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EstudosEstudos em Gênesis33 de 33

Gênesis 19Sodoma, o livramento de Ló e a demora

Estudo indutivo de Gênesis 19: a cidade que cerca a casa, o justo que hesita, o fogo do céu e a caverna no fim da estrada

Diego Gonçalves29 min de leitura5.837 palavras

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Neste estudo

Quem tem o costume de apertar a soneca do despertador conhece a conta. São só mais cinco minutos, depois mais cinco, e quando os olhos finalmente se abrem o ônibus já passou. Ninguém decide perder a condução. Perde por ir adiando, uma vez de cada vez, com a sensação tranquila de que ainda dá tempo.

Gênesis 19 conta uma demora parecida, mas o ônibus era o fogo do céu. Dois anjos entram em Sodoma ao anoitecer, avisam que a cidade será destruída e, na manhã seguinte, precisam arrastar para fora um homem que ainda hesita. O capítulo 18 terminou com Abraão de pé diante do SENHOR, pedindo que os justos não fossem varridos junto com os ímpios. O capítulo 19 mostra o que aconteceu com a cidade, com o sobrinho dele e com a família do sobrinho.

O estudo responde a uma pergunta que os leitores costumam fazer: como entender Ló, um homem que a Bíblia chama de justo e que, ao mesmo tempo, faz coisas tão difíceis de engolir? Para respondê-la, seguimos o capítulo em seis cenas: a recepção, o cerco, a cegueira, a demora, o fogo e a caverna.

Ló recebe os dois visitantes à porta da cidade (vv. 1-3)

Chegaram, pois, os dois anjos a Sodoma ao cair da tarde; e Ló estava sentado à porta de Sodoma. E vendo-os Ló, levantou-se a recebê-los, e inclinou-se até o chão;

E disse: Agora, pois, meus senhores, vos rogo que venhais à casa de vosso servo e vos hospedeis, e lavareis vossos pés: e pela manhã vos levantareis, e seguireis vosso caminho. E eles responderam: Não, que na praça nos ficaremos esta noite.

Mas ele insistiu com eles muito, e se vieram com ele, e entraram em sua casa; e fez-lhes banquete, e cozeu pães sem levedura e comeram.

(Gênesis 19:1-3, Bíblia Livre)

Observação. Os “dois anjos” são os dois homens que saíram da tenda de Abraão no capítulo anterior (Gênesis 18:22), agora em missão de juízo. Ló os encontra “à porta de Sodoma”, se levanta, se curva até o chão e convida os dois para a casa dele. Os visitantes recusam, e Ló insiste “muito”. Quando eles aceitam, ele prepara um banquete e assa pães sem levedura.

Interpretação. A porta da cidade era o ponto de encontro de uma cidade antiga, uma mistura de praça, mercado e tribunal. Era ali que os anciãos se reuniam para julgar causas (Deuteronômio 21:19; Rute 4:1; Amós 5:15). Quem tinha cadeira naquele lugar era respeitado. Ló havia chegado perto de Sodoma quando “foi pondo suas tendas até Sodoma” (Gênesis 13:12), e agora estava sentado entre as autoridades. O texto não diz que ele era juiz, mas mostra um homem que subiu na vida dentro da cidade.

A insistência de Ló tem uma razão, e os versículos seguintes revelam qual. Naquele tempo não havia hospedaria, e o viajante dormia na praça. Ló sabia o que acontecia com um estrangeiro que passava a noite ao ar livre em Sodoma, e sua hospitalidade era também proteção.

A comparação com o tio é inevitável. Abraão correu ao encontro dos visitantes (Gênesis 18:2), e Ló apenas “levantou-se”. Abraão mandou matar um bezerro tenro; Ló assou pão sem fermento, que se faz depressa, o que combina com a hora tardia. A mulher de Abraão tomou parte na refeição, e a mulher de Ló nem aparece, ainda que seja arriscado tirar conclusões de um silêncio. O que o texto afirma sem rodeios é que Ló recebeu os visitantes e os tratou bem. Por isso 2 Pedro vai chamá-lo de “justo”. Hebreus 13:2 lembra que, pela hospitalidade, “alguns, sem saber, acolheram anjos”, e Ló é um deles, ainda que sem a pressa do tio.

