
TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana8 de 23
Lição 8: Razão e experiência sob a autoridade da Palavra
Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os termos
- 1.1 Razão: faculdade e norma
- 1.2 Fé: conhecimento, assentimento e confiança
- 1.3 Experiência: religiosa e cristã
- 1.4 O testemunho do Espírito
- 2. A fundamentação bíblica
- 2.1 A mente criada, caída e renovada
- 2.2 Uma pregação que argumenta
- 2.3 Tomé e a bem-aventurança de quem crê
- 2.4 O Espírito que testemunha com o nosso espírito
- 2.5 Provar os espíritos
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 Da igreja antiga à Reforma
- 3.2 Armínio: as três certezas
- 3.3 Razão e sentimento como juízes
- 3.4 Wesley: razão, sentidos espirituais e testemunho do Espírito
- 3.5 Os sistemáticos wesleyanos e a igreja brasileira
- 4. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 4.1 A razão debaixo da graça
- 4.2 A experiência como fruto e confirmação
- 4.3 O testemunho do Espírito e a certeza da fé
- 4.4 Comparação com outras tradições
- 4.5 Dois contrastes: Finney e Cheung
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.
Objetivos da lição
- Distinguir a razão como faculdade dada por Deus do racionalismo, e a experiência cristã da experiência religiosa tomada como ponto de partida da teologia.
- Reconhecer na Escritura o lugar da mente renovada, da experiência provada e do testemunho do Espírito Santo.
- Acompanhar a relação entre fé, razão e experiência de Agostinho a Armínio, Wesley e os sistemáticos wesleyanos.
- Compreender a doutrina wesleyana do testemunho do Espírito e os critérios que a protegem do entusiasmo.
- Aplicar essas distinções à igreja brasileira, entre o anti-intelectualismo e o culto da experiência.
Introdução
Quem já fez brigadeiro em casa sabe que a receita diz pouco e exige muito. O caderno da avó manda levar ao fogo o leite condensado, a manteiga e o chocolate e mexer “até desgrudar do fundo da panela”. A instrução é clara, mas só a mão que já mexeu muitas panelas reconhece o ponto, e só o olho atento percebe a hora de tirar do fogo antes que o açúcar queime. Ninguém, porém, por mais experiência que tenha, troca o leite condensado por outra coisa e continua chamando aquilo de brigadeiro; quando o doce desanda, voltamos ao caderno, e não o contrário.
A lição 6 apresentou as quatro fontes da teologia wesleyana, e a lição 7 mostrou que a Escritura é, entre elas, a fonte primária e a única norma. Nesta lição, tratamos das duas fontes que mais facilmente se rebelam contra essa ordem: a razão, que na modernidade pretendeu julgar a revelação, e a experiência, que em muitos ambientes evangélicos pretende dispensá-la. Da versão anterior deste texto conservamos a fórmula central: a razão é uma serva excelente, mas uma péssima senhora, e o mesmo vale para a experiência. Acrescentamos o testemunho do Espírito Santo, que a tradição wesleyana pôs no centro da experiência cristã e que voltará, como doutrina da certeza da salvação, na lição 40.
O assunto toca de perto a igreja brasileira. De um lado, ouvimos que “a letra mata” (2 Coríntios 3:6), como se Paulo falasse do estudo, e não da antiga aliança, e vemos jovens que entram na universidade convencidos de que a fé não resiste a uma pergunta séria. De outro, convivemos com cultos em que a intensidade da emoção é tomada como prova da presença de Deus e com decisões de casamento e de negócio tomadas por “revelação”. Neste sentido, perguntar pelo lugar da razão e da experiência é perguntar quem segura o caderno de receitas.
