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EstudosEstudos em Gênesis31 de 31

Gênesis 17A aliança, o sinal e o riso de Abraão

Estudo indutivo de Gênesis 17: o novo nome, a circuncisão, a promessa a Sara, o riso de Abraão e a obediência no mesmo dia

Diego Gonçalves28 min de leitura5.658 palavras

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Neste estudo

Ninguém se casa por causa da aliança de ouro. O anel é pequeno, custa pouco perto do que representa e fica no dedo sem fazer coisa nenhuma. Mesmo assim, quando alguém o tira para lavar a louça e esquece de pôr de volta, o cônjuge repara. O anel não é o casamento. Ele é o sinal visível de uma promessa feita antes, diante de testemunhas, que continua valendo no dia em que ninguém está olhando.

Gênesis 17 trata de um sinal assim, muito mais doloroso do que um anel, e de uma promessa muito mais antiga. Abrão tinha sido chamado aos setenta e cinco anos, quando saiu de Harã (Gênesis 12:4). Ouviu que seria uma grande nação, que seria bênção para todas as famílias da terra, e viu Deus selar a promessa entre os animais partidos (Gênesis 15). Aos oitenta e seis anos, cansado de esperar, aceitou o plano de Sarai e teve Ismael com Agar (Gênesis 16). Agora ele está com noventa e nove, e Deus aparece de novo. O estudo acompanha o capítulo e responde a três perguntas. Como Deus renova a aliança com um homem que já tropeçou? O que essa aliança dá e o que pede? E por que Deus marcou o corpo de Abraão com um sinal?

Uma observação de vocabulário: a Bíblia Livre traduz o hebraico berit por “pacto”. Neste estudo, “pacto” e “aliança” querem dizer a mesma coisa. A numeração dos versículos não difere entre as traduções.

Treze anos depois, o Deus que aparece de novo (vv. 1-2)

Quando Abrão tinha a idade de noventa e nove anos, o SENHOR lhe apareceu, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda diante de mim, e sê íntegro. E constituirei meu pacto entre mim e ti, e te multiplicarei em grandíssima maneira.

(Gênesis 17:1-2, Bíblia Livre)

Observação. O narrador faz questão de dizer a idade: noventa e nove. Como Ismael nasceu quando Abrão tinha oitenta e seis (Gênesis 16:16), passaram-se treze anos em que o texto não registra nenhuma palavra de Deus. Quando Deus fala, começa por se apresentar com um nome: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso”. Depois vêm duas ordens, “anda diante de mim” e “sê íntegro”, e só então duas promessas: o pacto e a multiplicação. O verbo que a Bíblia Livre traduz por “constituirei” é, no hebraico, o verbo “dar”. Deus se propõe a dar a aliança.

Interpretação. Por que treze anos de silêncio? Alguns comentaristas pensam num castigo pelo plano com Agar. O texto não diz isso, e o próprio Jesus desmonta o hábito de ligar toda dor a um pecado específico: diante do cego de nascença, ele respondeu que nem ele nem os pais tinham pecado (João 9:2-3). Prefiro perguntar o que aqueles anos produziram. Durante treze anos, Ismael cresceu na casa de Abrão como lembrança de que o plano humano tinha andado, e andado depressa, mas não levava à promessa. Quando Deus volta a falar, Abrão já não tem mais nenhuma carta na manga. A promessa vai depender só de Deus.

O nome “Todo-Poderoso” é El Shaddai. A origem exata de Shaddai é discutida. Alguns estudiosos o ligam à palavra acádia para “montanha”, há outras propostas, e a tradução tradicional é “Todo-Poderoso”. Importa mais o uso. Esse é o nome pelo qual Deus se deu a conhecer aos patriarcas, antes de revelar a Moisés o nome EU-SOU (Êxodo 6:3), e com frequência aparece ligado a filhos e descendência: veja Gênesis 35:11, em que o mesmo nome acompanha o “cresce e multiplica-te”. Dizer a um homem de noventa e nove anos e a uma mulher de noventa que terão um filho exige um Deus que se apresente assim.

Em seguida, “anda diante de mim, e sê íntegro”. Enoque “caminhou com Deus” (Gênesis 5:24) e Noé “andava com Deus” e foi “íntegro” (Gênesis 6:9), com a mesma palavra hebraica (tamim). Tamim não quer dizer sem pecado. Quer dizer inteiro, sem rachadura, um coração que não tem outro dono escondido. Abrão tinha acabado de seguir um plano em que a promessa de Deus e o jeitinho de Sarai conviviam no mesmo coração. Deus o chama a uma fé inteira.

