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Gênesis 1:1a criação do universo e as sete palavras
Gênesis 1:1: A Criação do Universo e a Revolução das Sete Palavras
Sete palavras no hebraico original formam a porta de entrada de toda a Bíblia: Bereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’aretz — “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. A frase é tão conhecida que a gente corre o risco de passar por ela com pressa, sem perceber que cada termo foi escolhido como um manifesto teológico revolucionário contra as mitologias pagãs do mundo antigo e contra o cinismo de qualquer época.
A começar pela primeira palavra: Bereshit. No hebraico, o termo não carrega o artigo definido; a leitura literal aponta para “Em princípio” ou “Num princípio”. Como Agostinho percebeu séculos depois, Deus não criou o universo dentro de um tempo que já corria do lado de fora; Deus criou o universo junto com o próprio tempo. O relógio da história cósmica começou a bater naquele instante, desmontando a crença pagã comum na eternidade da matéria ou em ciclos infinitos sem rumo. A história humana tem começo, propósito e destino.
Em seguida vem o verbo: bará, “criou”. No vocabulário hebraico da Bíblia, esse verbo tem uma particularidade exclusiva: o seu sujeito é sempre e unicamente Deus. Seres humanos constroem, fabricam ou moldam a partir de algo preexistente, mas apenas o Criador traz à existência o que antes não existia do nada (creatio ex nihilo). Como João Calvino destacou ao comentar essa passagem, o texto bíblico corta pela raiz a fantasia dos povos vizinhos de que uma matéria caótica teria existido desde a eternidade.
E o sujeito dessa ação soberana é Elohim. Gramaticalmente, a palavra é um plural de majestade e plenitude, mas governa um verbo no singular (bará, “Ele criou”, e não “eles criaram”). Enquanto expressa a grandeza inesgotável do Todo-Poderoso para os hebreus, essa formulação única soou aos olhos dos primeiros pensadores cristãos como um vestígio da comunhão eterna da Trindade — uma revelação que ganharia clareza plena no Novo Testamento.
Para compreender a força desse versículo, basta colocá-lo ao lado do grande épico babilônico da criação, o Enuma Elish. Nas tabuletas da Mesopotâmia, o cosmos nasce de uma guerra cósmica sangrenta entre deuses histéricos e violentos: o deus Marduk assassina a deusa Tiamat, racha o cadáver dela ao meio para fazer o céu e a terra, e depois executa outro deus rebelde para misturar o sangue divino na argila e criar a humanidade com um único objetivo: servir de escrava descartável para que os deuses pudessem descansar.
Gênesis 1 varre toda essa mitologia sangrenta com uma serenidade desarmante. Não há guerra entre divindades rivais, nem esforço físico exaustivo: Deus simplesmente fala com autoridade soberana e a realidade se estabelece. O sol e a lua, adorados como deuses supremos no Egito e na Babilônia, nem sequer recebem nomes próprios no quarto dia; são rebaixados a meros luzeiros, luminárias criadas para servir à contagem do tempo. A natureza é dessacralizada: ela não é um deus para ser temido com superstição, mas uma criação ordenada que pode ser investigada com racionalidade. E o ser humano não surge como um escravo improvisado, mas como o ápice de tudo, criado à imagem e semelhança de Deus com dignidade inalienável e vocação para cuidar da terra.
Essa mesma Palavra criadora que trouxe a matéria do nada ganha rosto e nome no Novo Testamento. O apóstolo João abre o seu Evangelho ecoando exatamente o Bereshit de Gênesis: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus […] todas as coisas foram feitas por meio dele”. E Paulo, em Colossenses 1, afirma que em Cristo tudo foi criado e nele tudo subsiste. O Criador do cosmos é o mesmo Redentor que pisou a nossa poeira e entregou a própria vida para reconciliar todas as coisas.
A ciência moderna, ao demonstrar pela cosmologia do Big Bang que o espaço, o tempo e a matéria tiveram um início singular no passado remoto, reencontrou pela razão a mesma intuição que abre as Escrituras. O universo não é um acidente caótico fruto do acaso cego; ele é um projeto sustentado pela sabedoria de um Deus pessoal. E o Deus que teve poder para ordenar a luz do meio das trevas primordiais é o mesmo que continua poderoso para restaurar, curar e trazer nova vida a qualquer coração humano em ruínas.
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