1. Os termos
1.1 Razão: faculdade e norma
A palavra razão pode designar duas coisas. Na primeira acepção, é a faculdade com que Deus dotou o ser humano para entender, comparar, julgar e concluir, o logos e o nous dos gregos, a ratio dos latinos. Ninguém faz teologia sem ela, porque até a leitura de um versículo exige entender as palavras e relacionar uma frase com outra. Na segunda acepção, a razão é tomada como norma da verdade religiosa, e o que ela não pode demonstrar é recusado. Chamamos essa atitude de racionalismo, que na teologia não designa o uso da razão, mas a pretensão de que a razão autônoma decida o que Deus pode ter revelado.
Lutero deu nome à diferença ao distinguir o uso ministerial da razão, como serva que trabalha sobre a Palavra, do seu uso magisterial, como senhora que a julga (lição 7). Outra distinção separa o irracional do suprarracional. Flávyo Henrique Costa Santos chama o mistério cristão de “algo suprarracional que está para além da razão humana”, como a encarnação, a Trindade e a criação do nada, e observa que ele não contém contradição, não afirma ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário (Manual de teologia arminiana). A fé pode ultrapassar a razão sem contradizê-la.
1.2 Fé: conhecimento, assentimento e confiança
Os teólogos protestantes do século XVII descreviam a fé salvadora em três momentos: notitia, o conhecimento do que Deus revelou; assensus, o assentimento de que é verdadeiro; e fiducia, a confiança pessoal em Cristo. A fé envolve a mente sem se reduzir a ela. Hebreus a define como “a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem” (Hebreus 11:1). O termo traduzido por “prova”, elenchos, designava a demonstração que convence; o Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento adverte que, em Hebreus, ele não indica a simples ausência de dúvida nem uma evidência de ordem intelectual, mas a convicção firme acerca das realidades que Deus prometeu (verbete “culpa”). A fé tem certeza porque se apoia em algo fora de nós, a palavra daquele que prometeu.
1.3 Experiência: religiosa e cristã
Também experiência tem mais de um sentido. Há a experiência religiosa em geral, o sentimento do sagrado comum a muitas religiões, que a teologia liberal do século XIX tomou como ponto de partida. Há a experiência cristã, aquilo que a Palavra e o Espírito produzem no crente: a convicção do pecado, a paz do perdão, o amor a Deus e ao próximo. Quando Wesley falava de experimental religion (prefácio aos Sermões, 1746), não pensava num ensaio de laboratório, mas na religião experimentada, vivida no coração.
1.4 O testemunho do Espírito
A expressão testemunho do Espírito tem dois usos. No primeiro, o testimonium Spiritus Sancti internum dos reformadores, é a obra interior pela qual o Espírito nos convence de que a Escritura é palavra de Deus. No segundo, característico de Wesley, é o testemunho pelo qual o Espírito assegura ao crente que ele é filho de Deus (Romanos 8:16). O verbo de Paulo, symmartyreō, “testemunhar junto com”, vem da linguagem jurídica (Dicionário internacional, verbete “testemunha”). Nos dois usos, a certeza da fé não nasce da força dos nossos argumentos nem da intensidade dos nossos sentimentos, mas de uma obra do Espírito que acompanha a Palavra.
2. A fundamentação bíblica
2.1 A mente criada, caída e renovada
A Escritura não despreza a mente. O grande mandamento manda amar a Deus “com todo o teu entendimento” (Mateus 22:37), e o Senhor chama o seu povo: “Vinde, então, e façamos as contas” (Isaías 1:18). A mesma Escritura, porém, descreve a mente depois da queda: os gentios andam “na futilidade das suas mentes” e têm “o entendimento nas trevas” (Efésios 4:17-18). Paulo junta as duas verdades num texto que contém, em germe, toda esta lição:
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com a presente era; mas transformai-vos pela renovação da vossa mentalidade, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.
