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EstudosEstudos em Gênesis34 de 35

Gênesis 20Abraão cai de novo e Deus guarda a promessa

Estudo indutivo de Gênesis 20: a mesma meia-verdade em Gerar, o sonho do rei, a repreensão do pagão e a oração que cura

Diego Gonçalves18 min de leitura3.604 palavras

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Neste estudo

Quase toda casa tem um degrau traiçoeiro. Pode ser o desnível da calçada, a soleira do banheiro ou o batente da cozinha. Quem mora ali já levou o tropeção uma vez, jurou que nunca mais e, mesmo assim, numa noite qualquer, com pressa e de luz apagada, torce o pé no mesmo lugar. O curioso é que o tombo quase nunca vem no primeiro dia. Vem depois de anos, quando o corpo já se acostumou a achar que sabe onde pisa.

Gênesis 20 é o degrau de Abraão. Mais de vinte anos antes, no Egito, ele tinha dito que a mulher era sua irmã e quase perdeu Sara para o faraó (Gênesis 12:10-20). Agora ele chega a Gerar, e a cena volta quase idêntica. O estranho é o momento. O capítulo anterior terminou com Abraão de pé diante do SENHOR, vendo a fumaça de Sodoma subir da planície, e os capítulos 17 e 18 tinham trazido a aliança, a circuncisão, o novo nome de Sara e a promessa de um filho para dali a um ano. Tudo parecia firme, e foi ali que ele tropeçou.

Este estudo segue o capítulo em cinco cenas: a mentira repetida, o sonho do rei, a repreensão, a reparação e a oração. Ele quer responder a duas perguntas. Como um homem com tanta história com Deus cai de novo no mesmo erro? E o que o texto mostra sobre o Deus que guarda a promessa mesmo quando o portador dela falha?

Abraão muda de lugar e repete a meia-verdade (vv. 1-2)

De ali partiu Abraão à terra do Sul, e assentou entre Cades e Sur, e habitou como peregrino em Gerar.

E disse Abraão de Sara sua mulher: É minha irmã. E Abimeleque, rei de Gerar, enviou e tomou a Sara.

(Gênesis 20:1-2, Bíblia Livre)

Observação. O capítulo abre com uma mudança de endereço. Abraão deixa a região de Manre, onde morava (Gênesis 18:1), segue para o Sul, na direção do deserto, e se instala como “peregrino” em Gerar. O versículo 2 gasta uma frase para a mentira e outra para a consequência. O narrador não comenta nem justifica, e também não diz por que Abraão saiu dali.

Interpretação. Gerar ficava na faixa seca entre Hebrom e o Egito, lugar de pastagem e de passagem. O texto não explica a mudança. Qualquer motivo que se dê aqui, como o vale de Sodoma em cinzas ou a procura de pastagens, é suposição. O texto afirma só o que veio com ele: o mesmo medo e o mesmo plano.

A comparação com o capítulo 12 ajuda. Lá, ele disse a Sarai: “Agora, pois, dize que és minha irmã, para que eu vá bem por tua causa, e viva minha alma por causa de ti” (Gênesis 12:13). O plano é o mesmo: o marido se protege, e a mulher paga a conta. A diferença é que desta vez Sara tem noventa anos (Gênesis 17:17), e o texto nem menciona a beleza dela, ao contrário de Gênesis 12:14. Por que um rei a tomaria? O texto não responde. Uma explicação provável é política. Reis daquele tempo reuniam esposas como quem fecha alianças, e Abraão, com sua riqueza e seus muitos servos, era um aliado que um rei local faria bem em ter. Chamar Sara de irmã a deixava livre para ser dada em casamento, e é possível que Abimeleque quisesse exatamente isso. “Abimeleque” quer dizer “meu pai é rei” e talvez fosse título, como “faraó”: outro Abimeleque aparece em Gerar na vida de Isaque (Gênesis 26:1).

A situação é gravíssima. Em Gênesis 17:21, Deus tinha dito: “meu pacto estabelecerei com Isaque, ao qual Sara te dará à luz por este tempo no ano seguinte”. A promessa do descendente por quem todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12:3) passava por Sara, e Sara estava agora na casa de outro homem. Abraão pôs em risco justamente aquilo que Deus mais estava guardando.

