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Gênesis 14Abrão resgata Ló e recusa o butim de Sodoma

Estudo indutivo de Gênesis 14: a guerra dos reis, o resgate de Ló, a bênção de Melquisedeque e a recusa do butim

Diego Gonçalves14 min de leitura2.775 palavras

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Neste estudo

Quem compra casa na beira de um barranco costuma achar a vista linda. O corretor aponta o horizonte, a família imagina o café na varanda, e ninguém fala da encosta, porque o terreno barato tem um motivo. O preço só aparece na primeira chuva forte.

Ló comprou, por assim dizer, um terreno desses. No capítulo anterior ele olhou para a planície do Jordão, viu água e pasto e foi armando as tendas “até Sodoma” (Gênesis 13:12). Agora a chuva chegou, em forma de guerra, e quem sai para buscá-lo é o tio que ficou na serra.

O capítulo 14 é o único em que Abrão aparece como guerreiro, e ele só pega em armas para salvar um parente. O texto traz a rebelião contra Quedorlaomer (vv. 1-12), o resgate de Ló (vv. 13-16) e o encontro com Melquisedeque e com o rei de Sodoma (vv. 17-24). A pergunta que guia o estudo é esta: como alguém que pertence a Deus convive com um mundo que não pertence a ele?

Uma guerra de reis que ninguém no acampamento de Abrão tinha pedido (vv. 1-7)

E aconteceu nos dias de Anrafel, rei de Sinear, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de nações, que estes fizeram guerra contra Bera, rei de Sodoma, e contra Birsa, rei de Gomorra, e contra Sinabe, rei de Admá, e contra Semeber, rei de Zeboim, e contra o rei de Belá, a qual é Zoar. Todos estes se juntaram no vale de Sidim, que é o mar salgado. Doze anos haviam servido a Quedorlaomer, e ao décimo terceiro ano se rebelaram. E no ano décimo quarto veio Quedorlaomer, e os reis que estavam de sua parte, e derrotaram aos refains em Asterote-Carnaim, aos zuzins em Hã, e aos emins em Savé-Quiriataim. E aos horeus no monte de Seir, até a El-Parã, que está junto ao deserto. E voltaram e vieram a En-Mispate, que é Cades, e devastaram todas as terras dos amalequitas, e também aos amorreus, que habitavam em Hazazom-Tamar.

(Gênesis 14:1-7, Bíblia Livre)

Observação. O capítulo abre com uma lista de nove reis e uma lista de povos derrotados, e Abrão não aparece em nenhuma das duas. Quatro reis do Oriente enfrentam cinco reis das cidades da planície. Os cinco serviram a Quedorlaomer por doze anos, se rebelaram no décimo terceiro, e no décimo quarto ano a resposta chegou. A campanha do rei de Elão desce pelo leste do Jordão e só então dobra rumo ao vale de Sidim.

Interpretação. Reis fortes cobravam tributo de reis fracos, e quando o tributo parava, vinha uma expedição para lembrar quem mandava. Os cinco reis acharam que podiam parar de pagar sem consequência.

Um detalhe costuma chamar a atenção. O versículo 7 fala nas terras “dos amalequitas”, e Amaleque, neto de Esaú, ainda nem tinha nascido (Gênesis 36:12). A explicação mais simples é que o narrador, escrevendo depois, usa o nome com que a região ficou conhecida. O texto quer mostrar uma região em chamas e deixar o leitor perguntando onde está Ló.

Aplicação. Muitas crises começam longe de nós, e de repente a conta chega à nossa porta. Quem vive perto demais dos lugares que Deus condena costuma ser pego por conflitos que nunca escolheu.

Perguntas para discussão

  1. Por que o autor gasta tantos versículos com reis e povos que o leitor nunca mais verá?
  2. O que a rebelião dos cinco reis ensina sobre achar que as consequências nunca chegam?
  3. Que decisões “distantes” de outras pessoas já afetaram a sua casa?