O culto é “racional” (logikē); a mente precisa ser renovada; e a mente renovada “experimenta” a vontade de Deus. O verbo dokimazō significa testar, provar e aprovar (Dicionário internacional, s.v.). Razão e experiência aparecem lado a lado, mas ambas depois das “misericórdias de Deus” e debaixo de uma renovação que só a graça opera. A renovação é necessária porque “o ser humano natural não compreende as coisas que são do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não as pode entender, porque se compreendem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14). O texto não opõe o Espírito à inteligência, mas a inteligência natural à inteligência iluminada, e por isso Paulo ora para que “sejam iluminados os olhos do vosso coração” (Efésios 1:18).
2.2 Uma pregação que argumenta
Os apóstolos, ao mesmo tempo, argumentavam. Em Tessalônica, Paulo argumentava “pelas Escrituras” que o Cristo devia morrer e ressuscitar (Atos 17:2-3); diante de Festo, disse falar “palavras de verdade e de um são juízo” (Atos 26:25); e aos coríntios, entusiasmados com os dons, escreveu: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:15). A razão apostólica trabalha a partir das Escrituras, e a experiência carismática se submete ao entendimento.
2.3 Tomé e a bem-aventurança de quem crê
O episódio de Tomé é o comentário mais delicado do Novo Testamento sobre a experiência. Tomé recusou o testemunho dos outros discípulos e exigiu ver e tocar, e o Senhor lhe concedeu o que pedia:
Depois disse a Tomé: Põe teu dedo aqui, e vê minhas mãos; e chega tua mão, e toca-a em meu lado; e não sejas incrédulo, mas sim crente. E respondeu Tomé e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados aqueles que não virem, e crerem.
Cristo não desprezou a experiência de Tomé, e dela nasceu uma das confissões mais altas do evangelho. A bem-aventurança, porém, ficou para os que creriam pelo testemunho apostólico, e João acrescenta que estas coisas “foram escritas” para que creiamos (João 20:31). A experiência extraordinária foi dada uma vez e registrada para nós; a fé ordinária da igreja nasce da palavra anunciada, porque “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17).
2.4 O Espírito que testemunha com o nosso espírito
Há, contudo, uma experiência que o Novo Testamento promete a todo crente:
Pois não recebestes o espírito de escravidão, para voltardes ao medo; mas recebestes o Espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus.
Deus “enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho” (Gálatas 4:6), “o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5:5), e “quem crê no Filho de Deus tem testemunho em si” (1 João 5:10). A Lei pedia “duas testemunhas” para estabelecer um fato (Deuteronômio 19:15), e Paulo fala de dois testemunhos concordes: a voz do Pai que adota e a consciência renovada que reconhece em si os sinais dos filhos.
2.5 Provar os espíritos
A mesma Escritura manda provar a experiência: “não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são da parte de Deus” (1 João 4:1); “Examinai tudo, e mantende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:21). A razão da cautela está no coração, “mais enganoso que todas as coisas” (Jeremias 17:9). Para quem vive a experiência contrária, a da dúvida, há consolo: “se o nosso coração nos condena, maior é Deus que o nosso coração, e conhece tudo” (1 João 3:20).
3. Desenvolvimento histórico
3.1 Da igreja antiga à Reforma
Tertuliano perguntou que relação havia entre Atenas e Jerusalém (Prescrição contra os hereges 7), mas Agostinho encontrou o caminho que o Ocidente seguiria: “entende para que creias; crê para que entendas” (Sermão 43, 9). Anselmo deu à fórmula a forma clássica no Proslógio (1078), cujo primeiro título era Fides quaerens intellectum, “a fé que busca entender”. Tomás de Aquino distinguiu o que a razão natural alcança, como a existência de Deus, do que só a revelação dá a conhecer, como a Trindade (Suma teológica I, q. 32, a. 1), e ensinou que a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa (I, q. 1, a. 8, ad 2). Nesse modelo, lembra Alister McGrath, a fé vai além da razão e a filosofia é “serva da teologia” (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 6).