Surge aqui uma pergunta antiga: a aliança é uma promessa gratuita de Deus ou tem condições? Os dois lados aparecem no mesmo versículo. Ninguém obrigou Deus a se aliar a Abrão. Ele faz o que lhe agrada (Salmos 115:3) e nada em Abrão, um homem que acabara de falhar, pedia aquela visita. Em Gênesis 15 Deus passou sozinho entre os animais enquanto Abrão dormia. Em Gênesis 17, porém, o mesmo Deus diz “anda” e “sê”. Não há contradição. A promessa vem de graça, e a vida de quem a recebe responde com confiança e obediência: “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6). A graça abre o caminho e capacita quem vai andar nele. A pessoa pode, no entanto, resistir a ela, e é isso que torna séria a palavra “anda”. O Novo Testamento mantém o mesmo equilíbrio: “Estai em mim, e eu em vós” (João 15:4), e a bondade de Deus está sobre nós “se continuares na bondade; de outra maneira, também tu serás cortado fora” (Romanos 11:22). A mesma imagem do “cortar” vai voltar no versículo 14. Quem permanece pela fé está “guardado no poder de Deus” (1 Pedro 1:5): a segurança está nele, e não no nosso desempenho.

Aplicação. Muitos pensam que Deus só volta a falar depois que eles se endireitam. Aqui Deus procura um homem treze anos depois de um fracasso, e a primeira coisa que ele diz é quem é, e não o que Abrão fez de errado. Confesso que esse versículo me desarma, porque me reconheço no Abrão que tinha um plano de reserva dentro de casa. Há dois erros a evitar. O primeiro é o legalismo, que imagina que o andar com Deus compre a promessa. O segundo é o descuido, que ouve “graça” e esquece de “anda”. Deus dá primeiro e depois pede uma vida inteira diante dele, o que equivale a amar de volta.

Perguntas para discussão

  1. O que treze anos de silêncio podem ter feito na fé de Abrão? Como Deus usou esse tempo?
  2. Por que Deus se apresenta como Todo-Poderoso a um casal tão idoso?
  3. Como “anda diante de mim, e sê íntegro” combina com o fato de a aliança ser dada de graça?
  4. Você se parece mais com o legalista ou com o descuidado? O que Deus lhe pede esta semana?

De Abrão para Abraão: a promessa em quatro tempos (vv. 3-8)

Então Abrão prostrou-se com o rosto ao chão, e Deus falou com ele, dizendo: Quanto a mim, este é o meu pacto contigo: Serás pai de multidão de nações: E não se chamará mais teu nome Abrão, mas sim que será teu nome Abraão, porque te pus por pai de multidão de nações. E te multiplicarei muito em grande maneira, e te porei em nações, e reis sairão de ti. E estabelecerei meu pacto entre mim e ti, e tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para ser para ti por Deus, e à tua descendência depois de ti. E darei a ti, e à tua descendência depois de ti, a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em herança perpétua; e serei o Deus deles.

(Gênesis 17:3-8, Bíblia Livre)

Observação. Abrão está de rosto no chão e não diz nada. Quem fala é Deus, e a primeira palavra dele é “quanto a mim”, como quem põe a mão no próprio peito: este é o meu pacto. A promessa vem em quatro partes. Primeiro, o homem muda de nome, e o nome já traz a explicação: “pai de multidão de nações”. Segundo, nações e reis sairão dele. Terceiro, a aliança é “perpétua” e passa à descendência, e o centro dela é uma frase: “para ser para ti por Deus”. Quarto, vem a terra de Canaã, outra vez “em herança perpétua”, e a frase se repete no fim: “serei o Deus deles”.

Interpretação. Abrão quer dizer “pai exaltado”, e Abraão soa como “pai de multidão”. É a primeira vez que a Bíblia registra Deus mudando o nome de alguém. Depois virão Jacó, que passa a Israel (Gênesis 32:28), e Simão, que passa a Pedro (João 1:42). Mudar o nome é dizer quem a pessoa vai ser. Aos noventa e nove anos, com um filho de treze, ele passaria a ser chamado de “pai de multidão” por todos da casa, e cada chamada repetiria a promessa. Paulo vai dizer que Abraão creu em “Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem” (Romanos 4:17), e é isso o que acontece aqui.

