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EstudosEstudos em Gênesis8 de 18

Quem foram os nefilins de Gênesis 6:4? Interpretações

Quem Eram os Nefilins? O Que a Bíblia Realmente Diz Sobre o Texto Mais Estranho de Gênesis

Diego Gonçalves6 min de leitura1.114 palavras

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Neste estudo

Se você abrir a Bíblia em Gênesis 6, logo no comecinho do capítulo, vai encontrar quatro versículos que parecem ter saído diretamente de um filme de ficção científica ou de uma lenda antiga da Mesopotâmia. O texto diz o seguinte:

“Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas, e escolheram para si as que quiseram (…) Havia nefilins na terra naqueles dias, e também depois, quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens e estas lhes deram filhos. Esses foram os valentes do passado, homens de renome” (Gênesis 6:1-4).

Poucos trechos bíblicos geraram tanta curiosidade, especulação mirabolante e teorias de conspiração na internet quanto esses quatro versos. Já inventaram de tudo: de alienígenas do passado a raças secretas de gigantes de dez metros de altura escondidas pela arqueologia.

Só que o autor de Gênesis não estava escrevendo um conto de fadas nem um roteiro para o cinema. Pra entender o que está acontecendo ali, a gente precisa deixar a histeria moderna de lado e olhar para o contexto histórico, a língua hebraica e a mensagem que o texto queria passar aos seus primeiros leitores.

De Onde Vem a Palavra “Nefilim”?

A primeira confusão vem da própria tradução da Bíblia. Muitas versões antigas traduziram a palavra hebraica nephilim simplesmente como “gigantes”. Essa tradução veio da Septuaginta (a versão grega do Antigo Testamento traduzida cerca de dois séculos antes de Cristo), que usou a palavra grega gigantes, influenciada pela mitologia grega dos titãs.

No hebraico, no entanto, a raiz mais provável do termo é o verbo naphal, que significa “cair”. Portanto, nephilim pode significar literalmente “os caídos” ou, numa interpretação muito comum entre os linguistas, “aqueles que caem sobre os outros” — ou seja, atacantes ferozes, salteadores, opressores violentos. O próprio versículo 4 os descreve com outra expressão hebraica muito conhecida: gibborim, que significa “guerreiros valentes, homens poderosos de guerra”.

Eles não eram monstros biológicos bizarros de três cabeças; eram guerreiros implacáveis, tiranos que impunham a sua vontade pela força bruta das armas e que ficaram famosos na memória coletiva dos povos antigos por suas façanhas sangrentas.

Quem Eram os “Filhos de Deus”?

O grande debate teológico e histórico gira em torno da identidade dos “filhos de Deus” que se uniram às “filhas dos homens”. Ao longo dos séculos, três interpretações principais foram defendidas por estudiosos sérios:

1. A Interpretação Sobrenatural (Seres Espirituais Rebeldes)

Essa é a leitura mais antiga registrada na literatura judaica do período do Segundo Templo (como no livro apócrifo de 1 Enoque, e nos escritos de historiadores como Flávio Josefo). Segundo essa visão, a expressão hebraica bene Elohim (“filhos de Deus”), que no livro de Jó é usada para se referir a anjos (Jó 1:6; 2:1), descreveria seres celestiais rebeldes que violaram a barreira entre o mundo espiritual e o físico. Autores do Novo Testamento como Pedro e Judas parecem fazer alusão a essa tradição antiga quando falam de “anjos que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram sua própria morada” (Judas 6; 2 Pedro 2:4). O problema dessa linha, apontado por muitos teólogos posteriores, é que o próprio Jesus afirmou que os anjos não se casam nem se reproduzem (Mateus 22:30).

2. A Interpretação das Duas Linhagens (A Linha Piedosa de Sete)

Defendida por gigantes da história da igreja como Agostinho, João Calvino e a maioria dos teólogos da Reforma, essa corrente prefere olhar para o contexto imediato dos capítulos anteriores de Gênesis. Em Gênesis 4, temos a descendência de Caim, caracterizada pela violência, pela arrogância e pelo homicídio. Em Gênesis 5, temos a descendência de Sete, a linhagem piedosa que começou a “invocar o nome do Senhor”. Nessa leitura, os “filhos de Deus” seriam os homens da linhagem piedosa de Sete, e as “filhas dos homens” seriam as mulheres da descendência ímpia de Caim. O pecado descrito não foi uma aberração biológica cósmica, mas o abandono da fidelidade a Deus: a linhagem que guardava a fé se rendeu à atração puramente carnal e casou-se indiscriminadamente com a cultura corrompida, apagando a fronteira moral entre a santidade e o pecado.

3. A Interpretação dos Reis e Déspotas Dinásticos

Uma terceira interpretação, muito valorizada por arqueólogos e especialistas em Antigo Oriente Próximo, observa que no mundo antigo os governantes, reis e tiranos frequentemente se autoproclamavam “filhos dos deuses”. Nessa perspectiva, governantes poderosos e déspotas poligâmicos começaram a tomar violentamente para si as mulheres que queriam, estabelecendo haréns forçados e gerando clãs de guerreiros opressores que aterrorizavam as populações vizinhas.

O Que o Texto Realmente Quer Ensinar

Independentemente de qual dessas três teorias você ache mais convincente, o ponto central de Gênesis 6 não é satisfazer a nossa curiosidade sobre o sobrenatural ou sobre mitologia antiga. O objetivo do autor bíblico é retratar a escalada vertiginosa e apavorante do pecado humano.

Repare na progressão moral que Gênesis constrói desde o Éden:

  • O pecado começa com uma dúvida e a desobediência a uma ordem no jardim (Gênesis 3).
  • No capítulo seguinte, a inveja vira o primeiro assassinato entre irmãos: Caim mata Abel (Gênesis 4).
  • Poucas gerações depois, Lameque compõe um poema arrogante se gabando de ter matado um jovem apenas por ter sido ferido (Gênesis 4:23).
  • E, quando chegamos a Gênesis 6, a violência e a corrupção se tornaram institucionais, sistêmicas e glorificadas.

Os nefilins eram os “homens de fama” daquela época. Eles eram as celebridades do mundo antigo que todo mundo admirava e temia porque eram fortes, implacáveis e conquistavam tudo o que desejavam pela ponta da espada. O mundo aplaudia a tirania, a força militar e o culto à celebridade violenta.

Mas veja como Deus enxerga aquilo que os homens celebravam. O versículo 5, logo após a menção aos nefilins, dá o diagnóstico do Criador: “O Senhor viu que a maldade do homem havia se multiplicado na terra e que todo desígnio dos pensamentos do seu coração era continuamente mau”.

Aquilo que o mundo chamava de grandeza e heroísmo, Deus chamava de podridão moral e violência desmedida.

E é aí que entra o choque do texto bíblico. Enquanto a civilização inteira dobrava os joelhos diante dos guerreiros famosos e da força opressora dos nefilins, o versículo 8 quebra a narrativa com uma frase simples e desconcertante: “Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor”.

Aos olhos de Deus, o herói não era o déspota que impunha o medo e colecionava troféus de guerra; era o homem justo que andava humildemente com Deus na contramão da sua geração. Essa continua sendo a lição mais urgente de Gênesis: o poder, a fama e a arrogância humana que a história costuma idolatrar são pó e cinza perante o juízo do Altíssimo. O que permanece para sempre é a fidelidade daquele que confia na graça do Senhor.