Lutero chamou a razão, no último sermão que pregou em Wittenberg (1546), de “a maior prostituta do diabo”, porque ela se põe como juíza das coisas de Deus; o mesmo Lutero dizia que “só a experiência faz o teólogo” (Conversas à mesa, n. 46), formado pela oração, pela meditação e pela provação. Calvino ensinou que a Escritura é autopistos, digna de fé por si mesma, e que a certeza da sua origem divina vem do testemunho secreto do Espírito, e não do juízo da igreja nem de provas racionais, embora estas confirmem a sua credibilidade (Institutas I, 7-8). Thorsen observa que Calvino falou desse testemunho sobretudo em relação à autoridade da Bíblia, e que Wesley o estenderia a outras dimensões da vida cristã (Calvin vs. Wesley, cap. 1).
3.2 Armínio: as três certezas
Armínio tratou do assunto numa das orações com que inaugurou o seu ensino em Leiden, A certeza da teologia sagrada (1603). A certeza, explica, é produzida na mente por três causas: pelos sentidos, e chama-se certeza da experiência; pelo raciocínio, e chama-se certeza do conhecimento; e pela revelação, e chama-se certeza da fé. O objeto da teologia, Deus e o seu Cristo, está acima dos sentidos, e a mente, “mesmo quando auxiliada pela razão”, não consegue conhecê-lo por si: diante da verdade divina, os olhos da nossa mente estão como os olhos das corujas diante da luz do sol. Por isso uma revelação era necessária, e a certeza que lhe corresponde é a da fé, que “depende da veracidade daquele que a profere”.
Armínio explica em seguida como essa certeza se forma. Para a visão natural, não basta a luz que ilumina o objeto; é preciso um olho capaz de ver. Assim também, além da “luz externa de argumentos e raciocínio”, é necessária “uma luz interna da mente e da alma”. O testemunho da igreja, por ser humano, produz apenas opinião; o Espírito Santo, que inspirou os escritores sagrados, “é o autor daquela luz” com que entendemos a Palavra “e é o Causador da certeza” com que a cremos. O Espírito, porém, não age à parte da Escritura: o seu instrumento é a própria Palavra, “viva, e eficaz” (Hebreus 4:12). A oração termina numa síntese trinitária: Deus, em Cristo, pela eficácia do Espírito, “convence, de forma clara, nossa mente da verdade” e “sela a certeza em nosso coração” (As obras de Armínio, vol. 1). Os sentidos e a razão estão presentes, mas a certeza da fé é dom de Deus.
3.3 Razão e sentimento como juízes
Um século depois, John Toland publicou Cristianismo sem mistério (1696), cujo título anuncia a tese do deísmo: o que a razão não compreende não pode ser objeto de fé. No limite, observa McGrath, a teologia se tornava redundante, porque a razão reinava sozinha (Teologia sistemática, cap. 6). No século XIX, Schleiermacher tentou o caminho inverso e fez do “sentimento de dependência absoluta” o ponto de partida da teologia; Feuerbach respondeu que, nesse caso, Deus não passa do sentimento humano projetado no céu, crítica que McGrath considera “devastadora” para o cristianismo construído a partir do ser humano. Uma fé fundada apenas na razão perde o mistério, e uma fé fundada apenas na experiência fica sem defesa diante de quem diz que a experiência é só nossa.
3.4 Wesley: razão, sentidos espirituais e testemunho do Espírito
Wesley pregou no ambiente do deísmo e não respondeu a ele abandonando a razão; vimos na lição 6 que, para ele, renunciar à razão é renunciar à religião. No sermão O caso da razão imparcialmente considerado (1781), mostrou que é pela razão “assistida pelo Espírito Santo” que entendemos o que a Escritura diz sobre Deus, a justificação, o novo nascimento e a santidade. “Faça à razão tudo que ela pode”, escreveu, mas reconheça que ela é “totalmente incapaz de dar fé, esperança ou amor”, coisas que devem ser recebidas “não como vossa própria aquisição, mas como dádiva de Deus” (Coletânea da teologia de João Wesley, “Revelação e razão”).