A expressão “reis sairão de ti” é nova. Não estava nas promessas de Gênesis 12 nem de Gênesis 15. Ela reaparece em Gênesis 35:11, e nos faz lembrar de Gênesis 1:28, quando Deus disse a Adão e Eva que dominassem a terra. O fio corre até Davi, a quem Deus promete um trono eterno (2 Samuel 7:12-16), e termina em Jesus, “filho de Davi, filho de Abraão” (Mateus 1:1). Paulo faz questão de notar que a promessa não fala de “descendências”, mas de “descendência”, “que é Cristo” (Gálatas 3:16). A aliança com Abraão sustenta as alianças seguintes: a terra (Deuteronômio 30), o rei (2 Samuel 7) e a bênção que chega a todas as nações pela nova aliança (Jeremias 31; Gálatas 3:8).

A “multidão de nações” também tem uma ponta voltada para nós. Paulo escreve que a promessa é “pela fé, para que seja conforme a graça”, a fim de ser confirmada “não somente aos que são da Lei, mas também aos que são da fé de Abraão, que é Pai de todos nós” (Romanos 4:16). E em Gálatas 3:7: “os que são da fé são filhos de Abraão”.

Resta a terra e o sentido de “perpétua” (olam, uma duração longa, às vezes sem fim). Os cristãos se dividem aqui, e é justo apresentar cada leitura como ela se entende. Os dispensacionalistas leem as promessas da terra e da nação como literais e ainda por cumprir: um dia, na volta de Cristo, Israel como nação possuiria de fato Canaã, porque, dizem, se Deus prometeu para sempre, ele cumpre. Querem levar a palavra de Deus a sério, e isso merece respeito. A leitura que seguimos neste site, amilenista, nota três coisas. Primeiro, Josué já declara cumprida a entrega da terra: “Não faltou palavra de todas as boas coisas que o SENHOR falou à casa de Israel; tudo se cumpriu” (Josué 21:45). Segundo, o Novo Testamento alarga a promessa, e Abraão passa a ser “herdeiro do mundo” (Romanos 4:13), alguém que esperava “a cidade que tem fundamentos firmes, da qual o arquiteto e construtor é Deus” (Hebreus 11:10). Terceiro, em Cristo “todas as promessas nele são ‘sim’” (2 Coríntios 1:20), e os mansos “herdarão a terra” (Mateus 5:5).

Dizer isso não significa que Deus tenha jogado fora o povo judeu. Paulo pergunta: “por acaso Deus rejeitou seu povo?” e responde: “De maneira nenhuma!” (Romanos 11:1). Os judeus continuam “amados, por causa dos patriarcas”, pois “os dons gratuitos e o chamado da parte de Deus não podem ser cancelados” (Romanos 11:28-29). Os cristãos que, ao longo da história, trataram os judeus com desprezo contradisseram o apóstolo (Romanos 11:18). Qualquer leitura de Gênesis 17 que termine em desprezo por Israel errou o caminho.

Aplicação. Deus deu um nome novo antes de dar um filho. Ele fala de quem somos em Cristo, filhos, amados, santos, antes de nos ver vivendo assim. A resposta não é fingir que já chegamos lá, e sim andar na direção do nome que recebemos. Quem foi chamado de filho de Deus começa a se comportar como filho.

Perguntas para discussão

  1. O que muda quando alguém recebe um novo nome? Que nome Deus deu a você em Cristo?
  2. Quais são as quatro partes da promessa dos versículos 4 a 8?
  3. Como Paulo e Gálatas 3 ajudam a entender a “multidão de nações”?
  4. Como podemos defender a promessa feita a Israel sem cair no desprezo pelo povo judeu, nem apagar a leitura dos apóstolos?

O sinal da aliança está na carne (vv. 9-14)

Disse de novo Deus a Abraão: Tu, porém, guardarás meu pacto, tu e tua descendência depois de ti por suas gerações. Este será meu pacto, que guardareis entre mim e vós e tua descendência depois de ti: Será circuncidado todo macho dentre vós. Circuncidareis, pois, a carne de vosso prepúcio, e será por sinal do pacto entre mim e vós. E de idade de oito dias será circuncidado todo macho entre vós por vossas gerações: o nascido em casa, e o comprado a dinheiro de qualquer estrangeiro, que não for de tua descendência. Deve ser circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro: e estará meu pacto em vossa carne para aliança perpétua. E o macho incircunciso que não houver circuncidado a carne de seu prepúcio, aquela pessoa será exterminada de seu povo; violou meu pacto.

