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EstudosEstudos em Gênesis32 de 32

Gênesis 18A visita a Abraão e a oração por Sodoma

Estudo indutivo de Gênesis 18: a mesa de Abraão, o riso de Sara, o Deus que não esconde seus planos e a intercessão por Sodoma

Diego Gonçalves22 min de leitura4.393 palavras

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Neste estudo

Quem cresceu no interior sabe como funciona. Chega uma visita sem avisar, perto da hora do almoço, e ninguém pergunta se a pessoa já comeu. O cafezinho vira mesa farta, alguém corre ao quintal atrás de uma galinha, outro vai ao vizinho pedir um pouco mais de farinha, e a conversa só termina quando o sol está baixo. O dono da casa, que prometeu “só um café”, fica de pé ao lado da mesa, olhando se falta alguma coisa.

Gênesis 18 começa assim, numa tenda, no calor do meio-dia, com um velho de quase cem anos que se levanta para servir três desconhecidos. Os visitantes trazem uma promessa para Sara e um aviso sobre Sodoma, e o anfitrião termina o dia de pé diante de Deus, pedindo misericórdia por uma cidade perversa. O estudo responde a três perguntas. Como é um homem que recebe Deus em casa? Por que Deus conta a Abraão o que vai fazer? E o que o capítulo ensina sobre a justiça de Deus e sobre a oração?

O capítulo 17 terminou com a promessa de que Sara daria à luz um filho “no ano seguinte” (Gênesis 17:21). O texto não diz quanto tempo passou entre as cenas, mas foi dentro desse ano (Gênesis 21:2). Nos versículos 1 a 15, a casa de Abraão recebe os visitantes e ouve a promessa do filho; nos versículos 16 a 33, a conversa caminha para Sodoma e Abraão ora.

Abraão corre ao encontro de três visitantes (vv. 1-8)

E apareceu-lhe o SENHOR nos carvalhos de Manre, estando ele sentado à porta de sua tenda no calor do dia.

E levantou seus olhos e olhou, e eis que três homens que estavam junto a ele: e quando os viu, saiu correndo da porta de sua tenda a recebê-los, e inclinou-se até a terra,

E disse: Senhor, se agora achei favor aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo.

Que se traga agora um pouco de água, e lavai vossos pés; e recostai-vos debaixo de uma árvore,

E trarei um bocado de pão, e confortai vosso coração; depois passareis; pois por isso passastes perto de vosso servo.

Então Abraão foi depressa à tenda a Sara, e lhe disse: Toma logo três medidas de boa farinha, amassa e faz pães cozidos.

E correu Abraão às vacas, e tomou um bezerro tenro e bom, e deu-o ao jovem, e deu-se este pressa a prepará-lo.

Tomou também manteiga e leite, e o bezerro que havia preparado, e o pôs diante deles; e ele estava junto a eles debaixo da árvore; e comeram.

(Gênesis 18:1-8, Bíblia Livre)

Observação. O versículo 1 informa quem aparece, “o SENHOR”, e o versículo 2 informa o que Abraão vê, “três homens”. O leitor sabe mais do que o patriarca naquele momento. Abraão não espera os homens chegarem: corre ao encontro deles e se curva até o chão. Os verbos são de pressa: “saiu correndo”, “foi depressa”, “correu”. Ele pede “um pouco de água” e “um bocado de pão”, e serve pão novo, manteiga, leite e um bezerro tenro. No fim, não se senta: “ele estava junto a eles debaixo da árvore”. Quem come é o visitante, e o dono da casa serve.