Aplicação. A hospitalidade de Ló nasceu de um cuidado concreto: ele não quis deixar dois estranhos sozinhos numa noite perigosa. Muitas vezes a porta aberta de uma casa protege alguém que nós nem sabemos que corre risco, como o colega de trabalho que veio de outra cidade, o jovem sem família por perto, a irmã recém-chegada à igreja. Há ainda uma pergunta para quem se acomoda: o que a porta de Sodoma significou para a alma de Ló? Chegar a um lugar de prestígio num ambiente que não teme a Deus tem um preço, e esse preço nem sempre aparece na hora.

Perguntas para discussão

  1. O que a porta da cidade, no tempo de Ló, representava? O que significa Ló estar sentado ali?
  2. Por que Ló insistiu tanto para que os visitantes dormissem na casa dele?
  3. Que diferenças você percebe entre a hospitalidade de Abraão e a de Ló? Faz sentido considerar o contexto antes de julgar o sobrinho?
  4. A quem você poderia oferecer proteção e acolhimento esta semana?

A cidade inteira cerca a casa (vv. 4-9)

E antes que se deitassem, cercaram a casa os homens da cidade, os homens de Sodoma, todo o povo junto, desde o mais jovem até o mais velho;

E chamaram a Ló, e lhe disseram: Onde estão os homens que vieram a ti esta noite? tira-os a nós, para que os conheçamos.

Então Ló saiu a eles à porta, e fechou as portas atrás de si,

E disse: Eu vos rogo, meus irmãos, que não façais tal maldade.

Eis aqui agora eu tenho duas filhas que não conheceram homem; eu as tirarei fora para vós, e fazei delas como bem vos parecer: somente a estes homens não façais nada, pois que vieram à sombra de meu telhado.

E eles responderam: Sai daí: e acrescentaram: Veio este aqui para habitar como um estrangeiro, e haverá de levantar-se como juiz? Agora te faremos mais mal que a eles. E faziam grande violência ao homem, a Ló, e se aproximaram para romper as portas.

(Gênesis 19:4-9, Bíblia Livre)

Observação. O cerco começa “antes que se deitassem”. O texto insiste em que todos participaram, “desde o mais jovem até o mais velho”. A exigência é clara: “tira-os a nós, para que os conheçamos”. Ló sai, fecha a porta atrás de si, chama a multidão de “irmãos” e pede que não façam “tal maldade”. Em seguida faz uma oferta terrível: duas filhas virgens, em lugar dos hóspedes. A resposta é de desprezo e ameaça. Chamam-no de estrangeiro que quer bancar o juiz, prometem tratá-lo pior que aos visitantes e avançam para arrombar a porta.

Interpretação. Três perguntas pedem resposta.

Em primeiro lugar, o que significa “conhecer”? O verbo hebraico yada é o mesmo de Gênesis 4:1, em que “Adão conheceu a sua mulher Eva”, e ela concebeu. No versículo 8, Ló usa o mesmo verbo ao dizer que as filhas “não conheceram homem”. Ou seja, o verbo fala de relação sexual, e o que a multidão exige é abusar sexualmente dos dois visitantes. Isso desmonta a leitura segundo a qual o pecado de Sodoma seria apenas a falta de hospitalidade, e a violência de que o texto fala (veja o versículo 9) não combina com bons modos esquecidos. Ao mesmo tempo, seria pouco reduzir tudo a um só pecado. Ezequiel descreve a raiz do mal da cidade:

Eis que esta foi a maldade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas tiveram soberba, fartura de pão, e abundância de conforto; porém nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado.

E se tornaram arrogantes, e fizeram abominação diante de mim, por isso eu as tirei quando vi isto.

(Ezequiel 16:49-50, Bíblia Livre)

Primeiro vêm a soberba, a fartura e a indiferença com o pobre. Depois vem a “abominação”. Judas fecha o quadro ao dizer que Sodoma e Gomorra cometeram “pecados sexuais” e seguiram “uma carne ilícita” (Judas 7). O pecado nunca existe sozinho: uma cidade satisfeita e orgulhosa acaba achando natural usar o corpo do mais fraco. Gênesis 19 descreve uma multidão tentando estuprar visitantes. A condenação de relações entre pessoas do mesmo sexo está em outros textos da Escritura (Levítico 18:22; Romanos 1:26-27), e este capítulo não precisa ser carregado com mais do que ele diz. Contudo não podemos suavizá-lo: o texto trata como maldade o que a cidade queria fazer, e os cristãos que o leem hoje fazem bem em dizer isso com firmeza e com respeito pelas pessoas, que são todas imagem de Deus e por quem Cristo morreu.