A originalidade de Wesley está na explicação de como a fé conhece. Randy Maddox mostra que ele aceitava a máxima empirista segundo a qual nada está no intelecto sem antes ter passado pelos sentidos, mas se afastava de Locke num ponto decisivo: os empiristas admitiam apenas um conhecimento indireto de Deus, por inferência ou por assentimento ao testemunho da Escritura, e Wesley afirmava que Deus dá ao ser humano sentidos espirituais, capazes de perceber as realidades espirituais como os sentidos do corpo percebem as físicas (Responsible Grace, cap. 1). No Sincero apelo aos homens sensatos e religiosos (1743), chamou a fé de “o olho da alma recém-nascida”. E escreveu a Conyers Middleton (1749) que a evidência interna do cristianismo é mais forte que a externa e tão simples que “um camponês, uma mulher, uma criança” a sentem, porque se resume na palavra do cego de nascença: “uma coisa sei, que havendo eu sido cego, agora vejo” (João 9:25).
Daí a doutrina do testemunho do Espírito, exposta nos sermões 10 e 11 (1746 e 1767). Wesley a definiu, pedindo correção a quem soubesse dizer melhor, como “uma impressão interna na alma, pela qual o Espírito de Deus testemunha com o meu espírito de que sou filho de Deus”, de que Cristo me amou e se entregou por mim e de que os meus pecados estão apagados. Vinte anos depois, manteve a definição e esclareceu que o Espírito não testemunha necessariamente por voz externa ou interior, mas por uma operação imediata que acalma a alma como Cristo acalmou o mar (Coletânea, “O Espírito Santo”). Ao lado desse testemunho direto, afirmou o testemunho do nosso próprio espírito (sermão 12), a consciência de que o Espírito produziu em nós os frutos que a Palavra atribui aos filhos de Deus. E fixou a ordem: o testemunho de Deus vem primeiro, porque não podemos ser santos sem amar a Deus, e não podemos amá-lo enquanto não soubermos que ele nos ama (sermão 10, I, 8). Os frutos distinguem o testemunho verdadeiro da presunção.
Maddox registra duas mudanças no Wesley maduro. Em 1767, ao citar o sermão de 1746, Wesley trocou “o que os filhos de Deus experimentam” por “o que o Espírito de Deus opera em seus filhos”, deslocando a atenção da experiência humana para a sua fonte divina; e admitiu que o crente verdadeiro pode atravessar tempos de escuridão e de dúvida (Responsible Grace, cap. 5). No sermão A natureza do entusiasmo (1750), Wesley ensinou ainda que o cristão sóbrio não conhece a vontade de Deus esperando sonhos ou “impulsos inesperados na mente”, mas consultando a Escritura, e que decisões como casar ou começar um negócio se tomam perguntando qual caminho serve melhor à santidade e ao bem, o que se decide “parte pela razão e parte pela experiência” (Coletânea, “Experiência religiosa”). A própria noite de Aldersgate (narrada no site) foi relida por ele à luz da Escritura.
3.5 Os sistemáticos wesleyanos e a igreja brasileira
Richard Watson abriu os Theological Institutes (1823-1829) demonstrando, contra os deístas, que a razão entregue a si mesma não deu à humanidade um conhecimento seguro de Deus. William Burt Pope, no Compendium of Christian Theology (1880), reconheceu à razão o direito de examinar as credenciais da revelação, mas não o de legislar sobre o seu conteúdo. H. Orton Wiley tratou a experiência cristã como fonte secundária da teologia e sistematizou a distinção entre o testemunho direto e o indireto (Christian Theology, 1940-1943).