Sodoma perde a guerra e Ló perde a liberdade (vv. 8-12)

E saiu o rei de Sodoma, e o rei de Gomorra, e o rei de Admá, e o rei de Zeboim, e o rei de Belá, que é Zoar, e ordenaram contra eles batalha no vale de Sidim; a saber, contra Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de nações, e Anrafel, rei de Sinear, e Arioque, rei de Elasar; quatro reis contra cinco. E o vale de Sidim estava cheio de poços de betume: e fugiram o rei de Sodoma e o de Gomorra, e caíram ali; e os demais fugiram ao monte. E tomaram toda a riqueza de Sodoma e de Gomorra, e todos os seus mantimentos, e se foram. Tomaram também Ló, filho do irmão de Abrão, que morava em Sodoma, e sua riqueza, e se foram.

(Gênesis 14:8-12, Bíblia Livre)

Observação. Quatro contra cinco, e os quatro vencem. Os reis de Sodoma e de Gomorra fogem e caem nos poços de betume, e o resto da população corre para o monte. O versículo 11 fala do saque das duas cidades, e o versículo 12 acrescenta, quase de passagem, o nome de Ló. Repare no verbo: ele “morava em Sodoma”. Antes ele só tinha armado as tendas perto da cidade (13:12). Agora tinha endereço dentro dela.

Interpretação. A descida de Ló foi gradual. Ele olhou (13:10), escolheu (13:11), armou as tendas até a cidade (13:12) e acabou morando nela. Cada passo parecia pequeno. A Bíblia chama Ló de “justo” e conta que ele se afligia todos os dias com o que via e ouvia em Sodoma (2 Pedro 2:7-8). Ou seja, ele não gostava do que a cidade fazia, mas continuava morando lá, e a vizinhança cobrou o preço, primeiro com o cativeiro e depois, em Gênesis 19, com muito mais.

Aplicação. Ninguém perde a liberdade acordando num dia e decidindo perdê-la. A pergunta mais útil costuma ser a dos passos: onde eu parei de olhar e comecei a morar? Quem aceita o primeiro passo “porque é só uma olhada” já está a caminho do endereço.

Perguntas para discussão

  1. Que verbos descrevem a descida de Ló, de Gênesis 13:10 até 14:12?
  2. Por que a Bíblia chama Ló de justo, mesmo depois dessas escolhas?
  3. Em que área da sua vida você tem “armado tendas” perto de algo que sabe que faz mal?

Abrão monta o resgate (vv. 13-16)

E veio um dos que escaparam, e denunciou-o a Abrão o hebreu, que habitava no vale de Manre, amorreu, irmão de Escol e irmão de Aner, os quais tinham feito pacto com Abrão. E ouviu Abrão que seu irmão estava prisioneiro, e armou seus criados, os criados de sua casa, trezentos e dezoito, e seguiu-os até Dã. E derramou-se sobre eles de noite ele e seus servos, e feriu-os, e foi os seguindo até Hobá, que está à esquerda de Damasco. E recuperou todos os bens, e também a Ló seu irmão e sua riqueza, e também as mulheres e gente.

(Gênesis 14:13-16, Bíblia Livre)

Observação. Alguém escapa e procura Abrão, que aqui é chamado “o hebreu” pela primeira vez. Ele tem aliados, Manre, Escol e Aner, e tem 318 homens nascidos em casa. Ao ouvir que “seu irmão” foi levado, Abrão arma esses homens e vai atrás até Dã. Ataca de noite, persegue o inimigo até depois de Damasco e volta com tudo: Ló, os bens, as mulheres e o povo.

Interpretação. O fugitivo foi justamente a Abrão, o que diz algo sobre a reputação dele. O texto chama Ló de “irmão”, no sentido amplo de parente próximo, e Abrão não pesa se o sobrinho mereceu ou não o que lhe aconteceu. Ló tinha escolhido a melhor terra e deixado o tio com o resto, e mesmo assim o tio vai.

Os 318 homens “nascidos em casa” mostram um homem preparado. Ninguém monta uma tropa disciplinada de um dia para o outro, e a operação só deu certo porque Abrão treinou esses servos nos dias tranquilos. Ele também não hesitou: quem passa a noite ponderando prós e contras perde o rastro dos sequestradores. O texto não cita Deus nesses versículos, mas a bênção de Melquisedeque dá o crédito logo adiante (v. 20). O preparo e a rapidez de Abrão foram os instrumentos, e a vitória veio de Deus.