Em segundo lugar, como Ló pôde oferecer as próprias filhas? Há ao menos três fatores. Naquela cultura, proteger o hóspede era um dever quase sagrado, mesmo com risco pessoal. Mulheres e filhas eram vistas, muitas vezes, como propriedade do pai. E a consciência de um homem que mora por anos num lugar corrompido fica entortada: o pecado embaralha as prioridades e apaga a linha entre o certo e o errado. O narrador não aplaude a oferta, nem a justifica. Um episódio parecido em Juízes 19:22-26 mostra que essa lógica corrompida também aparecia dentro de Israel, e o livro registra o episódio como sinal de um povo sem rumo. Ló devia defender a família e os visitantes ou morrer tentando. Em vez disso, ofereceu o que não lhe pertencia.

Em terceiro lugar, por que a multidão se enfurece com a palavra “maldade”? “Veio este aqui para habitar como um estrangeiro, e haverá de levantar-se como juiz?” É uma frase que os cristãos conhecem bem. A multidão ouviu a palavra de Ló como sentença, e de fato ele estava dizendo a verdade, ainda que tarde. Jesus mandou: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mateus 7:1). Ele condena o julgamento hipócrita e orgulhoso de quem se acha melhor, mas nunca proibiu de chamar o mal pelo nome. Quando o evangelho é anunciado, o pecador pode ouvir a mensagem como acusação, e Paulo explica o que acontece:

Porque para Deus somos o bom cheiro de Cristo, nos que se salvam, e nos que se perdem.

Para estes certamente cheiro de morte, para a morte; mas para aqueles cheiro de vida, para a vida. E quem é idôneo para estas coisas?

(2 Coríntios 2:15-16, Bíblia Livre)

Aplicação. Quando alguém reage com raiva a uma verdade dita com mansidão, nem sempre o erro está em quem falou. A reação de Sodoma lembra que a condenação vem da mensagem, e não do mensageiro. Podemos mostrar que não somos nós quem julga, e que o Juiz está disposto a perdoar quem se arrepende e crê em Jesus. Eu preciso confessar que a minha tentação costuma ser a oposta, a de calar para não me indispor. Sodoma também nos avisa para o outro lado: ninguém vira juiz dos outros enquanto ignora o próprio pecado. Quem fala do mal alheio precisa ter chorado pelo seu.

Perguntas para discussão

  1. O que o verbo “conhecer” significa nos versículos 5 e 8? Por que isso importa para entender o pecado de Sodoma?
  2. Que pecados Ezequiel 16:49-50 coloca antes da “abominação”? O que isso ensina sobre como o pecado cresce?
  3. Que fatores podem explicar a oferta de Ló, sem desculpá-la? Como o ambiente em que vivemos distorce a nossa consciência?
  4. Como Mateus 7:1 e 2 Coríntios 2:15-16 ajudam a responder à acusação “quem é você para me julgar”?

Os visitantes cegam a multidão e avisam a família (vv. 10-14)

Então os homens estenderam a mão, e meteram a Ló em casa com eles, e fecharam as portas.

E aos homens que estavam à porta da casa desde o menor até o maior, feriram com cegueira; mas eles se cansavam tentando achar a porta.

E disseram os homens a Ló: Tens aqui alguém mais? Genros, e teus filhos e tuas filhas, e tudo o que tens na cidade, tira-o deste lugar:

Porque vamos destruir este lugar, porquanto o clamor deles subiu demais diante do SENHOR; portanto o SENHOR nos enviou para destruí-lo.

Então saiu Ló, e falou a seus genros, os que haviam de se casar com suas filhas, e lhes disse: Levantai-vos, saí deste lugar; porque o SENHOR vai destruir esta cidade. Mas pareceu a seus genros como que se ridicularizava.

(Gênesis 19:10-14, Bíblia Livre)

Observação. A situação vira de cabeça para baixo. Ló saiu para proteger os hóspedes, e agora são os hóspedes que o puxam para dentro da casa e trancam a porta. A multidão é ferida de cegueira, do menor ao maior, e mesmo assim “se cansavam tentando achar a porta”. Dentro da casa, os visitantes perguntam se há outros parentes e dão a razão do juízo: o clamor da cidade “subiu demais diante do SENHOR”. Ló vai falar com os genros, e eles tomam a advertência por brincadeira.

Interpretação. A cegueira deixa a violência sem alvo, mas não muda o coração. Seria de esperar que os homens, feridos, voltassem para casa. Em vez disso, gastam as forças procurando a porta. Cegos, continuavam a tentar o que queriam fazer enxergando. É a imagem de um coração que o pecado dominou: continua pecando, mesmo sem ver, mesmo ferido. Provérbios descreve gente assim:

Pois eles não dormem se não fizerem o mal; e ficam sem sono, se não fizerem tropeçar a alguém.

