leitura, não uma certeza, mas é uma leitura que o próprio contexto sugere.
A palavra “bom” atravessa o capítulo sete vezes, e a última delas diz que tudo era “muito bom” (Gn 1:31).
E então vem o sétimo dia, que encerra o contraste da maneira mais silenciosa possível. No Enuma Elish, os deuses descansam porque os humanos foram criados para trabalhar no lugar deles. Em Gênesis, é Deus quem descansa, e ele abençoa esse dia (Gn 2:2-3), que mais tarde será oferecido aos seres humanos, aos servos, aos estrangeiros e até aos animais (Êx 20:8-11). Lá, o descanso é privilégio de deuses. Aqui, é presente para criaturas.
Quando foi escrito, e por quem
É preciso fazer uma observação honesta sobre datas. As cronologias tradicionais, somando as idades dos patriarcas, chegaram a datas como o ano 4004 a.C., na conhecida conta do arcebispo James Ussher, mas isso é uma âncora de leitura herdada, não um dado arqueológico. A data em que o texto de Gênesis 1 foi escrito também é debatida: a tradição o atribui a Moisés, e muitos estudiosos modernos situam a sua forma final no período do exílio na Babilônia, ou depois dele.
Se essa segunda hipótese estiver certa, o capítulo teria sido lido pela primeira vez por um povo cercado justamente pelas histórias de Marduk e Tiamat, ouvindo todo ano a recitação do Enuma Elish nas ruas da cidade que os tinha derrotado. Isso tornaria o contraste ainda mais eloquente, mas o contraste não depende da hipótese. Podemos discutir quando e por quem o texto foi escrito, e se ele foi composto como resposta direta às tábuas babilônicas ou não. O que está diante dos olhos de qualquer leitor é que, num mundo em que o sol tinha trono, apareceu um texto em que o sol obedece.
Como os primeiros leitores entenderam
Os leitores desse texto entenderam o que ele estava fazendo. O livro de Isaías, num trecho que muitos estudiosos situam justamente no contexto do exílio, manda o povo levantar os olhos ao céu e perguntar quem criou aquelas estrelas, e responde que é aquele que as chama todas pelo nome, sem que falte uma (Is 40:26). Os astros que a Babilônia adorava e consultava são descritos como um rebanho, e Deus, como o pastor que os conta.
Séculos depois, os primeiros cristãos enfrentaram uma versão romana do mesmo trono. No ano 274, o imperador Aureliano deu ao Sol Invicto um culto oficial e um templo em Roma, e o sol se tornou uma espécie de padroeiro do império. Os cristãos responderam usando uma imagem do profeta Malaquias e passaram a chamar Cristo de “sol da justiça” (Ml 4:2). Não era uma rendição ao culto solar, mas uma maneira de dizer que a luz verdadeira estava atrás do sol, e não nele.
De onde vem a autoridade para ordenar o mundo?
Nas cosmologias vizinhas, a autoridade nasce da vitória. Marduk é rei porque venceu, e a ordem do cosmos é a ordem de um vencedor sentado sobre o corpo do vencido, sempre com o risco de que o caos volte. Em Gênesis, ninguém precisou vencer ninguém, porque não havia rival. A autoridade não é conquistada, é original: Deus ordena o mundo porque o mundo é dele desde o princípio, e ordena falando, não lutando.
Isso muda a relação de todo o resto com o poder. Quando a ordem nasce de uma guerra, ela é frágil, porque a guerra pode ser reaberta. Quando nasce de uma palavra, ela é confiável, porque depende apenas da fidelidade de quem falou. Deuteronômio tira a consequência prática disso ao advertir Israel para não erguer os olhos ao sol, à lua e às estrelas e se prostrar diante deles, porque Deus os repartiu a todos os povos, como se fossem um presente, e não um senhor (Dt 4:19).
A objeção do mundo desencantado
Antes de celebrar essa mudança, é justo ouvir quem enxerga nela uma perda, e ouvir na melhor forma.
O sociólogo Max Weber, numa conferência de 1917, descreveu o mundo moderno como um mundo “desencantado”, esvaziado de espíritos e mistérios, em que tudo pode, em princípio, ser calculado. Alguns intérpretes veem na fé bíblica um dos primeiros passos desse esvaziamento: quando o rio deixa de ser um deus, ele começa a virar um recurso. Em 1967, o historiador Lynn White publicou na revista Science um artigo influente afirmando que a crise ecológica moderna tinha raízes justamente nessa visão, porque um mundo de criaturas feitas para o homem é um mundo que se pode explorar sem culpa.