No Brasil, a questão ganhou rosto próprio com o pentecostalismo, que devolveu a muitas igrejas a expectativa de uma experiência viva do Espírito, e com o neopentecostalismo, que muitas vezes deslocou essa expectativa para a prosperidade e a “palavra profética” sobre a vida pessoal. Os melhores teólogos pentecostais insistem na ordem bíblica: Walter Brunelli escreve que a experiência “não precede ao texto bíblico” e que “vivemos a experiência porque a conhecemos primeiro nas Escrituras” (Teologia para pentecostais, vol. 2).
4. A posição arminiana clássica e wesleyana
4.1 A razão debaixo da graça
Depois da queda, a mente humana não deixou de ser mente, mas, em relação a Deus, ficou em trevas (Efésios 4:18). Por isso, a razão jamais dá, por conta própria, o primeiro passo em direção a Deus; a que serve à teologia é a razão alcançada pela graça preveniente, a luz “que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9), e renovada pelo Espírito na regeneração. Para Wesley, até o conhecimento de Deus que alcança os que nunca ouviram falar de Cristo é obra dessa graça, e não resto de uma capacidade natural (Maddox, Responsible Grace, cap. 1), como veremos na lição 36.
Disso decorrem três consequências. Em primeiro lugar, a razão não produz a fé: a fé é dom, e a razão iluminada a recebe, organiza, defende e aplica. Em segundo lugar, a razão não é inimiga da fé, porque o Deus que fala criou a mente que ouve, e as verdades reveladas são suprarracionais, e não absurdas. Em terceiro lugar, a razão tem um papel crítico legítimo: compara textos, percebe incoerências nas nossas formulações, distingue o que a Escritura diz do que lhe atribuímos e examina as credenciais de quem pretende falar em nome de Deus. A coruja de Armínio enxerga quando a luz é adequada aos seus olhos.
4.2 A experiência como fruto e confirmação
A experiência cristã tem lugar legítimo na teologia, e a tradição wesleyana não se envergonha dela: o amor de Deus derramado no coração (Romanos 5:5) é uma realidade que se percebe. Essa experiência é recebida, e não produzida, e por isso confirma a Escritura sem lhe acrescentar conteúdo. Wesley a submetia a três critérios. O primeiro é a Escritura, porque nenhuma experiência autoriza o que a Palavra não ensina. O segundo são os frutos: amor, alegria, paz, humildade e obediência acompanham o testemunho verdadeiro, e o orgulho e a desobediência denunciam o falso. O terceiro é a comunidade: nas classes metodistas, os crentes contavam o que Deus fazia na vida de cada um e se corrigiam mutuamente.
4.3 O testemunho do Espírito e a certeza da fé
A doutrina do testemunho do Espírito afirma que o crente pode saber, hoje, que é filho de Deus, e que essa certeza não vem do exame ansioso das próprias virtudes, mas do Espírito que derrama no coração o amor do Pai. Nela se vê outra vez que a salvação é obra de Deus do começo ao fim: o amor de Deus nos alcança primeiro, o Espírito o testemunha primeiro, e só então respondemos com amor e obediência. Sem esse testemunho, temia Wesley, a vida cristã se converteria em esforço moral (Maddox, Responsible Grace, cap. 5).
Duas qualificações protegem a doutrina. A primeira é que o testemunho do Espírito dá certeza da relação presente com Deus, e não garantia incondicional da perseverança final; Wesley distinguia as duas coisas, em coerência com a perseverança condicional que a lição 42 exporá. A segunda é que a certeza repousa em Deus, e não na intensidade do sentimento: o crente pode passar por noites escuras sem deixar de ser filho, porque Deus é maior que o nosso coração. A doutrina não autoriza a presunção de quem confunde emoção com testemunho, nem o desespero de quem mede a sua filiação pelo que sente num dia ruim.