(Provérbios 4:16, Bíblia Livre)

Há quem diga que se chega à perdição suando, porque o pecado dá trabalho. Quem vive nele vive inquieto, sem descanso, e essa inquietação não tem cura que venha de dentro da pessoa. Jesus oferece o contrário: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos farei descansar” (Mateus 11:28). A epístola aos Hebreus chama a salvação de repouso e pede que nos apressemos para entrar nele (Hebreus 4:11). Paulo descreve assim a humanidade caída, com “veneno de serpentes” sob os lábios (Romanos 3:13), e mostra o que o pecado faz quando ninguém o segura. O ser humano caído é incapaz de libertar a si mesmo, e Deus, por graça, ainda refreia muito do que o pecado faria. Em Sodoma, pelo que o texto mostra, quase nada segurava a cidade.

Os genros formam um segundo retrato. Ló fala com eles com urgência, e eles acham que é piada. Um homem que passou anos tratando o pecado da cidade com tolerância não tem peso quando de repente grita que o juízo chegou. A palavra do justo só carrega autoridade quando a vida dele combina com ela.

Aplicação. O pecado promete prazer e cobra esforço: horas de sono perdidas, dinheiro gasto, mentiras para sustentar, uma vida inteira correndo atrás de algo que nunca sacia. Quem está cansado dessa corrida precisa ouvir o convite de Jesus. E há um aviso para o cristão: a nossa palavra convence mais quando a nossa vida já falou antes. Pergunto a mim mesmo se as pessoas ao meu redor levariam a sério o meu aviso ou se achariam que estou brincando.

Perguntas para discussão

  1. Por que os homens de Sodoma, cegos, continuaram procurando a porta? O que isso revela sobre o poder do pecado?
  2. De que maneira o pecado cansa quem vive nele? Que exemplos você conhece?
  3. Por que os genros de Ló não o levaram a sério? Que lição existe aí para o testemunho do cristão?
  4. Que descanso Jesus oferece em Mateus 11:28? Como você tem recebido esse convite?

Ló demora, e Deus o puxa pela mão (vv. 15-23)

E ao raiar a alva, os anjos davam pressa a Ló, dizendo: Levanta-te, toma tua mulher, e tuas duas filhas que se acham aqui, para que não pereças no castigo da cidade.

E demorando-se ele, os homens pegaram por sua mão, e pela mão de sua mulher, e pelas mãos de suas duas filhas segundo a misericórdia do SENHOR para com ele; e o tiraram, e o puseram fora da cidade.

E foi que quando os tirou fora, disse: Escapa por tua vida; não olhes atrás de ti, nem pares toda esta planície; escapa ao monte, não seja que pereças.

E Ló lhes disse: Não, eu vos rogo, senhores meus;

Eis que agora achou teu servo favor em teus olhos, e engrandeceste tua misericórdia que fizeste comigo dando-me a vida; mas eu não poderei escapar ao monte, não seja caso que me alcance o mal e morra.

Eis que agora esta cidade está próxima para fugir ali, a qual é pequena; escaparei agora ali, (não é ela pequena?) e viverá minha alma.

E lhe respondeu: Eis que recebi também tua súplica sobre isto, e não destruirei a cidade de que falaste.

Apressa-te, escapa-te ali; porque nada poderei fazer até que ali tenhas chegado. Por isto foi chamado o nome da cidade, Zoar.

O sol saía sobre a terra, quando Ló chegou a Zoar.

(Gênesis 19:15-23, Bíblia Livre)

Observação. Quando amanhece, os anjos “davam pressa” a Ló, e o texto registra a reação dele em poucas palavras: “demorando-se ele”. Então os homens o seguram pela mão, e pela mão da esposa e das duas filhas, e o texto dá a razão: “segundo a misericórdia do SENHOR para com ele”. Fora da cidade, vêm quatro ordens: escapa, não olhes atrás, não pares na planície, foge para o monte. Ló recusa o monte, pede para ir à pequena cidade vizinha e vê o pedido ser aceito. O sol já nascia quando ele chegou a Zoar.