(Gênesis 17:9-14, Bíblia Livre)

Observação. Deus abre com um “Tu, porém”: a promessa pertence a Deus, e agora Abraão tem uma parte a guardar. O sinal é a circuncisão de todo macho, e o texto chama o próprio sinal de “pacto”, como se o gesto e a aliança andassem juntos. Deus marca o tempo: o oitavo dia. Marca também quem entra: o filho, o nascido em casa e o servo “comprado a dinheiro de qualquer estrangeiro, que não for de tua descendência”. O sinal ficará “em vossa carne”. Por fim, vem uma advertência: quem não for circuncidado “será exterminado de seu povo; violou meu pacto”.

Interpretação. O hebraico para “cortar uma aliança” é, literalmente, “cortar” (karat berit), como no corte dos animais de Gênesis 15. No versículo 14, o verbo que a Bíblia Livre traduz por “exterminado” é “cortado”. O sinal na carne é um corte, e quem recusa o sinal sofre outro corte. O texto não diz como isso acontece, se por exclusão da comunidade, se por morte, se por ação direta de Deus. Aponta a gravidade de rejeitar o sinal, e Êxodo 4:24-26 mostra como Deus tratou isso a sério até em Moisés, o libertador, cujo filho não estava circuncidado. Mais tarde, os nascidos no deserto passaram quarenta anos sem o sinal, e Josué os circuncidou antes de entrar na terra (Josué 5:2-9).

A circuncisão não era invenção de Israel. Jeremias cita Egito, Edom, Amom e Moabe ao lado de Judá entre os povos que seriam castigados por serem incircuncisos de coração (Jeremias 9:25-26), o que sugere que pelo menos alguns deles já circuncidavam o corpo. Fora de Israel, ela costumava acontecer na adolescência, ligada ao casamento, à fertilidade ou ao serviço no templo. O que Deus faz de novo é dar a ela outro significado e outro tempo: o sinal da aliança com o SENHOR, aplicado a bebês, no oitavo dia (Levítico 12:3). Isaque foi circuncidado assim (Atos 7:8), e depois dele João Batista (Lucas 1:59), Jesus (Lucas 2:21) e Paulo (Filipenses 3:5). Alguns médicos observam que os fatores de coagulação do recém-nascido estão altos por volta do oitavo dia. É curioso, mas o texto não dá esse motivo. O motivo que ele dá é a aliança.

Por que no corpo, e justamente ali? A resposta mais comum é que o sinal marca o órgão pelo qual a descendência prometida viria. Todo homem israelita carregaria na carne a lembrança de que a promessa passa pela vida que nasce, e de que essa vida depende de Deus. Abraão, então, receberia o sinal exatamente no corpo “praticamente morto” (Romanos 4:19). O arco-íris da aliança com Noé ficava no céu. Este sinal fica no corpo de quem se aliou.

A pergunta mais importante é o que o sinal faz. Paulo responde em Romanos 4:9-11. Em Gênesis 15:6, Abraão “creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça”, pelo menos catorze anos antes. A circuncisão veio depois, e Paulo diz que Abraão “recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé quando ainda era incircunciso”. O sinal não produziu a fé nem comprou a justiça. Ele selou o que a fé já tinha recebido.

Por isso o Antigo Testamento mesmo aponta para o coração. Moisés manda: “Circuncidai pois o prepúcio de vosso coração” (Deuteronômio 10:16), e depois promete: “circuncidará o SENHOR teu Deus teu coração” (Deuteronômio 30:6). Ou seja, a mesma circuncisão do coração aparece como mandamento e como promessa. Jeremias diz que “toda a casa de Israel é incircuncisa no coração” (Jeremias 9:26), e Estêvão repete a acusação aos que resistem ao Espírito (Atos 7:51). O Novo Testamento leva a ideia até o fim: “judeu não é o de aparência externa, nem circuncisão é a na carne, mas é judeu o que é no interior” (Romanos 2:28-29). Em Cristo, “nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão; mas sim a nova criatura” (Gálatas 6:15).

Quando alguns vieram da Judeia ensinando que sem circuncisão “não podeis ser salvos” (Atos 15:1), a igreja respondeu que não se acrescenta nada à graça. Paulo afirma que quem busca a justiça pela circuncisão se obriga à Lei toda e se desliga de Cristo (Gálatas 5:2-4). Isso não o impediu de circuncidar Timóteo “por causa dos judeus” (Atos 16:3), por razão de missão, e nunca como condição de salvação.