Interpretação. Quem são os três homens? O capítulo vai revelando que são visitantes do céu. Dois seguem para Sodoma e chegam lá como anjos (Gênesis 19:1), e o terceiro permanece com Abraão, e o texto o chama de “SENHOR” (Gênesis 18:22). Muitos cristãos, desde os primeiros séculos, veem nele o Filho de Deus aparecendo antes de nascer em Belém, um anúncio da encarnação, quando “aquela Palavra se fez carne, e habitou entre nós” (João 1:14). Outros leem apenas uma aparição de Deus em forma humana, sem dizer qual Pessoa da Trindade. Nas duas leituras, quem come debaixo da árvore de Manre é o SENHOR. Abraão provavelmente não percebeu logo, mas o título “Senhor” (Adonai, no versículo 3), que ele repete na oração do versículo 27, mostra que, entre ver e se curvar, ele reconheceu o líder do grupo.

A pressa tem dois sentidos. Em primeiro lugar, o cultural: um homem rico e idoso costumava andar com dignidade, e correr em público era abrir mão da compostura. Jesus usa a mesma imagem na parábola do filho pródigo, em que o pai “correndo, caiu ao seu pescoço, e o beijou” (Lucas 15:20). Abraão corre para honrar quem está acima dele, e o pai da parábola corre para abraçar quem o tinha desonrado. Em segundo lugar, a medida: o pedido é “um bocado de pão”, e a entrega é uma refeição de festa, com mais de vinte litros de farinha, segundo as estimativas das “três medidas”, e com carne, que não era comida de todo dia. Abraão promete pouco e entrega muito.

Hebreus 13:2 olha para essa cena e tira uma lição:

Não vos esqueçais de mostrar hospitalidade, porque através dela alguns, sem saber, acolheram anjos.

(Hebreus 13:2, Bíblia Livre)

O versículo não manda acolher os outros esperando que algum seja anjo. Ele ensina que um gesto de bondade pode ser maior do que parece na hora. Gideão (Juízes 6:11-12) e Manoá (Juízes 13:15-16) também receberam visitantes que só depois se mostraram celestiais. A Bíblia trata a hospitalidade com seriedade: “Buscai ser hospitaleiros” (Romanos 12:13); “Proporcionai hospitalidade uns aos outros, sem murmurações” (1 Pedro 4:9). Jesus diz que o forasteiro acolhido é ele mesmo (Mateus 25:35). O livro põe a mesa aberta de Abraão ao lado da porta fechada de Sodoma, que Ezequiel resume em “soberba, fartura de pão, e abundância de conforto; porém nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado” (Ezequiel 16:49).

Aplicação. A hospitalidade custa tempo, dinheiro e uma agenda desarrumada, e quase sempre chega num dia ruim. Abraão estava no calor do meio-dia, ainda se recuperando da circuncisão (Gênesis 17:24-27), e correu. Não precisamos de banquete: uma mesa posta com o que há, uma carona, uma visita ao hospital, um lugar para o irmão que está de passagem. Pensemos também no recém-chegado da igreja e no vizinho que fala pouco. Se o SENHOR aceitou comer na tenda de Abraão, nenhum convite feito com humildade é pequeno.

Perguntas para discussão

  1. Que informações o leitor tem no versículo 1 que Abraão ainda não tem no versículo 2?
  2. Quais verbos descrevem a atitude de Abraão? O que a diferença entre o que ele pede e o que ele serve mostra sobre ele?
  3. Como Hebreus 13:2 e Mateus 25:35 ajudam a entender o sentido da hospitalidade para o cristão?
  4. A quem você poderia receber esta semana, em casa ou na igreja, com a generosidade de Abraão?

A promessa é repetida e Sara ri (vv. 9-15)

E lhe disseram: Onde está Sara tua mulher? E ele respondeu: Aqui na tenda.

Então disse: De certo voltarei a ti segundo o tempo da vida, e eis que Sara, tua mulher, terá um filho.

Abraão e Sara eram idosos, avançados em dias; a Sara já havia cessado o costume das mulheres.

Riu, pois, Sara consigo mesma, dizendo: Depois que envelheci terei prazer, sendo também meu senhor já velho?

Então o SENHOR disse a Abraão: Por que Sara riu dizendo: Será verdade que darei à luz, sendo já velha?

Há para Deus alguma coisa difícil? Ao tempo assinalado voltarei a ti, segundo o tempo da vida, e Sara terá um filho.