Interpretação. A demora de Ló é o centro do capítulo. Ele acreditou no aviso, a ponto de ir falar com os genros, e mesmo assim hesitou. O texto não explica por quê, mas as peças estão à vista: a casa, os bens, a posição na cidade, os genros que ficavam. Muitos comentaristas veem aí amor ao mundo, dúvida e a ideia de que se escapa do castigo sem precisar deixar tudo para trás. É provável que fossem as três coisas juntas.

Esse é o ponto mais chocante da história. Mais do que o fogo, espanta que um homem avisado com tanta clareza ainda hesite. E a causa de ele sair é uma só: “segundo a misericórdia do SENHOR para com ele”. Ló foi salvo pela compaixão de Deus, e nenhum mérito dele pesou na balança. Mesmo no monte, ele escolhe de novo pelo que vê, como em Gênesis 13:10. Prefere a cidade pequena ao monte e pede para ficar perto da vida que conhecia. Deus aceita o pedido com uma paciência que desarma, mas a decisão logo se mostra tola, pois Ló acaba com medo até de Zoar (v. 30).

O mesmo Jesus que lembrou a mulher de Ló avisou outro tipo de hesitação:

E outro também disse: “Senhor, eu te seguirei; mas deixa-me primeiro despedir dos que estão em minha casa”. E Jesus lhe disse: “Ninguém que colocar a sua mão no arado e olhar para trás é apto para o reino de Deus”.

(Lucas 9:61-62, Bíblia Livre)

Quem lavra olhando para trás faz um sulco torto. Cristo não quer discípulo de meio expediente. Quem ama as coisas que deixou para trás tem o coração dividido. É a mesma raiz da demora de Ló e do olhar para trás da mulher dele, ainda que a fé de Ló fosse de outra qualidade.

Alguém perguntará: se Ló hesitou, perdeu a salvação? O texto não afirma isso, e 2 Pedro diz que ele foi livrado como justo. Mas a Escritura também não nos deixa descansar na ideia de que a graça pode ser tratada com leviandade. Hebreus manda: “Cuidado, irmãos, para que nunca haja em algum de vós coração mau e infiel, que se afaste do Deus vivo” (Hebreus 3:12). Quem é tirado do fogo pela mão de Deus deve segurar essa mão, e a graça que nos alcança é a que nos mantém a caminho. A misericórdia livra Ló, e a nossa tarefa é não zombar dela.

Aplicação. Há quem passe a vida inteira adiando o que sabe que precisa fazer: pedir perdão, largar um vício, romper com uma situação que corrói, entregar de vez a vida a Cristo. “Amanhã eu resolvo.” A soneca espiritual é traiçoeira porque cada adiamento parece pequeno. Quem já se reconheceu como Ló, de mão dada com um anjo, sabe que a misericórdia é a única razão de ainda estarmos de pé. Se Deus não tivesse sido misericordioso conosco, a nossa demora teria sido a nossa ruína. E cada ordem do texto continua em vigor: não olhar para trás, não parar na planície, correr em direção a Cristo.

Perguntas para discussão

  1. Que motivos podem ter levado Ló a demorar, mesmo depois do aviso?
  2. O que a expressão “segundo a misericórdia do SENHOR” ensina sobre como Ló foi salvo?
  3. Em que áreas da vida você tem adiado uma decisão que Deus já deixou clara?
  4. Como Lucas 9:61-62 e Hebreus 3:12-13 ajudam a encarar a demora na obediência?

Fogo do céu, a mulher de Ló e a lembrança de Abraão (vv. 24-29)

Então choveu o SENHOR sobre Sodoma e sobre Gomorra enxofre e fogo da parte do SENHOR desde os céus;

E destruiu as cidades, e toda aquela planície, com todos os moradores daquelas cidades, e o fruto da terra.

Então a mulher de Ló olhou atrás, às costas dele, e se tornou estátua de sal.

E subiu Abraão pela manhã ao lugar onde havia estado diante do SENHOR:

E olhou até Sodoma e Gomorra, e até toda a terra daquela planície olhou; e eis que a fumaça subia da terra como a fumaça de um forno.

Assim foi que, quando destruiu Deus as cidades da planície, lembrou-se Deus de Abraão, e enviou fora a Ló do meio da destruição, ao assolar as cidades onde Ló estava.

(Gênesis 19:24-29, Bíblia Livre)

Observação. O juízo cai de uma vez, e o texto repete o nome do SENHOR duas vezes no versículo 24: “o SENHOR… da parte do SENHOR”. A destruição alcança as cidades, a planície toda e o fruto da terra. Em um versículo só, o narrador conta o que aconteceu com a mulher de Ló, que olhou para trás e virou “estátua de sal”. Depois, a câmera muda: Abraão sobe ao lugar onde estivera diante do SENHOR e vê a fumaça. O narrador fecha com uma explicação que ninguém esperava: Deus “lembrou-se de Abraão”.

