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EstudosEstudos em Gênesis13 de 36

Quem foi Adão? A queda no jardim e o último Adão

Quem foi Adão? O pó da terra, a queda no jardim e o último Adão

Diego Gonçalves7 min de leitura1.433 palavras

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Neste estudo

Qualquer tentativa séria de compreender as contradições da condição humana esbarra nas primeiras páginas da Bíblia. Somos capazes de beleza, de arte e de amor, e ao mesmo tempo inclinados à violência, à vergonha e ao egoísmo. Por que o ser humano é tão nobre e, ao mesmo tempo, tão quebrado? A teologia cristã não responde a essa pergunta com teorias sociológicas abstratas; ela responde com a história de Adão.

Adão não é apenas o primeiro personagem a entrar em cena no livro de Gênesis; ele é a cabeça representativa de toda a raça humana. Compreender a sua vocação original, o seu colapso e o seu lugar na história bíblica é a chave para entender a própria necessidade da salvação em Jesus Cristo.

Afresco de Adão e Eva nus, cobertos de vergonha e em lágrimas, sendo expulsos do jardim sob um anjo com a espada
Masaccio, A expulsão do Jardim do Éden, c. 1424-1428. Capela Brancacci, Santa Maria del Carmine, Florença. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O pó do solo e o sopro da vida

O relato de Gênesis 1 e 2 constrói a identidade do ser humano a partir de um trocadilho hebraico profundo e intencional. O homem é chamado de ‘Adam, porque foi tirado da ‘adamah (o solo arável, a terra vermelha e fértil).

Essa etimologia carrega uma dupla verdade sobre a nossa existência:

  1. A nossa finitude humilde: não somos deuses autônomos. Somos criaturas moldadas a partir do barro, dependentes do oxigênio, da água e do pão de cada dia. Viemos do pó e ao pó retornaremos fisicamente.
  2. A nossa dignidade infinita: o texto de Gênesis 2:7 afirma que Deus soprou nas narinas do homem o fôlego de vida (nishmat chayyim), e ele passou a ser alma vivente. O sopro vem direto de Deus, e só o ser humano foi criado como Imago Dei, a imagem e semelhança do Criador na terra (Gênesis 1:26-27).

Adão foi colocado no Jardim do Éden para cumprir uma missão definida: cultivar e guardar o jardim (Gênesis 2:15). No hebraico bíblico, os verbos usados aqui (‘avad e shamar) são exatamente os mesmos termos que mais tarde seriam atribuídos aos sacerdotes e levitas no cuidado do tabernáculo (Números 3:7-8). O Éden era o santuário primordial de Deus na terra, e Adão era o sacerdote encarregado de cuidar da criação, estender as fronteiras daquele jardim e glorificar a Deus pelo trabalho honesto. O trabalho com as mãos não nasceu como castigo, mas como uma vocação nobre e santa, anterior a qualquer pecado.

A parceria no jardim e a transparência relacional

Ao observar a solidão de Adão no meio dos animais aos quais dava nome, Deus fez o primeiro diagnóstico negativo da história da criação: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gênesis 2:18).

A palavra hebraica para auxiliadora (‘ezer) nunca significou subalternidade ou inferioridade; é o mesmo termo que as Escrituras usam com frequência para se referir ao próprio Deus como o socorro e auxílio do seu povo nas batalhas. Eva não foi feita do pó do chão separadamente, nem dos pés de Adão para ser pisoteada, nem da cabeça para ser superior. Ela foi tirada do seu lado, da sua costela, para caminhar lado a lado, em igualdade essencial de dignidade e valor.

A visão da mulher fez brotar a primeira poesia da história: “Esta é finalmente osso dos meus ossos e carne da minha carne!” (Gênesis 2:23). O capítulo 2 encerra com uma frase de pureza deslumbrante: “O homem e sua mulher estavam nus, e não se envergonhavam” (Gênesis 2:25). Não havia medo de rejeição, não havia necessidade de fingimento, não havia máscaras sociais nem jogos de poder; havia perfeita transparência diante de Deus e entre o casal.

