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EstudosEstudos em Gênesis21 de 25

Gênesis 5A morte que reina de Adão a Noé

Estudo indutivo de Gênesis 5: a genealogia, o refrão que se repete, o homem que andou com Deus e o filho do alívio

Diego Gonçalves12 min de leitura2.374 palavras

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Neste estudo

Quem já visitou o jazigo da família num Dia de Finados conhece o ritual: a vassoura, o balde, as flores e a leitura em voz baixa dos nomes na pedra. Nome, data de nascimento, data de morte, e a lápide seguinte, igual.

Gênesis 5 é esse cemitério em forma de capítulo. Dez nomes, de Adão a Noé, e uma frase que volta como o sino de uma igreja pequena: “e morreu”. A pergunta deste estudo é simples: por que Deus pôs na Bíblia uma lista tão repetitiva, e o que ela ensina a quem a lê hoje?

O capítulo liga dois mundos: atrás ficam o jardim, a queda e a morte de Abel, e à frente vem o dilúvio. A genealogia passa a promessa de uma geração a outra, como quem passa uma tocha num corredor escuro, e por isso Lucas a aproveita para chegar a Jesus (Lucas 3:36-38).

O livro das gerações de Adão (vv. 1-5)

Este é o livro das gerações de Adão. No dia em que criou Deus ao ser humano, à semelhança de Deus o fez; Macho e fêmea os criou; e os abençoou, e chamou o nome deles Adão, no dia em que foram criados. E viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme sua imagem, e chamou seu nome Sete.

(Gênesis 5:1-3, Bíblia Livre)

Observação. O capítulo abre com um título, “o livro das gerações”, e volta ao dia da criação antes de contar o primeiro nascimento. “Adão” aparece primeiro como o ser humano, homem e mulher juntos, e só depois como o nome de uma pessoa. Há também uma diferença de fórmula: Deus fez o ser humano “à semelhança de Deus” (v. 1), e Adão gera um filho “à sua semelhança, conforme sua imagem” (v. 3). A vida do primeiro homem fecha, no versículo 5, com três palavras: “e morreu”.

Interpretação. O termo “gerações” (toledot, em hebraico) divide o livro de Gênesis em blocos. Mateus o retoma, na tradução grega, quando abre o Evangelho com o “livro da geração de Jesus Cristo” (Mateus 1:1).

A comparação entre os versículos 1 e 3 diz muito. A imagem de Deus não se apagou com a queda, pois Gênesis 9:6 ainda funda a proibição do homicídio nela. Porém Sete nasce de um pai que já tinha pecado e já era mortal: a imagem passa adiante, e a morte passa junto. Paulo explica esse laço: “assim como por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os seres humanos, porque todos pecaram” (Romanos 5:12). O Deus que avisou “morrerás” (Gênesis 2:17) cumpriu a palavra, e Adão morreu aos 930 anos.

Aplicação. O cemitério do começo do estudo tem uma causa, e ela está nos primeiros capítulos da Bíblia. Cada velório repete o que aconteceu em Adão. Ao mesmo tempo, a imagem de Deus em cada pessoa nos obriga a tratar bem todo ser humano, do bebê à pessoa idosa.

Perguntas para discussão

  1. O que a volta ao dia da criação, no versículo 1, ensina sobre o propósito da genealogia?
  2. Que diferença você vê entre “à semelhança de Deus” (v. 1) e “à sua semelhança, conforme sua imagem” (v. 3)?
  3. Como a dignidade do ser humano muda o nosso trato com as pessoas?

A batida que se repete: nascer, viver, morrer (vv. 6-20)

E viveu Sete cento e cinco anos, e gerou a Enos. E viveu Sete, depois que gerou a Enos, oitocentos e sete anos: e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Sete novecentos e doze anos; e morreu.

(Gênesis 5:6-8, Bíblia Livre)

Observação. Os versículos 9 a 20 repetem esse molde com Enos, Cainã, Maalalel e Jarede. Cada vida tem três passos: a idade ao gerar o filho que leva a linha adiante, os anos seguintes, em que nascem outros filhos e filhas, e a soma total, fechada com “e morreu”. Os números variam, a estrutura não.

Interpretação. O refrão tem duas metades, e cada uma ecoa uma palavra de Deus. “Gerou filhos e filhas” lembra a bênção da criação: “Frutificai e multiplicai, e enchei a terra” (Gênesis 1:28). “E morreu” lembra o aviso do jardim: “morrerás” (Gênesis 2:17). O capítulo mostra a bênção e a sentença andando lado a lado pela história.

Sete é o filho que Eva recebeu “em lugar de Abel”, e no tempo de Enos “os homens começaram a invocar o nome do SENHOR” (Gênesis 4:25-26). É a linha da promessa. A de Caim ficou no capítulo 4. Logo depois da genealogia, Gênesis 6 mostra a maldade espalhada pela terra, com o desígnio do coração humano “só mau continuamente” (Gênesis 6:5). O capítulo 5 fica entre dois quadros: os que invocam o SENHOR e um mundo que se afasta dele.