Interpretação. Dois temas se cruzam aqui: a seriedade do juízo e o cuidado de Deus com quem é dele.

O juízo vem de Deus, e Deus o fez com vagar. Ele disse a Abraão que desceria para ver (Gênesis 18:21), mandou mensageiros, esperou até a manhã e puxou Ló pela mão. Por toda a Bíblia, Sodoma vira exemplo: Isaías agradece por Deus ter deixado “alguns sobreviventes”, sem o que teriam sido “como Sodoma” (Isaías 1:9); Jesus diz que no dia do juízo será mais tolerável para Sodoma do que para as cidades que viram seus milagres e não se arrependeram (Mateus 10:15). E Lucas registra a lição para o fim dos tempos:

Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló, comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, e construíam.

Mas o dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, e destruiu a todos.

Assim será também no dia em que o Filho do homem se manifestar.

(Lucas 17:28-30, Bíblia Livre)

Nada na lista é pecado em si. O problema era a vida normal, sem pensar em Deus, até o dia em que ela acabou. A volta de Cristo também virá de repente, e ninguém vai marcar hora. Jesus completa: “Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lucas 17:32). Ela caminhava atrás do marido, olhou para trás e foi alcançada. O olhar mostrou onde ela ainda estava de coração. O texto não diz quem ela era além disso, e a advertência de Jesus basta: quem foi tirado do fogo e ainda deseja o que ficou para trás corre perigo. Ela saiu da cidade pela mão dos anjos e não chegou ao destino, e isso nos lembra que a graça pode ser recusada até no meio do caminho.

A segunda cena mostra Abraão no mesmo lugar onde intercedera, olhando a fumaça. Ele não tinha pedido por Ló pelo nome. Pediu que Deus não varresse o justo com o ímpio, e a condição que propôs nunca se cumpriu, porque não havia dez justos. A cidade foi destruída, e Deus ainda guardou aquilo que Abraão tinha no coração. “Lembrou-se Deus de Abraão”: a oração do tio alcançou o sobrinho sem que o nome dele fosse dito. É coerente com o que Jesus ensina: “vosso Pai sabe o que necessitais, antes que vós peçais a ele” (Mateus 6:8), e Paulo diz que Deus é poderoso para fazer “muito mais abundantemente do que pedimos ou pensamos” (Efésios 3:20).

Quanto a Ló, 2 Pedro 2 responde à pergunta que muitos fazem:

E condenou as cidades de Sodoma e Gomorra à destruição, reduzindo-as a cinza, e pondo-as como exemplo para os que vivessem impiamente;

E livrou ao justo Ló, que estava cansado do corrupto modo de viver dos maus.

(Porque, enquanto aquele justo habitava entre eles, todo dia ele atormentava sua justa alma, ao ver e ouvir as suas injustas obras).

Assim o Senhor sabe livrar os devotos das tentações, e reservar aos injustos para o dia do julgamento, para serem punidos.

(2 Pedro 2:6-9, Bíblia Livre)

Como pode um homem com essa história ser “justo”? Em primeiro lugar, a justiça diante de Deus nunca foi nota de comportamento. De Abraão se diz que “creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça” (Gênesis 15:6), e é pela fé, e não por mérito, que Deus conta alguém como justo (Romanos 4:3). Ló tinha errado muito, mas ainda confiava no Deus do tio. Em segundo lugar, Pedro mostra que a alma de Ló sofria com o que via. Ele não se juntava à multidão, apesar de ter se acomodado a ela. Havia nele um conflito real, ainda que mal resolvido. Em terceiro lugar, a Bíblia não faz santos de gesso. Os heróis da fé nunca são apresentados sem defeitos, e isso nos protege de erguer pedestal para qualquer pessoa. Paulo diz: “Sede meus imitadores, assim como eu também sou de Cristo” (1 Coríntios 11:1), e o alvo da imitação é sempre Cristo. A santificação é uma obra longa, e quem é justificado ainda luta contra a carne.

Existe um paralelo com Noé: os dois receberam aviso de um juízo de proporção mundial, foram livrados e são chamados de justos (Gênesis 6:9, 7:7; 2 Pedro 2:7). Há também uma diferença: Noé caminhava com Deus; Ló vai sendo levado pela mão.