Então Sara negou dizendo: Não ri; pois teve medo. Mas ele disse: Não é assim, mas riste.

(Gênesis 18:9-15, Bíblia Livre)

Observação. A conversa muda de assunto na refeição. Os visitantes perguntam por Sara, que está escutando de dentro da tenda, e quem responde com a promessa é o próprio SENHOR: “voltarei a ti… Sara, tua mulher, terá um filho”. O narrador explica por que isso parece absurdo: os dois eram velhos, e Sara já havia passado da idade de ter filhos. Sara ri “consigo mesma” e pensa em voz baixa. Deus responde a um riso que ninguém ouviu: “Por que Sara riu?” Ela nega, com medo, e a resposta é curta: “riste”.

Interpretação. Esse riso se parece com o de Abraão no capítulo anterior: “A um homem de cem anos nascerá filho?” (Gênesis 17:17). Marido e mulher passaram pela mesma incredulidade. O riso de Sara, porém, tem um detalhe a mais: ela pensa em “prazer” e em “meu senhor já velho”. Ela pensa no que os anos costumam fazer com o corpo, e não em milagre. Como ninguém tinha visto nada diferente acontecer ao longo de décadas, ela olha apenas para a rotina.

A resposta de Deus tem duas partes. Primeiro, ele mostra que sabe o que Sara pensa: “Por que Sara riu?”. Quem ouve o riso escondido conhece o que ninguém lhe contou (veja Salmos 139:1-4 e Hebreus 4:13). Depois, ele faz a pergunta que atravessa a Bíblia: “Há para Deus alguma coisa difícil?” Jeremias a repete numa oração (“não há coisa alguma que seja difícil para ti”, Jeremias 32:17), e o anjo dirá a Maria que “para Deus nada será impossível” (Lucas 1:37). A segunda verdade nasce da primeira: o Deus que sabe tudo é também o Deus que pode tudo.

Sara teve medo e negou. Deus não a deixou na mentira, e corrigiu o erro sem humilhar: “Não é assim, mas riste”. O nome dela entra na lista de Hebreus 11: “Pela fé, também, a própria Sara recebeu a capacidade de conceber descendência, e já na idade avançada, pois considerou fiel aquele que havia prometido” (Hebreus 11:11). A fé de Sara começou numa gargalhada incrédula e terminou em confiança. Quando o filho nasceu, ela voltou a falar de riso, desta vez com alegria: “Deus me fez rir, e qualquer um que o ouvir, se rirá comigo” (Gênesis 21:6).

Uma observação lateral. No versículo 12, Sara chama o marido de “meu senhor”, e Pedro usa o exemplo dela com esposas cristãs casadas com maridos que ainda não criam (1 Pedro 3:5-6). A mesma Bíblia pede a todos que se sujeitem “uns aos outros no temor a Cristo” (Efésios 5:21) e aos maridos que amem a esposa “assim como também Cristo amou a Igreja, e se entregou por ela” (Efésios 5:25). A leitura fiel junta as duas coisas.

Aplicação. Muitas orações morrem onde morreu o riso de Sara: no hábito de contar só com o que a vida costuma dar. Quando a promessa de Deus parece grande demais, o primeiro impulso é rir por dentro, em silêncio, e continuar como se nada tivesse sido dito. A resposta do versículo 14 desmonta esse costume. Deus conhece o que pensamos e não se ofende com a nossa honestidade. Quem tem dúvida pode levá-la a ele, porque ele já sabe dela. Deus não pede uma fé que nunca ri. Pede uma fé que, depois do riso, volta e confia em quem prometeu.

Perguntas para discussão

  1. Por que Deus pergunta a Abraão por que Sara riu, se ele mesmo ouviu o riso?
  2. O que o riso de Sara revela sobre o que ela esperava da vida? E o de Abraão em Gênesis 17:17?
  3. Como Hebreus 11:11 ajuda a ler essa cena? O que muda quando lembramos do nascimento de Isaque em Gênesis 21:6?
  4. Que promessa de Deus parece grande demais para você? O que a pergunta do versículo 14 diz a essa situação?