Alguns estudiosos pensam que a vitória prova que Abrão poderia conquistar Canaã pela força e escolheu não fazer isso, por confiar em Deus. A leitura parece forçada. Resgatar um parente com uma tropa pequena é diferente de enfrentar cidades fortificadas, e Deus não tinha dito de que maneira a terra seria recebida (Gênesis 12:7). O texto só registra que Abrão não a tomou à força.

Aplicação. A família da fé é chamada a ir buscar quem se perdeu, inclusive por culpa própria. E o resgate pede preparo: o tempo de treinar é o tempo em que tudo vai bem. Isso vale para a oração, para a Palavra e para a amizade cultivada antes de o telefone tocar de madrugada.

Perguntas para discussão

  1. O que o fato de o fugitivo procurar Abrão diz sobre o caráter dele?
  2. Abrão tinha motivos para deixar Ló à própria sorte. Por que não o fez?
  3. Em que área você precisa se preparar hoje para o dia em que alguém precisar de você?

Melquisedeque traz pão, vinho e bênção (vv. 17-20)

E saiu o rei de Sodoma a recebê-lo, quando voltava da derrota de Quedorlaomer e dos reis que com ele estavam, ao vale de Savé, que é o vale do Rei. Então Melquisedeque, rei de Salém, tirou pão e vinho; o qual era sacerdote do Deus altíssimo; e abençoou-lhe, e disse: Bendito seja Abrão do Deus altíssimo, possuidor dos céus e da terra; e bendito seja o Deus altíssimo, que entregou teus inimigos em tua mão.

(Gênesis 14:17-20, Bíblia Livre)

Observação. Dois reis saem para receber Abrão. O de Sodoma é citado primeiro, mas quem fala é o outro. Melquisedeque é rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Ele traz pão e vinho e faz duas bênçãos. O crédito da vitória vai para o Altíssimo, “possuidor dos céus e da terra”, que “entregou” os inimigos.

Interpretação. O texto não explica por que Melquisedeque estava ali nem por que os dois reis saíram juntos. A explicação mais simples é a vizinhança: Salém, a futura Jerusalém, ficava perto do vale do Rei. Melquisedeque também não aparece na guerra, o que sugere que ele não participou da rebelião, e o encontro parece obra da providência de Deus. Hebreus 7:2 e 4 confirma que Abrão deu a Melquisedeque o dízimo de tudo.

O nome tem sentido. Melquisedeque quer dizer “rei de justiça”, e Salém vem da palavra para “paz”. Séculos depois, o Salmo 110 usa a figura numa promessa sobre o Messias:

O SENHOR jurou, e não se arrependerá: Tu és Sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque.

(Salmos 110:4, Bíblia Livre)

A carta aos Hebreus explica o que isso quer dizer. Melquisedeque aparece na Escritura sem registro de nascimento ou de morte, e por isso é descrito assim:

sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem ter princípio de dias, nem fim de vida; porém, sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.

(Hebreus 7:3, Bíblia Livre)

Hebreus tira daí um argumento. Abraão, o portador das promessas, deu o dízimo e foi abençoado, e “o menor é abençoado pelo maior” (Hebreus 7:7). Logo, o sacerdócio de Melquisedeque é superior ao de Levi, e o de Cristo, que é “segundo a ordem de Melquisedeque”, é superior aos dois. O Filho “vive para sempre para interceder” por nós (Hebreus 7:25). Muitos cristãos veem no pão e no vinho uma sombra da ceia, mas Gênesis não diz isso, e convém não carregar a cena além do texto.

Aplicação. Depois da vitória, a primeira palavra que Abrão ouve é de louvor a Deus. Isso corrige um vício comum: depois de uma conquista, queremos que alguém fale de nós. E nós, que temos um Sacerdote maior do que Melquisedeque, podemos nos aproximar de Deus sem medo.

Perguntas para discussão

  1. Por que a bênção de Melquisedeque dá a Deus o crédito pela vitória?
  2. Que semelhanças entre Melquisedeque e Cristo o Salmo 110 e Hebreus 7 destacam?
  3. O que muda na sua forma de comemorar uma vitória quando você lembra que Deus a entregou?

Abrão recusa o butim de Sodoma (vv. 21-24)

Então o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me as pessoas, e toma para ti a riqueza. E respondeu Abrão ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR Deus altíssimo, possuidor dos céus e da terra, que desde um fio até a correia de um calçado, nada tomarei de tudo o que é teu, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão: tirando somente o que os rapazes comeram, e a porção dos homens que foram comigo, Aner, Escol, e Manre; eles tomem a sua parte.