Aplicação. Quem passou por muitas vitórias não está vacinado contra a queda. Ninguém acorda numa manhã decidido a abandonar a fé. A queda costuma vir de um desvio pequeno, depois outro, até que o cristão esteja longe de onde jurou ficar. O autor de Hebreus avisa: “devemos prestar atenção com muito mais empenho para as coisas que já ouvimos, para que nunca venhamos a cometer deslizes” (Hebreus 2:1). E Paulo: “aquele que pensa estar de pé, olhe para que não caia” (1 Coríntios 10:12). Abraão tinha acabado de ver o fogo cair sobre as cidades sem notícia de Ló, e talvez o medo tenha rondado esse homem nos dias seguintes. O texto não conta, mas nós conhecemos o caminho: um susto grande, sem resposta, vai esfriando a confiança sem fazer barulho. Por isso, quanto mais firmes nos achamos, mais convém vigiar.

Perguntas para discussão

  1. O que o capítulo 20 repete do capítulo 12? O que mudou de uma cena para a outra?
  2. Por que a gravidade da situação vai além do drama de um casal? Que promessa estava em jogo?
  3. Em que área da sua vida você acha que já aprendeu a lição e, por isso, deixou de vigiar?

Deus fala em sonho a um rei pagão (vv. 3-7)

Porém Deus veio a Abimeleque em sonhos de noite, e lhe disse: Eis que morto és por causa da mulher que tomaste, a qual é casada com marido.

Mas Abimeleque não havia chegado a ela, e disse: Senhor, matarás também a gente justa?

Não me disse ele: É minha irmã; e ela também disse: É meu irmão? Com sinceridade de meu coração, e com limpeza de minhas mãos fiz isto.

E disse-lhe Deus em sonhos: Eu também sei que com integridade de teu coração fizeste isto; e eu também te detive de pecar contra mim, e assim não te permiti que a tocasses.

Agora, pois, devolve a mulher a seu marido; porque é profeta, e orará por ti, e viverás. E se tu não a devolveres, sabe que certamente morrerás, com tudo o que for teu.

(Gênesis 20:3-7, Bíblia Livre)

Observação. Quem toma a iniciativa é Deus. Ninguém o procura, ninguém reza. Ele vem de noite, e ao rei, não a Abraão. A primeira frase é uma sentença de morte, e o motivo é que Sara é “casada com marido”. Abimeleque responde com a lista das suas defesas: não tinha chegado a ela, agiu pelo que lhe disseram, com “sinceridade” de coração e “limpeza” de mãos. Deus não discute. Confirma: “Eu também sei”. E acrescenta que foi ele quem o deteve. Depois dá a ordem, com ameaça e promessa juntas: devolve, e viverás.

Interpretação. Em outras passagens Deus também fala em sonhos a quem não é do povo dele, como Labão, que perseguia Jacó (Gênesis 31:24), Faraó e Nabucodonosor (Gênesis 41:1; Daniel 2:1). O texto não diz que Abimeleque adorasse o SENHOR. Dá a entender o contrário, pois o rei o chama de “Senhor” (em hebraico, Adonai, um título de respeito) e não usa o nome pessoal. Mesmo assim, Deus o trata como alguém responsável diante dele, e Romanos 2:14-15 ajuda a entender por quê: os gentios têm a obra da Lei escrita no coração, e a consciência deles ora acusa, ora defende.

Observe a justiça de Deus no veredito. Ele não contesta a sinceridade do rei, mas o rei continua em perigo: a ignorância explica o ato e não muda o fato de que Sara era casada. Quem erra sem saber e, depois de avisado, insiste, passa a ser culpado. O rei não insistiu.

O centro do trecho está na frase “eu te detive de pecar contra mim”. O rei se vê como um homem íntegro, e Deus não o desmente. Mas faz questão de dizer que parte desse resultado foi ação dele. Esse é o tipo de graça que antecede a decisão: Deus alcança as pessoas antes de elas o procurarem, segura a mão que ia fazer o mal e abre caminho para a resposta delas. O dom vem primeiro, e a resposta vem depois, que podemos aceitar ou resistir. Aqui, ele agiu em favor de um homem que nem sabia que estava sendo guardado.

A palavra “profeta” no versículo 7 também chama atenção. É a primeira vez que o termo hebraico nabi aparece na Bíblia. Costuma designar quem fala da parte de Deus ao povo, mas aqui descreve quem fala a Deus em favor dos outros: “orará por ti”. Abraão já tinha agido assim em Gênesis 18, quando intercedeu por Sodoma (Gênesis 18:22-23). O Salmo 105 usa o mesmo nome para os patriarcas: “Não toqueis nos meus ungidos, e não façais mal a meus profetas” (Salmos 105:15). Repare no que acontece. Deus chama de profeta o homem que acabou de mentir e deixa nas mãos dele a vida do rei. O lugar de Abraão diante de Deus não depende do desempenho de Abraão. Paulo viu isso quando escreveu que, se ele tivesse sido justificado pelas obras, “tem do que se orgulhar, mas não diante de Deus” (Romanos 4:2).