4.4 Comparação com outras tradições
A Igreja Católica Romana ensina, desde o Vaticano I (Dei Filius, 1870), que a razão natural pode conhecer a Deus com certeza a partir das coisas criadas e que a fé e a razão nunca estão em verdadeiro desacordo, e a Fides et ratio (1998) as chama de duas asas. O wesleyano recebe com respeito essa defesa da razão e diverge na confiança nas capacidades naturais da mente caída e no papel do magistério. A tradição reformada afirma, com a Confissão de Westminster, que a nossa plena persuasão da autoridade da Escritura vem da obra interior do Espírito (I, 5) e inclui o testemunho do Espírito de adoção entre os fundamentos da certeza da salvação (XVIII, 2); a diferença com Wesley está na ligação dessa certeza com a eleição e a perseverança incondicionais. A tradição pentecostal, nos seus melhores teólogos, põe a experiência depois da Escritura. A teologia liberal, desde Schleiermacher, fez da experiência religiosa a norma, posição que este curso não compartilha.
4.5 Dois contrastes: Finney e Cheung
Charles Finney ensinava que certas verdades reveladas, como a divindade de Cristo, quando postas pelo Espírito diante da mente, são “intuídas diretamente pela razão pura”, pela mesma lei com que ela conhece as verdades primeiras da razão (Teologia sistemática). A obra do Espírito se reduz a apresentar a verdade a uma razão que, por si, a reconhece, e o pecado que cega a mente perde quase todo o peso, em coerência com a antropologia semipelagiana que este curso rejeita. Vincent Cheung vai ao polo oposto: mesmo que fosse possível conhecer a Deus pela experiência, o que se ganharia seria “uma informação intelectual redutível a proposições” (Teologia sistemática). A experiência se dissolve em informação, e o testemunho do Espírito, que ele reserva aos eleitos, perde o lugar de certeza do amor de Deus. A tradição wesleyana não faz da razão juíza da fé nem reduz a fé a proposições, porque o Espírito que inspirou a Escritura também derrama no coração o amor que ela anuncia.
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, somos chamados a amar a Deus com o entendimento. A igreja brasileira não precisa escolher entre o fervor e o estudo (o site tratou disso em “Fé, razão e experiência: como ler a Bíblia sem extremos”), e “a letra mata” não serve de argumento contra a Escola Bíblica nem contra a pergunta honesta do universitário. Pedro nos manda estar “sempre preparados para responder com mansidão e respeito a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15), e não se responde com mansidão sem ter pensado antes.
Em segundo lugar, somos chamados a provar a experiência sem desprezá-la. Quando alguém diz que Deus lhe revelou com quem casar ou em que negócio investir, a igreja não precisa responder com zombaria nem com credulidade. Pode perguntar, com Wesley, o que a Escritura diz, o que a razão mostra e o que a experiência ensina, e se aquela decisão serve à santidade e ao bem do próximo.
Em terceiro lugar, a doutrina do testemunho do Espírito é um consolo pastoral. Muitos crentes vivem em dúvida porque esperam uma emoção que não chega, e outros confundem com o testemunho de Deus uma emoção que nada tem de santa. Wesley nos ensina a buscar a certeza no amor de Deus revelado em Cristo, a reconhecê-la nos frutos do Espírito e a esperar com paciência nos dias escuros. Confesso que é fácil, para quem estuda teologia, guardar a certeza da fé no cérebro e esquecer que ela foi prometida ao coração, e isso vale para todos nós.
Em quarto lugar, a experiência cristã se vive em comunidade, e as células e os pequenos grupos podem ser lugares em que ela é ouvida, examinada pela Palavra e corrigida com amor. Sozinho, o coração se engana; na comunhão dos irmãos e debaixo da Escritura, aprende a distinguir a voz do Pastor.