Resta a dúvida sobre as idades, e há duas posições comuns. A primeira lê os números ao pé da letra e supõe que a terra ou o corpo humano eram diferentes antes do dilúvio, até a vida encurtar como diz o salmista: “Os dias de nossa vida chegam até os setenta anos” (Salmos 90:10). A segunda vê nos números um sentido simbólico ou uma forma de contar que não é a nossa, e lembra que as listas de reis da Suméria falam de reinados de dezenas de milhares de anos. Nenhuma alternativa convenceu todos, e o texto não dá a causa. A ideia de uma camada de vapor de água que protegia a terra da radiação é só hipótese, e a Bíblia não a afirma. Seguimos o sentido natural do texto, que apresenta os números como história, e deixamos o motivo em aberto.

Há ainda quem ache que a lista é resumida, porque “gerou” pode querer dizer “foi antepassado de”: Mateus 1:8 diz que Jorão gerou Uzias, e entre os dois houve três reis. O sentido não muda, pois a morte alcança todas as gerações e Deus sustenta a promessa em todas elas.

Aplicação. A repetição ensina pelo cansaço. Costumamos olhar a morte como acidente ou fatalidade, e o capítulo a apresenta como sentença universal, que a Bíblia explica pelo pecado. Isso vale para todos nós. O mesmo capítulo mostra, porém, pessoas que continuaram a gerar filhos e a invocar o nome do SENHOR. A vida comum, de trabalho, família e culto, importa para Deus, mesmo num mundo marcado pela morte.

Perguntas para discussão

  1. Que duas palavras de Deus o refrão “gerou filhos e filhas” e “e morreu” ecoa?
  2. Qual é a relação entre Gênesis 4:25-26 e a linha de Sete?
  3. Entre as explicações para as idades, qual parece mais coerente com o texto? O que não podemos afirmar com certeza?

Enoque: caminhou com Deus e desapareceu (vv. 21-24)

E viveu Enoque sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém. E caminhou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos: e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos sessenta e cinco anos. Caminhou, pois, Enoque com Deus, e desapareceu, porque Deus o levou.

(Gênesis 5:21-24, Bíblia Livre)

Observação. A fórmula quebra. Nos outros casos o texto diz “viveu”; aqui diz “caminhou com Deus”, e repete a expressão nos versículos 22 e 24. A soma dos dias de Enoque, 365 anos, é bem menor que a dos vizinhos, e a frase final não diz “e morreu”: ele “desapareceu, porque Deus o levou”. Os trezentos anos de caminhada começam depois do nascimento de Matusalém.

Interpretação. “Caminhar com Deus” fala de convívio e de direção, de uma vida de comunhão e obediência passo a passo. No Antigo Testamento a expressão serve para Enoque e Noé (Gênesis 6:9). O SENHOR diz a Abraão: “anda diante de mim, e sê íntegro” (Gênesis 17:1), e Miqueias resume o que Deus pede: “fazer o que é justo, amar a bondade, e andar humildemente com teu Deus” (Miqueias 6:8). Não há espetáculo aí, e sim a proximidade de quem confia e obedece.

O texto não explica como Deus o levou, mas Hebreus tira a conclusão:

Pela fé, Enoque foi transportado para não experimentar a morte; e não foi achado, porque Deus havia o transportado; pois antes da transportação ele obteve testemunho de ter agradado a Deus.

(Hebreus 11:5, Bíblia Livre)

A fé é, portanto, a raiz de uma vida que agrada a Deus (Hebreus 11:6). Judas 14-15 acrescenta que Enoque também anunciou juízo contra os ímpios do seu tempo: a sua fé tinha rosto público. Só Elias, mais tarde, foi levado sem passar pela morte (2 Reis 2:11). Há quem veja os dois nas duas testemunhas de Apocalipse 11, mas o texto nunca diz isso, e lemos essa passagem como linguagem simbólica sobre o testemunho da igreja.

O destino de Enoque abre uma fresta na parede: a morte reina, e mesmo assim não é a última palavra de Deus. Paulo diz que “assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados” (1 Coríntios 15:22).

Aplicação. Enoque não ganhou o título de homem que andou com Deus por feitos espetaculares. O texto fala de rotina, trezentos anos de família, trabalho e fidelidade. Seguir Jesus consiste em muitos dias iguais vividos diante dele: orar de manhã, tratar bem a esposa ou o marido, pagar as contas, dizer a verdade no trabalho. Repare também que a caminhada começa depois do nascimento de um filho, quando a responsabilidade pesa. Nenhum de nós anda com Deus por mérito: ele nos chama, nos alcança com a graça e nos sustenta em cada passo.

Perguntas para discussão

  1. Por que o autor trocou “viveu” por “caminhou com Deus” nos versículos 22 e 24?
  2. O que Hebreus 11:5-6 acrescenta à história de Enoque? Qual é o lugar da fé?
  3. O que faz a caminhada com Deus durar trezentos anos em vez de trezentos dias?