Há um ponto em que cristãos honestos divergem. Colossenses 2:11-12 liga a circuncisão do coração ao batismo: “sepultados com ele no batismo, no qual também com ele fostes ressuscitados pela fé”. Alguns veem no batismo de bebês filhos de pais crentes o paralelo do sinal dado aos meninos de Israel. Outros veem o batismo como o sinal de quem já creu e se arrependeu. Este estudo não decide a questão. Em qualquer dos casos, o sinal sem o coração não salva ninguém.

Aplicação. Cada geração inventa seus sinais. “Fui batizado quando bebê”, “nasci em berço evangélico”, “meu nome está no rol de membros”, “nunca faltei à Ceia”. São coisas boas, e Deus as concede como lembrança de uma promessa. O perigo é confiar no anel e esquecer a pessoa. Vale perguntar de quem é o meu coração, e não só onde está o meu nome. Há, porém, um bom uso do sinal: ele nos ajuda a lembrar. Uma comunidade que celebra o batismo e a Ceia com seriedade ajuda cada um a perseverar, “durante o tempo chamado ‘hoje’” (Hebreus 3:13).

Perguntas para discussão

  1. Que diferenças havia entre a circuncisão de Israel e a de outros povos? O que ela significava?
  2. O que o texto diz sobre quem recebe o sinal? O que isso mostra sobre a aliança?
  3. Qual é a relação entre Gênesis 15:6 e Gênesis 17? Como Romanos 4:9-11 explica essa ordem?
  4. Em que sinais exteriores você já se apoiou como se fossem garantia?
  5. O que significa ter o coração circuncidado? Deuteronômio 30:6 mostra quem faz essa obra?

Sara deixa de ser só a “minha princesa” (vv. 15-16)

Disse também Deus a Abraão: A Sarai tua mulher não a chamarás Sarai, mas Sara será seu nome. E a abençoarei, e também te darei dela filho; sim, a abençoarei, e virá a ser mãe de nações; dela surgirão reis de povos.

(Gênesis 17:15-16, Bíblia Livre)

Observação. Até aqui Deus só falou de Abraão. Agora ele muda de assunto e fala da mulher dele: “Disse também Deus a Abraão”. Ela ganha um nome novo, uma bênção dita duas vezes (“a abençoarei… sim, a abençoarei”) e uma promessa: “te darei dela filho”. As palavras do versículo 16 repetem a promessa dada a Abraão, “mãe de nações” e “reis de povos”.

Interpretação. Os dois nomes giram em torno da ideia de “princesa”. Sarai costuma ser lido como “minha princesa”, e Sara como “princesa”, sem o pronome. Alguns estudiosos acham que as duas formas são só variantes do mesmo nome. De um jeito ou de outro, a mudança diz que a honra dela deixa de pertencer a uma família só, pois ela será mãe de nações. O mais importante, porém, não é o nome. É a frase “te darei dela filho”. Depois do que aconteceu com Agar, Deus corrige o plano sem rodeios: o herdeiro virá de Sara, a mulher que o plano de Gênesis 16 tentou contornar. O plano A era o único plano.

Treze anos antes, ela tinha dito: “o SENHOR me fez estéril” (Gênesis 16:2). Ela carregava a dor e a culpa da esterilidade, e carregava também a lembrança do fracasso do próprio plano. Deus responde ali, naquela dor, com uma bênção repetida. A carta aos Hebreus a coloca entre as pessoas de fé: “a própria Sara recebeu a capacidade de conceber descendência… pois considerou fiel aquele que havia prometido” (Hebreus 11:11).

Aplicação. Deus não esquece quem ficou para trás nas decisões dos outros. Sara foi tratada como meio de conseguir um herdeiro, e Deus a trata como pessoa, com nome e bênção. Isso consola quem carrega vergonha por algo que não escolheu, como a esterilidade, a doença ou o abandono. A promessa feita a Sara é única, e não uma regra de que Deus sempre faça assim. Casais que esperam um filho há anos podem orar com esperança, sem exigir que a história deles termine como a dela. A Bíblia mostra que a esterilidade nunca teve a última palavra sobre o valor de ninguém diante de Deus.

Perguntas para discussão

  1. Por que Deus fala de Sara só agora, e de modo tão claro?
  2. O que a mudança de nome mostra sobre o lugar de Sara na promessa?
  3. Como o versículo 16 corrige o plano de Gênesis 16?
  4. De que dor ou vergonha, que você não escolheu, Deus ainda quer falar?

