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EstudosEstudos em Gênesis11 de 24

Quem foi Abraão? O chamado no escuro e a fé que justifica

Quem foi Abraão? O chamado no escuro e a paternidade da fé

Diego Gonçalves7 min de leitura1.319 palavras

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Neste estudo

Depois do colapso de Babel, quando a humanidade tentou erguer uma torre imensa para alcançar o céu e fabricar um nome famoso para si mesma, Deus dispersou os povos em confusão de línguas e silenciou o cenário mundial. E como o Criador decide reiniciar o seu projeto de restauração na história? Ele não escolhe uma potência militar no Egito nem uma dinastia de guerreiros famosos na Mesopotâmia. Ele escolhe um casal idoso, sem filhos, morando na cidade idólatra de Ur dos Caldeus: Abrão e Sarai.

A história de Abraão, que domina os capítulos 12 a 25 do livro de Gênesis, é a pedra fundamental de toda a narrativa bíblica. Ele é chamado pelas Escrituras de “amigo de Deus” (Tiago 2:23) e de “pai de todos os que creem” (Romanos 4:11). Compreender a vida desse patriarca é entender o coração do próprio evangelho da graça.

Pintura de Rembrandt em que um anjo segura o braço de Abraão no momento em que ele ergue a faca sobre Isaque, no monte Moriá
Rembrandt, O sacrifício de Isaque, 1635. Museu Hermitage, São Petersburgo. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O chamado que quebrou todas as seguranças

Tudo começa em Gênesis 12 com uma ordem desconcertante:

“O SENHOR disse a Abrão: ‘Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E farei de ti uma grande nação, e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti todas as famílias da terra serão benditas.’”

(Gênesis 12:1-3, Bíblia Livre)

Para entendermos o impacto desse chamado, precisamos nos colocar no mundo do segundo milênio antes de Cristo. Naquela época, não existiam polícias estatais, consulados ou passaportes. A única segurança física, econômica e jurídica que um indivíduo possuía era o seu clã, a sua parentela e as terras herdadas dos seus antepassados. Abandonar a casa do pai significava abrir mão de todas as garantias humanas e caminhar em direção ao desconhecido.

Aos setenta e cinco anos de idade, casado com uma mulher estéril, Abrão simplesmente arrumou as tendas e partiu. Como bem sintetiza a carta aos Hebreus: Abraão “saiu sem que soubesse aonde ia” (Hebreus 11:8, Bíblia Livre). A fé bíblica nunca começou com um mapa detalhado, com todas as curvas desenhadas de antemão; começou com a confiança inabalável em quem fez a promessa. E foi a graça de Deus que tomou a iniciativa de chamá-lo.

A promessa das estrelas e a justificação pela fé

Conforme os anos se passavam no calor de Canaã, a promessa parecia cada vez mais improvável. Abrão continuava sem herdeiro biológico, envelhecendo dia após dia. No capítulo 15, tomado por uma crise de ansiedade compreensível, ele conversa com Deus e sugere que o seu servo de confiança, Eliézer de Damasco, seja adotado como herdeiro.

Deus então faz algo extraordinário: leva Abrão para fora da tenda, na escuridão do deserto, e diz: “Olha agora aos céus, e conta as estrelas, se as podes contar. Assim será a tua descendência” (Gênesis 15:5, Bíblia Livre).

Ali, sem nenhum filho no colo e sem possuir um palmo de terra própria (Atos 7:5), Abrão fitou a imensidão do firmamento e creu no invisível. E o versículo seguinte estabelece o pilar central de toda a teologia bíblica da salvação:

“E creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça.”

(Gênesis 15:6, Bíblia Livre)

O apóstolo Paulo gasta quase todo o quarto capítulo de Romanos e o terceiro de Gálatas destrinchando essa única frase. Abrão não foi declarado justo diante de Deus porque guardava os Dez Mandamentos (a Lei só viria 430 anos depois, Gálatas 3:17). Ele não foi justificado por ritos cerimoniais (a circuncisão só foi instituída anos mais tarde, no capítulo 17). E ele certamente não foi justificado pela perfeição moral das suas atitudes. Ele foi justificado unicamente pela fé: uma confiança honesta e desarmada na fidelidade da Palavra de Deus. É a justificação pela graça, mediante a fé (Efésios 2:8-9), e a própria fé responde à graça preveniente que vai à nossa frente.