Voltemos ao caderno da avó. A mão experiente não é inimiga da receita, porque é por ela que o brigadeiro chega ao ponto, e a avó que escreveu “até desgrudar do fundo da panela” sabia que só quem mexe a panela entende a frase. A razão lê a receita, a experiência reconhece o ponto, e a receita continua sendo a medida de ambas. Na teologia há, porém, uma diferença que a imagem não alcança: quem escreveu a receita não ficou longe da cozinha. O Espírito que inspirou a Escritura está ao nosso lado enquanto a lemos, abre os olhos da mente e derrama no coração o amor de que ela fala. Que o Senhor nos conceda uma razão humilde, que se deixe ensinar pela sua Palavra, e um coração aquecido, que se deixe provar por ela, e que o seu Espírito testemunhe ao nosso espírito que somos filhos de Deus.
Síntese
- A razão é faculdade dada por Deus e tem na teologia uso ministerial, e nunca magisterial; as verdades da fé são suprarracionais, e não irracionais, e a razão não produz a fé, mas a recebe, organiza, defende e aplica.
- A experiência cristã é fruto da Palavra e do Espírito e confirma a Escritura sem lhe acrescentar conteúdo; ela é provada pela Escritura, pelos frutos e pela comunidade.
- Armínio ensinou que a certeza da fé, distinta da certeza dos sentidos e da do raciocínio, é produzida pelo Espírito Santo por meio da Palavra; Wesley explicou o conhecimento da fé pelos sentidos espirituais e afirmou o testemunho do Espírito, direto e indireto, como obra de Deus no crente.
- O testemunho do Espírito dá ao crente certeza real da sua filiação presente, fundada no amor de Deus, e não na intensidade do sentimento, sem se converter em garantia incondicional da perseverança final.
Questões para revisão
- Que diferença há entre o uso da razão na teologia e o racionalismo, e entre o mistério suprarracional e a contradição?
- Como Romanos 12:1-2 e 1 Coríntios 2:14 relacionam a mente humana, a graça e a experiência da vontade de Deus?
- Que lição o episódio de Tomé (João 20:24-31) oferece sobre o lugar da experiência na fé da igreja?
- Quais são as três certezas descritas por Armínio em A certeza da teologia sagrada, e qual é o papel do Espírito Santo na certeza da fé?
- O que Wesley entendia por sentidos espirituais, e como distinguiu o testemunho do Espírito do testemunho do nosso próprio espírito?
- Que critérios protegem a doutrina do testemunho do Espírito contra o entusiasmo e contra o desespero?
- Em que Finney e Cheung se afastam, cada um a seu modo, da posição wesleyana sobre a razão e a experiência?
Bibliografia
- AGOSTINHO. Sermão 43 (c. 400).
- AQUINO, Tomás de. Suma teológica. Vol. 1. São Paulo: Loyola, 2001.
- ARMÍNIO, Jacó. A certeza da teologia sagrada (1603). In: As obras de Armínio. Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- BROWN, Colin; COENEN, Lothar (orgs.). Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000.
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. 4 vols. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
- BURTNER, Robert W.; CHILES, Robert E. (orgs.). Coletânea da teologia de João Wesley. 2. ed. Rio de Janeiro: Igreja Metodista, 1995.
- CALVINO, João. Institutas da religião cristã (1559).
- CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática. Monergismo.com, 2003. (Apenas como contraste.)
- Confissão de fé de Westminster (1647).
- FINNEY, Charles G. Teologia sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. (Apenas como contraste.)
- MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
- McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
- POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres, 1880.
- SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
- THORSEN, Don. Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice. Nashville: Abingdon Press, 2013.
- WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
- WESLEY, John. Sermões 10, 11 e 12; A natureza do entusiasmo (1750); O caso da razão imparcialmente considerado (1781); Um sincero apelo aos homens sensatos e religiosos (1743); carta a Conyers Middleton (1749).
- WILEY, H. Orton. Christian Theology. 3 vols. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1940-1943.
Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 7: A Escritura como fonte primária da teologia. Próxima: Lição 9: Como nascem as doutrinas.
- Teologia
- Sistemática
- Autoridade da Bíblia