O riso de Abraão (vv. 17-18)

Então Abraão prostrou-se com o rosto ao chão, riu, e disse em seu coração: A um homem de cem anos nascerá filho? E Sara, já de noventa anos, há de dar à luz? E disse Abraão a Deus: Que Ismael viva diante de ti!

(Gênesis 17:17-18, Bíblia Livre)

Observação. Abraão se prostra de novo, como no versículo 3. Desta vez, porém, ele ri. O texto diz que ele fala “em seu coração”, ou seja, a pergunta fica entre ele e Deus. Os números aparecem outra vez: cem anos e noventa anos. Em seguida, em voz alta, vem o pedido: “Que Ismael viva diante de ti!”. A palavra “diante” é a mesma de “anda diante de mim” no versículo 1.

Interpretação. O riso de Abraão é um dos problemas mais discutidos do capítulo. Houve intérpretes que o leram como riso de alegria, e a tradição judaica clássica costuma contrastar o riso dele com o de Sara em Gênesis 18, que foi repreendida. Outros o leram como riso de dúvida, e o pedido pelo Ismael pareceria confirmar isso: Abraão como quem diz “Senhor, nós já temos um filho, abençoa esse, que é mais fácil”. A reação de Zacarias, que perguntou “Como terei certeza disso?” quando lhe anunciaram um filho na velhice (Lucas 1:18), e que ficou mudo por não crer (Lucas 1:20), reforça essa leitura.

Dois textos pedem cautela. Primeiro, ninguém repreende Abraão. Em Gênesis 18:12-15, Sara ri “consigo mesma”, e Deus pergunta por que ela riu e responde: “Há para Deus alguma coisa difícil?” Aqui, Deus não reage com uma palavra de censura. Segundo, Paulo olha para essa cena e escreve que Abraão “não fraquejou na fé”, “nem duvidou da promessa de Deus; pelo contrário, fortaleceu-se na fé, dando glória a Deus” (Romanos 4:19-20). Paulo não ignora o riso. Ele resume o resultado de toda a história.

A leitura mais honesta junta os dois fatos. O corpo está na postura de adoração, rosto no chão, e o coração está em tumulto. Gênesis mostra o processo, e Romanos mostra onde terminou. A fé de Abraão não era a ausência de perguntas. Era uma fé que fazia as contas, via que não fechavam, ria do impossível e, mesmo assim, ficava diante de Deus. E o pedido por Ismael revela onde estava a dificuldade: aceitar que o herdeiro seria outro. Já que Deus pedia um andar íntegro (v. 1), Abraão volta com uma proposta menor: que o filho que já existe “viva diante de ti”.

Aplicação. Todos nós temos algum “Ismael”: a solução que montamos por conta própria e que já está dentro de casa. Podemos orar para que Deus abençoe esse plano em vez de pedir que Deus faça o que prometeu. A boa notícia é que Deus tolera a honestidade da nossa oração. Abraão disse o que pensava, de rosto no chão, e Deus respondeu com paciência. Não precisamos esconder a dúvida para orar. Precisamos levá-la a Deus, e não a ninguém além dele, e continuar de joelhos. Ao mesmo tempo, a paciência de Deus não é licença para ficar com o plano reserva.

Perguntas para discussão

  1. O riso de Abraão foi de alegria, de dúvida ou de espanto? O que o texto sugere?
  2. Como Romanos 4:19-20 ajuda a ler essa cena? O que Gênesis 18:12-15 acrescenta?
  3. O que o pedido por Ismael revela sobre o coração de Abraão?
  4. Qual é o seu “Ismael”? Que oração honesta você precisa fazer sobre ele?

Isaque, Ismael e o pacto que Deus confirma (vv. 19-21)

E respondeu Deus: Certamente Sara tua mulher te dará à luz um filho, e chamarás seu nome Isaque; e confirmarei meu pacto com ele por aliança perpétua para sua descendência depois dele. E quanto a Ismael, também te ouvi; eis que o abençoarei, e lhe farei frutificar e multiplicar em grandíssima maneira; doze príncipes gerará, e dele farei grande nação. Mas meu pacto estabelecerei com Isaque, ao qual Sara te dará à luz por este tempo no ano seguinte.

(Gênesis 17:19-21, Bíblia Livre)

Observação. Deus responde com um “Certamente” que não deixa lugar para outra leitura: Sara dará à luz. O filho já tem nome, Isaque, e a aliança ficará com ele. Deus também responde ao pedido sobre Ismael: “também te ouvi”, e promete bênção, fruto, doze príncipes e uma grande nação. Mas o pacto “estabelecerei com Isaque”. O versículo 21 dá até um prazo: “por este tempo no ano seguinte”.