O SENHOR decide não esconder o que vai fazer (vv. 16-21)

E os homens se levantaram dali, e olharam até Sodoma: e Abraão ia com eles acompanhando-os.

E o SENHOR disse: Encobrirei eu a Abraão o que vou a fazer,

Havendo de ser Abraão em uma nação grande e forte, e havendo de ser benditas nele todas as nações da terra?

Porque eu o conheci, sei que mandará a seus filhos e a sua casa depois de si, que guardem o caminho do SENHOR, fazendo justiça e juízo, para que faça vir o SENHOR sobre Abraão o que falou acerca dele.

Então o SENHOR lhe disse: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se aumenta mais e mais, e o pecado deles se agravou em extremo,

Descerei agora, e verei se consumaram sua obra segundo o clamor que veio até mim; e se não, eu o saberei.

(Gênesis 18:16-21, Bíblia Livre)

Observação. Os visitantes se levantam e olham para Sodoma, e Abraão vai com eles, como o anfitrião que acompanha a visita até a porteira. Então o SENHOR fala consigo mesmo, numa pergunta cuja resposta é “não”: esconderei de Abraão o que vou fazer? Dá duas razões. A primeira é o futuro de Abraão, “uma nação grande e forte” que abençoará “todas as nações da terra”. A segunda é o caráter dele: “Porque eu o conheci, sei que mandará a seus filhos e a sua casa depois de si, que guardem o caminho do SENHOR”. Em seguida, o assunto: o clamor de Sodoma e Gomorra subiu, o pecado delas “se agravou em extremo”, e o SENHOR vai descer para ver.

Interpretação. Em primeiro lugar, a frase “eu o conheci”. O verbo hebraico (yada) é o mesmo de Gênesis 4:1, em que Adão “conheceu” Eva, e o de Amós 3:2: “Somente reconheci a vós mesmos de todas as famílias da terra”. É um conhecimento de relação, e não só de informação. Jesus pensa assim quando diz que a vida eterna é “que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo” (João 17:3). Deus escolheu Abraão (Gênesis 12:1-3), entrou em relação com ele e agora o trata como amigo: Abraão “foi chamado amigo de Deus” (Tiago 2:23). Jesus diz aos discípulos algo parecido: “eu tenho vos chamado de amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai eu tenho vos feito conhecer” (João 15:15). Quem é amigo de Deus ouve o que ele vai fazer.

Em segundo lugar, o texto revela uma função. Abraão será pai de uma família que “guarde o caminho do SENHOR, fazendo justiça e juízo”, e a bênção às nações depende de uma casa que ande de modo reto, de geração em geração.

Em terceiro lugar, o versículo 21: “Descerei agora, e verei”. Parece que Deus precisa investigar, como um fiscal que desconfia da denúncia. Porém a mesma linguagem aparece antes: em Babel, “desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre” (Gênesis 11:5), e no Éden ele “passeava no jardim à brisa do dia” (Gênesis 3:8). O texto descreve Deus com palavras de homem, para que entendamos, sem ensinar que ele ignora algo. Outros textos dizem o contrário: Deus declara “o fim desde o princípio” (Isaías 46:10) e conhece o pensamento antes da palavra (Salmos 139:4). Por isso o teísmo aberto, a ideia de que Deus ainda aprende o futuro à medida que as pessoas escolhem, não encontra apoio aqui. Gênesis 18:21 mostra um juiz que examina o clamor antes de sentenciar.