A tentação da autonomia e o colapso moral

A fronteira moral do Éden estava expressa numa proibição simples: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:16-17). Essa árvore não continha nenhum fruto com propriedades mágicas; ela era o teste da autoridade e da confiança. Quem definiria o que é bom e o que é mau para a criatura? O Criador, por meio de Sua Palavra revelada, ou o homem, decidindo por conta própria ser a medida de todas as coisas?

No capítulo 3, a serpente lança o dardo da desconfiança contra o caráter de Deus. Primeiro ela pergunta: “Foi assim mesmo que Deus disse?” (Gênesis 3:1). Depois, desmente a advertência do Senhor:

“Então a serpente disse à mulher: Não morrereis; Mas Deus sabe que no dia que comerdes dele, vossos olhos serão abertos, e sereis como deuses, sabendo o bem e o mal.”

(Gênesis 3:4-5, Bíblia Livre)

A raiz de todo pecado não é apenas a quebra de uma regra fria; é a arrogância de querer ser Deus sem Deus. Eva caiu no engano dos sentidos, e Adão, que estava com ela e tinha recebido o mandamento direto dos lábios divinos, comeu deliberadamente do fruto, abdicando da sua responsabilidade de proteger o jardim e a sua família.

O desastre foi imediato e atingiu todas as dimensões da existência:

  • A ruptura consigo mesmo: os olhos se abriram, a nudez virou fonte de terror e vergonha, e eles costuraram aventais de folhas de figueira para tentar cobrir a própria culpa.
  • A ruptura com Deus: ao ouvirem os passos do Senhor caminhando no jardim ao entardecer, fugiram apavorados e se esconderam entre os arbustos. A intimidade virou fuga.
  • A ruptura com o próximo: quando confrontado por Deus, Adão não se arrependeu; transferiu a culpa covardemente para a mulher e para o próprio Criador: “A mulher que tu me deste por companheira, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12).
  • A ruptura com a criação: o solo passou a produzir espinhos e ervas daninhas, a terra foi amaldiçoada e a morte física e espiritual entrou na história humana. Expulsos do jardim, os homens aprenderam o peso do luto, da dor e do suor amargo.

O primeiro vislumbre da graça e o último Adão

Mesmo no meio das sentenças de juízo em Gênesis 3, a graça de Deus brilhou com força. Foi o próprio Deus quem tomou a iniciativa: chamou o homem que se escondia (“Onde estás?”, Gênesis 3:9) antes que ele pensasse em voltar. Essa graça que vai à frente do pecador, antes de qualquer resposta dele, é o que a tradição wesleyana chama de graça preveniente.

No versículo 15, no chamado Protoevangelho, Deus declarou à serpente: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar”. Ali estava a promessa inaugural do Messias: um descendente da mulher nasceria na história para esmagar definitivamente o poder do mal, ainda que ao custo de ser ferido no processo.

Em seguida, o próprio Deus fez túnicas de peles de animais e vestiu Adão e Eva (Gênesis 3:21). Os aventais frágeis de folhas de figueira que o homem inventou não eram suficientes para cobrir a sua vergonha. A lição era evidente: para cobrir a nudez da culpa humana, era necessário o sacrifício de uma vida inocente, com derramamento de sangue providenciado pela mão do próprio Deus.

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo estrutura a teologia da redenção ao redor de dois grandes representantes da humanidade: o primeiro Adão e o último Adão, Jesus Cristo. Primeiro, em Romanos:

“Pois, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos serão justificados.”

(Romanos 5:19, Bíblia Livre)

E depois, em 1 Coríntios:

“Assim também está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante.”

(1 Coríntios 15:45, Bíblia Livre)

No primeiro Adão, todos nós herdamos uma natureza corrompida, inclinada ao mal continuamente e incapaz de voltar-se para Deus por si mesma, a vergonha interior e a condenação da morte. No último Adão, todos os que creem recebem, somente pela graça, mediante a fé, o perdão dos pecados, a reconciliação com o Pai e a esperança inabalável da ressurreição corporal.

A história de Adão é, no fim das contas, a história de cada um de nós. Todos nós compartilhamos da dignidade do pó soprado por Deus e da tragédia de tentar viver em rebeldia autônoma. O evangelho nos convida a sair dos arbustos da culpa, rasgar as nossas roupas de justiça própria e acolher a justiça perfeita que nos é oferecida gratuitamente em Cristo Jesus.

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