Interpretação. Isaque quer dizer “ele ri”. Deus não repreende o riso de Abraão. Ele o guarda e o transforma em nome. Quando o menino nascer, Abraão terá cem anos (Gênesis 21:5), e Sara dirá: “Deus me fez rir, e qualquer um que o ouvir, se rirá comigo” (Gênesis 21:6). O riso de espanto vira riso de alegria. Cada vez que chamasse o filho, Abraão se lembraria da sua pergunta e da resposta. Alguns comentaristas veem nisso um toque de bom humor de Deus, cheio de misericórdia.

Ismael quer dizer “Deus ouve”. O anjo dissera a Agar: “o SENHOR ouviu a tua aflição” (Gênesis 16:11), e agora Deus diz a Abraão: “também te ouvi”. O nome que Agar recebera continua dizendo a verdade. A promessa se cumpre em Gênesis 25:12-16, que lista os doze príncipes de Ismael. Ismael não ficou sem bênção por estar fora da linha da aliança (Gênesis 21:13).

Por que Isaque, e não Ismael? Paulo comenta que “nem por serem descendentes de Abraão são todos filhos, mas: ‘Em Isaque será chamada a tua descendência’”, e que os “filhos da promessa” é que são contados como descendência (Romanos 9:7-8). Esse texto trata da linha por onde a promessa e o Messias viriam. Ele não decide o destino eterno de Ismael nem de ninguém, e deve ser lido junto com Gênesis 12:3, em que “todas as famílias da terra” serão abençoadas, e com Gálatas 3:8. A linha é estreita e a bênção é larga. A fé de Abraão olha para isso quando “considerou que Deus era poderoso até para ressuscitar Isaque dos mortos” (Hebreus 11:19).

Aplicação. Deus ouve também os que ficaram de fora da linha da promessa. Agar e Ismael não estavam no centro da história, e Deus os ouviu. Ninguém é invisível para ele. Deus também responde com sim e não ao mesmo tempo. Não aceita o substituto como herdeiro, mas abençoa quem Abraão ama. E o riso de dúvida, quando Deus o recebe, pode virar testemunho de alegria. Deus também costuma dar prazo à espera: “no ano seguinte”. Nem sempre sabemos o dia, mas a espera tem fim, porque quem prometeu mantém a data.

Perguntas para discussão

  1. Por que Deus dá o nome Isaque ao filho? O que isso mostra sobre o jeito dele de tratar a nossa dúvida?
  2. O que significa o nome Ismael? Que consolo ele traz?
  3. Por que a aliança fica com Isaque? O que Romanos 9:7-9 diz, e o que ele não diz?
  4. Que promessa de Deus parecia absurda para você e hoje faz você sorrir?

Naquele mesmo dia (vv. 22-27)

E acabou de falar com ele, e Deus subiu da presença de Abraão. Então tomou Abraão a Ismael seu filho, e a todos os servos nascidos em sua casa, e a todos os comprados por seu dinheiro, a todo homem entre os domésticos da casa de Abraão, e circuncidou a carne do prepúcio deles naquele mesmo dia, como Deus lhe havia dito. Era Abraão de idade de noventa e nove anos quando circuncidou a carne de seu prepúcio. E Ismael seu filho era de treze anos quando foi circuncidada a carne de seu prepúcio. No mesmo dia foi circuncidado Abraão e Ismael seu filho. E todos os homens de sua casa, o servo nascido em casa, e o comprado por dinheiro do estrangeiro, foram circuncidados com ele.

(Gênesis 17:22-27, Bíblia Livre)

Observação. Deus termina de falar e “subiu”. Na frase seguinte, Abraão já está em movimento. O texto repete duas vezes “naquele mesmo dia” (vv. 23 e 26) e outra vez “como Deus lhe havia dito”. As idades aparecem de novo: Abraão com noventa e nove, Ismael com treze. A lista é larga: o filho, os nascidos em casa e os comprados, “todo homem entre os domésticos”.