(Gênesis 14:21-24, Bíblia Livre)

Observação. O rei de Sodoma só fala depois da bênção. A proposta é generosa na superfície: as pessoas voltam para ele e a riqueza fica com Abrão. Abrão responde com um juramento ao “SENHOR Deus altíssimo”, o mesmo título que Melquisedeque usou. Não aceita nem “um fio” nem “a correia de um calçado”, e explica o motivo: não quer que o rei diga “Eu enriqueci a Abrão”.

Interpretação. A pergunta natural é se Abrão pecaria ao aceitar. Provavelmente não. Pelos costumes de guerra da época, quem recuperava o despojo tinha direito a ele. O texto não condena quem aceitasse.

O que a recusa mostra é o motivo. Abrão já havia jurado ao SENHOR, antes mesmo de o rei falar, e o verbo está no passado: “levantei minha mão”. Receber riqueza da mão do rei de Sodoma significaria dever alguma coisa à cidade, e a reputação do Deus de Abrão ficaria misturada com o dinheiro de Sodoma. A recusa nasce da lealdade ao SENHOR, e não da soberba. A prova é que Abrão não impõe o juramento aos aliados e que mais tarde é ele quem intercede a Deus pela cidade (Gênesis 18:23-24). Logo no capítulo seguinte, Deus responde com uma palavra que cobre o que Abrão deixou na mesa: “Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo; a tua recompensa será muito grande” (Gênesis 15:1).

O contraste com o sobrinho é forte. Ló foi pondo as tendas até Sodoma, enquanto Abrão não aceita nada de lá. Os dois eram justos, mas lidavam de modos muito diferentes com o mundo, e o desfecho mostra o peso dessa diferença: depois da queda das cidades, Deus “lembrou-se de Abraão” e tirou Ló do meio da destruição (Gênesis 19:29).

Aplicação. O Novo Testamento fala do “mundo” de duas maneiras. Deus amou o mundo (João 3:16), e Jesus pediu ao Pai, não que tirasse os discípulos do mundo, mas que os guardasse do maligno (João 17:15-16). Ao mesmo tempo, o mundo como sistema que vive de costas para Deus é inimigo dele:

Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo, a cobiça da carne, a cobiça dos olhos, e a ostentação da vida, não é do Pai, mas do mundo.

(1 João 2:15-16, Bíblia Livre)

Muitos cristãos fazem a pergunta errada: “até onde posso ir sem me contaminar?”. A pergunta mostra, sem querer, que o coração está olhando para a beira do barranco. Abrão perguntou o contrário: o que preciso deixar de fora para que ninguém confunda o meu Deus com este reino? Isso não manda fugir do mundo: Abrão desceu à guerra e salvou o sobrinho. Ele estava no mundo e não vivia como o mundo. Eu confesso que a minha tendência é a de Ló, de chegar perto para ver como é, e por isso preciso ouvir essa pergunta de Abrão com frequência.

Perguntas para discussão

  1. Por que Abrão, tendo direito ao butim, recusa tudo menos a comida e a parte dos aliados?
  2. Em que Ló e Abrão se parecem e em que se diferenciam na relação com Sodoma?
  3. Que “presentes” do mundo você deveria recusar para que o nome de Deus não seja ligado a eles?

A casa no barranco

A primeira chuva forte levou o que Ló tinha, e ele ainda voltou para o mesmo barranco. O capítulo 19, com o fogo do céu, mostrará o preço. Abrão voltou para as tendas, leve, com as mãos limpas e o nome de Deus intacto.

Gênesis 14 nos ensina três coisas. Em primeiro lugar, chegar perto do mundo tem consequência, e a escolha começa nos olhos. Em segundo lugar, Abrão se preparou antes da crise e agiu sem demora quando ela chegou. Em terceiro lugar, toda vitória pertence ao Deus Altíssimo, e por isso quem a recebe não pode se endividar com Sodoma.

Senhor, tu conheces a nossa tendência de ir armando as tendas cada vez mais perto do que nos faz mal. Ensina-nos a estar preparados, a agir sem demora quando alguém precisar de nós e a recusar o que desonra o teu nome. Obrigado pelo Sacerdote que vive para interceder por nós. Amém.

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