Aplicação. O fogo de Sodoma ensina que Deus leva o pecado a sério. A lembrança de Abraão nos ensina a orar sem tratar Deus como máquina de desejos. Muitas das nossas orações viram listas de pedidos, como se o Pai não soubesse de nada. Ele sabe, e a oração é, antes de tudo, aproximar-se dele. Por fim, o exemplo de Ló consola quem sofre com a culpa: quem confia em Cristo está seguro nas mãos de quem o salva, e ao mesmo tempo precisa segurar a mão que o conduz. Não dá para deixar o coração na cidade que está ardendo.

Perguntas para discussão

  1. O que o versículo 24 diz sobre a origem do juízo? O que os dias de Ló, em Lucas 17:28-32, ensinam sobre o fim dos tempos?
  2. Por que Jesus mandou lembrar a mulher de Ló? O que o olhar dela revelou?
  3. Abraão não pediu por Ló pelo nome. O que o versículo 29 nos ensina sobre a oração de intercessão?
  4. Como 2 Pedro 2:6-9 ajuda a entender que Ló era justo? O que isso nos diz sobre a graça e sobre a santificação?

A caverna no fim da estrada (vv. 30-38)

Porém Ló subiu de Zoar, e assentou no monte, e suas duas filhas com ele; porque teve medo de ficar em Zoar, e se abrigou em uma caverna ele e suas duas filhas.

Então a maior disse à menor: Nosso pai é velho, e não resta homem na terra que entre a nós conforme o costume de toda a terra:

Vem, demos a beber vinho a nosso pai, e durmamos com ele, e conservaremos de nosso pai geração.

E deram a beber vinho a seu pai aquela noite: e entrou a maior, e dormiu com seu pai; mas ele não sentiu quando se deitou com ela nem quando se levantou.

O dia seguinte disse a maior à menor: Eis que eu dormi a noite passada com meu pai; demos a ele de beber vinho também esta noite, e entra e dorme com ele, para que conservemos de nosso pai geração.

E deram a beber vinho a seu pai também aquela noite: e levantou-se a menor, e dormiu com ele; mas não conseguiu perceber quando se deitou com ela, nem quando se levantou.

E conceberam as duas filhas de Ló, de seu pai.

E deu à luz a maior um filho, e chamou seu nome Moabe, o qual é pai dos moabitas até hoje.

A menor também deu à luz um filho, e chamou seu nome Ben-Ami, o qual é pai dos amonitas até hoje.

(Gênesis 19:30-38, Bíblia Livre)

Observação. Ló deixa Zoar, a cidade que ele mesmo pediu, “porque teve medo”, e vai viver numa caverna no monte, o lugar que antes tinha recusado. As filhas concluem que não resta nenhum homem na terra e armam um plano: embebedar o pai e engravidar dele, “para que conservemos de nosso pai geração”. Repetem a cena em duas noites seguidas, e o texto destaca que Ló “não sentiu” nada. Nascem dois filhos, Moabe e Ben-Ami, pais dos moabitas e dos amonitas “até hoje”.

Interpretação. A cena é feia, e o narrador a conta sem comentário, porque a história se explica sozinha. O homem que desceu de olhos postos nas campinas bem regadas (Gênesis 13:10) termina escondido numa caverna, sem mulher, sem casa e sem bens, com duas filhas que aprenderam em Sodoma a pensar do jeito de Sodoma. Gênesis 13 traz o caminho de ida:

E levantou Ló seus olhos, e viu toda a planície do Jordão, que toda ela era bem regada, antes que destruísse o SENHOR a Sodoma e a Gomorra, como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito entrando em Zoar.

Então Ló escolheu para si toda a planície do Jordão: e partiu-se Ló ao Oriente, e separaram-se um do outro.

Abrão assentou na terra de Canaã, e Ló assentou nas cidades da planície, e foi pondo suas tendas até Sodoma.

(Gênesis 13:10-12, Bíblia Livre)

Primeiro Ló olhou, depois escolheu, depois foi pondo as tendas mais para perto. A estrada de volta passa pelo fogo, e termina na caverna. As filhas, criadas em Sodoma, apresentaram um plano que contraria tudo o que a Escritura diz sobre a família. Também há a embriaguez do pai. Noé tinha caído na mesma armadilha (Gênesis 9:20-21), e Paulo avisa: “não fiqueis bêbados com vinho, em que há devassidão” (Efésios 5:18). O narrador não aprova ninguém. Cada passo aparece como consequência de uma vida que se misturou com a cidade.