Aplicação. Podemos descansar numa verdade e nos guardar de um abuso dela. Descansamos porque Deus protege o que prometeu, mesmo quando o seu servo ameaça a promessa. Porém não podemos usar isso como licença, porque foi o erro de Abraão que criou o perigo. Quem ainda não conhece a Deus pode ter mais escrúpulo do que esperamos, e nossa parte é orar por essas pessoas, como Abraão foi chamado a orar.

Perguntas para discussão

  1. O que o sonho de Abimeleque diz sobre o cuidado de Deus com quem ainda não o conhece?
  2. Por que Abimeleque continuava em perigo, apesar de ter agido com integridade?
  3. O que significa a frase “eu te detive de pecar contra mim”? Você já foi detido assim?
  4. Deus chama de profeta um homem que acabou de falhar. O que isso diz sobre a base da nossa posição diante dele?

O rei pagão repreende o pai da fé (vv. 8-13)

Então Abimeleque se levantou de manhã, e chamou a todos os seus servos, e disse todas estas palavras aos ouvidos deles; e temeram os homens em grande maneira.

Depois chamou Abimeleque a Abraão e lhe disse: Que nos fizeste? e em que pequei eu contra ti, que atraíste sobre mim e sobre meu reino tão grande pecado? o que não devias fazer fizeste comigo.

E disse mais Abimeleque a Abraão: Que viste para que fizesses isto?

E Abraão respondeu: Porque disse para mim: Certamente não há temor de Deus neste lugar, e me matarão por causa de minha mulher.

E na verdade também é minha irmã, filha de meu pai, mas não filha de minha mãe, e tomei-a por mulher.

E foi que, quando Deus me fez sair sem rumo da casa de meu pai, eu lhe disse: Esta é a lealdade que tu me farás, que em todos os lugares onde chegarmos, digas de mim: É meu irmão.

(Gênesis 20:8-13, Bíblia Livre)

Observação. Abimeleque obedece sem demora. Levanta-se cedo, conta o sonho aos servos, e os homens ficam apavorados. Depois chama Abraão e faz três perguntas seguidas: o que fez, em que o ofendeu, o que viu para agir assim. A terceira é a que dói. Abraão responde em três camadas: o motivo (o medo e a suposição de que ali não havia temor de Deus), a defesa (era meia-verdade) e a desculpa (era um acordo antigo com Sara).

Interpretação. A suposição de Abraão estava errada. Quem mostra temor de Deus nesta história é o rei, com os servos. Os homens tremeram diante do aviso (v. 8), e Abimeleque obedeceu de madrugada. O temor de Deus aparece em muitos lugares fora de Israel: as parteiras do Egito “temeram a Deus” e preservaram os meninos hebreus (Êxodo 1:17), e o centurião Cornélio era “temente a Deus” e orava sempre (Atos 10:1-2). Pedro concluiu que Deus aceita, em toda nação, “aquele que o teme, e pratica a justiça” (Atos 10:35). Quem acha que sabe onde o temor de Deus mora costuma se enganar.

Quanto à meia-verdade, ela tinha uma base: Sara era filha do pai de Abraão, de outra mãe. Mais tarde a Lei proibiria esse casamento (Levítico 18:9), mas isso ainda não existia. O que faz da frase uma mentira é a intenção, e ela aparece no final do versículo 13: o acordo era dizer “meu irmão” em todos os lugares aonde chegassem. Ou seja, a farsa já tinha mais de vinte anos. Ela tinha virado hábito, e deixado de ser um deslize de medo. Jesus descreveu o oposto: “seja vosso falar: ‘sim’, ‘sim’, ‘não’, ‘não’” (Mateus 5:37).

A frase “quando Deus me fez sair sem rumo” chega perto de pôr a culpa no próprio chamado: foi Deus quem o mandou errar pelo mundo, e por isso ele precisou do acordo. A desculpa é velha. Quando falhamos, cobramos o outro ou a situação. O texto não registra nenhum pedido de perdão de Abraão. Ele explica, e só.