Antropólogos que estudam povos tradicionais reforçam o argumento por outro caminho. Um mundo cheio de espíritos é também um mundo de limites, em que uma árvore não se corta sem pedir licença, um animal não se mata sem um rito e uma fonte não se suja sem consequência. Retire os espíritos, dizem eles, e você retira também o freio.
Essa objeção merece ser levada a sério, porque descreve algo real. Uma criatura pode, de fato, ser tratada como coisa. Um cosmos sem deuses rivais pode virar um cosmos sem respeito, e a história das sociedades que leram Gênesis tem episódios suficientes para mostrar que isso aconteceu.
Mas o texto de Gênesis não deixa o mundo vazio depois de retirar os tronos. Ele deixa o mundo cheio de criaturas que Deus chamou de boas antes que qualquer ser humano existisse, e que não precisam ser úteis para terem valor. Os animais do mar e do ar recebem uma bênção antes de os seres humanos serem sequer mencionados (Gn 1:22). O sol perde o trono, mas não perde o brilho, e a lua continua a governar a noite. O mar que Tiamat encarnava vira o lugar onde o Leviatã brinca. E o descanso do sétimo dia, quando se torna lei em Êxodo, inclui o boi e o jumento, e em Levítico 25 inclui até a terra, que a cada sete anos tem direito a não ser lavrada. Um mundo onde a terra tem direito a descansar não é um mundo entregue sem freio a quem quiser explorá-lo.
O livro de Jó vai ainda mais longe. Nos capítulos 38 a 41, Deus apresenta a Jó o jumento selvagem, o avestruz, o Beemote e o Leviatã, criaturas que não servem para nada na economia humana, e fala delas com evidente satisfação. O mundo de Gênesis não gira em torno do ser humano. Gira em torno de quem o fez.
E, no fim do capítulo, o texto retira o próprio ser humano de qualquer trono. O Salmo 8, que é uma meditação sobre Gênesis 1, olha para a lua e as estrelas e pergunta: “Que é o homem, para que dele te lembres?” (Sl 8:4). A resposta não é que ele é o dono do mundo, mas que é uma criatura, feita pouco menor do que os seres celestiais, colocada dentro de uma ordem que não inventou (Sl 8:4-5).
O que muda para quem vive como criatura
O que muda, então, para quem vive assim, como criatura entre criaturas?
Muda o medo. O homem antigo que esperava o amanhecer vivia entre poderes que podiam se voltar contra ele a qualquer momento e precisava negociar com o mar, com o sol e com a tempestade. Quem lê Gênesis continua vulnerável a todos eles, porque a enchente e a seca não deixaram de existir, mas já não os encara como vontades a serem apaziguadas.
Muda o lugar da dignidade. Nas tábuas da Babilônia, o ser humano existe para aliviar a fadiga dos deuses. Em Gênesis, existe porque Deus quis, e é abençoado antes de ter feito qualquer coisa. Ninguém precisa conquistar o direito de existir num mundo assim.
Muda a responsabilidade. Quem recebe o mundo como presente responde por ele diante de quem deu, e responder é mais exigente do que apaziguar. Dá para subornar um deus com um sacrifício, mas não dá para subornar um Criador que já declarou o que espera.
Existe ainda uma consequência que muitos historiadores da ciência apontam, embora o argumento seja discutido. Um cosmos em que o sol é um deus não pode ser medido sem ofensa. Um cosmos em que o sol é um luzeiro pode ser observado, calculado e compreendido sem que isso seja profanação. Não é possível provar que a ciência moderna nasceu desse texto, e seria desonesto afirmá-lo, mas é possível dizer que o texto abriu uma porta que outras cosmologias mantinham fechada.
E há, por fim, algo que muda na adoração. Quem tira o sol do trono não fica sem trono para olhar. Fica com um trono que não pode ser visto, e por isso precisa ser buscado de outro jeito, na palavra que falou no princípio e nas criaturas que essa palavra deixou como sinais.
De volta ao homem que esperava o amanhecer
Volte agora ao homem que esperava o amanhecer. Imagine que ele ouviu, em algum momento, essa história diferente, contada por um povo pequeno vindo de longe, talvez um grupo de exilados que ainda falava de um Deus sem estátua. O sol subiu do mesmo jeito, avermelhado atrás das mesmas montanhas, com o mesmo calor no rosto. Mas ele não se ajoelhou. Ficou de pé, olhando, e talvez tenha percebido que ainda podia agradecer pela luz, só que agora a alguém que estava atrás dela.
O sol não perdeu nada naquela manhã. Perdeu apenas um trono que nunca tinha sido dele.
Em que ponto da sua vida ainda existe um “sol” que parece mandar em tudo, e o que mudaria se você o visse apenas como criatura?
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