A perícope toca também a discussão sobre eleição. Romanos 8:29 diz que Deus “desde antes conheceu” e predestinou. Uma leitura entende esse conhecer como relação decidida de antemão por Deus, sem que a escolha dependa de nada na pessoa. A outra, a nossa, entende que Deus conheceu de antemão quem creria e elegeu “nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4) os que respondem à fé, pela graça que liberta a vontade de quem estava morto no pecado (Atos 7:51 lembra que ela pode ser resistida). Nessa leitura, a salvação continua sendo obra de Deus do início ao fim. Gênesis 18:19, porém, trata do conhecimento que Deus tem de Abraão e da missão dele, e seria imprudente carregar nele o debate inteiro sobre a salvação de cada pessoa.

O versículo 19 mostra, sim, uma ordem que vale para a vida cristã. A relação vem primeiro: “eu o conheci”. A obediência vem depois, como fruto: que ele ensine à sua casa o caminho do SENHOR. E a realização vem no fim: “para que faça vir o SENHOR sobre Abraão o que falou acerca dele”. Paulo diz que “pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus”, e que somos feitos “para as boas obras, que Deus preparou para que nelas andássemos” (Efésios 2:8-10).

Aplicação. Primeiro, Deus não esconde dos seus amigos o que importa. Pelas Escrituras sabemos o que ele vai fazer: o julgamento vem, e a misericórdia ainda está aberta. Segundo, o texto pergunta a pais e líderes se a casa deles ensina o caminho do SENHOR ou só o que dá certo no mundo. Em terceiro lugar, a relação precede a obediência. Ninguém obedece para ser amado. Obedecemos porque já fomos “conhecidos”.

Perguntas para discussão

  1. Que duas razões o SENHOR dá para contar a Abraão o que vai fazer?
  2. O que quer dizer “conhecer” em Gênesis 4:1, Amós 3:2 e João 17:3? Como isso ajuda a ler Gênesis 18:19?
  3. Por que a expressão “descerei agora, e verei” não ensina que Deus precise investigar? Que outros textos ajudam a responder?
  4. A sua casa está ensinando “o caminho do SENHOR”? O que você pode fazer hoje para isso?

Abraão se aproxima: o Juiz de toda a terra não fará justiça? (vv. 22-25)

E apartaram-se dali os homens, e foram até Sodoma: mas Abraão estava ainda diante do SENHOR.

E aproximou-se Abraão e disse: Destruirás também ao justo com o ímpio?

Talvez haja cinquenta justos dentro da cidade: destruirás também e não perdoarás ao lugar por cinquenta justos que estejam dentro dela?

Longe de ti o fazer tal, que faças morrer ao justo com o ímpio e que seja o justo tratado como o ímpio; nunca faças tal. O juiz de toda a terra, não há de fazer o que é justo?

(Gênesis 18:22-25, Bíblia Livre)

Observação. Os dois anjos vão adiante, e o SENHOR fica. Abraão “estava ainda diante do SENHOR”, e o verbo seguinte é “aproximou-se”. Ele não fala com rodeios, e faz uma pergunta que repete o mesmo assunto três vezes: “destruirás também ao justo com o ímpio?” O nome que ele dá a Deus é “o juiz de toda a terra”. A palavra “justo” aparece nos versículos 23, 24 e 25, e o argumento depende dela.

Interpretação. A cena mostra o SENHOR esperando que um homem se aproxime, e Abraão toma a iniciativa de entrar na conversa. Não é insolência, e sim um privilégio que Deus acabou de lhe conceder ao dizer o que faria. Moisés também invocará Abraão, Isaque e Israel ao pedir por um povo rebelde (Êxodo 32:13), e o SENHOR falava com ele “face a face, como fala qualquer um a seu companheiro” (Êxodo 33:11). Os amigos de Deus têm o direito de falar.

Abraão começa pelo caráter de Deus, e não pelo pedido. Ele pergunta se o juiz de toda a terra não fará o que é justo, e a pergunta não duvida de Deus, e sim apela para ele. Moisés dirá mais tarde que “sua obra é perfeita, pois todos os seus caminhos são justos” (Deuteronômio 32:4). A oração que parte dessa convicção se apoia em chão firme.