Aplicação. Desculpas do tipo “aqui ninguém teme a Deus” são as mais confortáveis. Em muito ambiente de trabalho, o cristão se vê tentado a dizer isso e a seguir com o jeitinho: o despachante que pede o cafezinho para destravar o processo, a nota fiscal “esquentada”, a comissão por fora, o relatório com um número arredondado. E vem o argumento universal: “todo mundo faz”. Será mesmo que não havia saída? Paulo garante que Deus “não vos deixará tentar mais do que o que podeis, antes com a tentação também dará a saída” (1 Coríntios 10:13). O chamado cristão segue outro rumo: “E não vos conformeis com a presente era; mas transformai-vos pela renovação da vossa mentalidade” (Romanos 12:2). Quando a desculpa aparecer, vale escolher o caminho de Provérbios 28:13: “Quem encobre suas transgressões nunca prosperará, mas aquele que as confessa e as abandona alcançará misericórdia.”

Fica também um aviso para pais e líderes. Isaque, anos depois, repetiu a mentira do pai em Gerar, e outro Abimeleque o flagrou (Gênesis 26:7-9). O que fazemos escondido diante dos filhos acaba sendo ensinado a eles.

Perguntas para discussão

  1. Quais são as três respostas de Abraão a Abimeleque? Qual delas se parece mais com as desculpas que damos?
  2. O que a reação de Abimeleque e dos servos mostra sobre a suposição de Abraão de que ali não havia temor de Deus?
  3. Que “todo mundo faz” você ouve ou diz no seu trabalho ou na sua família?
  4. O que você deixa os mais novos aprenderem com o que faz sem ninguém ver?

O pagão generoso devolve Sara e restaura a honra dela (vv. 14-16)

Então Abimeleque tomou ovelhas e vacas, e servos e servas, e deu-o a Abraão, e devolveu-lhe a Sara sua mulher.

E disse Abimeleque: Eis que minha terra está diante de ti, habita onde bem te parecer.

E a Sara disse: Eis que dei mil moedas de prata a teu irmão; olha que ele te é por véu de olhos para todos os que estão contigo, e para com todos: assim foi repreendida.

(Gênesis 20:14-16, Bíblia Livre)

Observação. Depois da bronca, vem o presente. Abimeleque entrega animais e servos a Abraão, devolve Sara e oferece a terra inteira para ele escolher onde morar. Em seguida fala com Sara, a única vez em que alguém se dirige a ela no capítulo, e menciona mil moedas de prata, a que chama “véu de olhos”. O versículo 16 termina dizendo que ela “foi repreendida”.

Interpretação. Abimeleque não devia nada. Estava inocente, segundo o próprio Deus. Mesmo assim, paga, e paga muito. Quando Abraão comprou a caverna para sepultar Sara, o preço do campo foi de quatrocentos siclos de prata (Gênesis 23:15-16), e mil moedas é muito mais do que isso. O gesto lembra menos o de quem compra a paz de um poderoso e mais o de quem reconheceu o Deus de Abraão e agradece por ter sido impedido de pecar. Compare com Gênesis 12:20, em que o faraó mandou expulsar Abraão do Egito. Em Gerar, o pagão abre a terra.

“Véu de olhos” é uma expressão hebraica para algo que cobre a vista de todos, para que ninguém mais olhe com suspeita. A prata serve de prova pública de que Sara saiu limpa. Repare no tom de Abimeleque, que chama Abraão de “teu irmão”. Com delicadeza, devolve ao patriarca a própria mentira. A frase final é de tradução disputada: a raiz hebraica pode significar “repreender” ou “reconhecer como inocente”, e várias versões escolhem esta segunda (“ficou justificada”). O contexto, com a prata e o véu de olhos, favorece a leitura de que Sara foi inocentada diante de todos.

Aplicação. A nossa mentira quase nunca fica só em nós. Quem paga mais caro é quem está mais perto: o cônjuge, o filho, o sócio, o colega. A reputação é frágil, e uma suspeita, mesmo falsa, gruda. Quem feriu a honra de alguém tem o dever de ajudar a restaurá-la, e o pagão fez melhor isso do que o crente. Jesus ensina que, se nos lembramos de que um irmão tem algo contra nós, devemos deixar a oferta e ir primeiro nos reconciliar (Mateus 5:23-24). E Paulo diz: “A ninguém pagueis o mal com o mal; buscai fazer o que é certo diante de todos” (Romanos 12:17).

Perguntas para discussão

  1. Por que Abimeleque dá tanto, se estava inocente?
  2. O que a expressão “véu de olhos” sugere sobre a honra de Sara?
  3. Quem paga pelos seus erros sem ter culpa? O que você pode fazer para restaurar o nome dessa pessoa?