Matusalém: o tempo que se esgota (vv. 25-27)

Foram, pois, todos os dias de Matusalém, novecentos e sessenta e nove anos; e morreu.

(Gênesis 5:27, Bíblia Livre)

Observação. O refrão volta com toda a força depois da interrupção de Enoque. Matusalém, filho dele, tem a vida mais longa da Bíblia: 969 anos. A conta chega ao fim, como sempre: “e morreu”.

Interpretação. Alguns explicam o nome como “quando ele morrer, será enviado”, em referência ao juízo que viria. Não é certo, mas a conta dos anos reforça a possibilidade: somando as idades do texto, Matusalém completa 969 anos no ano do dilúvio. O homem mais velho da Bíblia é, assim, uma medida da paciência de Deus. Pedro lembra que Deus esperou com paciência nos dias de Noé, enquanto a arca era construída (1 Pedro 3:20), e o próprio Gênesis registra um prazo dado aos homens antes do juízo (Gênesis 6:3).

Aplicação. O tempo longo que Deus dá às pessoas não significa que ele esqueceu a justiça. É paciência, que chama ao arrependimento. Ao mesmo tempo, os nossos dias são contados. O salmista pede: “Ensina-nos a contar nossos dias de tal maneira que alcancemos um coração sábio” (Salmos 90:12). Mesmo quem viver novecentos anos chega ao último deles.

Perguntas para discussão

  1. O que a vida de Matusalém ensina sobre a paciência de Deus?
  2. O que mudaria se você contasse os seus dias como pede o Salmo 90?

Lameque e Noé: a esperança de alívio (vv. 28-32)

E viveu Lameque cento e oitenta e dois anos, e gerou um filho: E chamou seu nome Noé, dizendo: Este nos aliviará de nossas obras, e do trabalho de nossas mãos, por causa da terra que o SENHOR amaldiçoou.

(Gênesis 5:28-29, Bíblia Livre)

Observação. Aqui a fórmula ganha um detalhe novo: o pai fala. Lameque dá o nome ao filho e explica o motivo, “este nos aliviará”, e a causa do cansaço aparece na mesma frase, “a terra que o SENHOR amaldiçoou”. O capítulo termina com Noé gerando três filhos aos quinhentos anos, e a linha passa para uma nova etapa.

Interpretação. O nome Noé lembra o verbo hebraico “descansar” e “consolar”. Lameque conhece o peso da maldição de Gênesis 3:17-19, com espinhos, suor no rosto e terra que resiste ao trabalho. Ele sente a dor e espera uma saída. A esperança dele parece uma fé que tateia. Noé foi um homem justo, que “andava com Deus” (Gênesis 6:9), mas o descanso que o pai esperava não veio por inteiro: depois do dilúvio o SENHOR promete não amaldiçoar mais a terra e reconhece que o coração humano continua mau desde a juventude (Gênesis 8:21). O alívio pleno aponta para além de Noé.

Paulo diz que toda a criação “geme e sofre dores como as de parto até agora” (Romanos 8:22). Lameque ouviu esse gemido e o pôs no nome de um filho. Nós o ouvimos hoje e sabemos que o alívio tem outro rosto, o de Jesus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos farei descansar” (Mateus 11:28).

Aplicação. Quem sente o dia a dia como peso, com o trabalho que cansa, a conta que não fecha e o corpo que reclama, está no lugar de Lameque. O alívio verdadeiro não vem de um novo projeto nem de uma troca de emprego, mas de Cristo, e a paz que ele dá convive com a aflição do mundo e a supera (João 16:33).

Perguntas para discussão

  1. O que o nome Noé e a explicação de Lameque revelam sobre o modo como ele via o mundo?
  2. Em que sentido Noé trouxe alívio, e em que sentido o alívio completo ficou para depois dele?
  3. Onde você tem buscado alívio antes de buscar Cristo?

Do jazigo ao descanso

Voltemos ao cemitério. Ao fim do capítulo, a lista deixou oito lápides que terminam em “e morreu”. Uma ficou em branco, a do homem que caminhou com Deus e desapareceu. E a última, a de Noé, ainda não tem data: no lugar dela, o pai deixou uma promessa de que virá alguém que alivia.

Gênesis 5 não esconde a morte, e também não se limita a ela: a mesma página que registra a sentença de Adão guarda a bênção da vida, a fidelidade de Enoque, a paciência diante de Matusalém e a esperança de Lameque. O capítulo prepara o leitor para ver em Jesus o filho de Adão que desfez o que Adão causou.

Senhor, tu és o Deus de todas as gerações. Ensina-nos a contar os nossos dias, a caminhar contigo como Enoque, a esperar com paciência e a descansar na tua graça em Cristo. Quando a morte nos cercar, lembra-nos de que a última palavra é tua. Amém.

Este estudo foi escrito a partir do roteiro indutivo de Study and Obey, usado como fonte de pesquisa.

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