Em seguida surge uma pergunta antiga: é justo que o justo sofra junto com o ímpio? A resposta de Abraão é “nunca faças tal”, e Deus concorda. No capítulo 19, o SENHOR tira Ló e as filhas antes de a destruição cair (Gênesis 19:15-16, 24-25). Pedro lembra que Ló era “justo” e que “todo dia ele atormentava sua justa alma, ao ver e ouvir as suas injustas obras” (2 Pedro 2:7-8). O Senhor sabe livrar os seus (2 Pedro 2:9).

Neste mundo, porém, o justo e o ímpio com frequência sofrem juntos. Há dois equívocos possíveis: concluir que Deus age injustamente, o que Abraão rejeita, ou supor que sabemos medir a justiça melhor do que ele. Deus não nos deve explicação a cada dor, mas sabemos que ele é bom, que levará tudo a juízo e que “todas as coisas juntamente contribuem para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28). Os caminhos dele são mais altos que os nossos (Isaías 55:9). Quando ele julga, o julgamento é merecido, pois “todos pecaram, e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23). A pergunta mais honesta talvez seja por que ele nos poupa tanto. Sua misericórdia não é injustiça: é a bondade dele que “conduz ao arrependimento” (Romanos 2:4).

Aplicação. Aprendemos a orar começando por Deus. Antes de apresentar o pedido, Abraão afirma o que sabe do caráter dele, e a oração ganha força e honestidade. E a nossa indignação com o mal do mundo deve levar à oração, e não ao cinismo.

Perguntas para discussão

  1. O que o verbo “aproximou-se” mostra sobre a relação entre Abraão e Deus?
  2. Por que Abraão começa a oração apelando ao caráter de Deus e não ao próprio pedido?
  3. Como Gênesis 19, 2 Pedro 2:7-9 e Romanos 2:4 ajudam a responder à pergunta sobre o justo e o ímpio?
  4. O que você faz com a sua indignação diante da injustiça: ora, reclama ou se cala?

De cinquenta a dez: a oração que negocia (vv. 26-33)

Então respondeu o SENHOR: Se achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, perdoarei a todo este lugar por causa deles.

E Abraão replicou e disse: Eis que agora que comecei a falar a meu Senhor, ainda que sou pó e cinza:

Talvez faltem de cinquenta justos cinco; destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se achar ali quarenta e cinco.

E voltou a falar-lhe, e disse: Talvez se acharão ali quarenta. E respondeu: Não o farei por causa dos quarenta.

E disse: Não se ire agora meu Senhor, se falar: talvez se achem ali trinta. E respondeu: Não o farei se achar ali trinta.

E disse: Eis que agora que me empreendi em falar a meu Senhor: talvez se achem ali vinte. Não a destruirei, respondeu, por causa dos vinte.

E voltou a dizer: Não se ire agora meu Senhor, se falar somente uma vez: talvez se achem ali dez. Não a destruirei, respondeu, por causa dos dez.

E foi-se o SENHOR, logo que acabou de falar a Abraão: e Abraão se voltou a seu lugar.

(Gênesis 18:26-33, Bíblia Livre)

Observação. A oração tem seis rodadas, e o número cai a cada pedido: cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez. A resposta de Deus é sempre a mesma, e é sim. Abraão fala com cuidado e insistência: “ainda que sou pó e cinza”, “não se ire”, “somente uma vez”. Quem encerra a conversa é o SENHOR, que “foi-se”, e Abraão “se voltou a seu lugar”. O texto não diz que o número de dez foi alcançado, e o capítulo seguinte mostra que não foi.

Interpretação. Abraão regateia com Deus? A cena lembra uma negociação de mercado, mas cada pedido é uma pergunta sobre o tamanho da misericórdia de Deus, e cada resposta mostra que a misericórdia é maior do que o pedido. O Deus que respondeu “sim” a cinquenta responde “sim” a dez. Quem para primeiro é Abraão, e Deus não. Ao parar nos dez, ele chegou ao limite da própria ousadia, e não ao da compaixão divina. Jesus ensina a insistir assim, com o dever “de sempre orar, e nunca se cansar” (Lucas 18:1).