Abraão ora e Deus cura (vv. 17-18)

Então Abraão orou a Deus; e Deus sanou a Abimeleque e a sua mulher, e a suas servas, e voltaram a ter filhos.

Porque havia por completo fechado o SENHOR toda madre da casa de Abimeleque, por causa de Sara, mulher de Abraão.

(Gênesis 20:17-18, Bíblia Livre)

Observação. A voz de Abraão, calada diante da repreensão, volta numa oração. Deus cura o rei, a esposa e as servas, e os filhos voltam a nascer na casa. O versículo 18 explica, olhando para trás, o que estava acontecendo: o SENHOR tinha fechado todo ventre da casa de Abimeleque por causa de Sara.

Interpretação. O versículo 18 revela um sinal que o relato ainda não tinha contado: enquanto Sara esteve ali, nenhum ventre da casa gerou. O texto não diz quando o rei percebeu isso. A cena toda cabe em menos de um ano, porque Deus tinha marcado o nascimento de Isaque para “este tempo no ano seguinte” (Gênesis 17:21), e o capítulo 21 mostra que o filho nasceu no prazo (Gênesis 21:1-2). Sobre os ventres, o texto afirma o domínio de Deus sobre a vida: ele abre e fecha (veja 1 Samuel 1:5).

Há uma ironia silenciosa. A mulher de Abraão ainda espera um filho, e o patriarca reza para que a casa de outro homem volte a ter crianças. A intercessão dele não espera a própria resposta. Isso lembra Jó, que orou pelos amigos que o acusaram e, enquanto orava, viu o SENHOR trazer a sua restauração (Jó 42:8-10). Deus costuma usar a oração de quem acabou de ser ferido, ou de ferir, para cuidar dos outros. E há ali um sinal pequeno da promessa de Gênesis 12:3, de que as famílias da terra seriam abençoadas por meio de Abraão. Desta vez, o canal da bênção era um homem que acabara de errar, e a bênção chegou porque Deus é fiel, e Abraão em nada a tinha merecido.

Aplicação. Quando falhamos, a primeira tentação é nos esconder. Abraão ainda ora, e Deus ouve. Isso não apaga o erro, mas indica a direção: voltar ao Pai, confessar e interceder. Tiago diz: “Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sejais curados. A oração de um justo muito pode efetuar” (Tiago 5:16). E o convite continua de pé: “acheguemo-nos com confiança ao trono da graça, para que possamos receber misericórdia e encontrar graça para sermos socorridos no tempo adequado” (Hebreus 4:16). A quem pede perdão, a promessa é esta: “Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9).

Perguntas para discussão

  1. O que o versículo 18 acrescenta à história?
  2. Por que Deus usa a oração de Abraão, em vez de curar Abimeleque diretamente?
  3. Por quem você precisa orar hoje, mesmo depois de ter errado com essa pessoa?
  4. Como Hebreus 4:16 e 1 João 1:9 respondem ao medo de voltar a Deus depois de uma queda?

O degrau que continua no mesmo lugar

Gênesis 20 não esconde que Abraão tropeçou no degrau que já conhecia. O texto também deixa claro quem o segurou. O patriarca mentiu, se desculpou e ficou calado, e a promessa seguiu de pé porque Deus veio ao rei em sonho, deteve a mão que ia errar, chamou de profeta o homem que falhara, curou a casa de quem estava inocente e manteve o caminho para Isaque. Poucos versículos depois, Sara dá à luz o filho no tempo marcado.

Dali saem três exercícios. O primeiro é vigiar o ponto fraco, que cada um de nós conhece, antes de achar que está superado. O segundo é recusar as desculpas do tipo “aqui ninguém teme a Deus” e “todo mundo faz”. O terceiro é voltar depressa, confessar e orar quando cairmos. A graça que guardou a promessa de Abraão é a mesma que nos sustenta e nos pede que a levemos a sério, com “temor e tremor”, porque “é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir” (Filipenses 2:12-13).

Senhor, tu conheces o degrau em que sempre tropeçamos. Guarda os nossos passos, livra-nos das desculpas que inventamos e dá-nos coragem para confessar o erro antes que ele machuque quem está perto. Obrigado porque a tua promessa não depende da nossa firmeza, e sim da tua fidelidade. Ensina-nos a orar pelos que ferimos e pelos que nos ferem. Em nome de Jesus, amém.

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