Os dois filhos dão origem a povos vizinhos de Israel e muitas vezes hostis. A lei os barrou da congregação:

Não entrará amonita nem moabita na congregação do SENHOR; nem ainda na décima geração entrará na congregação do SENHOR para sempre:

(Deuteronômio 23:3, Bíblia Livre)

Porém a graça de Deus tem a última palavra, e ela costuma surpreender. Uma mulher de Moabe, Rute, foi acolhida em Israel e entrou na linhagem de Davi e de Jesus: “Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé” (Mateus 1:5). Da caverna de Ló saiu a bisavó do rei Davi. A Bíblia não desculpa o pecado, mas mostra que Deus consegue escrever uma história de graça até onde a nossa história terminou em vergonha.

A lição mais prática do capítulo está aqui. Jesus não pediu que o Pai tirasse os discípulos do mundo, mas que os guardasse do maligno (João 17:15). Os cristãos não são chamados a viver em monastério. Paulo diz que a separação que Deus pede é uma transformação:

E não vos conformeis com a presente era; mas transformai-vos pela renovação da vossa mentalidade, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.

(Romanos 12:2, Bíblia Livre)

E Tiago e João avisam que a amizade com o mundo cobra um preço alto (Tiago 4:4; 1 João 2:15-17). A separação é de mente e de coração, e o que entra nos olhos e nos ouvidos todos os dias molda o que pensamos, queiramos ou não. “As más companhias corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15:33). Ló era justo e sofria com Sodoma, mas as filhas dele mostram o que a vizinhança fez com a casa.

Aplicação. Quase ninguém acorda decidido a morar numa caverna. O que acontece é que um dia levantamos os olhos para uma planície bonita, pomos a tenda mais perto, depois ainda mais perto, e chega um momento em que não sabemos explicar como chegamos ali. A pergunta mais útil talvez seja outra: para onde esta escolha me leva, e quem vai crescer neste ambiente comigo? Pais e mães precisam fazer essa conta pensando nos filhos, nas séries a que assistem, nas redes que seguem, nas amizades que frequentam. E cada um de nós, também. Confesso que me pego, às vezes, pondo a tenda um pouco mais perto do que deveria.

Perguntas para discussão

  1. Que escolhas, passo a passo, levaram Ló de Gênesis 13:10 até a caverna de Gênesis 19:30?
  2. Como a convivência em Sodoma pode ter moldado as filhas de Ló? Que sinais disso você vê no mundo de hoje?
  3. Como Romanos 12:2, Tiago 4:4 e João 17:15 ajudam a entender o que significa estar no mundo sem ser do mundo?
  4. O que a história de Rute, em Mateus 1:5, mostra sobre a graça de Deus diante de uma história que começou em vergonha?
  5. Que “tenda” você tem posto cada vez mais perto de algo que não faz bem a você nem à sua família? O que fazer esta semana para recuar?

O ônibus que Deus não deixou passar

Gênesis 19 mostra três coisas ao mesmo tempo. O pecado de uma cidade amadurece e cai sob o juízo de Deus. Um homem justo, que se acostumou com a vizinhança, é tirado do fogo pela mão. E a história continua depois do incêndio, com as marcas de uma vida que andou perto demais da cidade condenada.

Se voltarmos à soneca do começo, o que o capítulo conta é que Deus tinha pressa de salvar um homem que não tinha pressa de ser salvo. Ele mandou mensageiros, esperou a manhã, segurou a mão do hesitante e lembrou-se da oração de um tio que nem tinha dito o nome do sobrinho. Essa paciência não autoriza mais um adiamento. É a razão para atender hoje o chamado de Deus.

Daí saem três aplicações simples. Não amemos o mundo nem as coisas do mundo, e escolhamos com cuidado onde pôr a tenda. Quando falarmos do evangelho, lembremos que a condenação vem da mensagem e não de nós, e que o Juiz oferece perdão a quem crê. E, na oração, procuremos primeiro o Pai, certos de que ele sabe do que precisamos antes de pedirmos.

Senhor, nós nos reconhecemos em Ló, que demorou, escolheu pelo que via e andou perto demais do que devia evitar. Obrigado porque a tua misericórdia nos tomou pela mão quando nós hesitávamos. Dá-nos um coração inteiro, que não olhe para trás, e a coragem de falar a verdade com mansidão. Guarda as nossas famílias dos caminhos que levam à caverna e ensina-nos a orar confiando no que o Pai já sabe. Em nome de Jesus. Amém.

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