Pés de barro e tropeços na caminhada

A Bíblia não fabrica santos de gesso. O relato bíblico expõe a humanidade frágil de Abraão com uma sinceridade cortante.

Em dois momentos distintos de fome ou pressão política (um no Egito perante o Faraó e outro em Gerar perante Abimeleque), Abraão foi tomado pelo medo covarde de ser assassinado por causa da beleza de sua mulher. Ele recorreu à meia-verdade de que Sara era sua irmã (ela era sua meia-irmã por parte de pai, Gênesis 20:12), entregando-a aos haréns reais para salvar a própria pele. Deus teve que intervir diretamente com pragas e sonhos para resguardar a integridade da matriarca.

Mais tarde, cansados de esperar pelo tempo de Deus, Abraão e Sara recorreram ao atalho cultural da época: tomar a serva egípcia Hagar como concubina para gerar um filho substituto. O nascimento de Ismael gerou brigas domésticas terríveis, amargura familiar e feridas geopolíticas que reverberam até os dias de hoje. A história de Abraão nos mostra que ter fé não significa viver sem dúvidas ou hesitações; significa aprender, aos trancos e barrancos, que os atalhos humanos nunca conseguem adiantar as promessas soberanas de Deus.

O monte Moriá e a prévia da cruz

O teste culminante da vida do patriarca aconteceu décadas depois, quando Isaque, o filho do milagre nascido quando Abraão já tinha cem anos e Sara noventa, era um jovem rapaz.

Em Gênesis 22, Deus pede de volta aquilo que parecia ser a razão de viver do patriarca: “Toma agora teu filho, teu único, Isaque, a quem amas, e vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto” (Gênesis 22:2, Bíblia Livre).

Como Deus poderia pedir o sacrifício do herdeiro por meio do qual todas as promessas deveriam se cumprir? A razão humana entra em curto-circuito. No entanto, o texto mostra Abraão levantando-se de madrugada, cortando a lenha e marchando durante três dias rumo à montanha. Ele já conhecia o caráter do Deus com quem caminhava havia meio século. Sabia que Deus não é sádico nem quebra alianças. O autor de Hebreus revela o raciocínio de Abraão: ele concluiu que, se fosse necessário, Deus era poderoso o suficiente para ressuscitar Isaque dentre os mortos (Hebreus 11:17-19).

No instante exato em que o patriarca ergueu a faca sobre o altar, a voz dos céus bradou: “Não estendas tua mão sobre o jovem” (Gênesis 22:12, Bíblia Livre). E, levantando os olhos, Abraão viu um carneiro preso pelos chifres no arbusto espinhoso, e o ofereceu em substituição ao seu filho. Abraão chamou aquele lugar de Javé-Jiré, que quer dizer “o Senhor proverá”.

Aquele episódio no monte Moriá foi uma encenação profética colossal. Dois mil anos depois, nas colinas da mesma região, em Jerusalém, Deus Pai não pouparia o Seu próprio Filho único e amado (Romanos 8:32). Em vez de suspender a faca, Ele entregou Jesus Cristo na cruz como o verdadeiro Cordeiro substituto, pagando o preço definitivo pelos pecados do mundo.

A herança para nós hoje

A trajetória de Abraão nos ensina que o cristianismo bíblico não é sobre mérito próprio, herança de sangue ou rituais externos. Ele nos chama a responder com confiança à voz de Deus quando o caminho parece impossível aos olhos humanos.

Como afirma o apóstolo Paulo, os verdadeiros filhos de Abraão não são os que descendem dele pela carne, mas os que compartilham da mesma fé (Gálatas 3:7). Seguir os passos do patriarca é abandonar as nossas velhas seguranças terrenas, reconhecer que nada temos a oferecer para comprar o favor divino e descansar na certeza inabalável de que Aquele que começou a boa obra é fiel para cumpri-la até o fim (Filipenses 1:6).

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