Interpretação. A obediência de Abraão tem alguns traços que vale observar. Em primeiro lugar, ela custa dor. Aos noventa e nove anos, ele começou pelo próprio corpo, e o texto não diz que tenha pedido ao menos um tempo para se recuperar. Em segundo lugar, ela alcança a casa inteira. Em Gênesis 14:14, Abraão reuniu trezentos e dezoito criados treinados, sem contar os demais, e o dia de Gênesis 17:23 foi enorme. Começou por Ismael, o filho de treze anos, que já tinha idade para discutir e do qual o texto não registra nenhuma resistência. Quando Deus diz de Abraão “sei que mandará a seus filhos e a sua casa depois de si, que guardem o caminho do SENHOR” (Gênesis 18:19), ele fala deste homem. Em terceiro lugar, ela é imediata.

Esse padrão se repete em outros momentos decisivos da vida de Abraão. Quando Deus o chamou, “assim se foi Abrão, como o SENHOR lhe dissera” (Gênesis 12:4). Décadas depois, quando Deus pediu Isaque, “Abraão se levantou manhã muito cedo” e “foi ao lugar que Deus lhe disse” (Gênesis 22:3). Nos três casos, a palavra de Deus acaba e a frase seguinte mostra Abraão em ação. A fé de Abraão nunca exigiu antes entender todos os motivos.

Isso contradiz a justificação pela fé? Não. Abraão foi declarado justo em Gênesis 15:6, e só depois obedeceu à circuncisão, a Isaque no altar e a tudo o mais. Tiago olha para o altar e diz que “a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada” (Tiago 2:22). Paulo olha para a promessa e diz que o sinal foi selo da fé que já existia (Romanos 4:11). As duas coisas valem juntas. A obediência prova que a fé é viva, e a fé que não obedece está morta. Em Cristo, “nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé, que opera por meio do amor” (Gálatas 5:6). Hebreus resume: “Pela fé, Abraão… obedeceu, e saiu sem que soubesse aonde ia” (Hebreus 11:8).

Aplicação. Quando Deus nos diz algo claro, costumamos abrir uma negociação. “Deixa passar o fim de semana.” “Vou orar mais um pouco antes de decidir.” “Primeiro vejo como as pessoas reagem.” Às vezes orar e pedir conselho é sabedoria. Muitas vezes é apenas um jeito educado de adiar. O texto me cutuca porque Abraão não tinha um versículo para cada dúvida, e obedeceu. Peço três coisas a mim mesmo e a quem lê: obedecer com o que Deus já disse, sem esperar entender tudo; obedecer por inteiro, sem escolher os mandamentos mais fáceis; e obedecer hoje, e não na semana que vem. A graça que nos alcançou é a mesma que nos capacita a isso. A obediência é resposta de gratidão, e não pagamento.

Perguntas para discussão

  1. O que o texto sublinha ao repetir “naquele mesmo dia” e “como Deus lhe havia dito”?
  2. Quanto custou a obediência de Abraão? Quem mais foi afetado por ela?
  3. Compare Gênesis 12:4, 17:23 e 22:3. O que esses textos dizem sobre a fé de Abraão?
  4. Como Tiago 2:22 e Romanos 4:11 se encaixam? Que ordem Deus está esperando de você hoje?

O anel e a promessa

O anel que o casal usa não sustenta o casamento. Quem sustenta é a promessa que foi dita. O anel ajuda a lembrar de quem somos. Em Gênesis 17 acontece o mesmo, só que em escala maior. Deus faz a promessa primeiro: um nome, um filho, uma descendência, uma terra, e ele mesmo como Deus dessa gente. Depois dá o sinal, e Abraão responde obedecendo no mesmo dia.

Tudo isso aponta para Jesus. Ele é a descendência de Abraão (Gálatas 3:16), nasceu sob a mesma aliança e foi circuncidado no oitavo dia. Nele o sinal chegou ao coração, e a promessa à multidão de todas as nações. Hebreus lembra que Deus jurou por si mesmo e que, “por meio de duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta”, temos encorajamento para agarrar a esperança (Hebreus 6:13-18). Quem foi um dia “estranho aos pactos da promessa, sem Deus no mundo” foi trazido para perto “pelo sangue de Cristo” (Efésios 2:12-13). E, por isso, vale andar diante dele e ser íntegro.

Senhor Deus Todo-Poderoso, tu apareceste a um homem que tinha falhado e lhe deste um nome novo antes de lhe dar um filho. Obrigado porque a tua aliança não depende do nosso mérito. Circuncida o nosso coração, para que te amemos de todo o coração. Perdoa as vezes em que preferimos o nosso plano de reserva à tua promessa, e ensina-nos a obedecer sem adiar. Que o nosso riso de dúvida vire alegria quando tu cumprires o que disseste. Em nome de Jesus, a descendência prometida a Abraão. Amém.

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