Quem Abraão tinha em mente? Provavelmente Ló e a família, embora o texto não o diga. Ele os tinha resgatado numa guerra pouco antes (Gênesis 14), e a oração mistura amor ao sobrinho e preocupação com uma cidade culpada. A melhor resposta vem depois: “lembrou-se Deus de Abraão, e enviou fora a Ló do meio da destruição” (Gênesis 19:29). Não houve dez justos, e ainda assim a oração teve efeito.

Outros textos mostram o lado duro da mesma ideia. Deus diz em Ezequiel: “busquei dentre eles um homem que tapasse o muro, e que se pusesse na brecha diante de mim pela terra, para que eu não a destruísse; porém a ninguém achei” (Ezequiel 22:30). Ele procura quem fique na brecha, e a sentença cai quando ninguém aparece.

Há ainda uma lição que Abraão não podia ver. Nenhum justo bastaria, pois “todos pecaram” (Romanos 3:23), e os dez justos também precisariam de misericórdia. A oração de Abraão aponta para um Justo que, sozinho, é suficiente: “o meu servo, o justo, justificará a muitos, pois levará sobre si as perversidades deles” (Isaías 53:11). Em Cristo, “pela obediência de um só, muitos serão justificados” (Romanos 5:19), e ele “vive para sempre para interceder” pelos que se aproximam de Deus (Hebreus 7:25; veja também Romanos 8:34 e 1 João 2:1). Abraão pediu que Deus poupasse muitos por causa de poucos justos. O Evangelho anuncia que Deus poupa muitos por causa de um só.

Aplicação. Abraão ensina a orar por quem não merece. A cidade era culpada, e ele pediu misericórdia por ela. Podemos orar por vizinhos e parentes distantes de Deus, sem esquecer que o juízo é real. Ele ensina também a orar com ousadia e humildade juntas: “pó e cinza” e “mais uma vez”. Tiago diz que “a oração de um justo muito pode efetuar” (Tiago 5:16), e o resultado nem sempre tem a forma que esperávamos. Abraão pediu a cidade e recebeu Ló. Depois de orar, ele “se voltou a seu lugar” e deixou o resto com o Juiz de toda a terra.

Perguntas para discussão

  1. O que as seis rodadas mostram sobre o caráter de Deus? Quem parou primeiro, Abraão ou Deus?
  2. Por que Abraão ora por uma cidade que ele sabe que é perversa?
  3. Como Ezequiel 22:30, Isaías 53:11 e Hebreus 7:25 se ligam à oração de Abraão?
  4. Por quem você precisa orar com a mesma insistência? Qual é o seu “mais uma vez”?

A mesa e a brecha

O capítulo começa com um homem de pé ao lado de uma mesa, servindo, e termina com o mesmo homem de pé diante de Deus, pedindo. Os dois gestos nascem da mesma fonte: Abraão sabe com quem fala. A hospitalidade e a intercessão são duas faces do mesmo amor.

O capítulo mostra um Deus que fala com os seus amigos, ouve riso escondido, cumpre o que promete e julga com justiça. Hebreus convida o cristão a se achegar “com confiança ao trono da graça” (Hebreus 4:16), e o mesmo Jesus que se sentou à mesa com pecadores intercede agora por nós. Quem vive perto desse Deus recebe os outros de porta aberta e fica diante dele por eles.

Senhor, nós te agradecemos porque nos conheces e porque não escondes de nós o que importa. Perdoa-nos pelas vezes em que fechamos a porta e a mesa a quem precisava de nós, e pelas vezes em que rimos da tua promessa. Ensina-nos a servir com a pressa de Abraão e a orar com a sua coragem, sabendo que o Juiz de toda a terra faz o que é justo e que o teu Filho vive para interceder por nós. Dá-nos olhos para ver o próximo e coração para pedir por ele. Em nome de Jesus. Amém.

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